Wave
1 Wave
***Aquele era um dos sete pecados, mas nem mesmo daquilo me dava conta, justamente pelo fato de não ser algo novo; por estar decididamente acostumado... Com aquela sensação. Ao contrário do que qualquer um imaginaria, eu não estava com sono, apesar de tudo, mas estava, sim, sentindo as primeiras pontadas de cansaço. Como se este pedisse licença para invadir meu próprio corpo nutrindo uma educação até então não perceptível. Como se fosse uma espécie de troca, afinal. Era assim que funcionava: eu doava ao meu corpo o álcool; ele, em troca, fazia com que eu me cansasse do modo mais demorado e julgava dessa forma tudo muito correto.Mas não era sobre cansaço que ia divagar. O que era mesmo? Ah sim, a preguiça. Agora eu via sentido no fato do cansaço ter sido lembrado com antecedência. Antes da preguiça sempre viria essa sensação de moleza, vontade de permanecer no mesmo lugar, exatamente do mesmo jeito, nutrindo dificuldade até mesmo em respirar, como se tal coisa fosse a tarefa mais complicada do mundo. Quando eu estava deitado sobre a cama, largado sobre o sofá ou somente sentado, encostado contra a sacada — como era o caso — as coisas se tornavam mais complicadas, já que meu esforço praticamente se redobraria.
Fazia frio. Mesmo que eu não estivesse com frio — mantendo-me agasalhado — notava que o tempo não se mostrava muito bom. Havia uma pequena quantidade de neve lá fora — denunciando o inverno sombrio de Dezembro -, mas também havia muita química no meu corpo, suficiente para mantê-lo aquecido por longos minutos antes dele chegar e me encontrar. Obstante, eu levaria sermão por ter bebido; ele também bebia e até aí era uma coisa normal. O problema estava na quantidade exagerada que eu ingeria. Nas vezes em que eu me esquecia completamente de algo importante, que ele queria ou precisava me falar. O problema estava principalmente no fato de eu dizer certas coisas que queria dizer a ele somente quando estava bêbado. Definitivamente bêbado.O que felizmente não era o caso, ainda que eu decididamente houvesse exagerado. Um pouquinho...[So close your eyes][Então feche seus olhos][For that\'s a lovely way to be][Pois esta é uma adorável maneira de estar]Geralmente eu me dava conta da quantidade, mas isso apenas acontecia de manhã, quando vinha a ressaca, a dor de cabeça e aquela sensação horrível de enjôo que não passava até pelo menos a metade do dia ou o fim dele. Em tais circunstâncias vinha o peso na consciência e a frase clássica digna de um conhecido \'porre\': "Nunca mais na minha vida irei beber!" Saía assim mesmo, com indignação, remorso e raiva. Para, no fim das contas, não adiantar absolutamente nada. Dois dias depois – ou menos que isso – lá estaria eu e minha fiel companheira, a garrafa de vodka.Ele brigaria comigo por mais o que mesmo...? Ahn, eu havia bagunçado o apartamento dele. Havia acabado com algumas garrafas do barzinho dele. E, principalmente, havia pegado a cópia da chave do apartamento dele, sem ter pedido autorização. Correto. Poderia dizer que estava ferrado então. Era bom pensar em alguma coisa do tipo até acabar dormindo e cogitar a possibilidade de não ouvir absolutamente nada do que ele fosse me falar depois.- Die.Aha, tarde demais. Não tão tarde, na verdade; poderia momentaneamente fingir que estava dormindo, mantendo os olhos fechados e a respiração equilibrada. Certamente ninguém perderia um pouco do seu tempo a fim de falar com alguém que estivesse dormindo, exceto se estivesse no mesmo estado que eu ou um pouco pior. Tratando-se dele, não deveria ser o caso, mas justamente para me contradizer ali estava eu erguendo a própria mão, chamando-o através dela fazendo-o sem saber de onde havia unido forças.Eu era patético demais, tinha que admitir. Mesmo que não precisasse dizer aquilo ao pé da letra. O meu rosto afundado entre meus braços, meu corpo preguiçosamente encostado contra a sacada e os meus olhos levemente avermelhados já eram suficientes para negar qualquer coisa que fosse contra aquilo. E no fim das contas eu merecia, sim, a série de sermões que geralmente se seguia, houvesse algum compromisso com a banda no dia seguinte ou não. Responsabilidade? Nunca consegui ter por conta própria, então não haveria de ser de um dia para outro, nem de um momento para outro, nem de quatro anos, dez meses e três dias passados.Era o tempo em que eu e Kaoru estávamos juntos.Mas estaríamos juntos mesmo...? Engraçado me lembrar disso com tanta facilidade e precisão em um momento como esse, esquecendo-me de coisas consideradas importantes. Será que é isso que o deixa tão irritado ou é justamente o fato de eu não falar quando ele quer ouvir?Sem perceber, eu havia mesmo fechado os olhos. Segundos depois me recordei que aquilo era algo que eu já fazia por reflexo; quando ele falava, queria que eu olhasse pra ele. Não admitia fazer aquilo superficialmente e dizia que tanto os olhos dele quanto os meus falavam muito mais do que um texto inteiro. Era verdade, sim. Exatamente por isso eu me acostumara a fechar os olhos em momentos como aquele. Mantê-los abertos dava a impressão de que os riscos a serem corridos eram maiores. Parecia, algumas vezes, que Kaoru tinha a capacidade de roubar tudo dentro de mim só me observando, e eu me sentia muito frustrado em não ter a mesma capacidade de fazê-lo; roubar a alma dele como ele havia roubado minha.
Aquilo era o que eu temia no fim das contas. Já pertencia tão completamente a ele que me sentia vulnerável. Principalmente porque sabia que ele não se sentia como se fosse... meu.Repentinamente eu buscava por ar, respirando por entre os dentes e deixando transparecer um arrepio na espinha, apertando os olhos com força. Ao mesmo tempo, mãos gélidas percorriam as minhas costas, por baixo do agasalho e da camisa, e eu identificava agora o peso de um corpo apoiado contra o meu, pressionando–me na direção do concreto que separava a sacada do abismo de oito andares abaixo. A sensação de leveza inicial foi desaparecendo aos poucos.- Frio... — murmurei. Minha voz praticamente não havia saído, ou havia saído rouca demais sem que eu soubesse ter sido escutado ou não.- Você está quente. — pronunciou-se o líder. Somente por isso eu tive certeza de que ele havia escutado. No caso dele, não haveria muitas dúvidas quanto a isso da minha parte, já que ele havia feito questão de se inclinar e sussurrar aquilo no meu ouvido, fazendo-me repetir a árdua tarefa de voltar a respirar e denunciar outro arrepio que se seguira. — E isso não tem nada a ver com a temperatura ambiente, Daisuke.Eu teria me questionado a respeito de não ter escutado sermão algum durante aquele tempo que havia se passado, mas eu o conhecia suficientemente para considerar muito mais sério do que um sermão a pronúncia do meu nome – e não do meu apelido – em junção à forma peculiar que ele encontrara para dizer que eu estava embriagado.Com calma, eu abri os olhos. Sem nem mesmo ter certeza de que era observado, frente a frente — acabaria precisando fazer aquilo em algum momento, afinal. Ao abrir os olhos, porém, me deparei com uma série de luzes coloridas que piscavam harmoniosamente, mas de forma nada discreta. Encontravam-se dispostas e organizadas em volta da sacada do apartamento ao lado, alguns metros de onde eu estava. Nunca nutri grande apreciação por enfeites natalinos, embora gostasse da época do Natal. Particularmente os dias que o antecediam. Ao me recordar do Natal, me dei conta do porquê estava sentado sobre a sacada; me lembrei de que aquele era um dos poucos que a banda estava passando em período de curtas férias. E, finalmente, ao me lembrar daquele feriado cristão novamente, percebi que a chave do apartamento que eu havia surrupiado era do segundo apartamento que Kaoru possuía. Longe da movimentação de Tokyo; de frente para o mar.Foi então que me movi, depois de um bom tempo fixado na mesma posição. Alguns pontos particulares do meu corpo ainda estavam dormentes; o esforço para deslocar meu rosto da direção em que se encontrava para frente custou mais do que o natural. E o fato de eu estar começando a manter o corpo relaxado, conforme sentia a pele dele adaptando-se à temperatura da minha, não ajudava. Um ligeiro arrepio percorreu minha espinha repentinamente, e eu mantive dúvidas a respeito de ele ter provindo da brisa gelada cortando meu rosto ou das carícias que começava a distinguir ao redor das minhas costas, ameaçando a linha da cintura.- Como você está amável hoje... — comentei. A voz saindo um pouco abafada e decididamente rouca. Ele costumava me dizer que gostava quando eu falava daquele jeito, mas justamente pelo que havia pronunciado poderia acabar não recebendo agrado nenhum, como se houvesse acionado um sensível mecanismo. Sensível não era exatamente a palavra que descrevia melhor minha previsão das atitudes de Kaoru, mas, com certeza, eu não precisaria colocar rótulos para ter convicção de que estava certo. O que eu sentia não durou por muito tempo; de pirraça, ele afastara as duas mãos, fazendo com que eu movesse meu corpo até me virar, buscando por elas em um protesto mudo que acabou não tendo real necessidade de ser pronunciado. Logo eu o encarava enquanto ele puxava uma cadeira para mais perto de mim, me trazendo para trás até encostar as costas contra o peito dele. — Realmente amável. A ponto de estar me assustan--Antes que eu pudesse completar o que ia dizer, acabei emudecendo pela mordida que era aplicada exatamente na curva de meu pescoço de forma predatória e lasciva, cessando com um rastro da língua dele percorrendo contra minha pele. Se ele tinha a intenção de escutar o restante da minha frase; se ele tinha intenção de me escutar falar qualquer outra coisa, eu sentia muito lhe informar, mas não poderia mais.É. Talvez eu tivesse me enganado a respeito de Kaoru...- O que você faz na sacada num frio desses?Pensei por alguns minutos. Ele parecia realmente disposto a relevar qualquer coisa que pudesse gerar uma discussão entre nós dois, mas ainda assim eu não encontraria um motivo especial demais que justificasse a minha invasão de privacidade, sem um motivo real além do de querer ficar com ele. De não ficar sozinho e poder deixar o tempo passar sem maiores preocupações além da de simplesmente sentir que ele estava junto comigo.[Aware of things your heart alone was meant to see][Ciente das coisas que só seu coração devia ver][The fundamental lonliness goes whenever two can dream a dream together][A solidão fundamental se vai sempre que dois podem sonhar um sonho juntos]- Nada demais. Só olhando a praia. — respondi em fusão a um suspiro, depois de alguns segundos exagerados em que eu sentia que ele me observava pelo canto dos olhos, enquanto se ocupava em acariciar um de meus braços que tinha envolvido pelo seu corpo.- Você olhando a praia, Die.- As ondas, na verdade. — completei, ameaçando abrir um singelo sorriso não apenas pela conhecida ironia palpável nas palavras que Kaoru dizia como pelo fato de ele ter se referido a mim pelo apelido e não pelo nome. A apreensão que mantinha inicialmente acabou se derretendo em questão de pouquíssimo tempo. E ali estava o controle que ele exercia sobre mim. – O que tem de mal? — questionei, procurando os olhos dele, inclinando o rosto momentaneamente.- Dá no mesmo. Desde quando gosta de praia?Correto. Ao acaso eu havia afirmado com todas as letras: \'eu gosto de praia\'? Não quis contrariá-lo e interpretei o \'desde quando gosta de praia?\' como um: \'desde quando você observa as ondas?\'.Desde quando...?Verdade, eu costumava fugir de praias. Nem eu mesmo sabia a resposta; não tinha motivo. Fato era que eu me achava semelhante a elas, de alguma forma; as ondas. Se fosse reparar bem, voltando a encará-las — bem como me dispunha a fazer uma ou outra vez, ainda que a imensa escuridão da praia não permitisse tal ato com precisão — eu acompanhava praticamente a rotina delas: surgia devastando tudo com furor até desmanchar-me quase imperceptivelmente nos grãos grossos de areia. Vivia nos altos e baixos. Mais discreto quando alcançava o chão; mais ilimitado quando me sentia no alto.O que eu estava pensando...?- Esquece.Comentei, aparentemente sem graça. Kaoru pareceu perceber aquilo, ainda que não soubesse exatamente o que eu havia pensado para ter me pronunciado daquela forma inusitada. Poderia ter imaginado pela expressão que eu já havia feito, mas certeza em cada sílaba seria demais. E independente de nutrir certeza ou não, aquele comentário que se seguiu viria de qualquer forma. Fosse para implicar comigo, fosse por ele simplesmente ter se recordado. Afinal de contas o sermão já deveria ter vindo há muito tempo.- Eu só não estranho porque vi o quanto você bebeu pela bagunça na minha sala.Ah, ele era esperto. Esperto a ponto de me alfinetar enquanto me tinha nos braços dele. A ponto de me manter seguro o suficiente para que não houvesse nenhuma manifestação e talvez até nenhuma reclamação. Os braços dele em volta dos meus eram capazes de me desarmar de um modo que eu era incapaz de explicar com poucas palavras – ou, talvez, até mesmo com muitas delas.- Você sabe que eu não bebo para ficar corajoso. — menti. Aquela era uma mentira deslavada; descarada.- O que eu sei é que não gosto de você bebendo na minha ausência. — rebateu ele, sussurrando as palavras de leve, próximo ao meu ouvido, fazendo com que eu precisasse respirar e inspirar profundamente para responder àquela constatação rotineiramente.- O que eu sei é que não gosto de beber com você, algumas vezes. Você fica ácido. E também... — então ele fazia questão de dificultar as coisas para o lado do meu auto-controle, mordendo o lóbulo da minha orelha. Mas era um filho da... – Kao...
- Eu sei que mordida é algo que você não desgosta, DaiDai. Não faça esse bico.De certo eu mantinha um bico nada discreto estampado na minha cara, bem como uma criança de dez anos que havia sido provocada dentro de um mero coleguismo hipócrita. Aquilo me fez estreitar os olhos de forma ameaçadora — principalmente porque era verdade. Assim como não deixava de ser verdade que eu gostava de provocações e qualquer uma delas me incentivava e despertava qualquer vontade que me consumisse.Afastei minhas costas do peito de Kaoru, até buscar impulso para me levantar no mesmo embalo. O puxei com força, levantando-o e observando-o de modo penetrante até que a aproximação de nossos corpos se tornasse bastante perigosa; meus lábios vez ou outra se encostando contra os lábios dele. - Kaoru... — eu sussurrei o nome dele de forma que, se tivesse usado um tom um pouco abaixo do que havia saído, teria sido impossível me ouvir e decifrar o que eu havia dito. Ainda que até aquele momento fosse apenas o nome dele, o meu ventre prensando o corpo dele contra a divisória de concreto da sacada desnorteava. Eu o beijei no canto da boca, fiz um caminho com a língua até exatamente o mesmo ponto que ele havia usado para me torturar alguns segundos antes. – Não. Me. Provoque. — avisei imitando a mordida que havia recebido — Porque eu sou capaz de transar com você aqui mesmo. Você sabe disso.Quando voltei a direcionar o olhar para ele, vi que não o recebia de forma recíproca. Kaoru havia fechado os olhos; mordia a região inferior dos próprios lábios e inspirava com certo desconforto, soltando o ar de forma aparentemente mecânica. De início aquilo simplesmente era suficiente para fazer com que eu não exigisse mais nada do mundo; nada de mim mesmo ou de qualquer outro ser animado ou inanimado que se encontrasse presente ou não. Era a forma que Kaoru encontrava em demonstrar o quanto pertencia a mim exatamente como eu pertencia a ele. O quão na realidade era submisso como eu era submisso a ele. Eu havia começado a deixá-lo excitado. Algo que não acontecia com tanta facilidade, digamos; mas eu, especificamente, tinha o dom de fazer acontecer de forma quase que instantânea. Kaoru se excitava com toques, gestos, insinuações... Verdade. Mas acima de tudo, Kaoru se excitava com palavras. Talvez exatamente pelo fato de lidar tão bem com cada sílaba, controlando a entonação de cada uma delas — independente do assunto que abordaria — gostava tanto que eu o atiçasse pela fala. Da minha fala despudorada, descontraída e pervertida.Geralmente ele tinha as palavras; as palavras eram o presente dele. Só que, justamente quando eu ansiava por ouvi-las, era ele quem as cobrava de mim. [You can\'t deny][Você não pode negar][Don\'t try to fight the rising sea][Não tente lutar contra o mar][Don\'t fight the moon, the stars above and don\'t fight me][Não lute contra a lua, as estrelas lá em cima, e não lute contra mim][The fundamental loneliness goes whenever two can dream a dream together][A solidão fundamental se vai sempre que dois podem sonhar um sonho juntos]- Sinceramente... Admito que não é uma má idéia. — a resposta viera com certa dificuldade, era perceptível. Mas se mostrava de forma indecisa; aguçando e retraindo. Sabia quando ele estava disposto a deixar-se levar pelas sensações que eu lhe provocava. Aquela não poderia ser considerada uma delas, ainda que a excitação inicial não só colocasse o próprio Kaoru em dúvida como me dividia entre continuar ou parar — já que o troco havia sido dado de uma forma justa. — Mas não se esqueça de que eu sou o líder e você é o guitarrista de uma mesma banda.Deveria ter previsto alguma precaução do gênero. Foi com grande desânimo que eu respondi, enlaçando-o num abraço enquanto isso; minhas íris fixadas nas ondas que infinitamente se formavam na imensidão da praia.- Ninguém vai ver nada... — murmurei manhoso, tocando a ponta da língua agora na curva do pescoço, que se mantinha próximo ao meu rosto, sem maiores dificuldades.- Você sabe que algumas vezes eu costumo deixar de ser discreto quando você transa comigo, Die.Ah, eu sabia. Realmente sabia. Aquilo já havia colocado nós dois em maus lençóis em algumas circunstâncias, mas eu tinha a ligeira impressão de que certas ocasiões tinham valido a pena de ambas as partes. Ainda que tivéssemos nos tornado mais cuidadosos para determinadas coisas, Kaoru algumas vezes sentia dificuldade em segurar gemidos, conter grunhidos, entre outras coisas que lhe fugiam do comando quando o assunto era sexo. E não era qualquer sexo, era o sexo que ele fazia comigo.Eu podia visualizar o meu ego se enchendo como um balão preenchido de gás hélio.- Sei. — assenti inocentemente. — Sei também que posso te beijar aqui e em qualquer lugar a noite inteira pra conter cada gemido que ameace sair da sua boca. — o que eu dissera havia mexido com ele, eu sabia. Era o poder das palavras que surtia efeito, mas desta vez eu notava que o abrir e fechar de olhos que se seguiu denunciava, além de esforço por autocontrole, uma certa paciência que estava sendo testada da maneira mais dissimulada do mundo de forma um tanto imperceptível aos olhos de quem não o conhecesse bem demais ou me conhecesse igualmente. — É tarde, Kao... Ninguém vai ver a gente aqui. — informei, descendo as mãos que se mantinham fixadas na cintura do líder, ameaçando, aos poucos, tocar a pele por baixo da blusa e da camisa que ele usava.- É bom que você esteja ciente de que está tarde. — respondeu ele, bloqueando o caminho que minhas mãos planejavam trilhar com tanta dedicação – e eu voltava a fazer o bico que ele tanto via, insatisfeito por estar tendo o sexo recusado de uma forma tão descarada como aquela.Mas...Agora que ele havia dito, realmente era tarde. Lembrava-me de ter chegado ao apartamento dele havia muito tempo já. Será que se passara tanto assim? Agora eu sentia os efeitos de ter bebido. Independentemente de não ter ingerido tanto álcool, eu já havia pegado no sono e havia acordado. Acordara e me sentara na sacada a fim de ficar olhando a praia e compartilhar de mim comigo mesmo; porque a única solidão que doía era aquela que fazia questão de companhia. E enquanto eu mesmo pudesse me acompanhar nada de mal poderia acontecer. Porque eu já havia me convencido de que era melhor Kaoru não chegar, não ver a bagunça e não me ver bêbado.Simplesmente fingir que eu não existia justamente no dia do meu aniversário.- Onde você esteve? — questionei de repente, piscando de forma perplexa. Não sabia o que havia de errado naquelas três palavras. Mas, independente disso, elas foram as únicas responsáveis por fazer com que o líder finalmente sorrisse da forma sincera que poucos conheciam desde que havia colocado os pés no interior daquele local e daquela sacada.- Achei que nunca iria perguntar. — foi a resposta. Resposta que parecia compreensível demais para ele, mas naquele momento não estava sendo para mim.- Kaoru, eu não entendi.Observei-o suspirar, movendo o rosto de leve para os lados a fim de livrar-se de alguns fios de cabelo que teimosamente insistiam em cair sobre seus olhos pela brisa cortante que batia vez ou outra. Não só os olhos dele estavam fixados nos meus como os meus nos dele. A única diferença não era novidade: ele compreendia; eu me mantinha confuso. Minha atenção havia sido nublada e drenada, direcionada única e exclusivamente para ele, anulando qualquer onda, luz ou vento que tentasse se mostrar inconveniente contra isso.- São três e alguma coisa, Die. — informou ele, afastando alguns fios de cabelo do meu rosto, como tentava fazer para si mesmo, poucos segundos antes; com a diferença de que ele usava as mãos ao fazê-lo por mim, de forma assustadoramente sutil. Eu começava novamente a cogitar a possibilidade de Kaoru estar bonzinho – e assustador demais por causa disso. — Quase quatro. — completou. — Você não se lembra...?[When I saw you first the time was half past three][Quando eu lhe vi pela primeira vez, eram três e meia][When your eyes met mine it was eternity][Quando seus olhos encontraram os meus, foi uma eternidade]Eu neguei com a cabeça, praticamente instantaneamente. Kaoru tinha as palavras. E naquele momento eu não ansiava por elas; praticamente exigia que elas se mostrassem presentes.- Eu fui até Tokyo... — ele começou. — Isso foi bem tarde. Por volta das onze da noite. E quando cheguei lá concluí que você não estava no apartamento, questionando ao zelador se ele havia te visto sair ou não... — assenti novamente. Aos poucos eu começava a entender; começava a me achar um idiota. Mas eu não queria interromper. Porque queria deixá-lo falar. Queria ouvir sua voz. — Ele me disse que você havia descido com uma mala de viagem. Então eu simplesmente voltei para cá....Eu fora obrigado a rir. Verdade que mantivera uma risada discreta, passando a mão pelos cabelos conforme as lembranças invadiam a minha mente em questão de minutos, expulsando qualquer influência química do álcool que pudesse ter sido responsável pelo esquecimento de um fato como aqueles.- Medo. — afirmei, abrindo um sorriso. O primeiro daquela noite, desde que colocara os pés no interior daquele local e daquela sacada, algumas horas antes.Nas curtas férias da banda, Toshiya optara por passar alguns de seus dias com a família exatamente como Shinya. Kyo comentara algo como \'casa e cama\' e sem maiores delongas eu o compreendera. Mas Kaoru não havia informado nada, e por insistência eu soube que ele viria para cá, ocupando-se com a revisão de alguns projetos da banda... Eu havia saído com alguns amigos de tempos e depois estava determinado e migrar de Tokyo, decidido a surpreender Kaoru com a minha chegada aqui.E, ao mesmo tempo, ele havia pensado na mesma coisa.- Eu te odeio. — zombei, puxando-o para um abraço apertado enquanto ainda mantinha meus lábios curvados pela situação se mostrar cômica e peculiar demais. Parecia coisa de filme, afinal. Aqueles desencontros tão absurdos que ninguém nunca imagina acontecer de forma pré-estabelecida.- Não me odeie porque eu fiz duas viagens e não briguei com você pela bagunça. — rebateu ele ironicamente, mantendo um sorriso sincero no rosto, apesar disso.- Claro que não brigou, já sabia que eu estava aqui. — avisei implicante — Não me diga que vai jogar isso na minha cara agora?- É uma boa idéia. Você está tendo ótimas idéias hoje. — comentou, falsamente pensativo — Ainda que girar a chave do meu apartamento e encontrá-lo praticamente destruído pela minha criança não seja exatamente algo muito agradável. A minha resposta foi um beliscão que trouxe consigo uma exclamação boba de dor por parte de Kaoru, que tentou inutilmente imitar o bico que eu costumava fazer, mas não obteve muito sucesso, acabando por fazer uma cara bastante parecida com as que ele fazia quando estávamos no meio dos shows.- Quer dizer então que o sexo... Eu e você; você e eu...?- Eu não disse isso. — respondeu ele, fazendo-se de desentendido, encostando calmamente o rosto contra o meu peito, disposto a escutar o barulho ritmado que se escondia naquela região em particular. — O que você quer que eu diga?- Você realmente está me apavorando, sabia? — indaguei, tentando prolongar a conversa, enquanto pensava em como responder a pergunta que ele havia feito. Kaoru riu, mas inteligentemente não se deixou levar pela tática mal estruturada que eu havia provisoriamente elaborado.- O que você quer que eu diga?Veio a repetição.O que eu queria que ele dissesse?[By now we know][Agora nós sabemos][The wave is on its way to be][A onda está no caminho de ser]Fiquei pensando por um certo tempo. Por um tempo talvez que ele não premeditasse esperar ou não premeditasse ter precisado esperar, ainda que houvesse interrompido qualquer tipo de coisa. Fiquei pensando no que fazia Kaoru, com todo o orgulho palpável que possuía, se dedicar tanto a mim a ponto de realizar duas viagens seguidas em um mesmo dia. Fiquei pensando principalmente em cada momento e cada segundo como aquele que dificilmente tínhamos. Sem preocupação com uma câmera, uma reunião no dia seguinte, um ensaio... Fiquei pensando em como eu conseguia me sentir sozinho com uma junção tão imensa de momentos como esses, abstraindo-os como se não os valorizasse nem um pouco.- Eu até acho bom saber que você ainda desconfia de mim. — quando Kaoru começou a falar essas coisas se fixaram na minha mente. Mas foram se sobrepondo, cada sílaba do que ele falava surtindo um efeito muito maior. — Não acho que teríamos conseguido manter alguma coisa por tanto tempo sem esse nível saudável de desconfiança. Mas desconfiando ou não, eu quero poder estar com você hoje.
Pisquei algumas vezes. Aparentemente deveria estar tão perplexo com o que acabara de escutar como ficara surpreso com a explicação se mostrando presente, segundos antes. As mãos dele segurando o meu rosto com aquele cuidado todo ajudavam; a aproximação que ele criou depois daquilo também. E a respiração dele contra a minha pele em junção aos lábios se encostando contra os meus basicamente concluíam.- Depois você me estranha por ficar olhando a praia?Tão difícil quanto excitar Kaoru; quanto fazê-lo abstrair seu orgulho e narcisismo por uma série de coisas; ou quanto ignorar certas ironias em determinados momentos era negar um beijo de Niikura Kaoru quando este era quem tomava a iniciativa. Quando ele mostrava-se determinado a demonstrar tudo o que sentia de forma incondicional sem receio ou temor a partir de uma iniciativa que denunciava claramente ser sua.Eu já havia ganhado beijos que lembravam aquele: lentos, demorados, precisamente degustados. Havia sentido no toque de lábios e dançar de línguas muito mais do que a libido poderia proporcionar em questão de tempos; já havia, tinha convicção disso. Mas, ainda assim, eu tinha mais certeza ainda de que Kaoru nunca havia me beijado daquele jeito; nem eu havia retribuído à altura. Independente de aquilo estar sendo marcado pela junção de dois fatores, duas pessoas e dois sentimentos, eu conseguia sentir muito mais paixão vindo de Kaoru. Muito mais vontade, apreço. Mas ainda não era essa a palavra...- Ainda não disse o que você quer que eu diga. — ele questionou, fingindo impaciência, depois de finalmente termos cortado o beijo. Suas mãos passeavam sobre meu rosto enquanto as minhas trilhavam a cintura dele.- Você já disse. — respondi, alargando um sorriso que ali mesmo já se mantinha há um certo tempo — Acabou de dizer, ainda que eu faça questão de que diga de novo.[Just catch the wave don\'t be afraid of loving me][Apenas pegue a onda, não tenha medo de me amar][The fundamental loneliness goes whenever two can dream a dream together][A solidão fundamental se vai sempre que dois podem sonhar um sonho juntos]***
Notas finais
Dezembro/06
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