Waves
12 Capítulo Doze
Notas iniciais

— Já te contei que ele está me ignorando? Ele sequer olha na minha cara ou responde minhas mensagens – Katniss murmurou de forma irritada, colocando o pacote de cereal no carrinho do supermercado.
— Sim! – Johanna revirou os olhos pela milionésima vez, riscando da lista os itens já comprados.
— Isso é muito irritante. Sério. Ele poderia agir com maturidade.
— Katniss, muitas pessoas estão ocupadas demais tentando sobreviver, não seja tão injusta – Johanna olhou a filha com as sobrancelhas arqueadas.
— Eu sei! – Suspirou – só estou nervosa.
— Por que diabos você está tão incomodada com essa situação? Ele já te ignorava antes. Aconteceu alguma coisa? – A matriarca semicerrou os olhos.
— Não! – Everdeen soltou de forma súbita, ignorando a sensação estranha passar pelo peito.
— Então, não tem motivos para você se comportar assim. Esqueça-o! – Johanna deu de ombros, empurrando o carrinho pelo corredor.
Katniss observou a mãe se afastar, num misto de tristeza e confusão. A real, é que ela não queria esquecer – e isso a assustava.
★★★
— Pera aí! – Thresh franziu a testa em descrença, elevando o tom de voz – Peeta negou um beijo seu?
— Dá pra falar mais baixo? – Katniss bufou.
Marshall deu uma gargalhada alta, chamando a atenção de outros alunos que também estavam no corredor.
— Dá pra parar de rir? Não tô achando graça! – Everdeen cruzou os braços.
— Desculpe, mas isso é realmente engraçado – Thresh murmurou de forma risonha.
— Engraçado por quê?
— Não que Mellark seja um completo cafajeste ou coisa desse tipo, mas, pelo que eu me lembre, ele nunca negou um beijo de alguma garota... – O jovem respondeu de forma pensativa.
Ele me odeia tanto assim? pensou, enquanto sentia o coração afundar em ódio.
— Bem, que se dane, então. Quero que ele vá para o inferno! – Katniss sentenciou, apertando a alça da mochila no ombro.
Ela não entendia o motivo de tanta fúria, porém, alguma coisa doía.
— Por que você tá agindo assim? – Thresh levantou as sobrancelhas em surpresa – Ele te fez alguma coisa?
— Melhor dizer sobre o que ele não fez – Respondeu da forma mais dura que pôde.
Everdeen sabia que estava agindo de forma inapropriada, Peeta não era obrigado a suprir as expectativas dela, mas por que doía tanto?
Ela era muito feia ou simplesmente odiável demais para o rapaz se afastar de forma tão repentina?
Por que mesmo após tantos dias ela continuava a pensar nele?
★★★
Peeta encostou a cabeça na parede do fliperama, enquanto observava Thresh e outros caras jogarem sinuca. Os últimos dias em casa não estavam sendo fáceis. Cato havia vendido algum uísque caríssimo do escritório de Plutarch, que não quis ouvir explicações.
O resultado não foi o melhor: inúmeras marcas arroxeadas estavam pelo corpo dos gêmeos. Nessas horas, Mellark sentia vontade de morrer, entretanto, a única alternativa possível era se jogar na frente de um carro qualquer, assim, pouparia um sofrimento maior para a irmã – porém, sempre deixava essa ideia de lado. Primrose não merecia sofrer.
Além do mais, estava ignorando Katniss desde o último ocorrido. Ela deve ficar longe. Não posso oferecer nada além de minha alma miserável, pensava, enquanto fechava os olhos com força.
Eles eram como água e vinho.
Exatas e humanas.
Felicidade e melancolia.
Um não pode sobreviver com o outro.
Enquanto Everdeen possuía uma vida límpida, sem tormentas. Mellark se afundava cada vez mais na imensidão do sofrimento.
Peeta se considerava um zero à esquerda. De certa forma, achava até um crime atormentar uma alma tão pura como a de Katniss.
— Agora você vai me explicar... – Uma voz trêmula rompeu pelo ambiente, fazendo o rapaz estremecer — O que você realmente quer?
— Katniss... – Mellark pronunciou, evitando o olhar furioso – por favor, me deixe.
— Não, eu tô cansada dos seus joguinhos. Um dia você me trata super mal, no outro me trata bem, depois tenta me beijar e me ignora. Sério, o que você quer?
O rapaz passou a mão pelos cabelos. Nem mesmo ele sabia o que queria. Levantou os olhos na direção da adolescente. Peeta sabia que poderia simplesmente sair daquele lugar, sem dar a mínima, contudo, não conseguia. Algo dentro dele o fazia continuar ali, em suma, aquele sentimento estranho continuava o acompanhando mesmo quando ela estava longe.
— Não vai dizer nada? – Everdeen ironizou sem humor – Eu te odeio, Peeta, te odeio com todas as forças, sério, por que você é assim?
— O que você quer que eu diga? Que você está certa? – Mellark lamuriou, sentindo o coração apertar de um jeito doloroso.
— Queria que dissesse qualquer coisa. Você é imprevisível, me deixa no escuro e eu não suporto lidar com isso.
— Mas é assim que eu sou – Peeta sentenciou de forma jocosa – sou imprevisível. Mutável. Instável.
— Ótimo, bom para você – Retorquiu Katniss – Sério, não me procure mais. Se quer aumentar suas notas, faça isso sozinho.
Peeta finalmente levantou o olhar e havia uma tristeza tão profunda ali que parecia antiga. Por um segundo, Everdeen se arrependeu de estar sendo tão dura.
— Katniss, eu cresci aprendendo a não sentir – ele confessou, a voz quase falhando. – A me calar. A encolher quando as coisas apertavam. – Ele tocou de leve a lateral roxa do braço, escondido pela jaqueta jeans – Eu aprendi a não querer nada, porque querer sempre acabava doendo.
As lágrimas nos olhos dela ameaçaram cair, porém, piscou com força, como se lutasse contra, por pura teimosia.
— Isso não te dá o direito de brincar comigo – ela acusou, a voz ficando mais alta atraindo olhares curiosos. – Eu te odeio, Peeta. Odeio. Porque você sempre me deixa esperando por alguma coisa que nunca vem!
Peeta baixou os olhos, o corpo trêmulo. A culpa o deixando sem rumo, deu um passo hesitante.
— Katniss, podemos conversar lá fora se quiser...
— Não! — ela interrompeu, sem olhar para trás. — Não fala mais nada. Hoje, você já fez o suficiente.
As luzes do fliperama continuaram brilhando, mas entre os dois só havia escuridão – densa, pesada – deixando Peeta parado ali, sozinho, preso entre a vontade de ir atrás dela e o medo devastador de machucá-la ainda mais.
★★★
Katniss voltou para casa, se esgueirando pelos cantos. Os pais não podiam vê-la em hipótese alguma. Saberiam que havia algo de errado.
Fechou a porta do quarto com cuidado, trancando-a logo em seguida. Deslizou as costas pela parede, até sentar no tapete felpudo do chão do quarto, os braços cruzados, tentando ignorar o fato de que o coração estava inquieto e dolorido.
— Idiota! – murmurou para si mesma, mas a palavra não tinha força.
O que não saía da cabeça dela era aquela cena – o instante exato em que Peeta, o babaca e imprevisível, tinha se aproximado demais. O perfume inebriante de hortelã entrelaçado ao toque amadeirado, se misturava numa essência que era só dele – algo singular, profundo, quase indomável – que a envolvia por inteiro e deixava com as pernas bambas. Por um segundo, só um segundo, ela jurou que Peeta iria beijá-la. Mas ele não o fez. E pior: sumiu.
Nenhuma mensagem. Nenhuma explicação. Nenhum “foi mal”.
Nada.
Katniss apertou o celular na mão, como se quisesse espremer dele uma resposta inexistente. Sentiu o estômago revirar – ódio, raiva, frustração – mas acima de tudo, estava um formigamento doce, quente, teimoso. Era curiosidade. Desejo. Uma vontade estranha de chegar mais perto de Peeta Mellark só para entender o que, afinal, existia por trás daqueles olhos azuis.
O silêncio ao redor fazia o leve tremor da respiração parecer alto demais. A garota abriu o WhatsApp pela décima vez, observando a foto de perfil de Peeta. Era um retrato em preto e branco numa expressão intensa. Olhava para o lado, como se estivesse observando algo distante, uma luz suave destacava o contorno forte do rosto. O cabelo um pouco desalinhado caía de um jeito naturalmente sedutor, enquanto a barba leve dava um ar de mistério. A camisa deixava aparecer partes mínimas da pele, criando uma combinação entre vulnerabilidade e força que mexia com ela mais do que gostaria de admitir.
Everdeen sentiu um calor subir pelo peito. Havia algo naquele olhar – profundo, parecia até triste, todavia, se mantinha firme – que a prendia, que a fazia querer entender o que se escondia por trás dele. Deslizou o polegar pela borda da tela, como se o simples toque pudesse aproximá-la.
— O que eu faço com você, Peeta Mellark? – sussurrou para si mesma, fechando os olhos com força.
★★★
A tempestade estourou sobre a cidade com violência, afogando qualquer som que não fosse o rugido dos ventos. Quando a energia da escola caiu, o corredor mergulhou num breu pesado, iluminado apenas por relâmpagos distantes. Katniss caminhava com passos firmes, tateando a parede sem demonstrar o menor sinal de medo. Geralmente, quando isso acontecia, precisava ir até o refeitório, lá era um local seguro.
— Tem alguém aí? – disse a menina, ao ouvir passos atrás de si.
— Oi, Katniss – murmurou Peeta, a voz baixa, abafada, carregada de um cansaço que ela já havia notado outras vezes.
Legal! Só podia ser, Everdeen pensou de forma irônica.
Mellark parecia abatido, como se a escuridão tivesse se instalado nele também. Katniss não respondeu. Apenas ficou ali, imóvel, esperando que o próximo relâmpago revelasse o rosto dele: olhos profundos, tristes e cansados, cabelos bagunçados.
— Tá me seguindo? – ela disse, quase como uma constatação. – O que você quer?
— Claro que sim, você é uma estrela! – Peeta soltou uma risada curta que não parecia verdadeira.
O silêncio entre eles era espesso, quase sufocante. Katniss mordeu os lábios, tentando afastar o incômodo estranho que sentia – não pela tempestade, mas por vê-lo tão quebrado.
— Então, o que tá fazendo aqui?
— Eu estava na sala de robótica passando o tempo. Tá bom assim pra você? – Peeta murmurou como se estivesse prestes a chorar.
— Ao menos estava fazendo algo de útil, né? – Katniss exprimiu irritada.
O garoto suspirou de forma pesada e o silêncio surgiu novamente naquele corredor escuro. Era violento. Intenso. Katniss estava começando a se sentir mal. Um raio cortou o céu e a ventania parecia ainda mais forte. Num movimento rápido, a garota se aproximou ainda mais do rapaz.
— Eu não deveria estar aqui com você – Peeta murmurou. – Não precisa de alguém que só complica as coisas.
— Não é verdade – ela respondeu, ríspida demais para o que pretendia.
— Não foi bem isso que me disse da última vez... – A voz era baixa e triste.
A chuva batia nas janelas marcando o silêncio entre eles. A tempestade ainda uivava do lado de fora, mas ali dentro tudo parecia suspenso – como se o mundo estivesse daquele modo de forma proposital, apenas para os dois se acertarem. Katniss sentiu o coração afundar dentro do peito.
— É isso que não entendo em você – disse a jovem, quebrando o silêncio de forma abrupta. Peeta ergueu os olhos devagar, como se fosse preciso esforço para acompanhar o pensamento dela. – O jeito como você parece tão forte e ao mesmo tempo carrega uma fragilidade que tenta esconder o tempo todo.
— O que? – Peeta levantou as sobrancelhas.
— Estou falando sério! – O tom era firme, mas havia algo mais ali: uma curiosidade sincera, quase preocupação. – Todo mundo vê você como alguém inabalável. Como se nada te derrubasse. Mas eu vejo nos seus olhos que não é verdade.
Ele desviou o olhar naquele exato instante. Vergonha?
Katniss respirou fundo e continuou:
— Você tem essa força e também tem algo que tenta esconder. Algo que dói. E eu não consigo entender.
Peeta massageou a nuca. Inquieto.
— Talvez porque eu também não entenda. – A voz dele saiu baixa, quase um segredo.
Katniss se inclinou um pouco, o suficiente para que ele não pudesse evitar o olhar intenso dela.
— É isso que estou tentando dizer. – O tom suavizou, quase imperceptivelmente. – Você é forte e é vulnerável. As duas coisas ao mesmo tempo. Não precisa escolher.
Peeta piscou, como se aquilo o pegasse de surpresa.
— Eu só não quero que vejam essa parte – confessou. – A parte que falha, que teme, que sente mais do que deveria.
— Mas eu vejo – disse Katniss sincera.
Mellark engoliu em seco.
— E isso não te assusta?
Ela pensou por um instante, depois balançou a cabeça negativamente.
Peeta sustentou o olhar da adolescente, e por um momento, o sorriso que surgiu foi pequeno, quase tímido – mas verdadeiro. Ficou quieto, respirando devagar.
A menina deu um passo à frente.
— E é por isso que eu me sinto atraída por você – Falou sem rodeios.
Mellark piscou na escuridão, como se não tivesse certeza de ter escutado aquilo. Um relâmpago iluminou o rosto dele e, por um instante, a expressão mudou – surpresa? Medo? Everdeen não soube identificar.
— Katniss... — ele começou, a voz trêmula. — Eu não sei se consigo.
Peeta engoliu em seco, desviando o olhar, como se o sentimento que carregava fosse pesado demais para ser dito. Katniss percebeu, naquele instante, que ele também vinha segurando aquela sensação.
— Eu não estou pedindo nada – Everdeen disse, suave pela primeira vez em muito tempo – Só estou dizendo a verdade.
Mellark respirou fundo. Olhou para a morena como quem tenta acreditar numa possibilidade que sempre achou impossível, se aproximando devagar, como se temesse que ela recuasse. Everdeen não se moveu. O coração sofrido de Peeta bateu numa intensidade avassaladora. Quando finalmente encostou os lábios nos dela, foi com uma intensidade gritante, como se já conhecesse aquele toque suave. Era como se as mariposas voassem no estômago dele. Quando se afastaram, ele ainda tinha aquele minúsculo sorriso, tímido, quase escondido.
Lá fora, a tempestade continuava, mas dentro do corredor, algo tinha se acalmado.
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