Wayward

25 Capítulo 24


Sede foi a coisa que me fez abrir os olhos.

Minha garganta estava seca como se eu tivesse andado por um deserto inteiro. Quando abri meus olhos, não reconheci o lugar onde estava.

Era um quarto branco bonito demais para ser mais um dos muitos quartos de motéis baratos de estrada. Duas mesinhas de cabeceira com abajures em cima, ambos ligados, uma grande TV em frente à cama, e duas poltronas à minha direita, atrás de uma larga janela coberta por uma grossa cortina azul-marinho que estava fechada. Eu estava deitada em uma cama de casal, com muitos travesseiros e um edredom cinza sobre mim.

Me sentei na cama, percebendo que estava de pijamas, um de algodão lilás que eu não reconhecia. Percebi que em meu antebraço direito havia uma longa e grossa cicatriz na vertical.

Victoria.

Me lembrei do que ela havia feito comigo. Os cortes em meu corpo, feitos com a intenção de me fazer sangrar o máximo possível.

Dean.

Afastei o edredom e me levantei nervosa, chamando por ele. Abri a porta à esquerda da cama, mas ela levava ao banheiro, então tentei a segunda mais à frente, saindo do quarto, me deparando com mais outras portas.

— Dean! Sam!

Uma sala de estar com um grande sofá cinza de três lugares, duas poltronas azuis, mesinha de centro e mais uma TV, uma mesa de jantar logo atrás, uma bancada com várias banquetas para se sentar na área da cozinha.

A porta que levava ao exterior se abriu, Dean e Sam entrando, para meu alívio. Corri até eles, os abraçando, me sentindo aliviada em saber que estavam vivos e bem.

— O que aconteceu? – os entreolhei. – Onde estamos?

— Na casa que Alice comprou – Dean afagou meu rosto por um momento.

— Mas como...? – me afastei um pouco. – Nós estávamos presos com Victoria – franzi o cenho. – Como escapamos?

Dean e Sam se entreolharam preocupados.

— Acho melhor se sentar – Sam sugeriu, no que Dean me conduziu ao sofá, se sentando ao meu lado, Sam se sentando na poltrona ao lado. Eu estava começando a ficar nervosa.

— Do que se lembra? – Dean me perguntou.

— De estar de ponta cabeça, sendo fatiada pela Victoria.

Sam estremeceu, baixando a cabeça.

— Lembro de ver ela... Quebrando seus dedos – engoli a seco, fitando Dean. – E... Senti como se estivesse... Queimando...

Mais um olhar silencioso trocado entre eles.

— O que tá rolando? O que aconteceu? Cadê a Victoria?

— Não lembra de mais nada? – Sam arqueou as sobrancelhas.

— Não, nada. Gente, vocês estão me assustando.

— Não leva a mal não, baixinha... – Dean pigarreou. – Mas a gente também tá tentando entender o que aconteceu.

— Por que?

— Depois que a ruiva começou a... Arrancar as minhas unhas... – ele engoliu a seco. – Um clarão surgiu do nada, eu fiquei vendo estrelinhas por um tempo, sabe? E havia um som muito, muito alto, que atordoou a Victoria por um tempo e me deixou ouvindo sinos por uns minutos.

— Meu Deus.

— E tem outra coisa que eu notei enquanto ouvia os sinos...

Ele desviou o olhar, baixando a cabeça. Parecia com receio de falar.

— Dean, o que?

— Eu não sei como, mas você estava falando com alguém, Bella – ele me encarou. – Você jurou alguma coisa duas vezes e consentiu pra coisa te possuir, eu acho.

— Eu fiz o que? – arregalei os olhos.

— Seja lá o que era que apareceu lá... Você deu seu consentimento pra coisa te possuir porque você se soltou das correntes.

— Que?

— Você quebrou as correntes e se soltou em dois segundos, colocou a mão na cabeça da Victoria e bum! Ela voou em vários pedaços pra todos os lados – gesticulou. – Foi um banho de sangue dos diabos.

Meu queixo caiu, e eu pisquei várias vezes, tentando processar o que havia ouvido.

— Cê tá dizendo... Cê tá dizendo que eu... Que eu explodi ela?

— Eu vi o estado que o lugar estava, Bella – Sam me fitou. – Tinha pedaços dela até no teto, as paredes foram redecoradas com vermelho.

— Cacete – xinguei baixinho, assustada.

— Você realmente não se lembra de nada?

— Não! – aquele fato agora me deixava furiosa. – Eu lembro de ela me cortar inteira e então começar a quebrar o Dean, e só! Eu fui... Eu fui... Possuída?

— É o que estamos começando a pensar, também – Sam suspirou, se recostando à poltrona. – É a teoria que faz sentido com base no que o Dean me disse, mas o que a gente não entende é o motivo de um demônio pedir permissão pra te possuir e nos ajudar, e mais que isso, não estamos entendendo o porquê de um demônio curar vocês.

— Eu tô inteiraço – Dean riu nervoso. – Você colocou a mão na cabeça e foi como se os meus dedos nunca nem tivessem sido quebrados, as minhas unhas tão bonitinhas no lugar, olha só – Dean me mostrou os dedos. – Foi sinistro!

Encarei a grande cicatriz em meu braço, imaginando que os outros lugares que Victoria havia cortado também estivessem cicatrizados.

Eu não sabia o que pensar. Me recostei ao sofá, tombando a cabeça para trás.

— Cê disse que tava queimando, Bella.

— É a única coisa que me lembro depois do que a Victoria fez. Só me lembro da sensação de estar queimando por dentro, mas não era dor... Não era... Ruim... Era como... – suspirei, e não conseguia encontrar as palavras certas para me expressar, o que me frustrava mais ainda. – Eu não sei explicar, mas é como se... É como se o sol estivesse entrando em mim.

Um momento de silêncio se abateu entre nós.

— Que tipo de demônio faz isso?

— Eu vou ligar pro Bobby, perguntar se ele sabe de algo – Sam se levantou. – Você tem que comer alguma coisa.

— É verdade – Dean se levantou em seguida. – Alice deixou comida pra caramba na casa. O que vai querer, benzinho?

— ‘‘Benzinho’’? – Sam indagou rindo.

— Não enche – Dean resmungou, indo à cozinha.

— Vocês são tão fofos – o mais novo nos deu as costas, indo para onde estavam sentados antes, no lado de fora.

Dean pôs as mãos na cintura, esperando.

— Água, por favor – pedi.

— Beleza – Dean foi para a cozinha.

— Dean?

— Hm?

— O que Alice disse quando nos ligou?

Ouvi ele suspirar enquanto enchia um copo pra mim.

— Ela ligou pra avisar que Victoria tinha nos visto e decidiu nos caçar.

— Por que ela não ligou antes?

— Ela me ligou de novo depois disso. Pelo que entendi... – ele voltou para o sofá, me entregando o copo com água, que eu comecei a beber desesperadamente. – Nós tivemos o azar fatal de nos cruzarmos por acaso.

Ele não parecia nem um pouco feliz com o conceito de acaso.

— Laurent estava te procurando no oeste e ela estava mais perto da gente, ainda estava te procurando. Alice disse que nós passamos um pelo outro e ela voltou pra nos pegar na mesma hora. Ela teve a visão, mas Victoria foi mais rápida que a ligação.

— E Laurent? O que aconteceu?

— Eles ainda estão procurando por ele.

Eu afundei no sofá, me sentindo estranha, cheia de incertezas e morta de medo. Ainda restava um, ainda havia motivos para desconfiar de sombras atrás da porta.

Possuída. O conceito me dava arrepios. Por que diabos eu daria permissão para alguma coisa não humana possuir o meu corpo?

Fosse o que fosse, nós devíamos nossas vidas à coisa.

— Quem? – apontei para o pijama que estava vestindo.

— Eu te vesti, Alice me ajudou a te dar um banho.

— Que? – senti meu rosto esquentar.

— Bella, cê tava coberta de sangue da cabeça aos pés, e com pedaços da Victoria nos seus cabelos – ele fez uma careta, desconfortável. – Tava de dar inveja na Carrie.

— Carrie? – franzi o cenho.

— Carrie, A Estranha.

— Ah.

— Alice encheu um closet com roupas pra todo mundo, disse que já que gostamos tanto de camisas de flanela e jeans, que deveríamos ter mais umas só por precaução – ele deu de ombros, sorrindo sem jeito. – Ela foi até o Bobby pegar as coisas que deixamos lá e o Bobby mandou uns livros por ela, disse que é pra você continuar estudando eles quando estiver bem. Tô começando a ficar mal acostumado com tantos presentinhos.

— É, eu também. Alice gosta de presentear – sorri. – É uma das formas dela de dizer ‘‘eu te amo’’ e ela ama muito facilmente. É uma das coisas mais bonitas nela.

— Nunca pensei que iria gostar tanto de uma sanguessuga – riu desconcertado. – Então... – se sentou ao meu lado novamente. – Como tá se sentindo?

— Exausta. Não fisicamente, mas a minha cabeça... – crispei os lábios.

— Bem, acho que a gente vai mesmo ter que dar um tempo com os casos – me olhou mais seriamente. – Alice foi bem clara em dizer pra não sairmos de casa a menos que seja necessário. Laurent ainda está por aí, e o meu belo rostinho ainda é procurado.

— É – concordei. Então algo me ocorreu. – E o meu garoto?

— Que garoto?

— O Chevelle, Dean, o que aconteceu com o meu carro?

— Ah, ele... Ele tá na oficina – sorriu amarelo. – A ruiva deu uma bela surra nele.

Respirei fundo, o mais fundo que podia, para não me estressar mais. James já havia me obrigado a ficar sem minha Chevy vermelha, e eu nem sabia o que seria do destino da coitada, agora Victoria havia batido meu Chevelle...

— Se ela não estivesse morta, eu a mataria de novo – disse entredentes.

— É, eu super te entendo – ele concordou. – Mas não esquenta não, o problema mesmo foi com a janela que ela quebrou. Ele não chegou a ficar muito amassado, não. Tiramos tudo do porta-malas, não precisa se preocupar.

— Obrigada. Eu vou... – pigarrei, me levantando. – Tomar um banho.

— Tá bem – ele se levantou em seguida. – Vou fazer alguma coisa pra gente comer.

— Vai cozinhar? – me surpreendi.

— É, ué – deu de ombros. – Alguma preferência?

Eu não fazia ideia do que queria comer. Tanta coisa acontecendo...

— Me surpreenda – sorri e voltei para o quarto.

Agora que estava mais desperta, podia prestar mais atenção na casa. O quarto era lindo, espaçoso e confortável, mas o que mais me surpreendeu eram as divisões entre chuveiro, banheiro, closet e um espaço para a pia, espelho e armário de toalhas.

Quando fui ao closet, dividido em duas seções para Dean e eu, percebi que havia um espelho de parede alto o suficiente para que eu me visse de corpo inteiro.

Me livrei da calça e da camisa do pijama para ver meu reflexo no espelho. Todos os cortes que Victoria havia feito em mim estavam lá, grandes cicatrizes que marcavam minhas coxas, minha barriga, meus seios, braços, pescoço. Ela poderia ter me matado a qualquer momento, mas me retalhou só para se divertir e eu carregaria aquelas marcas pro resto da vida.

Um lembrete eterno do erro que havia cometido.

Notas finais
Casa dos Winchesters em Lawrence http://www.showallhomes.com/listings/details/327-n-white-lawrence-ks/153925/5625256/page_3/ essa casa tem dois andares, quatro quartos e um monte de coisas, mas, pra fanfic, vai ter menos coisas