Watck - We Are The Cool Kids
8 EVERY E LIAM
Notas iniciais
(Trilha sonora — Abertura ♪ Fun ft Janelle Monáe — We Are Young)
Liam observou o trem passar por ele diminuindo a velocidade, até parar completamente na plataforma com um chiado alto. As portas se abriram e os funcionários do vagão saíram pra fora, ajudando alguns passageiros com as malas e verificando os bilhetes das pessoas que esperavam para entrar no vagão.
Quando tudo se acalmou e o terceiro aviso soou pelo ar, Liam foi até seu vagão e entregou o bilhete para o funcionário, que furou ele com uma pequena máquina e deixou Liam passar. Liam caminhou por entre as poltronas cheias até seu lugar. Se jogou sobre a poltrona, deixando sua mochila cair de qualquer jeito aos seus pés.
Estava cansado, inseguro e triste.
Queria estar sentindo outras coisas, afinal, estava indo ver a namorada depois de não a ver por mais de três semanas. Mas estar sentindo cansaço, insegurança e tristeza eram mais um dos sinais que as coisas estavam erradas entre eles.
E pensar sobre aquilo fazia Liam ainda mais cansado, inseguro e triste.
Ele suspirou, tirando o iPhone do bolso e plugando os fones de ouvido, encostando o ombro na janela e observando lá fora. Os últimos passageiros se ajeitaram e o trem tomou velocidade, se distanciando de Bristol.
Liam tentava não imaginar muito como seria chegar de surpresa em Londres, por que depois ficaria desapontado se as coisas acabassem não sendo bem do jeito que ele imaginava. Mas ele queria apenas conversar com Dani, ter certeza que tudo estava bem, que eles ainda se amavam apesar da distância, apesar do momento ruim que estavam passando, apesar de tudo. Liam amava ela afinal de contas. A amava muito, e a cada metro percorrido pelo trem ele se dava mais conta disso.
Engoliu a seco sentindo que estava com vontade de chorar.
Só estava se sentindo muito inseguro, mas tinha certeza que Dani estaria lá pra beijar ele e colar seu corpo no seu, dizendo que tudo ia ficar bem.
Every abriu os olhos, ainda um pouco sonolenta, com o corpo cansado. Se espreguiçou, mas suas mãos bateram em alguém. Ela se virou e viu as costas de Ed. Ele dormia virado de lado, de costas pra ela. Ela sorriu, lembrando da noite passada.
Ed era um cara muito, muito especial.
Fazia muito tempo que Every não conhecia ninguém assim, que ela se identificasse tão rápido, que ela se sentisse tão confortável quando estava perto. E que fosse tão lindo.
Ela e Ed podiam conversar sobre tudo. Ele parecia entender ela. Ele também tinha um pai rico, uma mãe que nunca via, e um irmão. Tudo bem, Frank não era como Max, mas que seja. O pai de Ed também não era como o pai de Every.
Ela gostava tanto de Ed que estava pensando em conversar sobre isso com ele.
Ela nunca tinha conversado sobre o pai com ninguém, a não ser com Max. Nenhum de seus amigos sabia, ninguém. Seria legal desabafar...
Mas por enquanto, deixou ele dormir. Ela ficou vendo as costas dele, lindas, cheias de pequenas manchinhas de sol.
Escutou um telefone tocar em algum lugar. Ed resmungou algo do seu lado, se virando na cama.
_Que horas já são?
Every estendeu a mão pra pegar o celular, mas esqueceu que não estava na sua casa e não sabia onde estava seu celular.
O telefone continuou tocando, então Ed se levantou e foi até lá.
Every ficou deitada na cama, olhando em volta. Aquele era um quarto tão legal. Podiam ficar ali o dia todo, pedir comida, assistir filmes antigos e depois fazer sexo de novo. Tinha sido tão bom na noite passada...
De repente, escutou o barulho da porta se abrir. Ed começou a conversar com alguém, mas durou menos que um segundo, logo tudo ficou no silêncio de novo. Every ainda esperou mais um pouco, mas Ed não apareceu, então ela resolveu levantar e ir ver onde ele estava.
Pegou a camiseta de Ed que estava jogada no chão, vestiu sua calcinha e foi descalça até a sala. E escutou um murmúrio baixo. Ed estava ainda falando com alguém, mas muito baixo.
Ela entrou na sala e viu Ed de costas pra ela, a alguns metros, perto da porta de entrada, e Frank estava com ele. Frank dizia algo, e os dois pareciam discutir.
_Você não pode fazer isso com ela Ed...
Mas Frank viu Every ali parada e ficou em silêncio na hora. Ed percebeu e se virou, dando de cara com Every. Então ele sorriu.
_Ei. Bom dia.
_Bom dia _Ela respondeu, ainda sem saber o que ela estava atrapalhando.
_Olha, a Ana mandou eu devolver isso _Frank disse meio sem jeito, se afastando do irmão e indo na direção de Every, estendendo o aparelho celular.
_Obrigado.
Frank ficou um pouco parado, olhando pra ela. Depois, deu as costas e foi em direção a porta.
_Ed, não esqueça, temos um avião amanhã logo cedo. Não perca a hora. _Frank então se virou de novo e se despediu de Every, sumindo pela porta. Ed foi até Every e suspirou, a abraçando pela cintura.
_Então, vamos pedir um café da manhã caprichado?
_Eu estava pensando nisso _ela respondeu, sem conseguir conter um sorriso.
Deixou o celular na bancada da cozinha, do lado do celular de Ed, enquanto ele a beijava. Ele então olhou pra bancada e sorriu.
_Nossos celulares são iguais. Isso deve ser um sinal. _Ele olhou pra ela e deu um beijo leve nos lábios dela _Um sinal que somos feitos um pro outro.
Como não se apaixonar?
Liam desceu do trem e olhou para os dois lados. As pessoas a sua volta pareciam saber exatamente para onde ir, e ele não sabia. Se sentia meio sozinho.
Olhou pro trem, parado as suas costas e pensou se não seria mais fácil simplesmente voltar pra casa e deixar aquilo pra lá, mas sabia que precisava fazer aquilo, então suspirou, ajeitou a mochila nas costas e seguiu as pessoas pela estação de Paddington.
Naquela hora da manhã as coisas estavam mais tranquilas, então ele conseguiu andar por lá com calma, comprar seus bilhetes de metro e ficar olhando algumas vitrines. Talvez devesse comprar algo pra levar pra Dani.
Ficou pensando sobre isso, mas decidiu não comprar nada e ir de uma vez pra casa dela. Entrou no metro e ficou olhando a sua volta. Estava em Londres, e as pessoas pareciam tão diferentes das de Bristol. Elas pareciam tão mais sérias, tão mais cinzas.
Liam gostava de morar em Bristol, e diferente de muitos amigos, ele queria continuar por lá, perto da sua família e tudo mais. Mas sabia que Dani adorava aquela cidade.
O metro parou e ele desceu na estação de Kenton depois de fazer algumas baldeações.
Agora, enquanto andava pela rua, sua barriga começava a se contorcer um pouco de nervoso. Em algumas horas ia poder ver Dani, e mesmo com toda insegurança e incerteza, ele não podia evitar sorrir.
Se fechasse os olhos podia até sentir o perfume dela.
O prédio dela era um pouco mais a frente, em uma rua cheia de prédios parecidos com fábricas. Era distante do burburinho e das ruas cheias de turistas do centro. Quando parou na frente da porta, seu coração batia tão forte que ele teve que respirar fundo antes de apertar o botão da campainha.
Em silêncio ficou esperando alguém falar no interfone, mas nada aconteceu.
Tocou mais uma vez a campainha, e de novo, não teve nenhuma resposta.
Se afastou e olhou para as janelas do prédio, todas fechadas. Ninguém estava ali.
“Que droga” pensou. Ele imaginava que ela ia estar lá esperando por ele, de alguma maneira, mas aquela era a vida real, e enquanto ele estava lá, querendo fazer uma surpresa pra ela, ela estava em algum lugar daquela cidade vivendo sua vida.
E agora, o que ele ia fazer enquanto esperava?
_Eu não quero ir embora amanhã cedo... _Ed murmurou, enquanto dava a última mordida na sua torrada.
_Então fique. Podemos dar uma volta hoje. Posso te apresentar pros meus amigos, pro meu irmão. Podemos ir jantar num restaurante ótimo que tem aqui no centro, eu sempre quero ir lá, mas é caro demais pros meus amigos... e é um pouco romântico demais também.
Ed sorriu, bebendo mais um pouco do seu café.
_Parece ótimo.
Every sentiu seu coração aquecer.
_Então, você vai ficar mais um pouco?
_Acho que posso trocar minha passagem pra quarta. _Ele sorriu, fazendo Every sorrir também.
(Trilha sonora — Liam e Dani ♪ The Wanted — Warzone)
A garçonete colocou um prato de sopa na frente de Liam, que agradeceu gentilmente.
Ela sorriu em retorno, e ficou ali do lado.
–Você não é de Londres né? –Ela perguntou, com um sotaque diferente que Liam não sabia dizer de onde era.
–Não. –Ele sorriu –Sou de Bristol.
–Eu percebi. As pessoas de Londres não dizem tantos obrigados assim.
Ele olhou pra colher ao seu lado e torceu o nariz.
–Olha, pode levar isso que eu não vou usar. Tomo direto da tigela mesmo.
A garçonete deu risada, olhando pra ele com aquela cara de quem não entendeu.
–Eu sei, eu sou esquisito. Eu não gosto de colheres.
Ela sorriu de novo.
–Ah, por isso que eu gosto de Londres. Todos os dias, uma coisa surpreendente.
Ela deu as costas e foi atender outro cliente que já erguia o dedo no ar.Liam então segurou a tigela de sopa e com cuidado, bebeu um pouco do caldo.
Já passava da uma da tarde e ele tinha ficado sentado na porta da casa de Dani por três horas, esperando alguém chegar. Tentou ligar no novo celular dela, mas pra variar, tocava e ia direto para a caixa postal. Então ficou cansado e com fome, e decidiu pegar o metro de novo até o centro e procurar algo pra comer.
Tinha achado essa lanchonete em uma esquina, e como estava com frio pensou que uma sopa seria uma boa ideia. E realmente, aquela sopa estava muito boa.
Ficou olhando para as pessoas passando do outro lado do vidro, andando pela rua, parecendo apressadas e sérias. Pensou que Dani devia estar em algum lugar, provavelmente em alguma audição ou nas aulas de dança. Queria tanto poder ver ela que chegava a doer.
E estava quase se esquecendo do por que de estar ali. Só estava louco pra poder abraçar ela, sentir ela, só isso. Tomou mais um pouco da sopa, pegou o celular e mandou uma mensagem pra mãe dizendo que ia ficar no colégio até tarde para o treino de corrida.
Esperava que eles acreditassem, mas também, não estava preocupado com aquilo. Só estava maluco para ver a namorada, e nada mais no mundo importava.
Terminou a sopa e pagou sua conta, se despedindo da garçonete.
Depois andou um pouco pelo centro, tentou mais algumas vezes ligar pra Dani, sem sucesso. Passou pelos teatros, as luzes. Se perguntou quantas vezes Dani já tinha estado por lá e se ela não podia estar em um daqueles naquele momento.
Continuou andando, deixando o tempo passar, até estar entediado e resolver voltar pra casa de Dani. Pegou o metro de novo e andou sem pressa pela rua de paralelepípedos, até se sentar na sarjeta na frente do prédio dela mais uma vez para esperar alguém aparecer.
Pegou seu iPhone e ficou escutando música, cantando baixinho.
Já estava ali a mais de uma hora quando viu Dani cruzar a esquina, lá no começo da rua. No mesmo instante ele se levantou, os olhos brilhando, o coração parecendo querer sair pela boca. Ela estava linda, usava um moletom largo, calças apertadas e amarelas e uma faixa no cabelo, roupa de dança.
Mas o estômago de Liam revirou quando viu que ela não estava sozinha.
Um homem estava com ela, a mão sobre seu ombro, os dois conversando e rindo, ela com a mão na cintura dele, a outra segurando a mão dele sobre o ombro.
O coração de Liam parou por um segundo.
E nesse segundo, Dani aproximou o rosto do cara que estava com ela e o beijou.
O corpo inteiro de Liam ficou paralisado, ali no meio da rua vendo sua namorada beijar um outro cara. Ela não tinha visto ele ainda, mas quando virou o rosto não pode deixar de ver Liam, a única pessoa na rua deserta, parado na frente do seu apartamento.
Dani também paralisou.
O cara do lado dela pareceu notar e olhou pra Liam meio sem entender.
–Liam? –Ele pode ver os lábios dela chamando seu nome, mesmo que ela estivesse ainda um pouco longe.
Foi então que ele acordou. Seu corpo queria sair dali, e então Liam virou as costas e correu o mais rápido que pode pelas ruas que nem conhecia. Sabia que ela estava vindo atrás dele, podia escutar sua voz chamando por ele, por isso não parou de correr por um segundo, mesmo que agora as lágrimas não parassem de cair sobre seu rosto.
Ana chegou em casa e se jogou na cama do quarto. Agora que era a hora de chorar ela não sentia vontade de chorar. Só tinha vontade de dormir e acordar daqui a anos, quando aquilo tivesse passado, quando ela já estivesse na faculdade e não precisasse ver Harry todo dia. Quando não precisasse ver Harry nunca mais, o que seria melhor pra ele e pra ela.
Escutou o som de um bipe ao longe. Era seu celular.
Olhou pra cima da escrivaninha e viu ele ali. Então tinha esquecido ele ali no domingo?
Foi até ele e viu que Zayn tinha mandado uma mensagem, querendo saber se ela estava ok. E viu que havia outras oito mensagens de Harry.
Seu coração deu um pulo.
Ela apertou o celular tremendo. A primeira mensagem dizia “Ei, estou tentando te ligar, cadê você? Vêm aqui em casa, minha mãe não está, podemos pedir pizza e assistir aquele filme estranho da garota de cabelo vermelho que você gosta.”. Tinha sido mandado de tarde, no domingo...
A segunda mensagem “Tá ai?”
A terceira mensagem “Atendeeee esse telefone”
A quarta mensagem “Estou começando a achar que você não quer me atender. Fiz algo errado?”
A quinta mensagem “Olha, não sei o que fiz errado, mas me desculpe. Me liga!”
A sexta mensagem “KD VC???”
E a sétima mensagem “Vou dormir. Te vejo amanhã na escola então L”
A oitava mensagem, essa na manhã daquela segunda “Estou no gramado, cadê você?”
Junto com isso, nada mais que onze ligações perdidas de Harry.
A vontade de chorar veio de novo. Se Harry estava com Vitoria, por que tinha passado o domingo a noite ligando pra Ana sem parar? Por que ele torturava ela daquela maneira, se ele não queria nada com ela?
Ana pegou o celular e digitou “Eu amo você”.
Olhou pra mensagem, e apertou o Delete.
Todo mundo olhava pra aquele menino sentado no metrô, chorando feito criança, a cabeça entre as mãos, olhando pra baixo.
Mas Liam não ligava. Ele nem sabia pra onde estava indo, só ficava descendo dos vagões e entrando em outros. Não tinha pra onde ir, nem conhecia aquela maldita cidade.
Mas naquele momento ligava pra isso. Só ligava pro fato que Dani estava com outra pessoa, e não tinha dito nada pra ele.
Desde quando ela estava o traindo? Desde quando ele estava sendo enganado?
Se sentia um lixo e aquilo fazia ele chorar ainda mais.
Decidiu sair do trem, mas ficou ali parado na plataforma, sem saber pra onde ir. As pessoas passaram depressa por ele, olhando feio por ele estar no meio do caminho. Uma velhinha olhou preocupada pra ele, mas se afastou, achando que ele era um pouco maluco demais pra precisar de ajuda.
Liam limpou o rosto e apertou a mochila nas costas.
Se sentia tão, tão pequeno.
Naquele momento, sentiu algo tremer em suas costas.
Devagar, abriu o zíper da mochila, pegou seu celular e viu o nome de Dani no identificador de chamadas. Ficou olhando pra o celular, tremendo em sua mão, o nome de Dani ali. Ela estava em algum lugar, ligando pra ele. Ele tinha vontade de atender, quem sabe ela tivesse uma boa explicação pra aquilo, quem sabe ele tivesse entendido errado?
Mas a cena de Dani beijando aquele cara que não era ele passou de novo na sua cabeça, no mesmo instante que o celular parou de tremer. Tinham quarenta e sete chamadas não respondidas, a maioria de Dani, e algumas de seus pais.
Aquilo fez Liam querer gritar.
E ele deu um grito, jogando toda sua raiva pra fora.
Tinha sido traído! Tinha ido até ali pra pegar a garota de seus sonhos nos braços de outro cara, tinha decepcionado a família, tinha perdido muita coisa. E com toda sua raiva, jogou o celular com força no trilho do trem. Nesse mesmo instante, escutou o barulho e o vagão do metrô avançou pela plataforma, passando por cima do celular de Liam.
O vagão parou a sua frente e abriu as portas, e logo outras pessoas estavam a sua volta, o empurrando, tentando passar.
Ele precisava sair dali. Saiu da estação, e viu que estava no centro da cidade. Já estava escuro lá fora, e todos os painéis iluminados estavam ligados. Os teatros, brilhando, as pessoas andando por Londres, os turistas, o movimento. Mas Liam se sentia extremamente sozinho.
Continuou andando, tentando engolir as lágrimas.
Do outro lado da rua, viu o mesmo restaurante que tinha ido naquela manhã. Tinha gostado de lá. Talvez pudesse se sentar um pouco e se acalmar.
Entrou no restaurante sem olhar pra ninguém. Ninguém olhou pra ele também, todos muito ocupados com suas conversas, com sua comida, com sua vida. Liam procurou uma das mesas do fundo, perto da parede de vidro que dava para a rua. Assim podia se distrair um pouco olhando as pessoas passando.
Só que no momento que se sentou esse casal passou do outro lado, andando pela rua abraçados e rindo, e a garota parecia com Dani. Os mesmos cabelos revoltos, o mesmo corpo magrinho. E Liam se deu conta que nunca mais andaria daquele jeito com ela.
Nunca mais poderia abraça-la e sorrir ao seu lado.
E aquilo fez ele começar a chorar novamente.
Mas Liam não queria mais chorar, então ele tentava engolir o choro e limpar as lágrimas o mais rápido que podia na manga da blusa.
–Ei, é o garoto educado de novo. Quer mais uma sopa sem colher?
Liam olhou pro lado e viu a garçonete parada olhando pra ele, com o bloquinho na mão, sorrindo.
–Ei, o que há com você?
Liam limpou depressa o rosto com as mãos, tentando parecer bem.
–Não é nada. Nada. –Puxou a mochila e enfiou a mão no bolso dela para procurar a carteira e pedir outra sopa. Mas não encontrou nada ali. Jogou todas as coisas sobre o banco e viu que ela não estava ali, definitivamente.
Tinha perdido sua carteira. E lá estavam as centro e oitenta libras que tinham sobrado do dinheiro que o amigo de Ana tinha o emprestado, além do bilhete de volta pra Bristol.
Aquele dia ficava cada vez pior.
E aquilo era demais pra ele. Olhou desolado para a garçonete. Agora estava em Londres, sem conhecer ninguém, sem dinheiro, sem celular, sem namorada, sem nada. Apoiou os braços na mesa, escondeu a cabeça ali no meio e começou a chorar de soluçar.
Sentiu a garota sentar ao seu lado e passar a mão pelas suas costas.
–Calma, calma. Está tudo bem.
Não. Não estava nada, nada bem.
Ed puxou a cadeira e Every se sentou.
Estava ali, no meio daquele restaurante maravilhoso. Era feito todo de paredes de vidro, e ela podia ver a margem do rio, a torre da igreja do parque, iluminada. Lá fora já estava escuro. Era o melhor restaurante, o melhor lugar. Ela suspirou, e olhou pra Ed a sua frente, iluminado pela luz das velas. Ele sorria e começava a contar alguma de suas maravilhosas histórias, mas Every não escutava. Por que naquele momento, sua vida era perfeita.
Então ela só queria apreciar aquilo, o máximo que podia.
Liam ficou em silêncio olhando através do vidro para as pessoas andando pela rua, as luzes refletindo em seu rosto. A garota olhou pra ele, ali parado, quieto, a única pessoa sentada nas mesas.
O restaurante já estava fechado e passava das onze da noite.
Ela terminou de limpar a última mesa e apagou as luzes da frente do restaurante, e caminhou para a mesa que Liam estava sentado, agora quase no escuro se não fosse algumas luzes vindas de onde ficava a cozinha e as luzes da rua.
Se sentou na frente dele e sorriu.
Ele virou o rosto e olhou pra ela, mas não sorriu de volta.
–Está melhor?
Ele não respondeu, só virou de novo o rosto olhando pra rua.
–Vou pegar minhas coisas e então vamos embora, tudo bem?
Ele só balançou a cabeça de novo, e ela se levantou, sumindo por uma portinha do restaurante.
Liam tentou se lembrar do nome dela. Ela tinha falado, um pouco depois de trazer um prato de sopa de graça para Liam. Ela era muito legal, mas Liam estava péssimo. Ele conseguiu contar pra ela um pouco da história quando ela lhe perguntou, inclusive sobre a parte de estar sem dinheiro.
O último trem pra Bristol era as dez, então a garota que ele não lembrava o nome ofereceu a casa dela para ele dormir aquela noite, além de oferecer o celular dela para Liam ligar para alguém vir busca-lo ou mandar algum dinheiro.
A sorte é que Liam tinha uma boa memória e lembrava do telefone de alguns dos amigos. Só precisava falar com Every, Every com certeza tinha dinheiro e podia reservar uma passagem pela internet pra ele, assim ele só tinha que ir até a estação e pegar seu bilhete.
Se pelo menos ela atendesse o telefone. Só estava tocando e tocando.
–Então vamos?
A garota apareceu na frente dele, e ele se levantou, incerto.
Se pudesse, dormiria ali mesmo. Se pudesse, não se moveria por dias. Mas não podia, tinha sorte daquela garota estar ajudando ele, então se levantou devagar e a seguiu pelo corredor da lanchonete até a porta. Ficou esperando enquanto ela trancava o restaurante e depois a seguiu pela rua.
–Conseguiu falar com seus amigos? –Ela perguntou.
–Não. Só dá na caixa postal.
Ela não falou nada, só continuou andando. Os dois entraram em silêncio no metrô, e ficaram esperando ele chegar. Quando entraram no vagão, Liam decidiu dizer algo. Precisava pelo menos agradecer.
–Olha, obrigado por me ajudar. Você nem me conhece, e eu sou muito grato mesmo.
Ela sorriu.
–Imagina garoto de Bristol.
Os dois ficaram um pouco em silêncio.
–Eu sou brasileira –Ela completou –Sei como é estar longe de casa, sem conhecer ninguém. Pode ser meio assustador as vezes.
Ele deu um sorriso triste, e ela também sorriu, baixando a cabeça.
A garota abriu a porta, e deu passagem pra Liam, que entrou sem jeito em seu apartamento. Era um apartamento simpático, apertado mas super arrumadinho e moderno. Cheio de quadrinhos nas paredes, uma colcha de retalhos coloridos cobrindo o sofá, dois abajures antigos.
E um garoto sentado no sofá, segurando um prato de macarrão.
_Liam, esse é meu namorado, Alex.
O garoto se levantou, sorrindo, e apertou a mão de Liam. Liam sabia que seria educado sorrir de volta, mas ele simplesmente não conseguia. Ele notou que Alex olhou pra garota, com um olhar que dizia que ela já tinha contado pra Alex o que tinha acontecido naquela noite.
_Liam, fica a vontade. Você quer comer?
_Não. Acho que não _Ele murmurou. _Acho que só quero...dormir.
_Tudo bem. Você pode dormir no nosso quarto, e nós dormimos aqui na sala. _A garota respondeu, simpática.
_Não, por favor, eu não quero atrapalhar. Não vou dormir no quarto de vocês.
_Bom, só tem nosso quarto _Alex sorriu _É um apartamento pequeno. Mas não precisa ficar com vergonha. De qualquer jeito vamos sair mais tarde, então nem íamos usar o quarto.
_Por que você não toma um banho enquanto eu arrumo o quarto? _A garota perguntou, abrindo um armário que ficava no corredor e puxando uma toalha azul desbotada. Ela passou pra ele, que sentiu o perfume de amaciante na toalha.
Tomar banho era uma boa ideia. E ele nem se importaria de dormir no banheiro, enrolado naquela toalha cheirosa, desde que pudesse se sentir bem de novo.
Liam saiu do banheiro, os cabelos molhados, vestindo a troca de roupas que ele tinha colocado na mochila, pensando que ia dormir com Dani. Aquilo fez ele chorar mais alguns minutos sozinho, trancado no banheiro. Esperou até o choro diminuir, enxugou o rosto e saiu do banheiro.
_Como estava o banho meu chapa? _Alex perguntou. Ele estava perto da pia, secando um prato, enquanto a garota estava lavando a louça.
_Muito bom. Eu queria mesmo agradecer, a ajuda.
Eles dois olharam pra ele e sorriram.
_Não foi nada.
_E Liam, o Alex estava falando, nós temos um pouco de dinheiro, podemos te emprestar amanhã, ai você pega o trem de volta pra Bristol.
Aquelas pessoas eram tão legais. Droga, aquilo dava vontade de chorar de novo, então Liam engoliu a seco.
_Não quero incomodar mais do que estou incomodando.
_Não é incomodo, além do mais a Giovana me disse que você não consegue falar com seus amigos no celular.
Giovana. O nome dela era Giovana. Ótimo. Liam se sentiria muito mal se tivesse que perguntar pra ela qual era seu nome.
Alex se aproximou dele.
_E nós vamos ver nosso amigo tocar hoje, num bar aqui perto. Acho que seria legal se você fosse. Sabe, nada como uma boa música e uns copos de tequila pra esquecer da vida!
_É Liam! _Giovana se aproximou também, empolgada _Eles tem uma banda cover de The Smiths! É a melhor banda cover que já ouvi.
_Eu... _Liam parou. Ia falar que não. Que não bebia, que queria dormir e ficar sozinho. E então pensou em Dani, andando por Londres com outro cara, se divertindo enquanto ele ia nas festas e ficava sempre sóbrio em um canto, pensando nela.
Ele sabia que não podia beber, por que tinha aquele problema de saúde...
Mas aquele parecia um bom dia pra começar a beber. O máximo que podia acontecer seria morrer. E aquele também parecia um ótimo dia pra morrer.
Every sentia o corpo de Ed em cima do seu, fazendo força. Ela tirava a camisa dele com pressa, e ele gemia baixo, a boca colada na sua. A pele ardendo. Levantando seu vestido, a beijando pelo pescoço. Ela sentia que podia derreter. Podia se incendiar.
_Eu te amo _Ela disse baixinho, mais pra ela mesma que pra ele. Não sabia se ele tinha escutado, só sabia que no instante seguinte, ele colocou sua boca na dela e não desgrudou mais.
(Trilha sonora — Liam ♪ The Smiths — Last Nigth I Dreamed that Somebody loved me)
Luzes. Pessoas. Luzes. Música.
Liam escutava e via tudo num borrão.
Tinham acabado de chegar no bar, mas Liam já se sentia tão deprimido que parecia que ele estava fora de si. Parecia que ele não estava ali, que ali só estava seu corpo, só isso e mais nada. E ele mesmo, ele estava a metros dali, ele estava deitado na sua cama, no seu quarto, e estava coberto, e estava dormindo, e nunca mais acordaria. Nunca mais.
De repente, como um soco, a música entrou em sintonia. Ele olhou pra banda, em cima de um pequeno palco no clube escuro e lotado de gente, tocando os primeiros acordes de Last Night I dreamt that somebody loved me, e a letra dizia
Last night I dreamt, That somebody loved me,No hope, no har,Just another false alarm So, tell me how long, Before the last one?,And tell me how long,Before the right one? The story is old — I know, But it goes on, The story is old — I know But it goes on*
(*Tradução= Noite passada eu sonhei, que alguém me amava. Sem esperanças, sem nenhum dano, apenas outro alarme falso. Então me diga, quanto tempo antes da última pessoa? E me diga quanto vai demorar, antes da pessoa certa? Essa é uma história antiga, eu sei. Mas isso acontece. A história é antiga, eu sei, mas isso continua acontecendo)
E ele só queria correr dali, por que aquilo só podia ser uma piada.
O que ele estava fazendo ali? O que ele estava fazendo num bar, numa madrugada de segunda, com duas pessoas desconhecidas, em Londres? Onde sua vida tinha ficado essa bagunça? Quando ele ia imaginar acabar assim?
_Ei Liam, tudo bem cara? _Alex o abraçou, o tirando de seus pensamentos.
_Está gostando? _Giovana veio do seu outro lado, e o segurou pela mão.
Ele não tinha coragem de dizer nada. Eles dois estavam o salvando, e não havia como agradecer.
_Acho que pode ficar melhor depois de um bom Mojito!
_Mojito! _Giovana aprovou._Liam, eles fazem os melhores Mojitos de Londres, você tem que experimentar_ Quando viu, Liam estava sendo arrastado pro bar, e tudo virou um borrão de novo. Alex pediu algo ao barman, e um copo com um líquido claro, gelo e folhas de hortelã foi colocado na sua frente.
Giovana e Alex beberam o deles depressa, metade se foi em um só gole.
Liam parou naquele momento que tudo parece estar em câmera lenta, olhando pra seu copo na sua frente. Ninguém ali sabia o que aquilo significava, e Liam não sabia o que ia sentir, já que nunca tinha bebido nada. Já que não podia beber nada.
Segurou o copo gelado, o envolvendo com as duas mãos.
E em câmera lenta, o levou aos lábios. E tomou tudo, de uma vez.
Ele aguentava mais um, ele aguentava mais um.
Já tinha tomado três, mas aguentava mais um.
Segurou com força na bancada, sua vista ficando turva.
_Ei, vai com calma meu amigo _Era a voz de Alex... mas onde ele estava? Liam só conseguia ver borrões. Viu o cara do bar se aproximar com um copo.
Sentiu a pontada na barriga, como se alguém estivesse o furando por dentro.
Aquilo fez com que ele se contorcesse.
_Liam? Está tudo bem? _A voz de Giovana parecia distante...longe.
Meu Deus, como aquilo doía... ele sentiu as pernas moles, então acabou caindo no chão. Sua vista foi ficando escura, os sons abafados, e de repente, ele apagou.
_Alguém chame uma ambulância _Foi a última coisa que ele pode escutar.
_Eu vou ligar agora mesmo pra trocar minha passagem pra amanhã.
Every sorriu. Os dois estavam na cama do quarto do hotel, e na TV estava passando um filme antigo que Ed adorava e explicava pra Every. Ela não estava entendendo muita coisa, mas estava feliz por que ele parecia estar dividindo algo que gostava com ela, e aquilo sempre era um bom sinal. Já era madrugada, mas os dois decidiram que não iam dormir, que iam ficar a noite inteira acordados, aproveitando a companhia um do outro. Eles teriam muito tempo pra dormir depois.
E agora, ele ia trocar a passagem. Isso só podia significar que ele estava gostando de estar ali tanto quanto ela. Ed se levantou da cama e foi pra sala buscar seu celular, e Every aproveitou para o seguir e ver se achava algo pra beber.
_Olá, boa tarde. Eu gostaria de trocar a data de uma passagem?
Every abriu a geladeira e pegou uma garrafinha de água. Ed parou do seu lado, ainda segurando o telefone e puxou da geladeira uma garrafa de champanhe. Every olhou pra ele e sorriu.
_Sim, eu gostaria de uma passagem pra quarta feira agora. _Ele falava, enquanto Every buscava um abridor _O mais tarde que você tiver. _Every sorriu ao escutar aquilo. Ed puxou o champanhe da mão dela para ajuda-la a abrir.
Nesse mesmo momento, seu celular começou a tremer em cima do balcão, do lado de onde eles estavam. Every e Ed olharam juntos pro celular, e Every foi até lá atender.
_Alô?
“Alo? Alo!”
Do outro lado, Every podia escutar um barulho alto e uma voz que parecia distante. A ligação cortava a todo momento.
_Alo? _Every repetiu. Olhou então no visor e viu um número que não conhecia. _Quem fala?
A ligação caiu. Every olhou de novo pro telefone, e Ed chegou e a abraçou por trás.
_Quem era?
_Não sei... _Ela não sabia por que, mas não estava com um bom pressentimento.
Estava tudo bem há cinco minutos atrás, e agora ela sentia aquela ansiedade...
_Bom...consegui trocar minha passagem. Temos champanhe. Vamos aproveitar _Ed beijou ela bem no pescoço, e ela fechou os olhos sorrindo. O telefone começou a tremer de novo em sua mão.
_Alô? _Ela disse bem alto. Aquilo estava a deixando impaciente. Ela viu Ed se afastar e começar a encher dois copos com champanhe _Alô?
“Oi! Oi! Está me escutando?”
_Quem é? _Every respondeu nervosa.
“Você é amiga do Liam?” A pessoa do outro lado gritou, querendo se livrar do barulho. Uma sirene cortou a voz da pessoa.
_Quem está falando? _Every perguntou de novo.
“Aqui é o Alex! Estamos com o Liam em Londres!”
_Em Londres? _Every perguntou sem entender. Por que Liam estaria em Londres? _Acho que você ligou errado, não conheço nenhum Liam em Londres.
“Não, ele não é daqui!” Every escutou a pessoa conversar com alguém e depois ela continuou falando “Ele é de Bristol!”
Every parou por um momento. Seus sentidos diziam que aquilo era algo importante, mas ela não queria acreditar. Queria acreditar que era só um engano e ela voltaria pro quarto com Ed.
“Por favor, precisamos falar com alguém que conheça o Liam. Ele usou esse telefone para ligar pro seu número, você deve conhecer ele!” A pessoa do outro lado parecia um pouco desesperada.
_Liam Payne?
“Olha, não sabemos o sobrenome dele. Nós conhecemos ele hoje, e ele bebeu demais e agora está no hospital, os médicos estão muito preocupados e precisam de alguém aqui! Alguém que conheça ele!”
Every se sentiu tonta e se segurou na bancada de mármore da cozinha.
Ed olhou pra ela, mas ela fez um sinal que estava tudo bem.
_Como é esse garoto? Como é o garoto que você está falando?
“Eu não sei! Ele é alto, cabelos raspados, olhos castanhos, ele tem essa mancha no pescoço e...”
_Oh meu Deus _Every tampou a boca _Droga. O que ele está fazendo em Londres?
“Moça, eu não sei, só sei que alguém precisa vir aqui. Depressa”
_Ok...eu...eu estou indo. Estou indo ok?
“Ok. Hospital St Mary”
Every desligou o telefone, se sentindo tonta. Então alguém segurou sua mão. Ela olhou pra frente e lá estava Ed, olhando pra ela com uma carinha confusa.
_Que aconteceu? _Ele perguntou baixinho.
_Meu amigo... ele...ele está no hospital. Em Londres. Sozinho.
Ed ficou em silêncio, apenas olhando pra ela de um jeito carinhoso.
_Eu preciso ir lá.
_Ei... calma _Ele a abraçou _Por que você não liga pros pais dele? Ele não tem pais?
Every sentia sua cabeça totalmente embaralhada. Não conseguia pensar em muita coisa, não conseguia entender como aquilo estava acontecendo. Mas, apesar de tudo ela tinha algumas certezas que bastavam: Liam estava no hospital, e ele precisava de alguém.
Ele estava sozinho.
_Ele tem, ele tem. Mas eu preciso ir vê-lo.
Every se afastou, largando o celular na mesa e correu pelo corredor em direção ao quarto. Droga. Estava sem carteira, sem documentos, nada. Precisava ir pra casa. Londres ficava a mais de duas horas de Bristol, como ela podia chegar mais rápido?
Vestiu do jeito que podia os sapatos de salto alto, e pegou seu vestido jogado no canto.
_Every, ei ei. _Ela tentou sair, mas Ed parou na sua frente. _Calma.
_Ed! Meu amigo pode estar morrendo em algum lugar!
_Calma! Ele está no hospital. As pessoas estão cuidando dele. Ele não está morrendo.
_VOCÊ NÃO ENTENDE! Ele bebeu! O Liam não pode beber! Ele tem essa doença, se ele bebe isso pode ... isso pode matar ele!
_Mas... mas eu troquei minha passagem. Eu vou embora amanhã!
Every se afastou um pouco.
Era uma escolha a fazer. A última noite com Ed.
Mas Every sequer pensou naquilo. Pra ela não era uma escolha.
Se ela tinha um amigo, em algum lugar do mundo, precisando dela, aquilo não era uma escolha. Era só uma opção. Uma certeza.
_Ed, eu sinto muito, mas eu preciso ir.
_Mas...
Every beijou ele no rosto com delicadeza, e então passou por ele sem dizer mais nada. Pegou seu celular na mesa e saiu correndo pela porta, mesmo escutando Ed atrás dela, chamando por seu nome.
Every olhou pra paisagem começando a se mover do seu lado. Eram seis e meia da manhã, e aquele era o primeiro trem pra Londres que saia de Bristol. Foi um inferno ter que esperar durante trinta minutos na plataforma, por que nenhum trem saia antes disso.
Na sua frente, a mãe de Liam chorava baixinho, com a cabeça apoiada no ombro do pai de Liam, que tentava a acalmar e parecer seguro, mas Every sabia que ele não estava. Nenhum deles estavam.
Every fez questão de comprar a passagem pra todos eles.
Eles ficaram muito assustados quando ela apareceu na porta da casa deles, as cinco da manhã, e mais assustados ainda quando Every disse o que tinha acontecido. Agora estavam os três naquele trem, angustiados em ter que esperar duas horas de viagem para poder finalmente chegar em Londres.
Ela fechou os olhos, enquanto a paisagem na janela passava mais rápido e ficou repetindo em sua mente “Por favor, que ele esteja bem, por favor, que ele esteja bem”. A imagem de Liam correndo na pista do parque naquele domingo não saiu de sua cabeça.
Agora, pensando com calma, ela sabia por que ele tinha ido pra Londres. Ele tinha apenas um motivo pra ir pra Londres: Dani. E ela não sabia o que tinha acontecido, mas algo devia ter sido algo muito errado. Por que Liam não estava com Dani? Onde ela estava? Ela conhecia Liam, era sua maldita namorada pelo amor de Deus! Ela devia estar no hospital com ele.
Every sentiu seu estômago queimar, então parou de pensar naquilo.
Os pais de Liam olharam pra Every ao escutar aquele pequeno barulhinho abafado. Every, que estava perdida nos seus pensamentos demorou alguns minutos para perceber que o celular estava tocando do seu lado, jogado entre seu casaco. Depressa, ela pegou ele.
_Alo?_ Ela disse baixinho, tentando não incomodar ninguém. Naquela hora da manhã, o trem estava um silêncio só.
“Quem está falando?” A voz de uma garota perguntou do outro lado da linha.
_Com quem você quer falar? É sobre o Liam? _Os pais dele já se moveram nas poltronas da frente, olhando pra Every com apreensão.
“Eu quero falar com o Ed! Por favor, coloque ele na linha” Ela tinha um sotaque americano. Every franziu a testa. Por que alguém ligaria pra ela procurando por Ed?
_O Ed não está aqui... _Every respondeu, achando aquilo estranho.
_Quem está falando?
“É a Suzana, a noiva dele, quem mais?”
Every ficou muda.
“Ouviu, agora passa o telefone pra ele?”
_Eu...como você me achou?
A garota do outro lado ficou um pouco em silêncio.
“Ué, esse é o telefone dele, não é?”
Every afastou o celular e olhou pra ele. Um flash veio na sua cabeça “Até nossos telefones são iguais. É um sinal que fomos feitos um pro outro.” Every lentamente colocou o aparelho de novo na orelha, e percebeu que a garota falava como se nem tivesse notado que Every não estava escutando “eu não vou ficar aqui aceitando ele me mandando mensagem dizendo que vai ficar mais uns dias na Inglaterra! Então por favor, dê o recado pra ele e...”
Every não disse mais nada, só desligou o telefone.
_Era sobre o Liam? _A mãe dele perguntou ansiosa assim que Every desligou o telefone.
Every olhou pra ela como se por um minuto, esquecesse que ela estava ali. Apenas balançou a cabeça em negativa, e a mãe de Liam voltou a se acomodar na poltrona, apertando forte a mão do pai de Liam. Mas ele olhava pra Every. Every olhou pra ele.
_Está tudo bem querida?
Every sentiu os olhos encherem de água, mas apenas segurou o choro e balançou a cabeça dizendo que sim.
Every segurou firme. Segurou firme quando o trem parou na plataforma, finalmente em Londres e ela saltou pra fora, “esquecendo” o celular de Ed no vagão. Segurou firme quando entrou no taxi preto em direção ao hospital. Segurou firme quando a mãe de Liam começava a chorar de novo, e quando o pai dele não parecia mais tão seguro.
Segurou firme quando chegou no hospital. Quando ficaram indo de um lado pro outro desesperados, procurando alguma informação, até um garoto aparecer e se apresentar como Alex, a pessoa que tinha ligado pra Every. Até ele e a garota chamada Giovana contarem pra Every e os pais de Liam o que eles sabiam da história.
Segurou firme pensando em Dani e em como queria saber o que aquela vaca tinha feito pro seu amigo. Segurou firme até acharem um médico. Até saber que Liam estava muito mal e estava sendo monitorado por aparelhos na UTI, e que permanecia desacordado desde que chegou no hospital.
Every segurou firme por sete horas, o tempo que ela e os pais de Liam permaneceram no hospital, sentados naqueles sofás desconfortáveis, sem comer nada, apenas tomando chá e esperando alguma notícia, até um médico finalmente vir e dizer que eles deviam ir dormir, por que Liam não podia ter ninguém no quarto por enquanto, e que qualquer coisa ele avisaria.
Every continuou segurando quando procurou um hotel para tomar um banho, e o pai de Liam agradeceu á ela e a abraçou (nessa hora ela quase cedeu, mas depressa ela o soltou e foi pro seu quarto). Segurou a vontade de chorar no chuveiro.
Ficou andando pelo quarto vazio, se sentindo exatamente assim, vazia.
Não tinha o que fazer ali, naquele hotel. Então foi de novo pro hospital. Não tinha o que descansar. Não tinha o que comer. Estava ali por Liam, então era do lado dele que tinha que ficar.
Segurou firme quando ficou sozinha sentada no sofá. Quando escureceu. Quando os pais dele chegaram. Quase cedeu de novo quando a mãe de Liam sentou-se do seu lado e a fez um carinho. Seus pais nunca faziam um carinho, e naquele momento ela precisava tanto, tanto, tanto de um carinho.
Ela ia explodir.
Não podia mais segurar.
_Senhor e Senhora Payne?
Um médico apareceu na frente dos três, que se levantaram a mesma hora do sofá.
_O Liam foi transferido pra um quarto. Ele está melhor, mas ainda vamos ter que realizar alguns exames e monitorar ele por alguns dias. Ele ainda está um pouco sonolento por causa dos remédios, e confuso, mas parece estar bem. Se quiserem, podem entrar no quarto, um por vez. Para ele saber que vocês estão aqui.
A mãe de Liam deu um gritinho de felicidade, e o pai dele sorriu. Aquele sorriso sem cor, afinal, Liam ainda estava ali e eles não sabiam o que tinha acontecido. Mas então ele olhou pra Every, ali do lado, parecendo tão perdida e cansada...
_Querida, se você quiser, pode ir primeiro.
A mãe de Liam olhou pro marido um pouco confusa, mas ele a abraçou e afagou seu braço como quem diz “Está tudo bem”.
Então a mãe dele a olhou e concordou com o marido.
_Vai querida. Talvez ele queira ver um amigo primeiro.
Every tentou sorrir mas não conseguiu.
Então foi andando, insegura, do lado do médico.
Segurando, segurando.
_Seu namorado vai ficar bem _O médico disse para ela, de um jeito consolador.
Ela olhou pra ele e suspirou.
_Ele não é meu namorado. Ele é mais que isso.
O médico então ficou em silêncio até eles chegarem a uma porta. Ele abriu a porta para ela passar e fechou, a deixando dentro do quarto sozinha. Era um quarto grande, e havia uma cortina cobrindo onde devia ficar uma cama.
Every se aproximou devagar, e puxou a cortina.
Lá estava Liam, deitado na cama alta de metal. Um pequeno tubo de plástico passava por seu nariz, outro estava espetado no seu braço. Ele parecia pálido, fraco e olhava para um ponto fixo na parede, a cabeça virada em uma direção oposta a Every.
Segurando, segurando.
Ele virou a cabeça devagar e a viu ali.
E os dois se olharam por alguns minutos, sem dizer nada. Só escutando o barulho das máquinas, apitando conforme o coração de Liam batia.
Every não pode mais segurar. As lágrimas transbordaram de seus olhos, rolando pelo seu rosto sem que ela fizesse qualquer força. E ela não conseguia parar. Não conseguia.
Liam a olhava em silêncio, até que com um gesto pequeno, estendeu a mão para ela. Ela então foi até ele. Subiu na cama e deitou ao seu lado, o abraçando como podia.
_Eu estou quebrada... _Every suspirou baixinho, entre as lágrimas.
_Eu também. _Liam respondeu num suspiro, afagando as costas de Every. Os dois ficaram um pouco em silêncio, mergulhados em seus pensamentos, até que Liam completou _Obrigado por estar aqui.
Notas finais
Espero que eu não tenha feito vocês chorarem demais.
Por favor, comentem! Cada comentário, cada pessoa que adiciona essa história no favoritos e recomenda me deixa muito-muito feliz. :)
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