Wayward
31 Capítulo 30
Notas iniciais
— Olha, eu sei que você tá com raiva, mas...
— Com raiva?! Raiva não é nem perto do que eu tô sentindo, Dean!
Eu queria intervir, mas não tinha certeza se era uma boa ideia, já que eu entendia muito bem a reação dele. Estávamos a caminho da casa do Bobby, eu estava dirigindo, depois de muita insistência para que Dean ao menos tirasse um cochilo no banco de trás, mas meu plano foi por água abaixo quando os dois começaram a discutir.
— Se serve de consolo, eu ia no lugar dele, mas o Jasper me fez dormir e ele se aproveitou disso – confessei.
— Você também?! – Sam me encarou indignado. – Qual é o lance de vocês em se sacrificarem por mim?!
— Eu não poderia deixar ele sem você – o fitei por um momento. – E eu não ia. Mas agora a coisa tá feita – deu de ombros. – E já que não pude impedir, vou ter que remediar. Temos um ano pra descobrir uma forma de impedir ele de ir pro inferno.
— Não, não vão, não – Dean resmungou.
— É? E por que não? – Sam se virou pra ele.
— Porque aquela diaba foi bem clara: se tentarmos passar a perna dela, se tentarmos desfazer o trato, você cai morto, entendeu?!
Freei o Impala no mesmo momento, me virando pra ele.
— Como é que é?
Dean, deitado no banco de trás, cobriu o rosto, respirando fundo antes de nos olhar de volta.
— Não tem como desfazer o trato sem que isso resulte no Sam morrendo! Vocês dois cabeças ocas entenderam agora?! Não tem o que fazer!
— Se tivesse me deixado fazer, não teríamos que encontrar um meio mirabolante pra tirar você disso – resmunguei para Dean.
— Se você tivesse feito, nós é que teríamos que descobrir um jeito de te tirar disso!
— Chega, vocês dois! – Sam nos interrompeu. – Eu tava morto, Dean! Era pra ter me deixado morto! E você, nada de bancar a suicida também! – ele brigou comigo. – A gente vai procurar um jeito até o último minuto, você querendo ou não! – disse ao irmão, e então se virou para frente.
Continuei a viagem depois daquela última discussão. Quando chegamos na casa do Bobby, logo passei um café fresco para todos nós, que não havíamos dormido desde que aquele caos todo começou. Bobby havia nos atualizado sobre sinais da presença de demônios que ele havia notado no país, o que nos deixou preocupados.
Então, a chegada de alguém inesperado.
Quando ouvimos uma aproximação na porta dos fundos, todos sacamos nossas armas, prontos para atirar em qualquer um que passasse.
Mas os três ficaram mais do que felizes quando uma mulher passou pela porta.
— Ellen! – Dean se aproximou dela, a abraçando.
A lendária Ellen Harvelle, de quem eu só ouvia falar e nunca tive a chance de conhecer. Os três pareciam tão aliviados em vê-la que eu apenas fiquei na minha, observando a comoção. Então, quando os ânimos se acalmaram um pouco, ela se virou para mim, confusa.
— Ah, Ellen, essa é a Bella, minha namorada – Dean me apresentou.
E eu mordi o lábio para evitar sorrir. Meses juntos e nós nunca nos referimos um ao outro como namorados, eu nunca nem cogitei usar um rótulo para nós porque nem sabia se ficaríamos juntos aquele tempo inteiro.
Me levantei para cumprimentá-la.
— Bella Swan.
— Ellen Harvelle – apertou minha mão firmemente.
— Então, como é que escapou? – Bobby perguntou.
— Era pra eu estar lá com todo mundo, mas ficamos sem pretzels, imagine só – ela suspirou. – Eu fiquei fora só por quinze minutos e quando voltei...
Bobby assentiu, pensativo, indo até a cozinha e de lá retornando com um copo pequeno de bebida, oferecendo à ela.
— Isso é realmente necessário? – perguntou descrente.
— É só um pouco de água benta – ele deu de ombros.
Ellen pegou o copinho e bebeu tudo num gole só.
— Uísque, agora, se não se importar.
Nos sentamos todos na biblioteca, ansiosos para ouvir o que ela tinha a dizer.
— Foi pura sorte – ela continuou. – Mas, enfim, quando Ash me ligou, ele estava em pânico. Ele me disse pra olhar no cofre e a ligação caiu. Quando voltei pra lá, vi o incêndio. Todos mortos.
— Eu sinto muito – disse Sam.
— Muita gente boa morreu lá dentro e eu sobrevivi. Sorte a minha – disse amarga.
— Ellen, você mencionou um cofre – disse Bobby.
— Cofre secreto, fica no porão.
— Os demônios o descobriram.
— Não – ela sorriu, e do bolso de sua jaqueta ela tirou um mapa, o colocando sobre a mesa para que todos víssemos.
— Wyoming? – Dean perguntou, olhando para os vários pontos marcados com um X. – Significa o que?
— Não sei – ela deu de ombros.
— Sabem o que significa, não é? – Bobby nos entreolhou.
Sam e eu logo começamos a procurar nos livros que Bobby nos indicou, assim como Dean e Ellen. Locais específicos que, a princípio, não entendíamos o que poderia significar. Mas, como Bobby é um gênio, ele descobriu o motivo antes de nós.
— Cada X marca uma igreja abandonada – disse Bobby, com um livro aberto em mãos. – Todas do século 19, e todas elas construídas por Samuel Colt.
— Samuel Colt? – Dean indagou. – O matador de demônios, o armeiro Samuel Colt?
— Sim, e tem mais – largou o livro e se voltou para o mapa. – Ele também construiu uma estrada de ferro, interligando as igrejas, e isto forma o seguinte desenho.
Com um pincel, ele começou a interligá-las, e ficamos pasmos quando vimos a estrela de cinco pontas no papel.
— Uma armadilha pro diabo. Uma imensa armadilha pro diabo – Sam começou a se animar, assim como eu.
— Nunca ouvi falar em coisa tão sólida – disse Ellen.
— Ninguém ouviu – disse Bobby.
— Em todos esses anos não houve falha? – Dean perguntou à Bobby. – Ainda funciona?
— Com certeza – Sam sorriu.
— Como sabe? – o irmão o encarou, assustado.
— As profecias que o Bobby achou. Os demônios estão circundando, não podem entrar.
— Pois é, eles estão tentando – disse Bobby.
— Por que? O que tem dentro? – Ellen o olhou.
— É isso que eu tenho procurado – disse Dean, olhando para o livro que tinha. – Não tem nada, exceto um velho cemitério de vaqueiros, bem aqui – apontou para o centro da estrela.
— E qual é a importância de um cemitério? – Sam indagou. – O que o Colt tentava proteger?
Dean e eu nos entreolhamos, pensando na mesma coisa, provavelmente.
— A não ser que... – ele começou o raciocínio.
— A não ser o que? – Bobby o encarou.
— E se ele não estivesse impedindo eles de entrar? – continuei. – E se só estivesse tentando impedir eles de sair?
— Que ideia reconfortante – Ellen fez uma careta.
— Bobby, eles conseguiriam entrar? – Sam perguntou.
— Essa é uma coisa tão sólida, precisaria praticamente de uma bomba pra entrar. Um demônio não poderia cruzar de jeito nenhum.
— Não, mas sei quem poderia – o semblante dele ficou mais sério.
O cara que o matou, é claro.
Precisávamos nos preparar para uma guerra, de fato, e a única coisa que sabíamos é que não tínhamos uma noção real do tamanho do perigo.
Quando Alice e Jasper chegaram, foi difícil explicar as coisas pra Ellen. Ela era uma caçadora, como nós, e tinha motivos mais que suficientes pra não confiar em outras criaturas sobrenaturais, mas Jasper, com seu incrível poder de persuasão, conseguiu acalmá-la e fazer com que ela os aceitasse.
Tínhamos uma viagem de mais de sete horas da Dakota do Sul até Wyoming, e ficamos muito gratos com o fato de Alice e Jasper se oferecerem para dirigir, já que precisávamos urgentemente de ao menos um cochilo. Foi com muito custo que Dean deixou que ela dirigisse o Impala e eu pedi a ela que não abusasse do acelerador, já que ela era uma grande entusiasta de direção perigosa.
Quando chegamos no cemitério dos vaqueiros, a noite já tinha caído. Contávamos com os olhos e ouvidos de Alice e Jasper pra nos ajudar a localizar o tal Jake.
Estávamos escondidos por entre as lápides, só esperando que ele se aproximasse, e depois de algum tempo, Alice nos deu o sinal de que ele estava entrando. Esperamos que ele estivesse bem próximo para sairmos dos nossos esconderijos com as armas apontadas para ele, o circundando.
— E aí, Jake? – Sam o chamou quando ele estava perigosamente próximo da porta que presumíamos ser uma entrada para o Inferno.
Ele parecia ter visto um fantasma.
— Você está morto, eu te matei.
— É, só que eu tô de volta.
— Fique onde você está – Bobby disse à Jake.
— Ou o que? Vão me matar?
— Espere e verá – Sam ameaçou.
— Pode ter certeza de dessa vez você não vai escapar da minha Glock, gracinha – eu o ameacei, ficando mais próxima.
— Então é isso? – nos entreolhou. – Não são tão espertos quanto pensam.
Alice e Jasper avançaram sobre ele, o imobilizando de joelhos.
— Vocês não são humanos, né? – os observou. – Não, são frios demais para serem. Interessante que tenham se aliado a outras coisas... – e voltou os olhos para mim. – Mas não é o suficiente.
E antes que pudéssemos previr qualquer movimento seu, ele se levantou e lançou Alice e Jasper para longe com uma força assombrosa.
— Ei, moça? – me encarou. – Me faz um favor? Põe a arma na sua cabeça.
— Hã? – franzi o cenho.
Jake pestanejou, confuso. Seus olhos brilharam por um momento.
— Põe a arma na cabeça – insistiu.
— Vai pro inferno – e atirei em seu ombro, no que os demais se assustaram.
— Por que não funciona com você?! Você é um deles?!
— Um deles o que?!
— Sabe o que mais? Não tenho tempo pra vocês.
Jake, provavelmente com o poder da mente, nos lançou para longe. Acabei batendo a cabeça contra uma lápide, e logo sangue verteu.
Péssimo, péssimo sinal.
— Alice, tira o Jasper daqui!
— Por que?
— Agora, Alice!
Já tínhamos um problemão bem à nossa frente e eu não precisava de um vampiro ensandecido por sangue querendo me matar.
Mas fomos lentos demais. Jake havia inserido O Colt em uma espécie de tranca nas portas do inferno e elas logo iam se abrir.
Eu não podia deixar ele viver para causar mais danos. Alguém que estava ao lado dos demônios não podia ser confiável.
Me levantei com dificuldade e apontei para ele, acertando três tiros em suas costas, no que ele caiu de cara no chão, imóvel. Realmente era melhor que Alice e Jasper não estivessem ali com todo aquele sangue sendo derramado. Talvez se meter naquilo não fosse uma boa ideia para vampiros, para começo de conversa.
Dean, Bobby e Sam se aproximaram da porta para observar, Dean rapidamente pegando O Colt enquanto as engrenagens de abriam. Ellen veio ao meu socorro, me ajudando a caminhar.
— Se protejam! – disse Bobby.
Corremos para as lápides mais altas em busca de segurança e então as portas do inferno se abriram, libertando dezenas de demônios e almas condenadas.
Eu estava paralisada de medo onde estava, sentada no chão, minhas costas contra uma lápide. Eu podia ver o rosto de cada um daqueles demônios, suas feições distorcidas e medonhas, dignas dos piores pesadelos, e as almas condenadas, flageladas e perturbadas pelo tempo em que estiveram ali.
Pensar que Dean poderia ficar daquela forma embrulhou meu estômago.
Trovoadas ecoaram no céu enquanto os demônios forçavam sua saída para fora da armadilha, torcendo e quebrando as estradas de ferro.
— Precisamos fechar as portas! – disse Bobby.
— Alice! Jasper! Ajuda! – comecei a gritar, na esperança de que não estivessem longe demais para nos ouvir enquanto ajudava Ellen a empurrar uma das portas.
Dean checou o tambor do Colt, procurando por balas.
— Se o demônio deu isso ao Jake, pode ser que... É – ele sorriu.
Mas não pudemos comemorar tão cedo.
Quando me dei conta, aquele que deduzi ser o demônio dos olhos amarelos havia aparecido e tomado O Colt das mãos de Dean, o jogando longe, fazendo com que batesse a testa contra uma lápide.
Sam e eu corremos para ajudá-lo, mas fomos imobilizados pelo demônio, Sam contra uma árvore e eu e Dean contra lápides.
— Eu cuido de você depois, rapaz – ele disse à Sam. – Mas me orgulho de você, sabia que era capaz. Agora você... – se voltou para mim. – Você é uma surpresa. O que será que eu faço com você?
— Fica longe dela! – Dean gritou.
— Dean, Dean, não aprende mesmo, né? – ele se aproximou. – Não pode ver um rabo de saia que fica igual um cachorrinho. Mas essa é diferente, né? Essa é especial, é a garota dos seus sonhos – ele riu. – Não se preocupa com ela, não, nós vamos nos divertir muito depois que eu acabar com você.
O cheiro de enxofre no ar era nauseante, mas nada pior que olhar para aquela coisa feia dos olhos amarelos.
Meu Deus. Eu não fazia ideia do quanto demônios eram assustadores. Talvez porque nunca tivesse visto um até ali, mas aquele um era feio que doía.
— Então, Dean, eu quero te agradecer – ele se agachou. – Veja, demônios não ressuscitam pessoas, a não ser que façam um trato. Eu sei que a burocracia é de enlouquecer, mas graças à você, Sammy foi ressuscitado! – ele riu. – Eu não esperava isso, Dean, eu estou feliz. Gostava mais dele do que do Jake. Diz aí, já ouviu a expressão: ‘‘se um trato parece bom demais pra ser verdade, provavelmente é’’?
— Acha que foi um bom trato, é? – Dean debochou.
— Ah, o seu trato foi melhor que o do seu pai e você nunca imaginou o porquê. Olha... – se aproximou mais. – Logo você vai saber que não se deve mexer com os mortos. Enfim... – se levantou e começou a se afastar. – Eu sou muito grato. Eu sabia que tinha te mantido vivo por uma razão, pelo menos até agora. Eu não teria conseguido sem o seu desejo ridículo altamente destrutível de se sacrificar pela sua família.
E apontou O Colt para ele.
— Não! – comecei a me debater, tentando me levantar. – Sai de perto dele!
Alguém, que eu não sabia quem era, se aproximou do demônio pelas costas e o segurou. De alguma forma que eu não entendia, conseguiu puxar o demônio para fora daquele corpo e o segurar, dando tempo à Dean de pegar O Colt da mão daquele corpo e mantê-lo preso por tempo o suficiente para que Dean estivesse pronto para atirar.
O demônio eventualmente se soltou dos braços daquele homem, retornando ao corpo do hospedeiro, e Dean puxou o gatilho, atirando em cheio no peito dele. Isso nos libertou de sua telecinese, e eu pude me levantar, assim como Sam caiu da árvore.
Bobby e Ellen por fim conseguiram fechar as portas do Inferno, e uma estranha quietude surgiu.
Dean se levantou, olhando para aquele homem com espanto. Sam se aproximou devagar, descrente, com lágrimas nos olhos.
Quando Bobby e Ellen chegaram de mansinho atrás de mim, tive que perguntar.
— Quem é aquele?
— É o John – disse Ellen.
Meu Deus.
Ele pôs uma mão sobre o ombro de Dean e a outra sobre a de Sam, os entreolhando com um grande sorriso. Conforme me aproximava, percebi que ele estava com lágrimas nos olhos quando se virou para mim.
— Cuide deles pra mim, tá?
Engoli a seco, assentindo. Toda a raiva que eu sentia pelas coisas que havia feito com eles não tinha lugar ali. Imaginei, a julgar pelo seu olhar, que ele estava, de alguma forma, orgulhoso dos filhos. Isso ao menos me deixava mais tranquila.
Então ele recuou alguns passos, trocando olhares com Bobby e Ellen antes de nos olhar pela última vez e seu espírito se transformar em luz, se desfazendo nas nossas frentes.
Que os anjos, ou seja lá quem estiver ouvindo, guiem essa alma para um lugar de paz. Vocês sabem que ele precisa.
Timidamente segurei a mão de Dean, no que ele me olhou. Não precisávamos dizer mais nada. Nos abraçamos, aliviados porque enfim o maldito demônio estava morto. Sam nos abraçou e ficamos em silêncio por algum tempo, absorvendo aquilo tudo.
— Menos um problema – disse Bobby, chamando nossa atenção, no que nos viramos para observar o cadáver do pobre coitado que foi usado pelo demônio.
Que havia matado Mary, e que havia matado Jessica, que havia atormentado Sam e tantos outros.
Aquele capítulo se encerrava, mas haviam outros em andamento.
Milhares de demônios à solta no mundo e nós caçaríamos todos eles de um por um.
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