Notas iniciais
Demorou, mas saiu. Aproveitem! :3

Aquele dia foi um meio desastre. Os exames de minha mãe precisaram ser refeitos e levaria mais de duas semanas para conseguir os resultados. Joey prometeu acelerar o processo, mas eu simplesmente estava incomodada com outra coisa: a lembrança de Lyra a centímetros do meu rosto, me fazendo perder a concentração só em fitar seus olhos. Perco o fôlego novamente só de lembrar do seu hálito quase unindo-se ao meu.

Por isso, comecei a evitar Lori, muito contra minha vontade. Ela não tinha culpa, mas sei que puxaria o assunto. E eu precisava de concentração total na saúde de minha querida mãe. No 4° dia, resolveu me parar no armário do colégio, segurando meus ombros o mais firme que conseguiu. Então deu outro dos seus abraços sufocantes, inundando o ambiente com seu perfume de flores.

-Sinto sua falta. – sussurrou, a voz de choro.

Meus braços, que ainda pendiam sem reação, rodearam sua cintura. Afundei meu rosto em seu pescoço e me permiti ficar ali por alguns segundos antes de responder.

-Desculpa. Eu ando preocupada com umas coisas, e terminei descontando em você, que nesses poucos dias foi mais amiga do que qualquer um que eu veja há anos neste colégio. Desculpa.

-Você foi a única amiga que eu fiz, Kim. E não sabe como eu me senti extremamente melhor depois de te conhecer. – disse, soluçando e limpando os olhos com as costas da mão direita.

-Mas... Logo quando te vi no ônibus a primeira vez, você estava rodeada de garotas e...

-Elas só estavam querendo me convencer a entrar nesses clubes loucos do colégio – interrompeu.

Peguei um lenço de papel do bolso de trás do jeans e enxuguei seu rosto delicadamente. Aos poucos, um sorriso se formou nos seus lábios, trazendo aos meus também.

-Me perdoa, Lori? – perguntei.

-Claro que sim, boba. Mas com uma condição. Eu quero saber o que está acontecendo, porque correu naquele dia e passou a me evitar. – disse.

Droga. Eu sabia que isso iria acontecer. Mas era o mínimo que ela poderia questionar a respeito, já que eu agi feito uma louca no hospital. E a assustei de verdade. Dava pra ver sua expressão carregada de seriedade, temor. Ela se preocupava mesmo comigo e, acima de tudo, queria mesmo continuar minha amiga. Achei isso legal, pois eu não tinha uma amiga há anos, principalmente no colégio. Exatamente por ser neutra e reservada. Suspirei como sinal de desistência e, puxei ela pelo braço até o banco mais próximo.

-Olha, eu vou ser sincera, mas espero não causar confusão entre vocês por causa disso. Só que naquele dia, sua irmã tentou me beijar.

Esperei confusão em seu rosto, ou no mínimo surpresa. A única coisa que interpretei foi uma pitada de decepção.

-Kim... Bom, isso não me é de todo novidade. Lyra é homo – falou, calmamente enquanto respirava fundo – e não é a primeira vez que ela dá em cima de uma amiga minha. Mas relaxa, eu não vou comentar.

-Tudo bem – comentei aliviada.

-A não ser que ela tente contra sua vontade de novo. – finalizou.

Senti um ar sombrio na frase. Os olhos cor de safira tomaram um aspecto feroz e, ao mesmo tempo fofo tentando manter a pose de chateada. Tive o quase impulso de mordê-la. Apenas comecei a rir.

-O que? – perguntou, ainda com um quase biquinho nos lábios.

-Nada, nada. Lori, tem noção de quão fofa você é, garota? – respondi, ainda tentando conter o riso.

Ela enrubesceu. Levantei e estendi a mão, tomando a dela, para levá-la agora sorrindo à sala de aula.



Comecei a vasculhar a casa pela 7° vez, só para ver se estava tudo perfeito. Jantar pronto, cômodos impecavelmente arrumados. Sentei no sofá e suspirei de cansaço. Olhei o relógio e apenas faltavam 5 minutos para Lori chegar. Bom, pensei, não seria má ideia ela dormir aqui.

Isso porque uma semana e meia atrás, ela fez questão de querer passar a noite aqui comigo, porque eu não poderia ficar o sábado com minha mãe em função dos exames. Sua justificativa me fez rir tanto com sua fofura que chorei. Isso só fez seu biquinho aumentar e transformar ela em um ursinho de pelúcia.

-Tudo bem, fica sozinha então. – resmungou.

-Certo, você dorme lá comigo, agora me desculpa, mas eu não consigo deixar de achar fofo. – respondi limpando as lágrimas.

Ela pulou em mim, na arquibancada da quadra, e sufocou-me com outro abraço e beijos no rosto. Vi que começaram a nos olhar e lhe empurrei de leve.

-Eu já entendi, Safira – falei, ainda rindo.

Há um tempo, apelidei Lori desse jeito. Ela gostou, tanto da nossa intensa proximidade recente quanto dos apelidos que nos demos. Tudo estava acontecendo perfeitamente, um verdadeiro mar de rosas para ela e (mesmo não descrevendo dessa forma, mas sim) também para mim. Só que nada no mundo se comparava a felicidade da garota ao receber meus beijos na testa. Isso era como um combustível do seu sorriso perfeito. Então, antes de me levantar, lhe dei um.

-Sexta eu vou lá. Espero que tenha uns filmes bons de romance. – abordou ela.

-Lori, vê bem se tenho cara de quem curte romance. – comentei irônica.

-Pode parecer durona, mas sei que por dentro é um amor. Não duvido que chore vendo alguns filmes assim. – justificou.

Caminhamos rindo pro vestiário, bobas e nervosas com a sexta-feira que estava para vir. E que por sinal, veio... Mais rápido do que imaginei. Agora estava eu, nervosa, batendo o pé e alternando entre olhar a TV e o relógio. 18:20h. Já tinha passado do horário, pensei, até tomar um susto com o soar da campainha. Corri, me batendo na mesinha de centro, e deixando a chave cair.

-Só um minuto! – berrei, me abaixando rápido e escolhendo a chave certa.

Fui atacada por um abraço apertado, o mesmo perfume de rosas e, beijinhos no rosto. E assim que me soltou, prendi a respiração, vendo Lori tão linda sorrindo como um anjo na minha frente. Seria uma longa noite.