Waves
2 D e e p
Notas iniciais
Estou flutuando no escuro. Algo está me levando de um lado para o outro. Não consigo mexer meu corpo. O “nada” parece brincar comigo, fazendo rodopiar, cambalear, subi e descer. Uso toda a força que eu tenho para poder me mexer, cair não parecia assustador, na verdade é libertador. Ergo minha mão e a vejo preta. De alguma forma sei que ela não sumiu, e sim, que ela está refletindo o breu a minha volta. Na palma da minha mão vejo uma luz fraca, algo ganhando vida, mas logo perde o brilho.
Então eu estou morta, na melhor das hipóteses, morrendo. Estou refletindo a minha própria escuridão ou estou me tornando uma? Cair é um péssimo sinal? Sempre achei que a morte seria diferente.
Em minha barriga, algo branco começa a surgir, pequeno e sem forma, ele cresce e preenche meu corpo. Uma fumaça. A densidade é tão sólido que parece algodão. Quando a fumaça se dissipa, o breu volta e logo em seguida um pequeno ponto brilhoso surgi. Pequeno para a imensidão do breu. Outro surge perto do que seria meu pé, um terceiro no braço. De uma só vez milhões de pontinhos vão se ascendendo. Estou me tornando uma estrela? Nossa, nunca achei que a morte seria tão poética.
As estrelas giram lentamente dentro de mim. Brilhando e mudando de cor, da prata para o roxo, do roxo para o azul. No azul ela se movimenta com rapidez, de um lado para o outro, subindo e descendo como a onda.
Estou morrendo afogada!
Meus olhos abrem e tudo a minha volta está afundando: árvores, Bicicleta, pessoas. A tsunami está consumindo tudo.
Tento emergir a superfície, mas a água é mais forte e só me leva para o fundo. A correnteza me arrasta de um lado para o outro. Em meio ao desespero sinto uma latejar crescendo na parte de trás da minha cabeça. Consigo ir a superfície e vejo o sangue em meus dedos quando eu toco no lugar da pancada. Se eu não morrer dessa forma, morrerei de outra. Na melhor das hipóteses, sofrerei menos.
Apenas fecho os olhos e tento me lembrar qual foi a última em que fiquei em paz.
“Alexia”. “Alexia”!
Abro os olhos e vejo que algo impede que meu corpo seja levando junto com os destroços. Agarro-me ao poste como posso. Tento não soltar, mas está ficando cada vez mais difícil. A água, agora cobre minha cabeça e eu luto para me manter sã. Uso o corpo para me levar para cima. Com os braços já envolta do pilar, também envolvo o poste com as pernas. Levanto primeiro os braços em seguida faço o mesmo com as pernas, vou repetindo o movimento até meu corpo voltar a superfície. Meus pulmões agradecem por enchê-los de ar.
Abro os olhos e vejo que algo impede que meu corpo seja levando junto com os destroços. Agarro-me ao poste como posso. Tento não soltar, mas está ficando cada vez mais difícil. A água, agora cobre minha cabeça e eu luto para me manter sã. Uso o corpo para me levar para cima. Com os braços já envolta do pilar, também envolvo o poste com as pernas. Levanto primeiro os braços em seguida faço o mesmo com as pernas, vou repetindo o movimento até meu corpo voltar a superfície. Meus pulmões agradecem por enchê-los de ar.
Fico segurando o máximo de tempo que consigo. A dor em minha cabeça diz que eu devo soltar as mãos para que elas reconfortem o machucado. Olho em volta, avaliando minha situação: Não tenho estabilidade. Uma ferida na cabeça que pode me fraquejar ainda mais.
Ouço gritos distante vindo do outro lado da rua submersa. Uma criança também agarrada em um outro poste.
Não consigo não tentar salvar a criança solitária. Avalio a nova situação. A criança está do outro lado, paralelo a minha posição, se eu soltar, a correnteza pode me levar para alguns metros abaixo, olho em volta procurando algo em que possa me apoiar. Olho para a cima da rua e um Toyota hillux vem descendo lentamente, arrastado pela água.
Antes que eu possa me preparar para saltar, ouço novamente a criança gritar ao se soltar do poste e ser levado pela forte correnteza. Com o corpo tomado pela adrenalina me desprendo do poste e tento nadar para alcançar o garotinho. A água me puxa para baixo e vou afundando e emergindo. A correnteza é forte demais, porém, o nível d'água baixou na medida que ela foi escorrendo pelas ruas inclinadas. Antes que eu possa chegar ao outro, a camionete que se aproximava está diante dos meus olhos. Agarro, porém meus dedos deslizam sobre o vidro e alumínio da porta. Antes de perder o contato, consigo agarrar na maçaneta e firmo a outra mão no retrovisor. Olho em busca do garoto e não o vejo, e nem o ouço. Meus dedos escorregadios não aguentarão por muito tempo.
Meu coração está em pedaços pela criança. Não pude o salvar porque nem consigo salvar a mim mesmo.
Em desespero sinto meus dedos deslizaram, então levanto a perna na altura do capô do carro e com uma força sobre humana jogo meu corpo para o para-brisa. Minha mão tateia em busca de algo seguro, e com as unhas arranhando o vidro consigo agarrar por um instante a borracha que prende o vidro, tempo suficiente para me colocar em cima do capô. Sem onde me segurar, subo para o teto do veículo e me sento com os joelhos dobrados.
A água leva o carro, arrastando-o. Coloco-me em posição de saltar assim que a visto um prédio em construção, apenas com a estrutura de concreto e ferros. Um esqueleto ainda descoberto, aproximando-se. Salto no instante em que a camionete se aproxima do projeto de prédio. Meu corpo se projeta para frente e minha mãe agarra algo. Abro os olhos e vejo que é o piso do segundo andar. Solto a mão esquerda e jogo o ante braço em cima do concreto. faço o mesmo com o braço direito. Levanto uma das pernas até o piso e viro o corpo para o lado. Minhas pálpebras se fecham e mergulho novamente na escuridão.
......
A noite caiu e trouxe o breu com ela. Estou com a mão envolto do joelho, apoiando meu queixo nela, na tentativa de controlar o bater de queixo causado pelo frio. Não espero ajuda ou qualquer outra coisa, apenas faço uma oração silenciosa pela vida do garotinho que não pude salvar. Espero que a água o leve para algum lugar tranquilo. Fecho os olhos e ouço o barulho da chuva pingando na água.
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