Notas iniciais
Essa é uma história fictícia que se passa no Japão, por isso mantive algumas características da língua japonesa. Como: 1 – Nome e sobrenome: no Japão o sobrenome vem primeiro. 2 – Tratamento: A maioria dos pronomes de tratamento em japonês serve para especificar o nível de intimidade ou relação entre duas ou mais pessoas. Eles são: – chan: sufixo extremamente íntimo e até mesmo infantil usado de forma carinhosa ao se referir a amigos próximos, muito usado para garotas, para compor apelidos, para pessoas mais jovens ou de mesma idade. – kun: tratamento respeitoso entre pessoas próximas, equivalente a “san”, porém próprio para meninos. Também pode ser utilizado para aqueles que não são muito íntimos, mas são mais novos que você, ou possuem a mesma idade. – san: Pode ser traduzido como "senhor" ou "senhora". Usado normalmente para se referir a alguém mais velho ou que não se conhece muito bem. “san” é a forma de tratamento mais comum. – senpai: Termo usado para pessoas consideradas superiores e mais experientes. – sensei: Termo usado para professores, também é comum usar para as enfermeiras da escola ou médicos. Espero que gostem ^^

O amor pode acabar com uma amizade?

Só pensei nisso quando recebi uma declaração que me deixou neste impasse.

Tudo começou há dois anos.

Estávamos no segundo mês do ano letivo, todos da sala já se conheciam e haviam formado seus grupos. Eu pertencia a um de três pessoas ao todo. Como sou péssima em interagir com outras pessoas, o que me aproximou de Aoyama Aoi e Suzuki Misae foi que pertencíamos ao mesmo clube esportivo.

Ah! Esqueci de me apresentar! Sou Sakamoto Tomo, tenho 16 anos e estou no 2º ano do Ensino Médio. Considero-me uma pessoa mediana, de aparência comum: tenho cabelo castanho escuro de comprimento médio e possuo olhos de mesma cor. Minhas notas são relativamente boas, sendo meu forte em Ciências e meu fraco em Artes. Adoro esportes, por isso minha aula favorita é Educação Física e sou a vice-capitã do clube de kendô.

Continuando... Era intervalo e a próxima aula seria de Artes e, como sempre, nós três ficamos na sala, elas conversando enquanto eu só as ouvia. Porém, um comentário vindo do lado de fora da sala chamou minha atenção:

“Quem aquela víbora pensa que é para recusar o Jun-kun daquele jeito!? Como ela pôde bater nele!?”

É claro que eu sabia a quem estavam se referindo. Afinal, circulavam vários boatos sobre ‘ela’. Também sabia quem estava reclamando: YoshikawaShizu. Uma garota bonita, de longos cabelos castanhos ondulados e olhos cor de mel, mas que também era muito arrogante e metida. Ela liderava o grupo intitulado “Top Five”, por serem bonitas e descendentes de famílias poderosas. Por algum motivo, Yoshikawa sempre me odiou, apesar de quase não nos falarmos. Ela entrou na sala muito irritada e se dirigiu à carteira da pessoa a quem se referiu antes, que se sentava na última carteira da primeira fileira.

Yoshikawa bateu na mesa da garota, assustando-a. HimemiyaMiyabi era seu nome. Ela representava exatamente o seu significado: princesa elegante. Dona de uma beleza invejável, longos cabelos negros e lisos, olhos de mesma cor e biotipo esbelto. Possuía um ar gentil, tranquilo e de nobreza, mas era possível identificar um toque de tristeza também.

“Posso ajudar?” – foi o que Miyabi perguntou amigavelmente após se recuperar do susto.

Yoshikawa, por outro lado, fora bastante agressiva – “Quem você pensa que é?”

“Perdão?”

“Só porque você se acha uma princesa, não pense que sairá impune pelo o que fez!”

“Sinto muito, mas não compreendo aonde quer chegar.”

“Quem você pensa que é para bater no Jun-kun?”

“Eu só me defendi!” – Miyabi respondeu com a voz embargada.

Desde o início, aquela situação me irritou e fiquei furiosa ao ver Miyabi à beira de lágrimas, porém Yoshikawa não havia terminado.

“Não me venha com essa! Todos sabem que Jun-kun a chamou para sair, mas você o recusou com um tapa no rosto!”

“Não é verdade...”

“Não? Você nega ter batido no Jun-kun? Você tem essa cara de boazinha, mas na verdade você é uma víbora. Deve ser por isso que você está sozinha e não tem ninguém!”

“Eu tenho!” – aquela foi a primeira vez que vi Miyabi levantar a voz.

“Tem? Quer dizer que o boato é verdadeiro?”

“...”

“Que nojo. Não sei o que o Jun-kun viu em você. Você é só uma víbora nojenta.”

“DEIXE ELA EM PAZ!” – gritei, me levantando derrubando minha cadeira. Não aguentava mais presenciar aquilo. – “Himemiya-san não fez nada de errado, então a deixe em paz.”

“Sakamoto!? Você está defendendo essa coisa?” – ela suspirou e revirou os olhos. – “E por que será que eu não estou surpresa...?”

Aquele comentário me irritou mais ainda – “Ela não é uma coisa, ela é uma pessoa como nós! E 10 mil vezes melhor do que você!”

“Como é?”

“É isso mesmo. Você só pensa em chamar atenção e só veio intimidar a Himemiya-san porque não admite que não seja você a pessoa que Koizumi Jun chamou para sair.”

“Ora sua...” – ela começou a falar, mas a interrompi.

“Além disso, diferente de você, ela tem alguém para amar e que a ame também.”

“E esse alguém é você?” – estava claro que ela queria reverter a situação.

Balancei a cabeça negativamente. – “Não. Mas eu preferiria ter alguém como ela a ficar correndo atrás de garotos mimados que não aceitam um não como resposta.”

Ela se calou e, em seguida, o sinal do fim do intervalo tocou, o que me fez perceber que meus colegas de classe já haviam voltado fazia algum tempo. Todos me encaravam, alguns surpresos, outros assustados e alguns irritados. Fiquei com tanta vergonha que saí correndo da sala, sem me importar com o que a HanajimaAyaka-sensei, que acabara de entrar, havia dito. Corri para o terraço e me encolhi num canto, pensando no que eu havia feito. Havia causado uma cena envolvendo a garota mais popular da escola, sem contar que ofendi o garoto mais popular. Minha vontade era de sumir dali, mas não seria uma boa ideia.

“Com licença, Sakamoto-san” – levei um grande susto.

“Hi-himemiya-san?” – fiquei muito surpresa ao vê-la, por não esperar que ela viesse atrás de mim.

“Sinto muito por assustá-la, mas tenho assuntos a tratar com você.” – a formalidade dela me incomodava, pois soava um tanto forçada. Até parecia que ela queria esconder que algo a incomodava.

“Er... tudo bem, eu estava distraída. Além disso, você não precisa ser tão formal.”

“Oh... tudo bem.”

“Hmm... Podemos conversar ali?” – disse apontando para um banco próximo, aonde nos sentamos após ela concordar com a ideia. – “Desculpa pela cena, não costumo agir daquela forma.”

Ela soltou um risinho. Foi o primeiro sorriso que ela esboçou naquele dia. – “Eu sei. Na verdade eu queria agradecê-la por aquilo e me desculpar por tê-la envolvido. Mas o que a fez me ajudar?”

Ruborizei, pois explicar o motivo era um pouco constrangedor. – “Eu... hmm... toda essa história dos boatos estava me irritando já faz algum tempo... Te isolarem como se você tivesse uma doença contagiosa só por causa de uma fofoca não é certo. Eles não percebem que você é uma boa pessoa, gentil...” – eu tentava ser coerente em minhas explicação, mas ela me interrompeu.

“Assim até parece que você me observava.” – Naquele momento, sabia que tinha falado demais e, para piorar, eu deveria estar igual a uma pimenta vermelha, além de ficar balbuciando palavras incoerentes. Para minha sorte, ela continuou. – “Tudo bem, não tem problema. Você não aguentava mais ficar calada e o que aconteceu mais cedo foi a gota d’água, estou certa?”

“Hmm... é, basicamente isso.”

“Sabe, Sakamoto-san, eu também a observava.” – aquele comentário foi uma surpresa – “Tirando os professores, você era a única que não me olhava com desgosto ou cautela. Por isso eu queria muito falar com você, mas se eu o fizesse era possível você ser isolada também.”

“Mas é óbvio que você se sente triste em te isolarem.”

Ela me olhou como se eu tivesse descoberto o maior segredo dela. – “Co-como você sabe?”

“Qualquer um se sentiria assim, sem contar que dava para nos seus olhos... huh!”

Tapei minha boca com as mãos, porque novamente tinha falado mais do que devia. Apesar de eu ser terrível em me comunicar com os outros, algumas vezes acabo falando o que me vem à cabeça. Ela até tentou segurar o riso, mas foi impossível.

“Desculpa, mas sua reação foi muito engraçada.” – ela disse entre risos.

“Por favor, não me entenda mal. Eu não estou te perseguindo ou algo do gênero. Eu só queria entender um pouco sua personalidade antes de tentar uma aproximação.”

“Mesmo?”

“Como eu já disse, é terrível ficar sozinha, por isso eu queria falar com você, mas você parecia inalcançável.”

“Como assim inalcançável?” – Miyabi perguntou confusa.

“Você parecia viver em um mundo totalmente diferente do meu, por isso eu tinha medo de não conseguir ajudá-la.”

“Você não se preocupava com as consequências?”

“Não. Porque se minhas amigas me excluíssem, quer dizer que elas não eram realmente minhas amigas.” – falei como se fosse óbvio.

“Essa sua linha de pensamento me lembra alguém... Então, eu ainda sou inalcançável?”

“Não, nem um pouco.” – sorri.

Ficamos em silêncio por um tempo, até que ela perguntou: – “Você não se importaria em lanchar amanhã comigo?”

“Claro que não, será um prazer.”

“Que bom! Obrigada Tomo-chan!” – enrubesci com o tratamento, pois nem minha família o usava. – “Ah! Desculpa, eu só pensei que como somos amigas agora...”

“Não é isso! Está tudo bem em me chamar assim. É só que foi repentino.”

“Então você também pode me chamar pelo primeiro nome.”

“Err... hmm... – ela me olhava com grande expectativa. – Mi-Miyabi-san?”

“Não precisa usar o “san”, Tomo-chan.”

“Então... Miyabi?”

“Melhor. Vamos voltar para a sala?”

“Ok”

“Ah! Temos que falar com a Ayaka-sensei depois da aula, para resolver a confusão.”

Apesar de termos um problema a resolver, voltamos mais tranquilas para a sala. Esperamos o sinal tocar para abrirmos a porta e, ao me deparar com a sensei, falei:

“Hanajima-sensei, sinto muito por sair daquele jeito.”

“Tudo bem, eu entendo. Acredito que Himemiya-san já deve ter falado sobre me encontrar depois da aula, certo? Então, nos vemos depois.” – ela tocou no meu ombro antes de seguir seu caminho.

Assim, nós fomos para nossos respectivos lugares e, durante meu trajeto, percebi os olhares desagradáveis, mas já esperava por isso. O que me magoou foi que, quando passei por Aoi e Misae, elas me ignoraram. Quando a última aula terminou, esperei todos saírem para eu ir, mas Miyabi estava me esperando em seu lugar para irmos juntas para a sala dos professores. Lá encontramos Yoshikawa, que parecia bastante irritada. Ainda bem que Hanajima-sensei foi a primeira a falar.

“Que bom que chegaram. Acredito que a Yoshikawa-san tem umas coisas a dizer a vocês.”

“Himemiya-san, foi bastante deselegante da minha parte o modo como a tratei, portanto, se depender de mim, isso não irá mais acontecer.”

“Agradeço suas desculpas, Yoshikawa-san.”

Miyabi era realmente muito educada. Mas essa também era uma característica minha. – “Yoshikawa-san, peço desculpas por minha atitude.” – falei me curvando um pouco.

“Pela sua atitude!? E por tudo o que você falou?”

“Não posso me desculpar por algo de que não me arrependo.”

“Ora sua...”

Hanajima-sensei impediu o início de uma nova discussão. – “Chega Yoshikawa-san! Já ouvi sua versão do ocorrido, por isso já está liberada.” – a líder das “Top Five” saiu sem mais uma palavra. – “Aff, que garota orgulhosa. Em todo caso, eu já sei boa parte do que aconteceu. Presenciei desde o momento em que Sakamoto-san interferiu.” – ruborizei com o comentário – “Então, vocês podem me contar o que aconteceu antes?”

Miyabi contou tudo com os mínimos detalhes, e até seus sentimentos no momento, enquanto eu apenas complementei algumas coisas.

“Sabia que ela tinha distorcido a história. Acho que tenho que pensar em uma boa punição para ela.”

“Sensei, por favor, não seja muito severa.” – Miyabi pediu.

“Você é muito boazinha. Só uma coisa que não entendi, por que você bateu no Jun?”

“Hmm... quando eu recusei o pedido dele, ele tentou me beijar a força. Minha reação foi dar um tapa nele.”

“E foi merecido. Se vocês tiverem algum problema podem contar comigo. Eu não devia falar isso, mas vocês são minhas alunas preferidas, apesar de a Tomo não gostar da minha matéria.” – eu corei.

Depois de rir da minha reação, Miyabi questionou.

“E quanto à surpresa que a sensei estava preparando para a turma?”

“Ah! Nós vamos fazer uma peça de teatro, que será apresentada no Festival Cultura e vocês farão os papéis principais.”

“Quê!? P-p-pe-peça!? Pa-papel pri-principal!?” – eu só conseguia pensar que aquilo era algum tipo de punição.

“Tomo-chan, não precisa ficar tão nervosa.”

“Não posso ficar nos bastidores?”

A sensei riu diabolicamente. – “Já faz um tempo que tenho pensado nisso e pelo o que eu vi hoje, você é a mais indicada para contracenar com Himemiya-san. E Himemiya-san é uma das melhores artistas para as quais já lecionei.”

“E qual será a peça? – perguntei.

“Segredo! Amanhã na aula de Educação Física faremos o sorteio para os outros papéis e comunicarei à turma o papel de vocês.”

“Tô perdida.” – suspirei.

Miyabi colocou a mão no meu ombro. – “Não se preocupe, Tomo-chan, vai dar tudo certo.”

“Tenho certeza de que vocês irão se sair muito bem. Estão dispensadas, até amanhã.”

Fomos embora e, por coincidência, boa parte do caminho de nossas casas era em comum.

“Ai ai, isso só pode ser algum tipo de punição.”

“Por quê? São os melhores papéis e os mais disputados.”

“Por isso mesmo. Não gosto de chamar atenção.”

“Mesmo?” – seu risinho não me passou despercebido. – “Na verdade, você chama mais atenção do que pensa.”

“Quê!?”

“O clube de kendô é o principal clube esportivo da escola e você é a uma das mais habilidosas. E, mesmo com os treinos, você consegue tirar boas notas.”

“Elas nem não são tão altas.”

“Porque você não se esforça. Ouvi dizer que, se você quisesse, poderia ser a primeira do rank geral.”

“Quem falou isso?” – eu fiquei realmente surpresa.

“Algumas pessoas ouviram Aoyama-san e Suzuka-san comentando. As pessoas falam bastante sobre você e se você se envolvesse um pouquinho mais, poderia ser mais popular do que a Yoshikawa-san.”

“Agora as pessoas terão mais o que falar de mim. – suspirei. – Só espero não ter que lidar com muitas delas.”

“Tomo-chan é bastante reservada, hihi. – para variar corei. – “E tímida também.”

Andamos mais um pouco em silêncio até chegarmos numa rua onde nossos caminhos se separavam.

“Tomo-chan, conheço uma pessoa que pode nos ajudar a ensaiar, posso chamá-la?”

“Claro, por que não?”

Ela me pareceu muito feliz. – “Obrigada. Então até amanhã, Tomo-chan!”

“Até, Miyabi.”

A única coisa que eu tinha vontade de fazer quando chegasse em casa era dormir, afinal, o dia tinha sido estressante; mal sabia eu que o seguinte seria ainda mais.

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Tradução:

1 — Hime: significa princesa.

Notas finais
Adoraria saber a opinião de vocês. Até o próximo capítulo. o/