Wayward
12 Capítulo 11
Notas iniciais
Era isso. Eu estava no meu limite. As coisas precisavam mudar e tinham que começar de algum ponto.
Aquela situação estava acabando comigo e eu precisava que Dean aceitasse o fato de que meus pais não estavam mortos por culpa dele. Mais que isso, precisava que ele realmente aceitasse a minha decisão de caçar.
Acordei antes deles, me vesti e saí do hotel, decidida a me aventurar pela cidade que eu nem conhecia. Talvez uma mudança de atitude fosse algo bom, pra variar. Eu viveria uma vida perigosa, então caminhar sozinha por uma cidade estranha deveria ser coisa pequena e mundana.
Se papai estivesse vivo para me ver daquele jeito, o que diria? Eu quase podia ouvi-lo rir em descrença com o conceito da minha pessoa andar sozinha e sem rumo certo, conseguindo dar dez passos sem tropeçar e cair de bunda no chão.
Com algum dinheiro em espécie, detalhe bem pensado por Alice, peguei um táxi até a papelaria mais próxima. Comprei um fichário de capa de couro, mais resistente, muitas folhas, canetas, marcadores e post-its. Já que eu não teria minhas coisas de volta, compraria tudo de novo. Não que a ideia de precisar fazer compras me agradasse, mas eu não tinha mais nada.
No caminho, depois da papelaria, comprei café da manhã para os rapazes. Sanduíches, tortas e café para nós três, e quando eu entrei no táxi com todas as sacolas e os três copos, tive medo de que, com a menor lombada, tudo se derramasse sobre mim.
Senti meu celular vibrando no bolso da minha jeans, mas não podia atender, o que me deixou nervosa. Quem estaria me ligando?
Então, retornando ao motel onde estávamos, vi Dean de longe se aproximando, seu celular antes no ouvido sendo guardado enquanto ele vinha em minha direção. Me ajudou a sair do táxi, pegando os cafés para que eu saísse e pudesse pagar o motorista.
— Por que saiu sem avisar? – ele me encarou enquanto caminhávamos para o quarto deles. – Quase me matou de susto, Isabella.
Eu nem tentei falar. Ele devia estar realmente chateado, a ponto de me chamar pelo nome inteiro. Apenas dei de ombros.
— Não queria acordar vocês.
— Podia ter mandado uma mensagem.
— Eu não ia demorar.
— Mesmo assim, não saia por aí do nada, não com dois vampiros à solta querendo seu pescocinho – ele me encarou.
— Tá bom, desculpa.
— Não, olha... – ele parou de caminhar, se virando para mim. – Comecei com o pé errado, foi mal. Só não quero que se machuque, entendeu?
— Certo... – assenti, desviando o olhar.
— Hoje vou te levar pra comprar armas.
— Armas? – arqueei as sobrancelhas.
— É, uma pistola, ou um revólver, e uma espingarda pra usar quando caçar fantasmas ou aparições. As vantagens da gente estar na Dakota do Sul é que aqui não precisa de licença pra comprar armas, nem documentação é exigida, nem nada. Vai testar o que for melhor pra você agora, e com o tempo, quando se acostumar a atirar, vai poder comprar outras. Vai precisar do seu próprio facão também, pra cortar as cabeças dos dentuços que estão na sua cola – ele deu um sorrisinho de canto.
— Você tá bem animado hoje – continuei andando, e ele me acompanhou.
— Que foi? Não posso ficar animado?
— Pode, claro – dei de ombros.
Ele parou de andar de novo, me encarando. Mordi o lábio, me sentindo sem graça.
— O que?
— Nada – ele desconversou.
Coisas não ditas, coisas desconversadas, pensamentos inacabados... Até quando? O que tava rolando ali?
Enquanto tomávamos café, me peguei imaginando o que Edward tinha lido da mente de Dean que havia o incomodado tanto. O que Dean pensou sobre mim quando nos conhecemos? O que ele pensava sobre mim naquele momento?
Perguntas, perguntas e mais perguntas e eu mal podia esperar para conseguir as respostas de uma por uma.
Depois do café, era hora de mais compras. Armas.
Sam me explicou sobre as vantagens e desvantagens de se usar uma Taurus, mas apesar de me esforçar para entender o que ele explicava sobre o modelo que usava, eu não estava entendendo muita coisa, e entendi menos ainda quando Dean falou sobre o Colt que ele usava. A única coisa que entendi durante o trajeto até a loja era que os dois concordavam que o recuo dos modelos que usavam talvez não fosse bom pra mim e que eu precisaria de algo mais leve e fácil de manusear.
O dono da loja nos recebeu bem, e não demorou a notar que eu não tinha experiência nenhuma com armas. Mostrou uma série de modelos que poderiam me servir, e de longe eu percebi que revólveres não eram a minha praia. Eu não tinha coordenação boa o suficiente para usar uma sem a estragar, talvez.
Então ele me apresentou às Glocks. Pistolas semiautomáticas. Um modelo, a Glock 26, me chamou a atenção. Quando a segurei, ela não me pareceu tão pesada, e seu tamanho parecia bom o suficiente em minhas mãos.
— Essa – eu disse ao vendedor.
Muitas caixas de balas para aquela gracinha, afinal de contas, eu precisava treinar minha pontaria...
E eu já podia imaginar o desastre que seria antes mesmo de concluir a compra. Sam e Dean me ajudaram a escolher um modelo de espingarda, mas eu tinha certeza de que não daria conta de usar a que eu havia comprado porque eu sabia que meus braços não eram exatamente os mais fortes e os mais ágeis, especialmente para manejar o facão de modelo filipino que haviam escolhido pra mim, maior que o de Dean.
Treino, muito treino. Quando saímos da loja, Dean estava radiante com a ideia de me ajudar a treinar.
E só havia um lugar onde poderíamos treinar com tranquilidade naquela cidade.
O ferro velho de Bobby Singer. Eles falaram bastante sobre o lugar, mas eu não havia imaginado ele como um cemitério de carros, cheio de carcaças deles e partes desmontadas em vários lugares. A casa dele era de um azul ciano desbotado, de dois andares, rodeada por árvores. Cinzenta de uma forma que me fazia lembrar de casa.
De Forks.
Pensar na casa de Charlie largada às traças me deu um nó na garganta. Pensar que a casa dos meus avós, a casa do meu pai, a minha casa... Não seria de mais nenhum Swan. Que o carro de Charlie nunca mais seria dirigido por ele, e que minha caminhonete seria esquecida lá pelo tempo novamente, meu presente favorito, que eu não poderia recuperar para preservar a memória dele...
— Cê tá legal?
A voz de Dean me trouxe de volta à realidade. Pestanejei algumas vezes, encarando o porta-malas aberto do Impala. Pegamos nossas mochilas e então ele entrou pela porta dos fundos da casa, mantendo-a aberta pra mim, me conduzindo pelos corredores até chegarmos no que parecia ser uma biblioteca muito, muito bagunçada e necessitada de uma organização e limpeza urgentes. Havia livros por todas as partes, amontoados aos montes e nos mais variados tamanhos.
Sentado no sofá estava Sam, conversando com quem eu deduzi ser Bobby, que estava em uma cadeira atrás de uma escrivaninha igualmente bagunçada e coberta de livros. Ele se levantou quando nos viu chegando e se aproximou.
— Você deve ser a Isabella – estendeu a mão. – Bobby Singer.
— Bella Swan – o cumprimentei.
— Os dois cabeças ocas aqui me disseram que você quer ser uma caçadora.
— É, isso aí.
— Eu sei que não me pediu conselho, mas se importaria de ouvir algumas palavras de um velho caçador?
— Não – dei de ombros.
— Você tem a vida toda pela frente. É tudo o que alguns de nós queremos ter e não podemos, e ainda assim, é isso que quer?
— O que mais eu poderia querer?
— Uma vida normal – ele pareceu levemente irritado. – A vida de um caçador não é às mil maravilhas. A gente quebra umas mil leis, dependendo do trabalho e nem sempre conseguimos salvar todo mundo, a maioria de nós não chega aos cinquenta anos. Você pode morrer a qualquer momento, ou ir em cana, e ainda assim quer essa vida?
— Olha, eu não vim aqui pra negociar. Meus pais morreram sem que eu pudesse fazer nada, então se eu puder fazer alguma coisa pra ajudar outras pessoas, eu quero fazer e eu vou. Eu tive muito tempo pra pensar nisso e eu não vou mudar de ideia.
— Igualzinha a vocês dois idiotas – ele entreolhou os irmãos, no que Dean apenas riu.
— Eu avisei – ele disse.
— Espero que goste de livros... – Bobby se aproximou da mesa, pegando uma pequena pilha de livros e os entregando a mim. – Porque pesquisa é fundamental. Pode começar a ler.
— Agora? – perguntei surpresa.
— Mas é claro – ele respondeu, quase que ultrajado. – Quanto antes começar, melhor! Vai começar com demônios – apontou para os livros que eu segurava. – Já que é o que mais nos dá dor de cabeça por aqui. E não faça anotações nos livros.
— Sim, senhor – assenti.
Aquele seria um longo dia.
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