Waves

12 (Des)Encontro


Notas iniciais
i'm back babies tbh eu postei um anúncio de hiato no social spirit há tipo, duas semanas...? e só hoje consegui voltar a ler. queria mandar um shoutout enorme pros meus leitores de lá e principalmente pra Druidess, aqui do nyah, que foi o shot decisivo pra eu voltar a escrever. cara, eu te devo muito. prometo responder todos os teus reviews com cuidado assim que puder. bora ler?

Durante toda a semana, Keith não foi fisicamente capaz de parar quieto.

Pegou-se várias e várias vezes checando o calendário do celular, onde deixara uma nota para o próximo sábado – que podia, ou não, ter um coraçãozinho desenhado. Especificamente agora, faltavam três dias, quatro horas e vinte minutos para que se encontrasse com Lance.

Isso tudo estava saindo um pouco do controle.

Em sua defesa, era o primeiro encontro de Keith em meses. Não que ele não tivesse saído com garotos bonitos antes, ou ficado com garotos bonitos antes, pelo mesmo motivo. Mas mal conseguia se lembrar da última vez que saíra a sós com um desses garotos bonitos, e não em um grupo ou alguma festa pela qual fora arrastado sob o pretexto de Shiro de “você devia tentar se enturmar mais”. Então, em suma: ele não fazia a menor ideia do que estava fazendo com a própria vida.

Falando em Shiro, o mais velho ainda não o falhava em ser um irmão mais velho super embaraçoso; não precisou que Keith lhe falasse sobre o encontro, pois havia contado para Pidge, que jurou segredo, mas mesmo assim contou para Matt, que, por sua vez, dedurou-o para Shiro.

Então, não havia demorado muito até que sua caixa de mensagens explodisse com notificações até que decidira ligar para o mais velho, sendo recebido direto com um “por que não me contou?”.

Honestamente, Shiro agia como se Keith estivesse envolvido em tráfico, e não saindo com um cara pela primeira vez em meses.

Apesar disso, não foi capaz de agir com agressividade com o mais velho – aceitou de falso bom grado suas recomendações, seus conselhos, e até impediu a si mesmo de revirar os olhos com a preocupação de Shiro sobre sexo no primeiro encontro.

—Escuta, não precisa surtar -Keith se encostou na bancada, trocando o celular de lado para descansar a mão esquerda- Eu não vou dar minha preciosa virginidade pro primeiro latino que aparecer na minha frente dizendo que também gosta de pop-punk, ok?

...não que ele ainda fosse virgem, mas Shiro não precisava saber dos detalhes. Omitiria essa pequena parte em prol do time.

—Certo -ouviu Shiro suspirar audivelmente na outra linha- Eu confio em você. E ei, Keith?

—Hm?

—Estou orgulhoso.

Keith deixou escapar um riso frouxo, mais um sopro do que qualquer outra coisa.

—Orgulhoso? Pelo quê?

—Você sabe -insistiu- Por...conseguir chegar a esse ponto. Eu não sei qual foi a última vez que você começou do zero com alguém. Significa muito.

O coreano mordeu a parte interna da bochecha, contendo as lágrimas bem fundo na garganta, sequer as permitindo de chegar aos olhos.

—Valeu -respondeu, baixinho. Mas sabia que Shiro havia escutado.

X

Honorary Hunk™ [10:40]: Pidge Holt? Hunk Garett aqui!

Honorary Hunk™ [10:40]: Só queria que deixasse meu número salvo haha

Nerd Authority [10:45]: oi, desculpe

Nerd Authority [10:46]: estava muito ocupado surtando sobre o resultado da prova. sabe como é, né

Honorary Hunk™ [10:47]: Ah, nem me fale

Honorary Hunk™ [10:47]: Preparado pra semana que vem?

Nerd Authority [10:47]: não mesmo

Honorary Hunk™ [10:47]: Real. Mas olha, podia ser pior

Honorary Hunk™ [10:47]: Você podia ser meu colega de quarto

Nerd Authority [10:49]: disserte?

Honorary Hunk™ [10:49]: Ele tá há uns dois dias roendo as unhas por causa de um encontro no fim de semana

Nerd Authority [10:49]: wow, sei como é

Honorary Hunk™ [10:50]: Também tem um encontro?

Nerd Authority [10:50]: não

Nerd Authority [10:50]: eca

Nerd Authority [10:50]: quer dizer, eu sei como é ter um amigo surtando sobre namorados. meu melhor amigo também tem um encontro nesse sábado

Honorary Hunk™ [10:51]: Hah, qual a possibilidade deles terem marcado um com o outro?

Nerd Authority [10:51]: mais ou menos 12%

Honorary Hunk™ [10:52]: A

Honorary Hunk™ [10:52]: Você realmente calculou isso?

Nerd Authority [10:52]: não

Honorary Hunk™ [10:52]: Mas escuta. Escuta só. Por acaso seu melhor amigo tá indo encontrar um latino surfista pra um passeio na cidade?

Nerd Authority [10:52]: por acaso, sim

Honorary Hunk™ [10:52]: E por acaso esse seu amigo é um amante de filmes trash com uma moto como foto de perfil?

Nerd Authority [10:53]: certo, isso já tá ficando muito estranho

Nerd Authority [10:53]: como você conhece o keith??

Honorary Hunk™ [10:54]: Da oficina. Mas isso não vem ao caso agora

Honorary Hunk™ [10:54]: Pidge. Eu acho que seu melhor amigo está a fim do meu melhor amigo

Nerd Authority [10:54]: e você é a ponte entre os dois...enquanto eu tenho influência sobre o keith daqui

Nerd Authority [10:55]: hunk garett, está pensando no que eu estou pensando?

Honorary Hunk™ [10:56]: Pidge Holt, temos uma mina de ouro em nossas mãos

Nerd Authority [10:57]: e eu quero tirar proveito disso

X

Era o grande dia. O grande, grande dia. O absurdamente grande dia. Tão absurdamente grande, que Keith começava a pensar que todo o enorme significado daquele sábado tinha se acomodado em uma massa de ansiedade em seu estômago e, se ele tentasse engolir a saliva, provavelmente explodiria.

É inútil frisar o quanto seu quarto estava uma zona de guerra – suas roupas estavam em todos os lugares, menos dentro do armário, e ele simplesmente não conseguia decidir entre usar coturnos ou tênis cano-alto.

—O que você acha? -virou na direção de Andrômeda, confortavelmente posicionada sobre uma jaqueta de couro jogada em sua cama- Camisetas de banda são muito reveladoras, mas eu queria mostrar logo de cara as coisas que eu gosto...talvez ele goste também? Acha que ele vai me perguntar sobre se eu usar?

A gata estudou-o por uns instantes com os olhos riscados, então miou de forma lânguida, se espreguiçou, e mudou de posição. Keith suspirou.

—É, eu também acho. -e procedeu em bater na própria testa com o punho fechado, de leve- E agora eu estou discutindo com o gato! Ugh.

Começava a se irritar, não com o encontro nem com Andrômeda, mas com a própria ansiedade. Detestava não saber o que fazer, não gostava de indecisão, e simplesmente odiava não se sentir o bastante. Apesar de que isso acontecia com bem mais frequência do que queria.

Jogou as camisetas com estampas de bandas de sua época mais remota, também conhecida como 2009, e começou a vasculhar as gavetas em busca de algo mais simples, que não entregasse facilmente sua paixão imortal por emo-punk underground.

Escavou uma calça jeans preta cheia de rasgos, resultado de um Keith entediado e um canivete suíço dois meses atrás. Achou que servia. Podia combiná-la com seu tênis de estimação, já todo pichado, ou talvez com as botas de salto baixo que gostava de usar às vezes, só às vezes, porque tinha canelas muito finas para usar algo mais pesado. Continuava a busca incessável por uma camiseta discreta quando olhou o relógio e tomou um susto, e começou a considerar ir completamente sem camisa para o famoso encontro.

Mas essa era uma das contra-indicações que Shiro lhe fizera no dia anterior.

Descartou a ideia abanando a cabeça. Se virou para Andrômeda, que agora lambia a própria pata como se seu banho não pudesse esperar por um momento menos crítico.

—Não fique se limpando, me ajude aqui! -esbravejou, assustando o felino apenas o bastante para que erguesse a cabeça- Eu preciso de alguma coisa, qualquer coisa, pra combinar isso aqui...

Então, percebeu o ninho de tecido perfeitamente embolado em que Andrômeda tinha seu pequeno momento privado.

—Espera. Levante aí, só um minuto.

Espantou a gata com um movimento brusco das mãos, gata esta que miou em protesto e pulou para o chão, então levantando o queixo na direção de Keith e produzindo um sibilo. Keith rosnou de volta, e foi o bastante para afastá-la.

Sacudiu a peça de roupa, tossindo com a quantidade de pelos que voara por todo o lado quando o fez. Então, deu uma olhada – era uma jaqueta de couro, do tipo que só lembrava de ver em capas de discos do Ramones. Desde quando tinha aquilo?

Deduziu que seria o bastante para usar com uma camisa vermelha qualquer, de forma que as mangas arrancadas desta não o tornassem revelador demais para um primeiro encontro.

Revirou os olhos. Parecia uma adolescente tendo sua primeira paixão de colégio. O que totalmente não era o caso.

Jogou tudo sobre o ombro e trotou em direção ao banheiro, se despindo com dificuldade no processo – e preferiu não lavar o cabelo, já que estava oleoso e sujo o bastante para que o deixasse do jeito que queria. Terminou de amarrar os tênis na entrada, preferiu não usar delineador, tirou as chaves do espaço entre as almofadas do sofá e ainda checou sua aparência no espelho perto da porta antes de sair. Parecia um acidente de carro, mas ainda decente o bastante para não transparecer que estava efetivamente morrendo por dentro.

—Certo. Andrômeda, eu volto já. Comporte-se, e já sabe -apontou acusatório na direção da gata manchada, que o encarava com certo ar de desdém- se mijar na minha cama, eu te mato.

Deixou o apartamento pulando de dois em dois degraus, o coração parecia que ia saltar do peito. Pensou em pegar sua moto – já havia falado dela para Lance, certo? Mas talvez não devesse forçar as coisas agora...antes de dar carona, devia conseguir um capacete reserva.

Preferiu ir de ônibus. Pegou a linha direta até a estação de trem nos limites da cidade, que já conhecia como a palma de sua mão. Esperou, então, na extremidade de desembarque, junto com mais dois ou três almas que esperavam um conhecido ou familiar descer do próximo trem, ou desejando que pudessem vê-los acenando ainda antes da parada, esticando as cabeças, andando em voltas, evitando ultrapassar a linha amarela pintada no concreto que prevencia acidentes.

Keith esperou por cinco, dez, quinze...vinte minutos se passavam desde o horário de desembarque. Lance não estava naquele trem. Onde diabos poderia estar?

Foi enquanto o apito de outro trem se aproximando, juntamente com o tremor dos trilhos, soou alto em seus ouvidos que decidiu desviar os olhos da saída do túnel e prestou mais atenção na extremidade oposta da estação.

E o viu.

Lance estava consideravelmente mais casual do que ele, com a camisa xadrez aberta jogada sobre os olhos, uma das mãos na cintura e a outra segurando o celular – talvez para lhe mandar uma mensagem? -, olhando repetidamente e alternadamente para os lados como se o procurasse. Keith sentiu o coração falhar uma batida. Ele era...muito mais atraente do que nas fotos.

Lance também o viu.

Virou em sua direção, e foi como um tiro de paintball quando você não está usando colete e só queria passar pelo campo enquanto cuida da própria vida. Sentiu uma revoada inteira de borboletas alçar voo dentro de seu próprio estômago, e ergueu a mão para segurar a nuca, com medo de que estivesse queimando tanto quanto sentia estar. Lance encontrou seus olhos o fitando, abriu um sorriso, e foi o fim.

Keith sentia como se fosse morrer. Antes que pudesse gritar consigo mesmo mentalmente, devolveu o sorriso e ergueu a mão livre em um aceno, e mesmo com o rugido do trem que se aproximava, ensurdecendo a todos os presentes, conseguiu ouvir Lance rindo. E, Deus, ele podia ter aquele som como seu toque de celular.

Então o trem cobriu sua visão assim como todos os outros sentidos, e a lufada de vento causada por ele foi o bastante para fazer com que cobrisse o rosto com o braço. Ao se acostumar, piscando rapidamente – alguma coisa entrara em seu olho, droga! -, ainda conseguia ver frações da expressão divertida de Lance pelos breves espaços entre as janelas abertas. Era ridículo, mas fazia sentido, considerando que era a primeira vez de Lance na estação.

Buscando o encontro entre seus olhares novamente, Keith gesticulou como um louco para que Lance o encontrasse na saída, onde ninguém teria de pular em frente a um trem em movimento para um cumprimento. Em resposta, o latino riu, e mostrou o polegar em um sinal de que havia entendido.

Keith não andou – correu. Estava levemente sem ar quando finalmente alcançou o ponto em que as duas extremidades se encontravam em uma leva de escadas, e recuperou o fôlego enquanto Lance caminhava em sua direção, e também parecia ter alguma pressa.

—Yo! -cumprimentou, o mesmo sorriso dançando nos lábios, que Keith já decidira como sendo sua coisa favorita nele- Desculpa pela furada. Eu meio que dormi no caminho, e não sabia dizer onde era a saída e onde era a entrada.

—Tanto sono que não conseguiu deduzir pela horda de bárbaros embarcando pelo mesmo lado que você saía? -provocou, fazendo o outro rir. Se sentiu realizado por alguns segundos.

—Certo, certo. Eu me confundi um pouco. Mas hey, eu estou aqui agora, eh?

—É, você está.

Keith sorriu. Antes que percebesse que sorria, Lance estreitou os olhos e lhe deu um sorriso de canto, sem mostrar os dentes, e de repente Keith não sabia se devia lhe dar a mão ou um abraço.

—Sabe -Lance lhe tirou da dúvida, o olhando de cima a baixo, e de repente Keith se sentiu ridiculamente exposto- Você é bem mais atraente ao vivo do que em selfies.

Fez uma rápida súplica ao próprio sangue para que não corresse para o rosto. Em vez disso, ergueu as sobrancelhas.

—Eu posso dizer o mesmo de você, Captain Frijoles.

—Ah, por favor -Lance ergueu as mãos, como se se rendesse- Em pessoa, me chame só de Lance. Ou melhor... -e sorriu, e pelo seu tom de voz, Keith sabia para o que tinha se inscrito- ...pode me chamar do que quiser, babe.

Keith revirou os olhos e lhe desferiu um soco de mentira no ombro, arrancando um riso soprado da parte de Lance.

—Você já tentou essa na primeira vez que nos falamos, idiota. Não pense que vai me seduzir duas vezes com a mesma cantada.

—Ohh, então quer dizer que da primeira vez funcionou?

—Claro que não -mentiu- Eu sou bem mais difícil do que isso.

Lance sorriu. Keith sentiu como se o coração fosse pular do peito, de novo.

—Jura? Hmm...fico curioso pra descobrir qual seu limite.

Certo, isso podia ser muito mal interpretado. Keith se limitou a bufar, lhe virando as costas, forçando o outro a segui-lo de uma forma bruta que encobrisse o fato de seu rosto ter sido imediatamente tingido de vermelho.

—Vamos logo, Don Juan. Ou quer perder sua primeira visita ao melhor café da cidade?

—Conte comigo -suas pernas compridas logo alcançaram seu passo, e Keith percebeu que teria que andar com o dobro da velocidade normal para que ficassem emparelhados- Com a recomendação do melhor guia da cidade? Eu não perderia isso por nada.

Deus, ele conseguia até mesmo ouvir seu sorriso. Lance era, realmente, o irresistível em pessoa.

A tarde dos dois se desenrolou da forma mais natural possível, e Keith mesmo teve de entregar-se surpreso ao fato de que os dois se davam extremamente bem logo de cara. Imaginou que aquele primeiro encontro seria um desastre de momento desconfortáveis e falas irresponsáveis que lhe causariam arrependimento, mas na verdade, era fácil ver que Lance estava tão nervoso quanto ele.

Tirando o fato de terem esperado 20 minutos um pelo outro quando estavam literalmente de frente, e o outro fato de que estavam usando exatamente os mesmos tênis (exceto que os de Lance eram quase três números maiores), transformavam qualquer momento estranho em motivo de riso e o viravam ao contrário. Keith estava se divertindo, e muito, e não precisava ser nenhum gênio ou Pidge para ver que a química entre eles era, como podia dizer?

Bem, eles quase que se completavam. Ou melhor, contrastavam, o que um tinha a dizer, o outro sempre tinha resposta, fosse ela concordando ou discordando, e a discussão rolava por horas, frequentemente acompanhada de piadas que Keith sabia que iam comentar mais tarde, por mensagem.

Tudo estava dando tão certo que Keith podia até ignorar as vezes em que suas mãos se tocaram por um breve, muito breve momento, talvez apenas alguns segundos, mas o bastante para enviar um choque elétrico diretamente em sua espinha, o deixando de repente 100% alerta sobre todos os pelos se arrepiando na nuca e todos os nervos das costas da mão, assim como a temperatura do corpo de Lance que agora permanecia em sua pele, durante os nanossegundos em que escorregava nas próprias palavras e fazia Lance perguntar, com humor “o que foi, viu algum fantasma, caçador de criptídeos?”.

E também tentava ignorar o gesto quando acontecia de novo, e de novo...já era, o que, a quarta vez?

Em algum ponto pelo fim da tarde, depois de uma visita à loja de vinis favorita de Keith em todo o mundo (“Se você sair daqui de mãos vazias, não precisa nem voltar – é sério”), enquanto riam alto como uma dupla de moleques que acabava de ver um manequim pelado, Lance perguntou qual era o melhor ponto por perto para verem o mar.

—Sabe, no caminho pra cá, a parte em que eu fiquei acordado, eu percebi que essa costa é meio que o lugar onde eu costumo fugir da escola pra surfar. Então, tipo, deve ter algum ponto em que a gente possa ver o oceano, certo?

—Na verdade -Keith temia por aquele desfecho, mas agora, seu rosto tão perto de Lance, encostados contra um muro pichado de grafite, não tinha espaço em sua mente para se preocupar com a maresia de um acostamento-, tem, sim. E eu posso te levar lá. Mas, escuta, é longe.

Pegaram um ônibus até uma encosta, e seguiram o caminho a pé. No meio do percurso, Lance começou a contar histórias de seus sobrinhos no último Natal, e fez toda a fatiga valer a pena enquanto a trilha ia ficando mais e mais íngreme, e já era possível sentir no chão batido alguns grãos de areia.

—...e aí, a árvore, os enfeites, todos os presentinhos de plástico e a estrela de Belém desabaram bem no meio da sala, e a miúda nem parecia sentir nenhum remorso! Olha, eu não acredito, esse é literalmente o motivo pelo qual a gente não deixa mais luzinhas de Natal chegarem perto da...

—Lance -chamou, um sorriso no rosto, lhe estendendo a mão de cima da encosta- Vem ver.

O outro esticou-se para encontrar seu toque, e agarrou-lhe o pulso enquanto Keith o içou para cima. Jogaram-se ambos sentados na grama misturada com barro e areia que forrava a encosta, e à frente de si, apenas metros e metros de arquipélago. Pedras negras que partiam as ondas e formavam aquele ruído que Keith achava terrível, areia tão branca que não parecia ser algo da Terra, o céu mais azul que provavelmente teriam naquele ano, e...

Claro, o mar. Quilômetros de uma água esverdeada que Keith viu cintilar espuma e o reflexo do sol começando a ameaçar se pôr diretamente nos olhos de Lance, e o coreano finalmente percebeu o tom escuro de azul que lhe cobria as íris.

—Keith -ele praticamente soprou, sem querer tirar os olhos da imensidão azul que se estendia à frente dos dois- ...puta que pariu.

—É -riu de leve, sem querer tirar o outro de seu transe estético- Eu nunca venho aqui, descobri esse lugar por acaso. Mas imaginei que você fosse amar isso aqui.

Ficaram em silêncio por um tempo. Pelo canto do olho, Keith percebeu um sorriso de canto que rapidamente tomou conta do rosto de Lance, e era como se aquilo fosse a coisa mais linda que ele já tinha visto, e se ficasse cego agora, não iria nem se arrepender. Keith se concentrou nesse seu olhar e tentou fazer com que sua mente o registrasse como uma foto polaroid.

—Sabe, isso até me lembra uma vez que...

Lance quebrou a atmosfera confortável com mais uma história, e a pressa em lembrar-se dos detalhes pegou Keith desprevenido, arrancando de si um riso baixo que reverberou em seu peito como o vento que uivava em seus ouvidos, e ele nem estava incomodado.

Enquanto Lance falava e falava sobre salsichinhas serem a melhor invenção do Homem para acompanhar refrigerante – ou algo do gênero -, Keith prestava atenção em cada ruga de seu rosto, em cada gesto de suas mãos de dedos compridos, em cada vez que aquela marca em seu pescoço subia e descia com o ir e vir de sua voz, e a forma com que seus olhos se apertavam com a risada, e como suas orelhas eram grandes em comparação a todo o resto.

Ele continuava falando sobre salsichinhas, e Keith não sabia mais. Só continuou encarando seu sorriso, e pensando consigo mesmo o mesmo mantra de sempre.

Wow. Estava fodido.

E não tinha o menor problema com isso.

Notas finais
mereço reviews por essa volta do túmulo? <:3c