Wayward

59 Capítulo 58


Ruby estava preparando os saquinhos de bruxa na cozinha de Bobby quando eu me aproximei.

— Posso ajudar?

— Não. Suas mãos santas poderiam contaminar o feitiço.

— Pra que servem, afinal?

— As que eu tô fazendo são para proteção, para ocultar vocês enquanto estivermos chegando, mas a sua, minha cara, vai me dar mais trabalho – apontou para um saquinho diferente. – Porque você é um chamariz pros demônios. Dá pra sentir a sua presença há quilômetros, e sendo bem sincera, não sei se será efetivo – me encarou. – Afinal de contas, é a Lilith – deu de ombros.

Eu assenti, refletindo sobre o assunto. Estávamos indo atrás de um demônio mais velho que as linhagens do mundo com nada além de uma faca que talvez nem seja capaz de arranhá-la. E eu.

Eu nem sabia se conseguiria ferir aquela coisa.

— Obrigada – disse à Ruby.

Ela pareceu chocada em ouvir aquilo vindo de mim, me olhando com as sobrancelhas arqueadas.

— Caramba, uma santa me agradeceu por algo. Uau. Quem diria que eu, uma humilde demônio, seria agraciada com tamanha honraria?

— Não abusa – suspirei, lhe dando as costas.

Bobby, Sam e Dean estavam ocupados enchendo cartuchos com sal e eu logo fui ajudá-los para que terminássemos mais rápido, afinal de contas, seriam onze horas de viagem até New Harmony, Indiana, localização que eu só consegui obter de Ruby sob ameaça de queimá-la até a morte.

Assim que ela terminou de preparar os saquinhos de bruxa, fomos para o carro, e Bobby para o dele. Ruby disse que iria na frente para não levantar suspeitas e nos avisar caso alguma coisa fugisse dos planos.

E obviamente, aquela foi a viagem mais tensa que já tivemos.

— Eu tava aqui pensando no que a Ruby falou... – Sam pigarreou, chamando a nossa atenção. – E se realmente essa for a nossa única chance?

— Sam, não. Não vamos cometer os mesmos erros, tá legal? – Dean o censurou.

— O que quer dizer com isso?

— Não tá vendo um padrão? Primeiro o trato do papai, depois o meu, agora isso? Ela querer que você use a sua paranormalidade? Além de isso não me parecer algo bom por ser uma ideia, literalmente, do capeta, ela só contou isso agora. Não te parece nem um pouco estranho?

— Se ela realmente quisesse ajudar, teria dito algo antes – adicionei, no que Dean concordou. – Ela parece ter boas ideias, Sam, mas o comportamento dela não condiz com alguém que poderíamos chamar de aliado, sabe?

— Então não vamos confiar nela?

— Não podemos, não sabemos o que ela realmente está fazendo. Até ondei sei, ela pode muito bem estar levando a gente direto pra uma armadilha, cara.

— Ela já salvou minha vida uma vez – Sam insistia. – Se ela realmente trabalhasse pra Lilith, por que ela me salvaria?

— Não sei, talvez naquela época ela não estivesse trabalhando pra Lilith. Talvez tenha sido forçada a isso, não sei, mas ela ainda é um demônio, e no fim do dia, nós três sabemos que nada que os demônios fizeram com a gente até hoje foi coisa boa.

— Também acha isso, Bella?

— É, acho. E acho que aquele negócio de ‘‘já fui humana’’ que ela mandou pra você a sós é papo furado. Tem um monte de humanos por aí que não prestam. O fato de ela ter sido uma antes de ser um demônio não muda absolutamente nada.

— A gente pode, só por um minuto, parar de falar daquela demônio? – Dean perguntou. – Sério, já encheu o saco isso. Não quero passar minhas últimas horas de vida falando duma coisa feia que eu nem gosto.

— Tá bem – Sam cedeu. – E o que você quer, então?

Dean ligou o som do Impala, no que Sam e eu arqueamos as sobrancelhas.

— Bon Jovi? – perguntamos juntos.

— Bon Jovi às vezes manda bem – Dean o defendeu.

E logo em seguida começou a cantarolar o refrão de ‘‘Wanted Dead or Alive’’, e nós três nos entregamos à música.

Cantamos juntos como se nada de mais estivesse acontecendo. Como fazíamos antes de tudo começar a dar errado.

— Caramba, amor! – Dean me encarou pelo retrovisor.

— Que foi? – perguntei assustada.

— Eu não tinha reparado antes, mas você é tão... Cheia de luz! – ele abriu um sorriso. – Sério, tô até vendo a sua auréola atrás da sua cabeça, tipo naquelas imagens de santo de pinturas antigas, sabe?

— Eu tenho auréola? – indaguei surpresa, tateando minha cabeça e não sentindo nada diferente, nem vendo.

— Você não sabia?

— Não, eu não me vejo diferente de antes.

— Então sua visão diferenciada só se aplica aos outros? – Sam perguntou. – Poxa, que triste.

— Triste mesmo, porque, meu Deus, Bella, você é bella mesmo, mais do que meros olhos humanos podem ver!

— Ah, cara! – Sam começou a rir. – Eu tenho meus momentos piegas, mas você ganhou de mim de disparada com essa!

— Só tá achando graça porque não tá vendo a mesma coisa que eu, Sammy – Dean riu enquanto continuava me olhando vez ou outra pelo retrovisor. – Mas agora eu entendi porque a chifruda disse que você chama a atenção. É tipo, como se seu corpo estivesse com glitter e você estivesse no sol, saca?

— Meu Deus, que horror – resmunguei.

Logo nós percebemos que tínhamos companhia. Luzes de um carro de polícia chamaram a nossa atenção e eu logo senti o cheiro ficar mais forte conforme se aproximava de nós.

— Demônios – eu disse.

— Quantos? – Sam se virou.

— Três.

— É, acho que o elemento surpresa já era – Dean suspirou, desacelerando o carro. – Amor, tá pronta? – perguntou enquanto pegava sua espingarda e baixava o vidro.

— Sempre – disse enquanto pegava a minha, abaixando meu vidro, assim como Sam.

Quando o que presumi ser um demônio disfarçado de policial se aproximou do carro, pedindo para verificar os documentos de motorista, Sam atirou contra ele, no que eu saí em seguida, dando mais um tiro para atordoá-lo antes de tocar sua cabeça e o matar. Dean e Sam saíram do carro em seguida, olhando ao redor.

— Não eram três?

Um me acertou com tudo, me jogando contra a lateral do carro, tentando me esganar. Estava com luvas. Esperto, mas não o suficiente para cobrir a cabeça com uma balaclava e dificultar o meu trabalho. Só precisei encostar uma mão para matar o segundo. Quando me voltei para os meninos, percebi o terceiro se aproximando de Dean. Eu e Sam falamos para ele se abaixar e atiramos no mesmo momento antes de eu me aproximar e matar mais aquele.

Chequei os sinais vitais dos corpos dos possuídos, mas, para a minha surpresa, estavam todos mortos. Colocamos todos dentro do carro de polícia e escondemos ele em baixo de uma árvore, em uma parte mais baixa do matagal.

— Ainda falta muito pra chegarmos em New Harmony? – olhei para Bobby.

— Pelo menos uma hora – ele respondeu. – Vamos logo. Temos pouco tempo.

É, definitivamente tínhamos pouco tempo.