Wayward
18 Capítulo 17
Notas iniciais
John Winchester.
Se eu tivesse o conhecido, talvez lhe desse um belo soco.
Ter a esposa assassinada por um demônio deve ter sido algo horrível, mesmo, e dá pra entender que isso deve ter acabado com o psicológico dele tanto quanto o psicológico dos filhos que cresceram sem a mãe, andando de estado em estado em um carro, sem residência fixa, sem amiguinhos de escola, nem nada.
Mas dizer ao filho mais velho que se ele não pudesse salvar o mais novo da influência de um demônio ele deveria matá-lo, aí já era demais. Sam estava puto com tudo aquilo, com o fato de John ter pedido isso e com o fato de Dean ter escondido isso dele, e eu não podia dizer que ele estava errado em se sentir assim. Eu mesma não sabia como me sentiria se estivesse no lugar dele e ali eu não podia ser Suíça, porque não sabia o que fazer. Era um problema de família.
E eu não era da família.
Dean dirigiu até a cidadezinha mais próxima, onde ficamos em um hotel, e assim que entrei em meu quarto, eu desabei. Perdi a noção de tempo que passei em baixo do chuveiro, tentando me sentir limpa e não conseguindo.
Eu achava que conseguiria lidar com uma caçada, que saberia lidar com monstros, que o estresse seria o de menos, mas eu nunca estive mais errada. Pensei em ligar para o Bobby e pedir conselhos, mas não queria que ele pensasse que eu era uma garotinha assustada que não dava conta das coisas.
Eu não tinha ideia do que deveria fazer ou dizer, porque, no fim do dia, o comportamento de Dean havia me assustado muito mais do que qualquer ataque que eu tinha sofrido. Como era possível que o mesmo homem que havia me salvado de Edward tivesse um comportamento frio como aquele?
No fim, eu não o conhecia. Eu não conhecia Sam. Eu havia me juntado a completos estranhos sem fazer ideia de quem eles eram e achava que tudo ficaria bem, porque eles haviam salvado a minha vida.
E se eu estivesse errada sobre eles? Se me juntar a eles tivesse sido a pior coisa que eu tinha feito? Eu não sabia o que fazer, mas não podia continuar ali. Arrumei minha mochila com meus pertences, e decidi fazer uma ligação. Eu não tinha nenhum direito de ligar para ela depois de tudo, mas ela ainda era minha amiga e eu ainda confiava nela.
— Alice? Preciso de ajuda.
~
Saí no meio da noite, o mais discretamente que pude, mas Alice estava em um carro que nem de longe era discreto, típico da parte dela. Quando entrei no carro, ela logo me abraçou, e meu Deus, era tão bom poder abraçar alguém depois de tanto tempo.
— Como chegou tão rápido?
— Eu sabia que me ligaria – ela franziu os lábios e então se afastou, dando a partida. – Então, me conte tudo, não esconda nada.
— Acho que sabe o que aconteceu – suspirei.
— Mas quero ouvir de você, Bella. O que sei é que vocês se meteram em algo muito bizarro – franziu o cenho. – E que por algum motivo, Sam escapou ileso de um vírus demoníaco. Me diz, como você está se sentindo?
— Eu tô exausta – suspirei, me recostando ao banco. – Achei que estava pronta para o meu primeiro caso... Eu estava tão errada...
— O que aconteceu não foi sua culpa. Diga-se de passagem, você se saiu muito bem, mas não havia muita coisa a ser feita ali sem saber o que exatamente estaria acontecendo. Quanto à Dean, eu terei uma conversinha com aquele idiota – disse de nariz empinado, claramente irritada.
— Eu não sei o que tá acontecendo com ele. Eu tô assustada, Sam tá assustado. Tem coisas que ele não tá dizendo e eu não sei se devo perguntar. Não sei se tenho o direito de me meter nisso, não sou da família.
— Bella, a partir do momento em que eles acolheram você, você se tornou família pra eles – ela me fitou por um momento.
— Como pode saber disso?
— Eu sabia que isso aconteceria – deu de ombros. – Vocês e Robert Singer têm uma boa relação. Ele me parece uma boa pessoa – sorriu. – Se sentiu acolhida por ele, não é?
— Sim – entrelacei meus dedos, nervosa. – Mas há coisas que acho que nem ele sabe sobre o que tá rolando com os dois. Eu queria dizer algo, eu queria interferir... Mas...
— Eu entendo – ela afagou minhas mãos por um momento, sua mão gelada contrastando com as minhas quentes. – E eu quero contar o que sei, mas acho que deveria ouvir isso do próprio Dean.
— Do que você sabe? – perguntei surpresa.
— Edward leu a mente deles no tempo em que estivemos por perto e me contou algumas coisas. Ele não confia nem um pouco no Dean, mas eu acho que o Winchester só precisa organizar as próprias emoções.
— O que quer dizer?
— Quer mesmo saber? – arqueou as sobrancelhas.
— Me conta.
— Tá bem. Alguns meses atrás, enquanto eles estavam caçando o tal demônio de olhos amarelos, o carro deles foi atingido por um caminhão. Os três ficaram mal, mas Dean entrou em coma.
— Meu Deus.
— Um tempinho depois ele acordou do nada, completamente curado. As lembranças de Sam indicam que Dean estava sendo perseguido por um Ceifador.
— Ceifador? – arqueei as sobrancelhas em choque. Eu não havia estudado sobre eles ainda, mas havia lido uma coisa ou outra no diário de John.
— É, e algo que Sam não sabe o que é acabou acontecendo. Dean acordou, completamente curado, e minutos depois o pai deles cai morto e uma arma lendária, O Colt, que era a única coisa que podia matar esse demônio, sumiu.
— Caramba.
— É – suspirou. – Muito triste. E apesar de não terem provas, eles sabem que o pai morreu por causa desse demônio que caçavam. O problema é que Dean tem certeza de que o pai fez um pacto pra salvá-lo e ele não sabe lidar com isso. Edward disse que há muito ódio internalizado, muita culpa e arrependimento. Dean acha que não deveria estar vivo e se culpa pela morte do pai, ao mesmo tempo que tem medo do irmão se tornar um monstro por causa da ligação que tem com esse demônio.
Era muita coisa para assimilar. Eu finalmente começava a entender o motivo de agirem daquela forma, mas, ainda assim, nada justificava o fato de Dean querer matar um homem sem saber se ele estava ou não infectado. Talvez fosse só uma forma de escape, mas um escapismo que causasse problemas à outras pessoas não era aceitável.
— Para onde vamos?
— Estamos em um hotel aqui na cidade.
— ‘‘Estamos’’?
— Jasper e eu – sorriu. – Não se preocupe, ainda estamos de olho na Victoria.
— Não esquenta com isso. E obrigada. Por tudo.
— É pra isso que servem os amigos – ela riu com sua voz de anjo, sem tirar os olhos da estrada. – Vamos fazer uma noite para garotas, tá? Uma noite de beleza pra tirar todo esse estresse de você, não faz bem à pele.
— Uma noite de garotas? Mas e...?
— Sam e Dean ficarão bem. Há um problema que eles precisam resolver sozinhos.
— Eles não vão me perdoar por ir embora.
— Você só precisa de um tempo pra respirar, eles vão entender.
— E se eles pensarem que eu mudei de ideia? Talvez eu devesse ligar pro Dean...
— Nada disso, mocinha – ela me censurou. – Deixa ele se preocupar para aprender a dar valor. Ele precisa de um tempo para os próprios pensamentos, e Sam também, mas o Dean, em especial, precisa dar mais valor à voz da razão. Deixe que ele sinta a sua falta, deixe ele doidinho da vida procurando você. Vamos ver se ele merece ter Bella Swan ao lado dele.
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