Wasted Sacrifice
4 Descoberta
Notas iniciais
Fiquei boquiaberta. Como ela poderia estar ali? Parecia tão irreal que tive vontade de levantar apenas para tocá-la e garantir que meu cérebro não brincava comigo. Por sorte, a garota sentou timidamente a uma cadeira de distância, ao meu lado. Eu ainda parecia que tinha visto um fantasma, e comecei seriamente a questionar o momento como um caso deste. Imaginei estar chamando atenção com minha palidez e resolvi me voltar para o caderno, enquanto o professor retornava à explicação. Arranquei uma folha e escrevi:
“Como conseguiu sair do hospital tão rápido?”
Pedi ao garoto loiro sentado na mesma fileira para entregar a ela. Esperei, alternando entre olhar o quadro e a sua expressão enquanto lia. Minutos depois o papel voltou.
“Não sei do que você está falando. E nunca te vi na vida!”
Pensei: óbvio que, das duas opções em minha mente, uma era a correta. Ou era tudo um grande engano, ou aquela garota estava de brincadeira comigo. E uma brincadeira estranha e de mal gosto.
“Você está usando lentes, não é? Não adianta mentir, eu te vi no Cambria Hospital hoje.”
Escrevi e passei rapidamente. Segundos e ele voltou.
“Cambria? Eu já estive lá, mas para visitar minha irmã. E por sinal, não passei hoje ainda.”
Meu cérebro processou a palavra até que minha ficha caísse. Gêmeas. E com tonalidades opostas nos olhos. Isso era possível na medicina? Constataram casos assim antes? Era incrível como isso estava acontecendo; tipo situações que só ocorrem uma em um milhão. Voltei-me para a folha.
“Deixa ver se eu entendi: você tem uma irmã gêmea internada lá, então? E de olhos verdes?”
“Sim, o nome dela é Lyra. Bom, fui apresentada a turma, então já sabe como me chamo. E você?”
Ainda soava tão impossível quanto absurdo. Resolvi levar a conversa a outro rumo.
“Kimbley Walters, prazer em conhece-la. Na saída dessa aula é o almoço... Quer vir comigo? Se não houver problema nem companhia, claro.”
“Não tem problema, será ótimo. A gente se fala de novo daqui a pouco!”
Embolei o papel na mão e enfiei grosseiramente no bolso. Estava nervosa para que a aula terminasse. Tirar essa história a limpo seria ótimo. Conversar com ela seria um desafio também, pois seus olhos eram tão penetrantes quanto os da irmã. E vê-la me lembra do desconforto que foi o meu café da manhã lá na lanchonete. Enfim, conhecer a Lori soava como uma boa idéia no fim das contas... E bom, a Lyra também. Eu teria amigas sempre comigo, em cada um dos meus dois turnos aqui e no hospital. Então lembrei: Lyra estava internada. Furiosamente, pensei no porque, já que me pareceu tão saudável. Seria algo grave? Estaria ela se recuperando de um acidente? O sinal tocou e senti que minhas dúvidas iriam ser tiradas. Levantei e fui até ela, que organizava a mochila azul-marinho. Percebi que usava uma camisa preta de blusa longa com a manga encolhida no seu antebraço, um colete pequeno cinza por cima, um jeans e sapatilhas. Só então me dei conta de que eu olhava seu corpo, bem delineado, e não suas roupas... O que havia de errado comigo? Ficar olhando ela assim, como um garoto sem vergonha. Sacudi a cabeça e meus pensamentos antes de dizer um rápido “vamos” e caminhar ao seu lado até a porta.
Não podia negar que as irmãs, por serem tão parecidas, tinham um efeito estranho sobre mim. Ficava extremamente nervosa com apenas uma troca de olhares. E por ser um pouco durona, isso me incomodava. Sempre mantive uma imagem de pessoa forte, inabalável, até por referência de minha mãe, que nunca deixou de ser meiga e decidida. Porém na frente daquela garota, todo o esforço para continuar assim se esvaía. Simplesmente, estou agindo como um menino babão do lado da menina que ele gosta. E essa comparação me deixou mais irritada com meus pensamentos.
Sentamos num banco à frente da biblioteca, no corredor do segundo andar, depois de uma caminhada silênciosa. Ela tirou da mochila um sanduíche e o mordeu com vontade. Depois virou-se pra mim.
-Quer um pedaço? — ofereceu.
-Está tudo bem, Lori. Eu trouxe muito lanche, se puder me ajudar ficarei feliz. – respondi, sorrindo.
Seu olhar tomou um rumo confuso quando sorri. E pude manter ele sustentado por mais de 5 segundos, o que achei um milagre; porém fiquei com medo dela estar passando mal ou algo assim.
-Ei, está se sentindo bem? – perguntei preocupada.
-Ah... Ah... Está sim, desculpe. – murmurou, voltando a olhar seu sanduíche – É que o seu sorriso é lindo, Kimbley. Bom, eu achei.
Enrubesci. O rosto dela também adquiriu um tom levemente rosado, mirando o sanduiche numa tentativa de evitar focar meus olhos. Dei um sorriso bobo e levantei seu rosto pelo queixo, bem devagar.
-Obrigada, mas não precisa ficar assim com tanta vergonha. – falei calmamente.
-Eu sou muito tímida, é normal. – respondeu, sorrindo em resposta.
-Então, me conta, como veio parar aqui?
-Meu pai resolveu transferir a Lyra para cá. Dizem que é o melhor hospital da região.
Seus olhos cor de safira tomaram um semblante triste, fazendo meu coração apertar. Eu queria mudar o rumo da conversa, só que minha maldita curiosidade estava torturando.
-E o que ela tem? É algo muito grave? Bom, quando a vi hoje, ela me parecia tão bem e saudável quanto você... – falei, temendo a resposta.
Não sei ao certo porque eu temia mesmo. Nem conhecia elas direito, então como uma informação poderia importar tanto? Talvez fosse minha curiosidade maldita, abrindo ainda mais essa ferida no coração da garota triste à minha frente. Ou talvez fosse algo que simplesmente, eu não podia explicar por agora, como um sexto sentido. E a frase que escutei a seguir me fez arrepiar, como se o medo fosse gelo escalando minha espinha.
-Câncer.
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