Notas iniciais
E vamos às repercussões da noite passada... Boa leitura!

A mão de Darcy ainda repousava sobre seu peito quando Aiden acordou. Ela dormia com os lábios levemente abertos. Teve vontade de acariciar sua cabeça, mexer em alguns fios de cabelo que pendiam sobre sua testa, desordenados, mas teve medo de que isso acabasse por acordá-la. Ela estava tão serena, tão calma... Como ele jamais a viu. Ainda em sua cabeça, passavam-se os momentos da noite passada. Há tanto tempo ele não fazia isso... Mas com Darcy, foi tão natural que nem parecia.

Lembrou-se de Maddie e logo sobreveio a culpa em seus pensamentos. Sentia-se um canalha por tê-la traído. Ela, que estava passando por tantas coisas ruins nos últimos tempos, com a internação do tio – seu pai, por sinal! – com ameaça de prisão a tiracolo, e ele aqui, se divertindo com outra mulher... Que tipo de homem ele era? Nunca imaginou que fosse ser capaz de fazer isso com ela, na verdade, com mulher nenhuma. Em sua vida, mal havia espaço para uma, e cá estava ele, dividido entre duas... A Terra realmente dá suas capotadas de vez em quando.

Levantou-se da cama, bruscamente o bastante para acordar Darcy.

-Já acordou? – perguntou a Assassina, bocejando.

-Sim, sim. – disse, procurando por suas roupas, na verdade, as roupas que Darcy o entregou na noite passada. Achou a camisa branca esparramada em cima da TV, e nem dava pra imaginar como diabos ela foi parar ali. A calça de moletom estava em um emaranhado de roupas misturadas, junto com as roupas de Darcy.

-O que houve? – ela perguntou, estranhando a preocupação em seu rosto.

-Eu... Isso não deveria ter acontecido, Darcy... Desculpe.

Ouviu a Assassina bufar em exasperação.

-Homens, todos iguais... Deveria ter imaginado. Era um casamento de muitos anos?

-Não. – respondeu Aiden, não conseguindo esconder sua vergonha. – Um namoro, apenas.

-Que drama...

-Não é um drama, Darcy. Eu gostava... Eu gosto dela. O que fizemos... Ou melhor, o que eu fiz, não foi correto.

-Aiden, a gente só teve uma transa. Coisa de uma noite. Nada muito sério. Está desesperado com isso à toa. Pode deixar que eu não vou contar para sua namorada, se é isso que está te deixando grilado.

Por algum motivo, as palavras de Darcy doeram. Aiden não sabia explicar. Era para ele estar mais tranquilo agora, não? Darcy não se importou pelo fato dele ser comprometido. Isso não estava bom?

-Quer saber? Você é muito mais certinho do que pensei. Mais um pouco e penso que se casaria virgem com ela... Mas quem sou eu para te julgar, não é mesmo... – comentou despretensiosamente Darcy, pegando o controle da televisão e mudando de canal.

Estava passando um jornal. Era quase oito da manhã. A manchete que passava na TV chamou a atenção dos dois, pois focava no Abbaton Tower, o edifício da Albion onde eles tiveram na noite passada. Não dava para entender o que os jornalistas conversavam devido ao volume baixo da TV, mas estava escrito nos letreiros do jornal a manchete “secretário é brutalmente assassinado na Abbaton Tower”.

-As notícias correm. – comentou Darcy, sentindo-se vitoriosa.

Pegando o controle, Aiden aumentou o volume da TV, para ouvir o resto.

-“Perguntado sobre a morte brutal de Steve Dickinson, o CEO da Albion, Nigel Cass, disse que o Conselho de Administração da empresa já está em busca de um possível substituto e que as atividades do Departamento de Prevenção de Crimes de Imigrantes não serão encerradas...”

A câmera cortou para o próprio Nigel Cass.

“Não, nós não vamos encerrar nada. Nós não vamos nos deixar intimidar por meia dúzia de imigrantes ilegais insatisfeitos com o rigor da Lei. O Departamento foi determinante na redução da criminalidade em distritos pobres de Londres. Se estamos incomodando a escória, é que porque estamos no caminho certo, e quem é cidadão de bem não tem nada a temer. Mais do que nunca, em memória de Dickinson, iremos dar continuidade a seu legado e mandar os ilegais em solo britânico de volta aos seus países de origem.”

Darcy tomou o controle das mãos de Aiden, desligando a TV.

-Merda! – irritou-se a Assassina. – Eu não matei a Gárgula só para vingar o meu irmão. A morte dele era para ser um recado à Albion.

-Pois esse seu “recado” só serviu para deixar o Nigel Cass ainda mais puto da vida. Sua ação na noite passada pode trazer ainda mais tormento aos imigrantes em Londres. Satisfeita?

A Assassina bufou.

-Não adianta, preciso arrancar a cabeça da serpente. Preciso matar Nigel Cass. É isso.

-Matar, matar, matar... É essa a única solução que conhece? – questionou Aiden, pouco se importando com a raiva que tomava Darcy. – Claramente não está funcionando e nem vai funcionar. E sabe porquê? Porque você mata um e tem três aguardando ansiosamente para ocupar o lugar dele. Quantos executivos filhos da puta do colarinho branco não estão doidos para ocupar a cadeira acolchoada de CEO do Nigel Cass?

-Ficar com a bunda sentada na cadeira é que não vai resolver nada!

Aiden parou por uns breves segundos, reflexivo, a observar a ira estampada no rosto de Darcy. Estava bem claro que ela não pararia nem tão cedo, muito menos em Nigel Cass. Um tipo de atitude que lhe soou assustadoramente familiar. Por fim, deixou escapar um suspiro de cansaço.

—Quer saber uma coisa, Darcy? Você é impressionante... Parece que estou diante de mim mesmo, uns vinte anos atrás, cometendo as mesmas bobagens e acreditando piamente em métodos que não funcionam. E quer saber? Não é isso que quero para a minha vida. Não mais.

Aiden levantou-se. Recolheu suas roupas molhadas ainda da noite passada, inclusive seu sobretudo, e as colocou em uma sacola.

-Eu gostei muito da noite que passamos juntos, Darcy. De verdade. Mas não quero mais viver essa vida que você leva. Anos levando essa vida me levaram a um lugar que... O que posso dizer é que eu sei para onde esse caminho que você quer trilhar conduz, e te alerto a sair dele também. Pode rir à vontade do que estou dizendo. Você é jovem. No seu lugar, eu também iria rir. Mas esse seu desejo de querer mudar o mundo sozinha não vai levar mais nada senão sua própria destruição.

Fechou a porta do esconderijo com força, e sem olhar para trás. Do lado de fora, calçou seus sapatos, mesmo ainda impregnados da lama do rio. Não fazia muita ideia de onde estava, mas bastava procurar uma estação de metrô por perto para conseguir ir para casa. Londres era abarrotada delas, com quase uma em cada esquina. Não seria difícil achar uma. Ao sentir a claridade do sol em seu rosto, naquela manhã ensolarada, uma raridade na cinzenta Londres, lembrou-se de seu boné. Com toda a certeza está agora sepultado no fundo do Tâmisa. Seu telefone que se salvou no bolso, entretanto, ainda funcionava perfeitamente. Por isso era tão bom ter um aparelho com peças à prova d’água, coisa que não se achava nas lojas convencionais.

Já embarcado no metrô, sentado em um dos bancos, recebeu uma ligação. Era Volker.

-Cara, você está bem? – perguntou o rapaz.

-Sim, mas por que a preocupação?

-Porra, e você ainda pergunta? Passo para você quem comanda o Departamento de Imigrantes da Albion e na manhã seguinte o cara aparece morto... Aposto que isso tem dedo seu, não é?

Aiden olhou para o lado. O metrô estava vazio. Só havia uma mulher de pé lendo uma revista e um homem ocupando mexendo no celular, provavelmente jogando algum joguinho bobo e viciante. Todos aparentemente alheios à sua conversa.

-Eu não o matei, se é o que deseja saber. Mas consegui apagar a lista de deportação de toda a Inglaterra agendada pelos próximos meses. Refazer aquela lista vai levar muito trabalho para o governo e para a Albion, o que me dará tempo para impedir que seu tio seja deportado por hora, mas ainda assim não resolve o problema. Preciso limpar o nome dele e provar que ele não é um terrorista.

-Boa sorte com isso.

-Você não entende, Volker. Mesmo tendo sido um cretino quase a vida toda, o seu tio não explodiria o próprio caminhão, jamais. Preciso investigar e descobrir como aquela bomba foi parar lá, e com qual propósito. Toda essa bagunça que aprontei na Albion fará o seu tio ficar esquecido e me dará tempo o suficiente para investigar como aquela maldita bomba foi parar lá. Preciso desligar. – disse, ao ver a estação de Brixton no letreiro do metrô. Já era a próxima estação.

Já em casa, pôde dar atenção melhor ao ombro. Não parecia infeccionado, mas estava em um local que era difícil de fazer o curativo sozinho. Nada que não desse um jeito. Estava ocupado, tentando fazer um curativo melhor, quando o telefone tocou. Desapontou-se, ao ver o nome de Maddie na tela do aparelho. Ainda sentia-se mal por tê-la traído na noite passada. Era a última pessoa que desejava conversar naquele momento. Por isso, deixou o telefone tocar, sem atende-lo. Por sorte, tocou apenas uma vez. Talvez porque ela imaginasse que ele estivesse ocupado, ou a própria também estaria muito ocupada, afinal ainda era garçonete de pub e já deveria estar no expediente. O que só fazia Aiden sentir-se ainda mais canalha.

Já tinha planos para aquele dia. Dormir um pouco, comer alguma coisa e começar sua investigação a respeito da explosão do caminhão. Mesmo com o ombro ainda dolorido pelo tiro, sabia que não tinha tempo a perder. Precisava inocentar seu pai o quanto antes, do contrário acabaria morto se deportado para a Irlanda. De um jeito ou de outro. Sim, é verdade que ele poderia simplesmente dar um jeito de fazê-lo fugir do hospital ou da prisão, mas isso só jogaria um homem idoso em uma vida clandestina de foragido da lei, vida essa que ele dificilmente teria energia para se manter. E Aiden só conseguia imaginar todo o trabalho que seu pai teve – e que ele próprio não está conseguindo! – em se manter longe dos crimes do IRA por tanto tempo, e de repente todos esses anos de esforço, a levar uma vida honesta, são desperdiçados por um crime que nem mesmo cometeu. Não. Transformá-lo em um foragido já no fim da vida não seria justo, mesmo com todos os erros de seu passado. Precisava limpar seu nome. Assim, tudo voltaria ao normal. Como os crimes do IRA já prescreveram, o governo não teria motivo para deportá-lo, muito menos prendê-lo.

Passava das duas da tarde quando abriu o computador.

O primeiro passo era começar pelo nome do cliente que recebeu a bomba. Talvez ela estivesse endereçada a ele, ou a algo que estava em sua mudança. Se não encontrasse nada, Aiden teria que partir para os clientes mais antigos do dia, ou até mesmo do dia seguinte. Era uma bomba com cronômetro que pode simplesmente ter explodido no horário errado, porque naquele dia havia muito trânsito e isso atrasou muitas entregas. Pegou a lista de entregas de seu pai a partir de sua agenda – agenda essa que era o próprio Aiden que alimentava, pois ele mal sabia mexer em um celular – e começou a cruzar os dados, pesquisando a vida pregressa de cada um dos clientes.

As informações que encontrou no CToS, com todos os dados dos clientes de seu pai na data da explosão, eram extensas. Variavam desde a hábitos de consumo alimentares, ficha criminal, likes em uma rede social, enfim, uma infinidade de indicadores, o que fez o vigilante recorrer a uma IA para mapear tudo. Levou quase uma hora para processar, mas enfim, saiu o resultado.

-Não é possível... – balbuciou o vigilante. Nada de relevante ou comprometedor foi encontrado. Apesar de nesse tempo como entregador ter atendido todo o tipo de gente, aquele dia nada teve de atípico. Pessoas absurdamente normais, sem ameaças de morte, envolvimento com coisas ilícitas, desafetos, ou seja, nada forte o bastante para receber uma bomba na mudança. Na verdade, a vida de cada um dos que foram atendidos pelos dois naquele dia tinham até traços de ser bastante entediante.

Aiden já estava considerando ir à campo e investigar pessoalmente cada um quando algo lhe veio à mente. A garagem do prédio onde morava seu pai. Ela tinha câmeras. E se a bomba não estava em nenhuma das mudanças? E se ela foi plantada no próprio caminhão? Uma possibilidade. Talvez um velho inimigo dos tempos do IRA tenha encontrado seu pai e visto uma oportunidade de manda-lo para o quinto dos infernos de uma vez, da mesma forma como ele fez com muita gente. A vingança era sempre imprescritível, sabia Aiden, e homens como seu pai não estavam imunes a ela.

As filmagens infelizmente não estavam na nuvem, o que fez Aiden Pearce ter que se deslocar até o prédio onde ficava o apartamento de seu pai – e para seu desgosto, também o de Maddie. Esperava não vê-la por perto, mas a julgar pelo horário, as chances seriam mínimas, pois ela estava trabalhando. Isso o encorajou a ir até lá.

Estava na calçada, com o celular já na mão, buscando um ponto de invasão do sistema de vigilância do apartamento, quando precisou se esconder atrás de um muro. Era Maddie. Ela parecia estar saindo de lá com uma bolsa. Provavelmente, itens para deixar com o tio dela no hospital. Aiden esperou, olhando pelo canto do muro, até que ela estivesse longe. Não queria conversar com ela agora. Não tinha coragem de encará-la ainda. Ou, talvez, nunca mais tivesse.

Mas o vigilante tomou-se de susto quando viu alguém a cercar. Era Rooney, com sua distinta jaqueta de time de futebol e cabelo estiloso de hooligan.

-Oi, Maddie. Quer ajuda para carregar essa bolsa? – ofereceu com a voz melosa. Aiden ficou atento. Se ele fosse agressivo com ela, iria agir.

-Não preciso de sua ajuda, posso carregar essa bolsa sozinha. – disse, sem agradecer. Desviou-se dele. A julgar pela feição de seu rosto, ela estava tensa, provavelmente com medo que ele fizesse alguma coisa.

-Tem certeza? Agora que seu namoradinho morreu, imagino que vá ter que fazer muita coisa sozinha. – disse Rooney, falando alto enquanto via Maddie caminhar para longe de si. Ao ouvir o que Rooney disse, a jovem deteve seus passos, virando-se para ele.

-Por que está dizendo isso?

-Ora, a explosão do caminhão do seu tio. Eu vi nos jornais. E quem diria, seu tio um terrorista... De pensar que aquele velhote me chamava de bandidinho, dizia que você deveria ficar longe de mim... Mas é um hipócrita. Pelo menos não teve o mesmo fim que seu namoradinho...

-Você está louco, Rooney. Aiden está vivo e muito bem.

-Impossível! – exclamou Rooney, causando estranheza a Aiden, que assistia a discussão.

-Quer saber, Rooney? Não estou com tempo para suas conversinhas fiadas. Eu tenho mais o que fazer. – respondeu Maddie, apressando o passo em direção ao metrô. As palavras de Rooney, a certeza quanto à sua morte, deixou Aiden encafifado. Mais do que nunca, precisava ter acesso às câmeras de segurança do prédio.

Invadindo o computador da portaria, Aiden encontrou com facilidade o arquivo gerado nos dias próximos à explosão. Como ainda se recordava do horário em que acabou o expediente no dia anterior, foi fácil encontrar o momento em que o caminhão foi estacionado na garagem do prédio pelo seu pai. Ver o pobre caminhar pelo lugar, sem fazer ideia do que estava prestes a acontecer... Isso chateou Aiden, e só o deixou mais determinado a encontrar a verdade.

Avançando o vídeo, Aiden aguardou um pouco, até que notou um movimento estranho na tela. Voltou mais um pouco a gravação, e depois avançou mais um pouco. Quando chegou no ponto em que queria, reduziu a velocidade, deixando o vídeo continuar lentamente. Foi então que descobriu tudo que aconteceu. Na noite passada, Rooney estava na garagem do prédio. Decerto se aproveitou de alguma falha do porteiro, talvez. O hooligan tinha na mão uma bola de futebol, mas o que mais chamou a atenção foi a forma como olhava para os cantos. Aiden conhecia bem aquele tipo de postura, típico dos marginais que estavam evitando ser pegos por uma câmera, mas a julgar pela maneira que fez, Rooney não encontrou uma das câmeras em específico, que o captou já perto do caminhão de Alan. Perto do caminhão, Rooney colocou a bola no seu pé e simulou fazer uma embaixadinha, mas sua encenação era tão patética que a bola caiu debaixo do caminhão sem qualquer disfarce. Olhando mais uma vez para os lados, o hooligan agachou-se, ficando debaixo da lataria. Estava claramente fingindo, como se estivesse ali apenas para pegar uma bola de futebol. Deu para perceber que ele mexeu em alguma coisa em seu casaco, mas não dava para ver se tirou alguma coisa, não do ângulo daquela câmera. Depois de uns cinco minutos, saiu dali. Com a bola na mão. Levou tanto tempo assim para conseguir pegar uma maldita bola debaixo de um caminhão?

-Desgraçado, filho da puta... – resmungou Aiden, fechando seu notebook com rispidez.

Notas finais
Aiden agora bancou o detetive e descobriu rapidinho o autor do atentado... Será que agora o Rooney paga por toda a merda que fez? E parece que Aiden está meio dividido... Com quem vocês acham que ele deveria acabar? Maddie ou Darcy? Obs: não vai afetar muita coisa, pois a fanfic está concluída kkkkk Aliás, ela está um pouco mais da metade, pra quem deseja saber. Desde já, obrigada por acompanharem a história.