Notas iniciais
Quero, antes de mais nada, pedir desculpa pela demora ! Corri para escrever, e precisei me matar para revisar >.< Finalmente pronto, tenho o capítulo em mãos para vocês . Qualquer coisa que não tenham entendido, espero que me avisem, ainda que muitos não o façam ! Leitores/escritores assíduos sabem o quanto vale essa ajuda Relembrando: glossário e 'informativo' ao final ;3

A manhã de domingo sempre começava mais lenta. Acostumado, Roku acordou mais tarde do que o habitual, descendo para fazer seu desjejum. Alimentado, ele esperava as horas passarem vagarosas no quarto. Uma e meia da tarde, ele descia novamente, pronto para o treino de tênis, e rumava para a porta.

Chegando, alguns colegas seus já esperavam pelo professor dentro das quadras. Eram duas, divididas por uma cerca baixa e uma rede. A arquibancada, alta, corria em volta delas, dando aos espectadores boa visão de qualquer ângulo, apesar da distância. E os vestiários e o armário ficavam na direção oposta da entrada. Quando o treinador finalmente apareceu, os alunos puderam guardar suas coisas e começar a aula.

— A mesma divisão. Os que sabem jogar na quadra B, e... Os que ainda estão aprendendo... Venham comigo – Dando maior ênfase no \"ainda\", o professor seguiu com os alunos novatos no tênis.

— Treinador, o que nós faremos, então? – Perguntou um garoto do time que já sabia jogar.

— Ah...! Façam um mini-campeonato.

— Yosh! Hey, bichano! Fique esperto porque vou te vencer dessa vez! – Este era Ichida, Fujiwara Ichida. Aluno do ginásio, o melhor jogador de tênis, atrás apenas de Roku. Ele adorava tirar sarro da cara do neko, sempre conseguia aparecer por causa disso. Mas ele nem dava bola, e isso o irritava muito – Roku! Estou falando com você!

Roku olhou bem pra ele e descartou qualquer hipótese de resposta. Sabia que iria para a final com ele e que o venceria. Só não jogavam a última partida quando o professor também participava, levando o lugar de Ichida e, muitas vezes, também perdendo para Roku. Seu físico sempre fora grande, mas nunca gordo, ainda mais quando ele passou a trabalhar os músculos.

Os alunos começaram a jogar. A cada minuto o neko conferia a entrada da quadra, intrigado por Yuki estar demorando tanto. Será que ele se esqueceu? Venceu suas partidas com controle. Não arrasava seus adversários mais fracos; deixava para a final, descarregando tudo em Ichida, vendo então sua cara amarrar e se encher de ódio.

No momento em que entrava para a decisão, virou-se para olhar novamente a arquibancada.Ninguém. Porém, o outro garoto percebeu, e não deixou a oportunidade passar.

— O que tanto olha para trás? Procurando um canto para chorar, é? – Roku olhou para Fujiwara com o máximo de desprezo que tinha e simplesmente respondeu:

— Mantenha seus olhos na bola antes que ela te acerte – Os olhos de Ichida faiscaram.

Começaram bem. Os dois marcavam, levando a um douce, onde Roku marcava seguidamente. Foram três sets, sendo que no último, os dois deram o melhor de si. Por uns instantes, Roku não pensou em Yuki; observou todas as oportunidades que tinha para marcar um ponto que finalizaria o jogo. Escolheu uma e lançou o ataque. Rebateu a bolinha à direita do outro, em direção à raquete. Ichida pensou: Fácil, fácil! As orelhas desse desmiolado cresceram tanto que fizeram seu cérebro diminuir, fazendo-o me dar um ponto de graça, sem perceber. Tonto!

Zunindo, a bola amarela passou por cima da rede vindo de encontro à raquete vermelha do garoto. Já comemorando dentro de si, Ichida lançou seu braço para bater na bolinha.

Mas ele passou reto, rebatendo o nada.

Simplesmente, ao sair do campo de Roku, a bolinha começou a inclinar para a esquerda, e, ao chegar ao garoto, passou pelo outro lado, contrário do que se esperada, voando rasante em direção à linha da quadra e marcando um ponto para Roku. Seu punho, ao rebater, deu uma leve inclinada, fazendo com estilo bola curvar no final do trajeto.

Roku já usara a mesma jogada contra o professor, mas Ichida não se lembrou, fazendo-o perder o mini-campeonato. Alguns segundos passaram antes de ele entender o que aconteceu. Seu rosto começou a ficar vermelho, inflando, e com toda a sua raiva, tacou a raquete no chão da quadra, espatifando-a em vários pedaços.

— Gato imundo! Só sabe jogar sujo! Vou te ensinar o que é jogar tênis! – Ichida andou a passos largos até a rede, saltou-a e foi em direção a Roku, fechando seu punho para deferir toda sua raiva num murro.

— Fujiwara! – Berrou o treinador, que já corria para a quadra vizinha, logo depois de ouvir o estrépito da raquete. Colocando-se na frente de Roku fez o outro parar já bem próximo, ainda com a mão cerrada – Trate de se controlar! É a segunda vez que você quebra uma raquete! Não vou tolerar mais isso! – Ele deu uma leve pausa para respirar; seu cenho vigorosamente franzido apontava sua irritação – Aprenda a segurar seu gênio, ou então não precisa mais aparecer nas aulas! – Fulminando, os olhos de Ichida fuzilaram o sensei – Pode ir para o vestiário. Para você já chega!

Roku estava impassível. Seus olhos gélidos não se alteraram nem com a ameaça de ser agredido. Acompanhando o garoto até o vestiário, viu que ele estava mais vermelho do que antes. A humilhação que passou pelo professor na frente de todos era novidade, e o fizera passar mais raiva, consequentemente, ele suava quase como uma fonte.

Nesse ponto, o neko era diferente. Ele se esforçava, ficava ofegante, mas não derramava um pingo de suor. Algo que o fazia sua auto-estima subir, em relação às outras pessoas.

— Ah... Roku-san, como você me trás problemas – Iniciando com um suspirou, o professor resmungou mais para si próprio do que para o outro ouvir – Todos os alunos, dispensados. A aula terminou por hoje! – Cansado, ele suspirou novamente.

Roku desviou o olhar de seu professor para a arquibancada. Só quando avistou uma figura diferente, usando shorts e um boné, esperando sentada foi que se lembrou de Yuki. Num sobressalto, correu até ele, indagando-o desde o meio do caminho.

— Por que demorou tanto? Fiquei preocupado se você não viria mais.

P-pre-preocupado? E-ele ficou preocupado... Comigo?!

— N-nya... M-minha tia demorou p-para terminar o almoço e... N-não me deixou sair antes d-de comer.

— Ah! Então tudo bem! Fez bem. Você quer vir comigo falar com o treinador? – Yuki apenas assentiu. Ele deixou suas coisas onde estavam e desceu.

O sensei recolhia os pedaços da raquete de Ichida, uma das melhores que a escola tinha. Um pouco contrariado, ouviu os garotos. Sem querer estender muito o assunto, apenas determinou:

— Contanto que você, Roku-san, tranque os cadeados do vestiário e dos armários, tudo bem. Só, por favor, não me arranje mais complicações, certo?

— Hai, sensei. E, obrigado – Ainda com a expressão cansada, treinador suspirou mais fraco.

Roku instruiu Yuki para esperar onde estava antes e correu para o vestiário, já quase vazio. Sentado na arquibancada, o menor assistia os alunos saírem da quadra, sendo que muitos nem o percebiam. Todos comentavam o acontecimento que encerrou a aula.

A passos largos e pesados, Ichida passava pela porta masculina, remoendo sua perda. Quando levantou o olhar, viu Yuki. Se perguntando se já o havia visto, concluiu que não.

— Hey! Você. O que está fazendo aqui? – O neko demorou para entender que era com ele – Você sentado na arquibancada. Não pode ficar aqui. A aula já terminou – De frente para ele, o garoto normal o olhava impetuoso. Por Yuki ser pequeno, e por vários outros motivos, ele passava a impressão de ser mais novo.

— M-ma-mas... E-eu não-

— Não quero saber. O treinador dispensou todos, isso inclui-

— Ichida! – Roku acabara de sair do vestiário com sua bolsa, reconhecendo a voz grosseira daquele brutamontes. Olhando, viu quem ele destratava, correndo até os dois – O que você pensa que está fazendo?! Temos autorização para ficar e não precisamos que você nos dê ordens.

Fujiwara respirou fundo, inflando seu peito e levantando o dedo ossudo para retrucar Roku. Yuki pôde observar que ele era maior, uns dez centímetros, e muito mais corpulento que seu amigo. Mas, resguardando o resto de dignidade que tinha, Ichida virou suas costas e saiu, batendo o portão de ferro. Suspirando, Roku perguntou aflito:

— Ele te fez alguma coisa?

— Nã-não. Nada. Mas... – O neko desistiu do que ia falar, desfocando de suas palavras.

— Mas o quê?

— Não, deixe... D-deixe pra lá. Não é nada.

— Certo. Então, vamos começar? Primeiro quero ver o quanto você sabe sobre tênis. Depois a gente tenta algo prático, mas sem muito esforço.

Enquanto se encaminhavam para a quadra, Roku fazia perguntas sobre as regras do jogo, pontuação, irregularidades, coisas técnicas. Yuki o surpreendeu, conhecia bastante desta parte.

— Ainda há outros detalhes, mas acho que de teoria está bom – Ele pensou um pouco no que poderia usar para continuar a aula – Você já jogou alguma vez?

Yuki balançou a cabeça, negativamente. Indo ao armário, Roku colocou algumas bolinhas no bolso e pegou duas raquetes, voltando para a quadra.

— Aqui, pegue uma. Vou te mostrar o jeito básico de se rebater. Sempre vai depender de como a bola vem até você. Sendo destro, se a bolinha vier para a direita, você vai rebater pela direita; se ela vier pela esquerda, você rebate também pela esquerda, passando a raquete na frente do seu tronco – Roku falava e mostrava ao neko as posições. Mas, ao tentar, ele não se saiu muito bem – Vou repetir. Preste atenção. Você, de pés separados, puxa o braço de trás... Para frente.

Mais duas vezes Yuki tentou repetir e se atrapalhou. Ele estava um tanto acanhado, limitando sua movimentação. Roku, entendendo qual era o problema, soltou sua raquete no chão e andou até o outro, ficando atrás dele.

— Observe como eu faço – Ficando bem próximo das costas de Yuki, ele posicionou seus pés entre os do menor; encostou seu corpo ao dele e segurou com sua mão direita e esquerda em cima das correspondentes de Yuki, na raquete, seguindo a linha de seus braços. Seu rosto ficou ao nível de sua orelha, onde não precisou falar muito alto – Você faz assim – Praticamente abraçando ao garoto, Roku fez o movimento com a raquete junto com os braços dele.

Mas em nenhuma vez Yuki deu atenção. Surpreendido com o ato do amigo, ele sentiu suas pernas fraquejarem e um calafrio correr-lhe na espinha, tirando sua atenção.

O que ele está fazendo?! M-m-me abraçando? Pa-para quê? E-ele pode fazer isso? Ele é um menino! Garotos não devem se abraçar. M-mas... Mas é bom, e-e aconchegante. Fazia tempo que alguém não me abraçava assim, igual ele. Só tenho Ellen para me dar abraços. Antes, meus pais. Mas... Roku... Nem faz tanto tempo que eu o conheço... E ele está m-me abraçando. Chega a ser constrangedor. Mas... É tão gostoso! Estar nos braços de alguém... Nya! Eu deveria deixar? Peço pra ele parar? N-não sei nem o que pensar. Nyaa!!

Para o pequeno, iludido, Roku havia apenas lhe dado um abraço, sem mais nem menos. Ele nem notou o que ele fez com seus braços, nem ouviu o que ele falou, muito menos percebeu quando ele já tinha saído. Mal ficou corado! Foi tão surpreendente que não houve espaço para a vergonha.

— Acho que agora você consegue sozinho. Pode tentar – O neko mais velho pegou seu instrumento do chão e esperou uns instantes, mas viu que ele não se mexia. Colocou a mão em seu ombro, tentando chamá-lo de volta – Yuki, está aí?

— Ãh...? – Este o olhou sem entender. Recompondo-se com uma sacudida de cabeça, viu a mão em seu ombro e acordou daquele êxtase.

— Engraçado, parecia que você não estava aí – O que será que deu nele?

— E-eh...?

— Pode tentar.

— T-tentar? Tentar o quê?

— O movimento com a raquete, que eu acabei de te ensinar.

— Mo-movimento? — Yuki estava confuso, mas não tanto quanto Roku.

Como assim que movimento?! Suspirando, ele deu uma leve risada, descontraída.

— Este movimento, que eu fui até você e te ajudei a fazer — Disse, repetindo pela enésima vez — Lembrou-se?

— Ah...! — Ele não se lembrara, mas achou melhor repetir o que ele havia feito para não levantar mais perguntas. E, desta vez, o fez sem problema algum, acabando de vez com o discernimento de Roku. Só dias depois, pensando consigo mesmo, foi que Yuki entendeu que aquilo não fora um abraço; Roku tinha feito um exercício com ele, e por isso chegara tão próximo.

Eles tentaram, depois, mais alguns exercícios, que Yuki fez sem problemas. Nada tão cansativo assim, mas o pouco preparo físico do pequeno o deixou ofegante. Enquanto o outro guardava os materiais, ele sentou na arquibancada para esperá-lo, ávido por água. Voltando com sua mochila, Roku já trancara os vestiários também, postando-se ao lado do outro.

— Vamos? Já fechei tudo.

— H-hai... Mas, onde posso beber água antes?

— Ah... Eu já passei o cadeado no vestiário. Lá tinha um bebedouro. Se você tivesse falado antes...

Sentando, Roku tirou a mala das costas e a abriu. Mexendo dentro dela, tirou uma garrafa de água

— Sorte que eu trouxe a minha hoje. Pode tomar, se quiser. Quase não uso.

— O-o-obrigado – Yuki corou levemente nas bochechas, envergonhado de usar o cantil do maior. Enquanto tomava, algo de relance passou por sua cabeça, o fazendo se lembrar de uma pergunta – R-Roku.

— Sim?

— A-aquele garoto, o que q-quebrou a raquete...

— Fujiwara Ichida. Sim, o que tem ele?

— P-por que ele fez aquilo? Ele s-só perdeu pra você, n-não foi?

Roku suspirou. Lembranças de seu tempo de escola primária vieram. Selecionou algumas para explicar o que havia acontecido e tentou esquecer as outras, junto com seu rancor resguardado.

— Ichida é o melhor jogador de tênis da escola. Ele sempre ganha competições interescolares e já chegou a ir para Tokyo num torneio. Mas, aqui nas aulas da escola, ele não consegue ser o melhor. Ele já ganhou do professor, mas nunca de mim. Sou o único que vence dele, e com facilidade, para dizer a verdade. Acho que toda a raiva que sinto dele eu descarrego no jogo, e acabo vencendo – Este último comentário ele disse mais para si do que para o outro.

Yuki escutava atento, admirado por Roku ser o melhor aluno de tênis da escola. Mas não conseguiu ver de onde ele tirava a raiva que usava para ganhar de Ichida.

— Mas... P-por que você sente tanta raiva assim d-dele.

— Fujiwara e eu estudamos juntos durante todo o primário e secundário. Enquanto eu era o escorraçado da sala, ele era o popular. Não havia uma menina que não gostasse dele; e ele adorava isso. Adorava esfregar na minha cara que ele era mais do que eu. Principalmente com a... – Sua voz foi diminuindo até ele parar de falar. Olhou para o pequeno e viu sua expressão inalterada, fingindo que não tinha dito aquilo – N-nunca entendi por que, mas aprendi a conviver – Yuki realmente não entendeu.

— Roku, como pode vocês estudarem juntos? Nunca o vi na escola e ele até parece ser bem mais velho do que nós.

— É porque ele está no ginásio. E tem um prédio diferente para os alunos ginasiais, ao lado do nosso.

— Gi-ginásio? E-então como vocês estudaram juntos?

— Estudamos na mesma classe até o último ano, e de-... Depois... – Nesta hora Roku percebeu que nunca havia contado para Yuki que ele era mais velho – Acho que nunca te falei, não é? E-eu... Eu não passei de ano. Em vez de ir para o primeiro ano do ginásio, fiquei no último da escola secundária, retido, dois anos seguidos.

— O-o quê?!

— É, Yuki. Eu consegui fazer esta proeza. Era para eu estar no último ano do ginásio, junto com Fujiwara.

— E-en-então... Vo-você... Como você fez isso?! N-não. Quan-... Q-quantos anos você tem?

— P-perto das férias de verão, eu completei dezesseis.

A expressão de Yuki indicava surpresa misturada com assombro. Ele imaginava Roku da mesma idade que ele, e por isso, achava que sua maturidade era muito avançada. Agora, sabendo que ele tinha mais anos de vida, entendeu o porquê da diferença.

— E-eu... Eu tenho catorze. S-só... Catorze.

— Sei disso. Mas... Não tem problema.

Para o pequeno, nada mudaria. Talvez, com essa informação, o seu modo de ver o outro apenas melhorasse. Ele... Ele é mais velho do que eu. O-o que será que ele p-pensa de mim?

— Então... I-Ichida f-ficou bravo daquele jeito p-porque ele n-não gosta de você? – Corado, ele confirmou, tentando voltar ao assunto de antes. Estava todo embaraçado. Ele deve me achar extremamente infantil!

— É-é. Também. Envolve outras coisas, mas... Não quero falar mais sobre isso. Sempre acabo me irritando. É ruim de lembrar.

— Não! T-tudo bem! Eu en-entendo.

— Podemos ir agora? Já está ficando muito escuro para andarmos sozinhos.

Guardado o cantil na mochila, eles desceram da arquibancada, fecharam os portões e seguiram em direção ao subúrbio de Namaeda, onde ficava a casa do mais novo. Andaram rente a avenida que seguia na direção, e, não muito depois, desviaram para a esquerda, entrando na rua rodeada de vegetação. Roku observou que ficava bem próximo da antiga estação de trem, hoje mais um depósito de vagões velhos e enferrujados, guardando o caminho na cabeça.

Já anoitecia quando eles saíram do terreno da escola, tornando o clima cada vez menos quente. O ar arejado, vindo das inúmeras árvores, piorava a situação, fazendo os dois tilintarem de frio. Agradeceram pelo caminho não ser mais de um quilômetro e composto apenas pôr uma curva, depois da qual já se revelava a casa. Yuki abriu o portãozinho de ferro, passando pelo jardim e entrando, acompanhado do outro.

Tiraram seus sapatos, deixando-os no átrio, junto com a bolsa de Roku. O menor o conduziu pela casa, apresentando-a. Foram para a sala, munida com uma lareira, dois sofás fofos, uma poltrona, uma pequena mesinha de centro, televisão e um belo tapete avermelhado, combinante com o papel de parede; passaram para o lavabo, sendo este sem nada de especial; a sala de jantar, com uma mesa da madeira com seis cadeiras e um castiçal no centro, cristaleira, copeiro e um bonito quadro na parede de trás, tudo muito ocidentalizado. Enfim a cozinha, estreita, com o fogão, o balcão, os armários do lado esquerdo, e a pia e a lava-louças à direita; seu fundo dava na lavanderia.

Mexendo uma panela no fogão aceso estava uma mulher, da estatura de Yuki, um pouco mais rechonchuda, de cabelos não muito longos e negros. Ela olhou para os meninos e Roku pôde notar sua face mais nédia, brilhante por causa do fogo aceso.

— Finalmente vocês chegaram! Pensei que não fossem chegar a tempo para o jantar.

— Gomen, obasan.

— Este é o nosso amigo, de quem você falou tanto esta semana?

Yuki ficou avidamente vermelho por causa do comentário — que era verdadeiro.

— Roku-san, já conheço seu nome, mas você não deve saber o meu. Sou Kisetsu Ellen, mas para você, só Ellen, ou, se quiser, pode me chamar de obasan também!

— Arigatou, Ellen-san. E o prazer é todo meu! — Agradecendo, ele fez uma leve mesura.

— Rapazinho educado! — Disse ela sorridente, dando um leve tapinha no ombro de Roku, com a intenção de deixá-lo mais à vontade — Agora sumam daqui. Já vou terminar o jantar. Depois os chamo.

Yuki o levou para o seu quarto, subindo as escadas.

— Você falou tanto assim de mim?

— S-s-só um pouco — Roku riu levemente de sua timidez, adorando a forma com que ele se atrapalhava com as palavras. Antes de entrarem, Yuki o informou: à esquerda, o quarto de sua tia, uma pequena suíte; à direita, o banheiro; quase em frente à escada, o quarto do neko, no qual eles entraram. Estava muito bem organizado. Os materiais de escola estavam empilhados na escrivaninha, a cama bem arrumada e um tapete ovalado à lateral dela. O dono do quarto pegou algumas roupas nas gavetas do armário e, pedindo licença, rumou para o banheiro.

Roku deu uma olhada em sua prateleira: apenas um par de gatinhos da sorte e vários livros pequenos. Entre estes, tinha um bem grosso, de lombada bastante surrada. Pegando-o, pôde ver por sua capa esfolada que era um livro de imagens e fotos de aves, de todas as espécies. Deu-lhe uma leve folheada, parando aleatoriamente; estava em inglês. Olhou no final e viu que havia, além das 500 páginas, muitos papéis com anotações e rabiscos, os quais não pode ver, poois Yuki já voltava. Ele fechou o livro e o pousou na mesa, virando-se para a porta.

Enquanto o pequeno neko guardava o shorts de volta na gaveta, Roku percebeu sua roupagem, mais condizente ao frio: uma calça de moletom e uma camiseta de manga-longa cinza, de gola alta, com umas leves inscrições estampadas no peito. Gostou de seu estilo. O deixa mais... Apropriado. Terminando, Yuki aproximou-se dele, vendo seu livro de aves em cima do móvel.

— Adoro este livro. Meu pai trouxe da Inglaterra, em uma viagem sua a trabalho. Ele já era antigo, mas foi muito mais usado comigo do que na livraria de onde ele veio — Pegando-o em sua mão, Yuki contou sua lembrança olhando para a fronte da obra, devolvendo-o depois no lugar. Voltando-se para Roku, o viu sorridente, de olhos levemente desfocados, vidrados em seu no rosto. Isso o fez corar.

— Já notei que você tem grande carinho por ele — O outro apenas assentiu como resposta, ainda encabulado — E, lembrando para o que nós viemos aqui, onde está a tela?

— Ah! Está aqui — Disse, esquecendo-se do livro, já puxando a tela do vão entre o armário e a escrivaninha.

— E o que faremos?

— E-eu andei pensando. Você falou d-de um lugar, uma paisagem. Acho que tenho o local perfeito... P-para isso.

— Sério?! E qual lugar é esse?

— Só poderei te mostrar de dia, quando dá para enxergar. E-ele é bem complicado; uma paisagem b-bem detalhada.

— Mas... Não é um lugar conhecido?

— Nã-não. É um que eu descobri, quando me mudei para cá.

— Então tudo bem. Não tem problema. Porém, desenhista aqui é você, então você cuida dos detalhes. Eu vou só pintar, a única coisa que sei fazer direito em artes.

— Ah, é assim? Que bom que eu sei desenhar e você pintar! — Yuki tirou sarro da cara do mais velho. Ele também sabia fazer isso — no modo irônico.

Ellen bateu a porta logo após, chamando-os para jantar. Desceram. Sentando-se de frente para a mulher, Roku ficou ao lado do outro, que estava na ponta. Enquanto tomavam da sopa com arroz, bem nutrida dos acompanhamentos de legumes e carne, Roku foi aprendendo mais sobre Ellen. Ela trabalhava com moda, desenhava roupas; morou muito tempo nos Estados Unidos, desde quando começou a estudar, mas, largando o emprego, voltou para o Japão, por causa de Yuki; ainda tenta algum emprego fixo pelas redondezas, ou numa forte empresa instalada nos limites de Namaeda; era irmã mais velha da mãe do neko e nunca se casou. Ela também fez perguntas a ele — nada de importante.

Depois de terminarem e enquanto Ellen levava os pratos para a cozinha, Roku propôs:

— Será que você consegue desenhar amanhã a tela, para levarmos ao professor na terça?

— H-hai. Eu desenho numa tarde s-sem problemas.

— Certo. Então combinamos outro dia para eu pintar. Talvez no próximo sábado?

— Etto... T-tem bastante coisa para pintar. Acho que tudo para um dia só n-não vai dar. Você terá de vir mais v-vezes – Disse Yuki, feliz por aquilo ser verdade.

— Ah...!

— Por que você não vem amanhã, Roku-san? — Ellen escutou tudo da cozinha, sugerindo quando voltou para a mesa.

— E-eu não quero incomodar...

— Que nada! Será um prazer tê-lo conosco novamente para jantar! E duvido que Yuki desaprove – Olhando de esgoela para o sobrinho, Ellen fê-lo corar e Roku rir de seu comentário.

— I-i-isso.

— Posso vir, sem problema algum? Se for inoportuno, não preciso ficar para jantar. Posso ir embora mais cedo.

— Seria muita descortesia de minha parte. Não. Você pode vir amanhã e ficar para jantar. Ou não vai querer comer um frango xadrez que só eu sei fazer?! — Roku sorriu, sentindo-se aconchegado pelas palavras da mulher — Claro. Isso se seus pais não se importarem.

O garoto reprimiu sua expressão sombria. Sempre acontecia isso quando o assunto caía em seus pais.

— Eles não vão se importar. Garanto — Disse, dando um sorriso \'encenático\' muito bem trabalhado. Ellen assentiu.

Todos os três conversaram mais um tempo. Quem saiu primeiro foi Ellen. Pedindo licença, deixou os dois a sós. Roku havia se esquecido totalmente das horas. Perguntando-as para Yuki, ficou surpreso pelo tempo ter passado depressa. Já se aproximava das nove. Foi acompanhado pelo outro até a porta. Despediu-se de Ellen e eles seguiram para o portãozinho de ferro. Antes de ele ir, o pequeno ainda lhe queria falar alguma coisa.

— Roku, i-isso que nós temos... Isso é-é amizade, não? — Ingênuo, olhava como uma criança ao ver algo que não conhecia, deixando o outro um pouco sem jeito.

— Você ainda sente dúvidas? — As palavras foram corretas, mas o tom de Roku, um tanto duro, dito por impulso, fez o menor se confundir. Não sabia se ele zombava ou se aquilo era um não.

— Ah... B-be-bem...

Roku corrigiu:

— Yuki, sei que você não sabe o que é ter amigos, mas não precisa ficar tão inseguro.

— É-é q-que... Vo-você é ma-mais velho do que e-eu. T-talvez...

— Eu sou, sim, seu amigo. Nós temos uma amizade agora, e não vou deixar que ela se quebre. Fique tranquilo.

Com um sorriso terno, ele acenou para o pobre neko, que ficou com as bochechas totalmente rosadas, virando-se e voltando para sua casa.

Yuki não enxergava outra coisa se não aquele sorriso. Dormiu com ele na cabeça. Vale dizer que ele não acordou nenhuma vez durante a noite.

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Glossário:

Yosh = \"interjeição, podendo ser traduzido como vários tipos\"; isso!, eba!, uhu!

Nya = \"interjeição, podendo indicar incerteza, alegria ou dor, além de outros\"; eh... , ãh... ; eba! ; ai!

Game = conjunto de pontos (0-15-30-40-game); acaba quando algum jogador atingir o game

Set = neste caso, série de 3 games; termina quando um dos tenistas atingir 3 games vencidos ou desde que haja dois games de diferença.

Douce = significa igualdade no placar de um game depois de ele atingir 40/40; para um dos jogadores ganhar este game, deve marcar dois pontos seguidos

Tokyo = Tóquio, capital do Japão

Arigato / Arigato gozai masu = obrigado / muito obrigado (formal)

Etto = \"interjeição de incerteza\"; bem, eh...

(bW) Encenático = relativo a induzir, iludir (derivado de encenar)

(bW) bW = by Writer / pelo Autor; criado pelo autor

Notas finais
" Por causa da mutação nos genes, dando à pessoa a proximidade com os felinos, o aqui chamado de Nekísmo, o portador tem certas características relevantes:

- Ausência de glândulas sudoríparas na pele; não se sabe como o corpo se refrigera na prática de exercícios físicos) "

É isso aí pessoal.
Não creio que o próximo capítulo saia antes da semana que vem .
Tenho de estudar, pois vou sair da minha escola e ir para uma melhor; como um bom cdf, tenho de entrar sabendo tudo lá u.u

NOTA: Só depois de já ter escrito mais da metade da história foi que eu descobri que no Japão não se repete o ano. Ainda mais repetir três vezes!