Watashi Wa Yakusoku
2 1.
Notas iniciais
Mais um ano começava na escola de Namaeda. Os alunos novamente lotando o pátio, as aulas com os mesmos professores, os mesmos aborrecimentos. Era assim que Kazoku Roku imaginava o primeiro dia de aula. Ele acertou, mas só por um breve momento.
Roku cursava pela terceira vez o último ano da escola secundária ¹. Era o sexto filho de Kazoku Tomoe, e o único de Watanabe Mushi. Seus irmãos, filhos de Tomoe, já tinham cada um suas vidas, resultado da grande diferença de idades. Apenas ele morava na mansão dos pais, ainda que não fosse integrante de uma família feliz. Seu pai, quase sempre viajando a trabalho, tinha um estranho prazer de atormentar o filho, fazendo-o se perguntar se ele o amava. Já a mãe, durante toda a infância do garoto nunca deixou de ser carinhosa e cuidadosa, com ele e com sua irmã mais nova, que vivia junto deles. Desde a morte da menina, Tomoe tornou-se fria e muito indiferente a Roku.
Com seus 16 anos de idade, Roku passou a ser o mais alto de sua classe, de olhos castanhos e cabelos curtos, desgrenhados e negros. Entre os cabelos, despontavam duas orelhas felpudas, e, no final das costas, uma cauda, preta como as orelhas, parecidas com as de um gato. Isso porque Roku não era um ser humano normal, ele era um neko ². Ele costumava esconder sua cauda, a parte mais perturbadora, por baixo de sua blusa, deixando as orelhas à vista, acostumado com os olhares tortos que elas traziam.
Namaeda era uma cidade pequena, de poucos habitantes, situada no oeste do Japão, na direção noroeste de Tokyo; algumas outras cidades próximas formavam uma região rural, sendo Namaeda a mais populosa e a única voltada mais para os outros setores, como o terciário. A escola de Roku era a maior e mais abrangente, desde a Escola Primária ao Ginásio, e aglomerava um milhar e meio de alunos todas as manhãs; pior nos primeiros dias de aula, quando alguns pais acompanhavam seus filhos.
Sabendo disso, o garoto saiu de casa cedo, e caminhou até o prédio. Pouco tempo depois, estava em frente os portões de entrada, já cheio de estudantes mais novos que ele. Observando com um olhar desejoso para a entrada do Ginásio, suspirou, enquanto andava até a escola. Mais um ano, pensou. Vou ter que aguentar mais um ano.
Ao pé da pequena escada, viu uma figura estranha sentada no canto do primeiro degrau. Era um aluno, vestindo um suéter azul e uma touca da mesma cor; sua calça era do uniforme escolar. Ele parecia muito assustado, demonstrando pelos olhos, bem abertos, onde um mar de cor de mel intensa reluzia. Com as duas mãos segurava sua touca como se alguém quisesse arrancá-la dele, escondendo quase totalmente seu cabelo castanho-escuro.
Roku estranhou o fato de ele ter chamado sua atenção. Normalmente, ele não se impressionava com ninguém, mas o olhar daquele menino parecia ter o medo acoplado junto aos glóbulos. Terminando de subir a escada, sacudiu sua cabeça para espantar aquela visão. Dirigiu-se ao seu velho armário, recebido quando entrara na escola, de número 821; um dos últimos, no final do corredor. Arrumou os materiais de sua pasta para as prateleiras e, levando só o que iria utilizar no momento, foi para a sala, a mesma dos anos passados.
Não havia ninguém. Escolheu se sentar mais ao fundo, do lado da porta, debruçando-se na mesa. O sino da escola tocou e os alunos entraram totalmente dispersos em conversas e brincadeiras, cessadas assim que a professora também adentrou no local. Roku não se importou em olhar para ela, enquanto se apresentava.
— Ohayo, turma. Bem vindos novamente a nossa escola. Meu nome é Sato Hinahi e serei a nova professora de inglês de vocês. Estou adiantando minha aula porque o professor deste horário não pôde vir – Ela deu uma ligeira pausa – Muito frio para um dia de Outono, não acham? – Comentou, enquanto colocava suas coisas na mesa – Começaremos com as apresentações agora. Mas antes, alguém daqui já morou longe e veio para Namaeda? – O silêncio prevaleceu entre os alunos de caras confusas – Bem, perguntei porque eu gostaria que vocês recebessem nosso novo colega muito bem. Ele veio do norte do Japão – Um garoto postou-se ao lado da professora, de cabeça baixa, tremendo um pouco demais – Este é Kisetsu Yuki.
Um leve murmúrio nasceu na sala; ninguém quis falar nada, pois parecia que o garoto sairia correndo a qualquer instante. Movido pela curiosidade, Roku abriu os olhos e procurou o motivo de tudo aquilo, se deparando com a pessoa ao lado da professora. No momento em que ele levantou a cabeça para olhar para a turma, Roku viu aqueles olhos dourados, ainda cheios receio. É-é aquele menino da escada. Sua boca perceptivelmente se abriu, mostrando sua surpresa. Aquele que se chamava Yuki notou que Roku estava de boca aberta e desviou o olhar, envergonhado. Seus dedos estavam brancos por causa da força com que segurava um pequeno caderno. A professora foi quem quebrou o gelo com um sorriso para o garoto.
— Pode escolher o lugar que você quiser Yuki-san – Olhando mais uma vez de relance para Roku, Yuki escolheu uma mesa à sua frente, na fileira do lado – Agora... Você, a primeira desta fileira, se apresente – Enquanto a aluna apontada, do outro lado da sala, se levantava e dizia seu nome completo, Roku olhava durante mais alguns momentos para as costas de Yuki, esperando ver seus olhos de novo e, quem sabe, elucidar uma resposta para eles apresentarem-se tão amedrontados.
Na espera, ele foi listando algumas observações em sua mente: Yuki tinha uma estatura mediana, porém menor do que ele, obviamente; ele puxava a touca para baixo várias vezes, esticando o tecido ao seu máximo; a pele que aparecia em sua nuca, antes do suéter azul, era de um branco quase pálido. O outro garoto sabia que Roku o observava, e isso o deixou mais inseguro.
— E você é...? Hey você, deitado na carteira! – a professora de dirigia a Roku, que acabou se desconcentrando. Levantou o tronco da mesa, sem ficar de pé como os outros tinham ficado.
— Meu nome é Kazoku Roku.
— Parece que você não é de falar muito – Ela esperou uma resposta, continuando quando ela não veio – Lembrei que me disseram que você ficou retido... Duas vezes, não? – Roku retesou um impulso de raiva, apenas fechando o semblante.
— Sim. E vai fazer alguma diferença? – Teve que se esforçar mais ao ver que os olhos da professora se demoraram em suas orelhas de gato.
— Não, não fará a mínima – Ela também foi dura com ele, como se repreendesse o fato de ele ser repetente – Okay, turma. Abram seus cadernos e copiem o que vou escrever no quadro.
Roku se debruçou novamente na mesa por mais um tempo. Teria de ver a mesma matéria pela terceira vez. Será mesmo que eu vou aguentar?
Todos estavam concentrados na cópia. No momento que Roku pegou na caneta, viu Yuki se movimentar. Ele tinha derrubado alguma coisa no chão e abaixou-se para pegá-la. Quando voltou, sua touca ficou presa na ponta da carteira, tirando-a de sua cabeça. Roku gelou muito mais do que o outro. Entre seus cabelos emaranhados ele viu duas coisas felpudas que se diferenciavam da cor dos cabelos. Foi só por um instante, pois Yuki na mesma hora puxou a touca da mesa e a enfiou na cabeça, de qualquer jeito, olhando para ver se alguém havia notado.
Então por isso que ele estava tão amedrontado. Estava com medo que o vissem sem a touca. Juntando os fatos, ele concluiu que, por mais anormal e raro que fosse, alguém com o mesmo distúrbio que ele estava sentado em sua classe, com medo de que alguém descobrisse. Vou falar com ele no intervalo.
Quando, mais uma vez, o sino indicou a pausa nas aulas, a professora se prontificou a falar antes que todos começassem a se movimentar:
— Ficam aqui quem não terminou de copiar o texto, para que o terminem. Os outros podem sair.
Roku se empenhou em copiar rápido as palavras do quadro para sair logo dali. Yuki, que já havia terminado, se levantou e passou pela professora, pegando um pequeno papel, dizendo o número de seu armário. Saiu pela porta e andou pelo corredor, procurando o número descrito. No final dele, achou o de número 822. Deixou o caderno ali e seguiu para o refeitório. Comprou uma maçã e uma caixinha de leite. Apenas uma mesa no canto do lugar estava totalmente vazia. Levou suas coisas para lá e se sentou, suspirando por ter dado tudo certo até o momento.
Só minha touca que caiu àquela hora, mas ninguém viu. Tenho certeza. Se não já teriam feito um escândalo. Ele arrumava algumas mechas de cabelo que ficavam para fora quando apareceu na sua frente uma pessoa.
— Parece que já pegaram meu lugar – Roku não percebeu o tom frio de sua voz, pois não era intencional. Yuki pegou nas abas da touca e lentamente puxou até a metade dos olhos, se certificando que ela estava bem enterrada na sua cabeça – Quando você puxa demais, a forma das suas orelhas fica marcada.
O-O QUÊ? C-como assim. Se-será que aparece m-mesmo?! Os olhos do menino se arregalaram, inundando a vista do outro com a cor de mel brilhante deles. Roku achou a expressão digna de pena.
— Não se preocupe, não vou espalhar isso.
Ótimo. Agora que ele sabe, pode fazer o que quiser comigo em troca de não contar para os outros — E-e o que você v-vai querer de m-mim? – A voz dele saiu tremida, mas o que fez Roku estranhá-la foi o fato de ter gostado dela, como se fosse adequada aos seus ouvidos.
— Querer de você? Eu não vou querer nada. Não sou desse tipo. Aliás, não sei se você percebeu, mas sou como você
Roku inclinou sua cabeça para o lado e afastou uma parte de seu volumoso cabelo para mostrar suas orelhas de gato. Yuki se encolheu na cadeira. Seu olhar pairou entre as orelhas dele e seu rosto. Mesmo depois de ele ter voltado a comer, Yuki continuou a olhá-lo. Roku gostou e fez o mesmo, passando a sustentar o seu olhar. Assim que o mais novo parou de devanear e percebeu que o outro fitava diretamente, suas maçãs do rosto se avermelharam e ele baixou a cabeça.
— Seu nome é Yuki, não é? – Roku tinha a voz alterada. O jeito do outro garoto o deixou irritado – Viu, qual é o seu problema? Por que você fica escondendo isso das outras pessoas? – Sem voltar a olhar para ele, respondeu meio surpreso com a mudança de humor repentina.
— E-eu... – ele tentou olhá-lo, mas não conseguiu fixar em sua expressão – Eu... É-é difícil d-de explicar! Vo-você não entende – o medo que havia nos olhos dele se transformaram em tristeza, mas o outro não notou. Estava alterado demais.
— Eu não entendo? Como assim, eu não entendo? Você está com medo de sofrer o que eu sofro há uns onze anos. Ninguém jamais quis ficar perto de mim, ou tentar ser meu amigo. Agora você, com suas orelhas escondidas, consegue atrair pessoas e-
Ele parou abruptamente, percebendo que já não tinha mais sentido continuar com aquilo, ainda mais pelo fato de Yuki estar quase escorregando para debaixo da mesa de tão assustado que ele estava.
Respirando fundo, ele conseguiu se acalmar.
— Olha, me desculpe se eu gritei com você.
Dizendo isso, Roku se levantou, levando seu prato até o lixo, e saiu do refeitório, deixando Yuki sentado ali sozinho, até dar a hora para a próxima aula. O maior não olhou mais para o outro, enquanto Yuki conferia se ele estava ali, de vez em quando. Quando as aulas terminaram, ele o viu a última vez virando a esquina, assim que em sua frente um carro de cor preta parou. Ele abriu a porta e entrou.
— Como foi o primeiro dia, Yuki-kun? – A mulher que dirigia, um pouco baixa e forte, perguntou.
— Bom... – Disse, ainda olhando para a esquina – Foi bom, Ellen.
Roku estava na metade do caminho para sua casa. Que dia estressante. Igual a todos os outros dias de escola. Os mesmos deveres e os mesmo aborrecimentos. Pelo menos não tenho que assistir o showzinho daqueles dois.
Chegando em casa, tratou de subir para seu quarto, que era bem grande e sempre muito bem organizado. Sua cama era de casal (do tipo Queen size), com a cabeceira encostada no meio da parede direita do quarto, com dois criados-mudos, um de cada lado. Na parede esquerda havia uma mesa e uma estante alta. Deste lado estava a suíte, com uma banheira ofurô, e do outro o closet, não muito extenso. Na ponta do quarto, portas de correr de vidro davam acesso para uma sacada, com um fino muro separando o piso do nada.
Largando a mochila num canto, tirou sua blusa e aprumou a cauda, que estava adormecida de ficar tanto tempo numa mesma posição. Ele gostava dos dias frios porque tinha onde escondê-la. Resolveu que, se tomasse um banho, poderia se sentir mais calmo.
Já a residência de Yuki ficava do lado contrário da escola. Era desviada da estrada normal, seguindo um caminho rodeado de árvores. Daria numa pequenina chácara, composta pela casa e por um grande jardim natural. As árvores pertenciam a uma pequena área preservada, assim como um fio d’água que passava por entre elas. A casa em si era pequena também. Seu interior tinha o ar de uma casa nas montanhas, muito aconchegante no frio e bastante fresca no calor. O quarto do neko ficava no andar de cima, de um tamanho proporcional ao da casa. Havia uma cama, quase encostada de lado na parede oposta da porta, onde estava também a janela e um pequeno criado-mudo. E, de frente ao pé da cama, um armário e uma escrivaninha, cheia de prateleiras, onde ele arrumava suas coisas.
Deixou a mochila na cadeira e, tirando a touca azul, Yuki passou a mão em seus cabelos volumosos. Examinou as orelhas para ver se não tinha as machucado de tanto prensá-las contra sua cabeça. Cansado, se jogou na cama, afundando nela.
O tempo trouxe uma noite bonita, sem nuvens, com estrelas e uma Lua. Roku já havia feito seus deveres de casa e estava em sua sacada, olhando para o céu. Quem e de onde será que aquele menino veio? Yuki... Ah!, é um medroso, isso sim. Não tem coragem de andar como eu, aguentando o que sempre aguentei! Mas... Bom, ele escolheu fugir, se esconder. Não tenho direito criticá-lo por isso. Aliás, ele tinha olhos muito bonitos... O que é isso?! Já estou delirando! Vou comer alguma coisa e ir dormir, isso sim. Olhos bonitos...Não estou completamente são.
Zombando de seus próprios pensamentos, desceu as escadas e foi até a copa, procurando pelo jantar que havia perdido, por vontade própria. Não encontrando nada, procurou na cozinha, dando de cara com a mãe preparando um chá verde. Eles trocaram um olhar, onde por trás do de Roku, súplicas inconscientes a ele mesmo gritavam pela mãe. Já ela tinha algumas olheiras de cansaço, projetando um quê mais medonho à sua expressão fria. Desviou seu olhar, passando pelo filho, e subiu ao segundo andar, indo para seu quarto. Em Roku, acometeu-lhe uma expressão de abatimento, porém passageira, pois Haruhi, a criada da casa, apresentou-se no mesmo recinto.
— Roku-san, deseja alguma coisa? – Com uma leve mesura, se ofereceu para preparar algo, caso ele quisesse.
— Não! Posso me virar, obrigado! – O desprezo da mãe lhe trouxe certa raiva, há muito já guardada, que ele deixou escapar por entre os dentes. Sabia que a empregada não tinha culpa, mas não conseguiu segurar-se, muito menos pedir desculpas.
— Perdão, meu senhor – Acuada, a mulher saiu da cozinha, voltando ao que fazia antes. Decidido em auto-penalizar-se, encheu um copo com leite da geladeira e tomou-o com rapidez; não comeria mais nada. Ao terminar, voltou com passos pesados até seu quarto. Para dissipar a raiva, pegou um caderno seu de desenho e começou a fazer alguns esboços, apesar de não ser tão bom nisso.
Na casa de Yuki, o garoto adormecera da forma com que havia deitado na cama. A mesma moça que dirigia o carro mais cedo entrou no quarto e cutucou levemente o neko.
— Querido, acorde – Sorrindo, esperou ele se espreguiçar – Você dormiu um bocado!
— Tia Ellen, para que você me acordou?
— É que eu fiz o jantar e vim te chamar para comer. Vamos!
Eles saíram da cama. Enquanto andavam, o neko coçou a orelha esquerda, que ficara adormecida por ter se deitado em cima dela.
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¹ {Equivalente à oitava série do Ensino Fundamental}
² {Nekos são seres humanos com orelhas e caudas, no caso, de gatos. No mundo desta história, o “nekísmo” será tratado como uma disfunção genética, assim como a Síndrome de Dawn, e tido como do século XX, além de não estudado a finco, ainda}
Notas finais
Deve ter ficado mega-confuso também (começos sempre são assim =_=')
Se vocês acharem algum erro, uma palavra repetida, frase sem sentido, POR FAVOR, me avisem.
Mandem-me uma mensagem, pelo amor de deus (não precisa coloca nos reviews... quem não percebeu, não necessita perceber x3)
O segundo capítulo, quem sabe quando '
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