Warzone
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Espero que gostem e ature minhas piadinhas ridículas (olhem os avisos e entenderão...) ao longo desta caminhada.
Gosto de pessoas, e gosto ainda mais de pessoas que cometam, imagina que legal se você for os dois, uma pessoa que comenta ❤
—Eu acho que ela é muda.
—Vamos descobrir – Declarou uma voz impaciente.
—Ei garota!
Senti algo cutucar minha cintura de leve. Não respondi.
—Ah, não quer falar? Vamos ver se sabe gemer.
Um chute mais forte me atingiu no abdômen e por um momento imaginei se o apêndice havia rompido.
—Nada?
Estava vendada, mas podia sentir meu sequestrador se preparando para outro golpe. Primeiro a dor e o sangue quente escorrendo da minha boca e queixo, descendo para o pescoço, depois a escuridão.
E foi assim que minha vida se tornou um caos. Lugar errado na hora errada.
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—Cope!
—Alô? – Tateei o telefone, dessa vez apertando o botão para atender certo e não o de recusar chamada.
—Diabos Cope, tem um fila enorme de pacientes te esperando! Você não está em casa, está?
—Fila? Mas ontem foi o meu plantão, hoje é o do Collins!
—Isso quer dizer que você está em casa? –Suspirou Margaret.
—Mais precisamente embaixo de grossos cobertores.
—Puta que pariu. Você vai cobrir o Collins hoje. Lembra?
—Lembro...
—Copeland...
—Eu já estou indo. Me dá meia hora.
—Você tem dez minutos!
—Cacete.
Não era para meu dia se tornar mais que isso. Tomar uma chuveirada rápida, mentir para Maggie que demoraria meia hora quando demoraria no mínimo uma hora e meia a mais (e ela sabia disso). Parar na Coffee&Lyrics e pegar ‘’o de sempre’’.
Claro que as 10h teria fila. Não tinha jeito melhor de começar um dia sem o cheiro de café misturado com chocolate que invadia nossas narinas. A fila enorme e o pessoal impaciente ficavam no mudo, quando entravamos na casinha de madeira com pôsteres de banda e discos de vinil na parede. As guitarras coloridas do segundo andar e uma música conhecida, na versão instrumental tocava baixinho. No começo da universidade, quando eu estava prestes a explodir de estresse, tudo o que eu tinha que fazer era ir para à Coffee&Lyrics, ficar uma ou duras horas, e eu me sentia no lugar novamente.
—Cope! Seu cappuccino já está saindo!
—Obrigada Sam.
Samatha, uma das garçonetes da Coffee&Lyrics, sempre preparava meu cappuccino antes dos outros, eu quase nunca pegava fila. Podia ser um pouco injusto com as outras pessoas, mas se forem pensar pelo meu lado, quanto mais rápido eu pegar o cappuccino, mas rápido eu poderei chegar ao hospital para salvar vidas. Em parte, era isso, a verdade é que ganhei tal privilégio ao pedir a mesma coisa durante anos.
De repente, o que estava mudo, foi ganhando cada vez mais volume. A tv que normalmente passava clipes de músicas antigas deu lugar a uma reportagem. As pessoas impacientes se viram para a televisão, alguns telefones começaram a tocar ao mesmo tempo. O meu também, era Margaret.
—Cope!
Agradeci mais uma vez enquanto equilibrava o copo quente e meu celular que vibrava na mesma mão para poder abrir a porta. Antes que pudesse pensar em pegar as chaves do carro foi arrastada novamente para dentro.
—Todo mundo pro chão! -Gritou um dos mascarados que invadiram o Coffee&Lyrics.
O que me arrastou para dentro, jogou-me para o aglomerado de pessoas assustadas e encolhidas de encontro a parede. Um senhor de meia idade e uma mulher me acolherem antes que eu batesse de encontro a uma mesa.
Uma mulher, visivelmente muito assustada, deixou-se o celular cair no chão por causa da tremedeira.
—Passem os aparelhos eletrônicos e nada de ligações– Mandou um deles utilizando a antiga bandeja de muffins (agora no chão) para recolher os aparelhos. Meu celular estava enlouquecido em meu bolso.
Merda, Maggie!
Senti uma ardência quando minha mão roçou o bolso da calça jeans. Me queimara com o cappuccino. Mesmo com a dor incomoda, tentei desligar o celular, mas só fiz piorar, tirei do silencioso.
Merda!
Obviamente meu sistema motor estava muito mais consistente da situação do que o nervoso. Eu não tinha o habito de tremer, não era bom para uma futura cirurgiã não aprender a controlar os nervos durante uma situação de pressão, pessoas podiam morrer, eu não podia tremer. Eu estava tremendo.
Cope, você teve uma arma apontada para sua cabeça hoje, tudo bem ficar um pouco nervosa.
Não, não estava nada bem.
—Mas que porra...Achei que tinha sido claro! — E atirou para janela do café que se estilhaçou, uma chuva de cacos de vidros caia em nós –Você!
Agarrando meus cabelos e me fazendo ficar de pé, senti novamente o metal frio e duro em minha têmpora.
—O próximo que tentar algo vai trocar de lugar com ela, só que direto em um buraco.
Meu coração parecia estar se divertido em uma cama elástica, meus batimentos estavam me ensurdecendo e minha cabeça doía onde meus cabelos foram puxados.
Lágrimas grossas escorriam pelos meus olhos, como? O sistema límbico, uma parte de nosso cérebro que passa a informação da tristeza para frente até chegar a glândula lacrimal (saquinho formado de célula que produz as lágrimas, localizado perto dos olhos). Mais uma vez, meu corpo parecia funcionar individualmente, tinha a sensação de estar assistindo um filme do qual eu não fazia parte.
—Cadê o J? –Perguntou um dos capangas que me segurava para o outro.
—Achei que estivesse aqui.
—Caralho, eu não vou ficar aqui por um capricho do J.
—Você não vai fazer nada que eu não mandar você fazer – Foi o suficiente para fazer o outro calar a boca. Eram quatro. O primeiro me fazia de refém, o segundo e o terceiro vigiavam as portas e janelas, e o último fazia o restante de refém.
Ninguém se manifestou durante alguns minutos que se passaram horas. O que eles queriam? Por que não pegavam o que queriam e iam embora?
—Com licença...
—Sentado... –Cortou o primeiro, uma voz grossa e densa.
—Vocês já pegaram o que queriam, ninguém viu vocês, por favor, nos deixem ir.
—Ei, Bruce, ele quer ir...
—Ah bom, faz todo o sentindo agora, se o velho disse que está na hora de ir...
—Faz as horas El?
Não, não, não.
Antes que eu pudesse pensar em fechar os olhos, o estouro explodiu em meus ouvidos me deixado temporariamente surda. El, o capanga que me segurava achou que sua última ação foi o suficiente para servir de exemplo para os próximos que voltassem a abrir a boca. Eu não era mais importante, fui lançada novamente ao chão.
O senhor corajoso não morreu, mas poderia. Levou um tiro no fêmur e da onde eu estava não poderia ver se a bala tinha atingindo a veia femoral, se isso acabasse logo, o senhor ainda teria uma chance. Claro que tudo podia piorar, a bala poderia ainda estar lá dentro, dificultando ainda mais os socorros imediatos.
Os capangas não pareciam estar mais prestando atenção em nós. Aproveite-me dessa oportunidade e da súbita vontade de salvar alguém que me dava coragem, e devagarzinho fui me arrastando até o senhor. Foda-se os cacos de vidros que cortavam minha mão, alguém precisa de ajuda e eu estava ali.
—Vai ficar tudo bem! – Disse quando o alcancei. Dificilmente ficaria tudo bem, a grande perda de sangue se comprovava que atingira a veia. Utilizei meu cachecol para fazer um torniquete. O senhor gemia baixinho, eu sabia que ele queria gritar, mas não podia.
—Eu sei, eu sei, vai ficar tudo bem- Repeti. Além do torniquete, eu podia oferecer minhas palavras de conforto, era uma mentira? Talvez, mas era tudo que ele queria ouvir e eu daria isso a ele. Eu também estava mentindo para mim, as palavras de conforto também eram para mim. Estava fazendo residência no hospital Rosings há um ano e meio, e nunca vira alguém morrer em meus cuidados. Como estudante recém-formada em medicina, era de se esperar que era inevitável, era uma questão de tempo, pessoas morrem, mas nunca se está preparado para isso.
Quando decidi cursar medicina, eu tinha a ideia de ser uma heroína, salvar as pessoas de algo inevitável, a medicina é um remendo, vamos remedando e colando um vaso quebrado até um dia em que não se pode mais remendar ou colar.
O sininho da porta do Coffee&Lyrics tilintou e entrou mais um deles.
—Porra J, onde você estava? Eles conseguiram?
Não consegui ouvir a resposta, mas seja o que for, tinha dado certo, El pareceu relaxar, mas imediatamente voltou a sua postura intimidadora.
—Libertem os reféns e estaremos fazendo uma negociação! — Gritou uma voz lá de fora.
—Ninguém se mexe! – Ordenou El para nós. Ele era o comandante da gangue, isso ficou claro, o que ele mandava os outros obedeciam. -O que vamos fazer com eles? — Perguntou para J que olhava para nós.
—Há algum ferido? – Perguntou outro policial.
Olhei para o velhinho que agora estava perdendo a consciência.
—Senhor? – Chamei-o baixinho.
—Vamos deixá-los sair em massa – Concluiu J – É a nossa melhor opção.
El deu mais uma olhada ao redor, claramente a procura de outra saída.
—Todo mundo de pé! –Berrou – Ele também! – Apontou para o idoso.
—Cara, deixa ele aí! – Falou outro de seu grupo.
—Eu disse TODOS de pé.
—Ele não pode! – Gritei.
—Como é que é? – Eu morreria ali e agora pela minha petulância.
—Ele está morto... – Falei mais baixo. Agora lágrimas de tristeza escorriam pelo meu rosto, eu deixei alguém morrer em minhas mãos.
—Repito: Deixem os reféns sair e conversaremos.
El só virou a arma da gente em direção a porta, uma mulher de cabelos loiros avermelhados foi a primeira a se mover em direção à saída, meio insegura se devia mesmo ou era uma pegadinha, mas logo eles começaram a nos apressar, estavam nos libertando. Todos tínhamos consciência das quatro armas apontadas para nós se ousássemos correr.
Assim que os raios de sol votaram a tocar nossos rostos, disparamos a correr.
Estávamos na mão da polícia agora— Pensei.
O tiroteio começou, os barulhos de cacos de vidro de misturavam com os dos tiros, algumas pessoas não envolvidas corriam junto, outras gritavam que era um atentado terrorista. Atravessei a rua com o sinal aberto quase sendo atingida por um táxi. Havia deixado meu carro na frente do café, estava correndo sem direção alguma, já não estava acompanhado o grupo.
Ofegante mais determinada olhei em volta o cenário, tinha entrado em um beco, logo adiante havia uma escadaria. Escutando mais tiros atrás de mim, voltei a correr.
— Quieta!
Policiais se juntaram onde estávamos, com uma arma para minha cabeça e meu corpo preso, eu tinha zero chances de fugir. Todas as vezes em que me preparei para uma improvável luta pela minha vida tinham sido anuladas. Eu não era uma super-heroína independente, eu era uma formiga.
—Larguem as armas! – Ordenou o meu atirador. Meu batimentos rebatiam no cano frio de metal, a qualquer momento, a qualquer momento...
Primeiramente tive a sensação que estava saindo do meu corpo, mas não, eu não havia morrido, apenas o atirador recomeçou a andar me usando como escudo. Degrau por degrau...
Se eu tropeçasse, ele poderia apartar o gatilho...
Se ele tropeçasse, também poderia apertar o gatilho.
Eu não queria pensar nas probabilidades, eu tinha mais chances de morrer do que sair viva.
A inutilidade dos policias apenas concedeu a ação de pedir calma ao atirador e pequenos passos para frente.
Por que vocês não perguntam se ele não quer um chá? ‘’Calma’’. Vamos todos sentar e bater um papo? Sério? É assim que eles querem ganhar tempo?
Queria implorar que me soltasse, eu juraria que não pediria socorro, mas tinha medo da minha voz o assustar e provocar o disparo.
Uma freada brusca ecoou atrás de nós e o resto foi só escuridão.
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