Warrior
1 Então, quando menos se espera, chegam más noticias
Notas iniciais
“Essa manhã trouxe um vento frio consigo, alertando a chegada do inverno a meu corpo.
O ar entrava por diversas cavidades, deixando o tal lugar velado por um álgido cobertor. Acordei quando a brisa gélida deu-se a acariciar meu rosto. Devagar, abri os olhos. Minhas roupas, rasgadas e manchadas com meu próprio sangue, não impediam o exagerado frescor de penetrar em minha pele. Olhei em volta, não havia ninguém. Correção: Não havia nada. Tratava-se de uma minúscula cabana quase completamente destruída. Ficava no topo de um pequeno morro, cercado por uma grama alta que ajudava a esconder do que fosse.
Não me lembro de nada da noite anterior, nem como me feri daquela maneira ou como fui parar ali.
A porta – pendurada por uma dobradiça – rangeu, chamando minha atenção.
Uma mulher me observava dali. Ela tinha cabelos prateados como estrelas no céu escuro e suas roupas – uma camisa social branca, calça preta e botas surradas – estavam impecavelmente limpas. No entanto, por mais que pudesse perceber esses detalhes, não conseguia ver seu rosto. Parecia se curvar para perto de mim, foi quando ouvi a melodia que saia de seus lábios.
-Adden, acorde!”
-Adden, levante-se! Trago-lhe boas novas, então trate de acordar! – alguém me sacudia.
Vagarosamente, levantei as pálpebras, acostumando-me com a luz. Primeiro vi os cabelos prateados, assim como os da mulher em meu sonho. Logo minhas íris encontraram as suas, um brilhante par de safiras, tão belos quanto a joia propriamente dita.
Bastavam seus olhos para que pudesse reconhecê-la. Tratava-se de uma antiga amiga, Lilian.
Ao notar que eu acordara, soltou meus ombros e afastou-se para que pudesse me sentar. A encarei, dizendo:
- Por que diabos você me acordou a essa hora?
- Trago noticias dos batedores — seu olhar, duro e sério acentuou-se ao me responder, mas logo se atenuou – Anmi está de volta.
Então ela não morreu, pensei. Essa jovem da qual minha amiga fala é, sem sombra de duvidas, uma das criaturas mais inteligentes que já conheci em toda minha longa vida. Quando recebi a papelada necessária para libera-la em sua viagem, senti-me temerosa como não sentia a um bom tempo. Temerosa perante a ideia de, possivelmente, perder uma camarada tão cheia de chances.
- Onde ela está? – perguntei, com uma calma aparente, à Lilian.
- Lá embaixo – fez uma pausa, e continuou – Está te esperando desde que chegou, sequer trocou de roupa.
Levantei-me de supetão, indo em direção à maior peça de madeira em meu quarto: um enorme armário de mogno, decorado com tantos regalos quanto possível. Não era exatamente meu, pois já estava aqui quando tomamos este lugar. Nunca que eu teria dinheiro para comprar algo tão majestosamente inútil.
- Vou me trocar, pode ir me esperar no primeiro andar, ou no corredor mesmo se preferir.
No entanto, ela continuou ali.
- Lamento dizer que terá de conversar com ela sozinha – suspirou, ali carregava algo próximo à pena, à piedade – Adden, ela está muito debilitada. Tanto mental quanto fisicamente. Logo, não acho que conversará com alguém além de ti.
Parei de frente ao pesado móvel, digerindo o que acabara de ouvir.
- Peça para que todos se retirem do primeiro andar – virei-me para Lilian – Todos, exceto Minory – antes que deixasse o quarto, acrescentei: — E peça para que me esperem, já estarei indo em seu encontro.
Quando me vi só dentro das paredes amareladas, despi-me dos shorts que usava e os substitui por uma calça qualquer que encontrei pendurada à minha frente, a qual usei para ajeitar a blusa de mangas compridas com que dormi. Vesti as botas surradas ao lado de minha cama, e pus-me porta a fora.
Meu passo era lento, sem nenhuma demonstração de excitação ou algo do tipo. Mas meu coração me traia. Com batidas rápidas, esse sim revelava o que sentia. Queria por ver Anmi o mais rápido possível, abraçar-lhe e dizer que estava tudo bem. E eu o faria, assim que estivéssemos a sós.
Passei por diversas portas, todas tão bem conhecidas à minhas vistas. A minha, por sua vez, se encontrava quase ao final do comprido corredor – o qual, algum dia, estivera coberto pelos mais ricos carpete e papel de parede possível; hoje, o papel estava descascado e bolorento, o carpete sujo e com aparência enjoativa -. Quando cheguei ao topo da comprida escada de mármore, iniciei uma lenta descida até seus pés. Nesse meio tempo, dei-me a observar o aposente como fazia tantas vezes por dia.
Janelas compridas permitiam a passagem da luz. Também revelavam a bela paisagem lá fora: montanhas cobertas por um tapete de pinheiros e arvores frutíferas, e o fundo lago que separava a construção do resto da humanidade. Uma enorme porta de madeira leva à extensa varanda, onde pode admirar tamanha beleza mais de perto.
Dentro do aposento era diferente. As formas irregulares das pedras atraiam o frio para o cômodo. No teto – feito, aparentemente, de madeira apodrecida — pendia um lustre, provavelmente de cristal. Eu não sabia, nem me interessava.
A sala era decorada com três sofás que um dia já foram brancos — formando um quase quadrado — uma mesa de mármore perolado, uma lareira no lado esquerdo e alguns poucos vasos de plantas encharcadas com flores das mais diversas cores.
Cheguei ao fim das escadas. Dei-me a correr até onde estava um aglomerado de pessoas, amigos da jovem que acabara de voltar da longa, e aparentemente cansativa, viajem.
Pelo visto, Lilian não fez o que pedi. Todos ali eram rostos bem conhecidos, bem estudados. Conseguira, sem nenhum esforço, reconhece-los a uma considerável distancia; mas isso não vem ao caso no momento.
-Anmi! – gritei, enquanto tentava aproximar-me.
Assustados por ouvirem minha voz naquele tom, pararam e afastaram-se para que eu pudesse alcança-la. Até mesmo sua companheira de quarto, cuja nunca a abandonava, levantou-se de seu lado no sofá em sinal de respeito.
Ela estava... Como dizer? Acabada? Talvez seja essa a palavra.
A Anmi normal, feliz, sorridente, com seus cabelos negros e olhos castanho-escuros brilhando, não se encontrava presente naquele momento. Quem estava ali era um ser estranho e com um ar de desistência. Ela sorriu pra mim, um sorriso triste, mas pelo menos um pouco da luz voltou a sua face.
Andei em sua direção, com tanta calma quanto possível. Quando consegui alcança-la, envolvi meus braços ao redor de seu corpo, acolhendo-a em meu seio. Dessa forma, pude perceber a perda excessiva de peso que sofrera, e algumas fraturas que, com certeza, estariam lhe custando boa parte das energias.
- V-veterana... – a ouvi sussurrar – está me esmagando.
Soltei-a quase que imediatamente, colocando-a com delicadeza no sofá novamente.
- Anmi, é muito bom tê-la de volta – peguei suas mãos e as apertei – Fiquei muito preocupada com sua ausência, cheguei até mesmo a pensar que... – suspirei – o que importa é que você voltou.
- É isso o que devemos pensar, por hora – a voz vinha de um dos braços do sofá – Por mais que precise de muitos cuidados médicos – tal melodia partia de Minory, mais uma de minhas amigas.
Minory é uma mulher bonita. Tem cabelos roxos brilhantes presos em um alto rabo de cavalo, olhos amarelos e um corpo esbelto; com seu nariz pontudo, lábios carnudos e bochechas rosadas, encantava aquele que quisesse. Um vestido preto apertado assentava-lhe as curvas, que cobria com um jaleco branco. Essa mulher seria chamada por muitos como a luxuria em pessoa, tamanha sua beleza.
Olhou para os telespectadores repreensiva, dizendo-lhes:
-Saiam! – sua voz era firme e autoritária – Não há nada para se ver aqui. Voltem para suas camas!
Mal se ouve resposta, apenas alguns “Sim senhora” aqui e acolá, e logo todos aos seus dormitórios.
Em seguida, virou-se mais uma vez para a jovem.
-Seja bem vinda de volta, Anmi. – seus braços, cruzados, estavam junto ao corpo.
A menina abaixou o rosto.
- Obrigada, Minory – sua voz estava num sussurro distante, difícil de compreender.
A face da mais velha voltou a ficar séria.
-A questão é...
- Qual é a tal noticia que nos trás?
Com expressiva relutância e voz embargada, a menina põe-se a falar:
- O motivo de eu ter levado tanto tempo para voltar... – ela fez uma pausa -... O motivo... – senti as lagrimas vindo ao seu rosto, e me aproximei para acalma-la, mas, ela me impediu -... Eu me infiltrei no governo.
O silencio pesou no cômodo. Mas, espere um segundo...
- Você invadiu o governo?! – berrei. Maldita falta de paciência; ela ainda me trará muitos problemas.
-Sim – dizia com um pesado tom embriagado e relutante -... E fiz uma descoberta que, certamente, nos ajudara em futuras investigações.
Minory – a qual se manteve atenta todo esse tempo – pronunciou-se:
- Que noticia é essa que a deixaria tão assustada?
Anmi parou por uns instantes, pensando no que fazer. Mas logo pude ouvir sua fraca voz:
- E-eles... Eles têm – engoliu em seco e encarou-me – Eles tem um exercito escondido.
Outro choque.
- Merda! – murmurei.
O exercito inimigo é absurdamente poderoso. Como os governos de praticamente todos os países estão interligados através da comissão de Direitos Humanos – que, vale lembrar, não serve pra absolutamente nada -, fazendo com que se ajudem mutuamente quando necessário. Como já se sabe quase nenhum país apoia a frente revolucionaria por medo de esses monstros atacarem seus territórios; a descoberta de mais um exercito era aterradora, já que mal temos pessoal para ir contra qualquer pedacinho de país, imagine contra m exercito fantasma?
Minory me olhava com a mesma reação. Respirou profundamente e disse:
- Estamos ferrados.
- Definitivamente – concordei – Nós definitivamente estamos ferrados.
Suspirei e levantei-me, erguendo a mão para Anmi.
- Vá descansar. – sorri – Quando for a hora, nós lhe chamaremos.
Ela segurou minha mão, agradecida, e disparou para seu quarto. Observei-a subir, até que desapareceu nos corredores. Voltei-me para Minory. Quando nossos olhares, antes sérios, se cruzaram, tornaram-se tenros e cheios de preocupação.
-Reúna todos os capitães na sala de conferencia em uma hora – vi sua boca se abrir e, prevendo a pergunta que viria, disse: — Mesmo os não estão presentes. Contate-os e diga para que se façam presentes, não importa o meio necessário.
Ela assentiu e subiu as escadas, desaparecendo atrás dos corredores. No espaço de alguns segundos, ouvi suas delicadas mãos batendo nas portas dos ditos cujos. Outra pausa, outras batidas.
Suspirei pesadamente. Enfiei minhas mãos nos bolsos do moletom cinza que eu usava. Então, quer dizer que eu peguei um moletom? Bom, espero que minha blusa não seja tão informal assim.
Subi as escadas e virei à esquerda, lado oposto ao meu quarto. Segui por cinco, dez, quinze portas. Parei em frente à única porta cinza do corredor. Um numero sete prateado no inicio da oxidação pendia no topo. Entrei sem bater. O quarto era simples; as paredes cinza e levemente inclinadas acomodavam perfeitamente um armário amarelado de madeira barata, uma janela relativamente grande no fundo, um piso de madeira – que fazia uns rangidos bem bizarros, deve ser a idade -, uma portinha do lado direito – esta levava a um pequeno banheiro -, uma cama e uma mesinha cabeceira – onde jaziam pousados uma vela apagada e um pesado livro de capa vermelha.
Uma pessoa dormia na cama. Era exatamente por ela que eu estava ali. O cobertor tampava lhe até altura dos olhos, mas eu podia ver suas mechas ruivas, tão vermelhas quanto o fogo que lambia as paredes de pedra do primeiro andar. Aproximei-me devagar, ajoelhando ao lado cama. Toquei seu rosto delicadamente, deliciando-me com sua pele. Acariciei sua face e, relutante, passei meus dedos pela marca que mais me assombrava; uma cicatriz que ia desde sua sobrancelha até a metade de sua bochecha. Aquela seria, para sempre, minha memoria em carne sobre o quanto ser impaciente era ruim. Mas não é hora de lembrar sobre o passado.
- Scarlett – sussurrei bem próxima de seu ouvido -... Eu lhe trago novidades.
Ela sorriu e, com sua voz suave e deliciosa, sussurrou-me:
- Bom dia para ti também. – abriu seu olho esquerdo – o único que conseguia abrir completamente, devido a sua cicatriz no direito -, revelando sua cor esmeralda.
-Dormiu bem? – perguntei.
Ela se espreguiçou e sentou-se em minha frente.
- Muito bem – sorriu, aproximei minha mão da sua, mas ela recuou – Mas – seu sorriso desapareceu e sua face tornou-se séria -, o que seria tão importante para você me acordar tão cedo pela manhã?
Hesitei por um momento, pensando em sua possível reação.
-É sobre Anmi – nossas vistas se encontraram, e percebi a clara preocupação em seu olhar – Ela voltou.
Num piscar de olhos, ela se pôs em pé, fazendo com que eu me assustasse.
-Onde ela está?! – sua voz não era mais um sussurro, mas também não era exatamente um brado.
Levantei-me. Eu sempre fui mais alta que ela, mas era estranho observar aquele ser tão imponente de cima. Pus minhas mãos em seus ombros e sorri.
- Esta descansando — ri e a abracei – Fique calma, ela está bem – menti.
Senti seus braços em volta de minha cintura, retribuindo o abraço.
- Hoje vai ser um dia tenso para nós duas... – ela se afastou de mim e disse com uma voz provocante: – Então, que tal um presente antes de tanto trabalho?
-Eu aceito – sorri e me aproximei mais de seu rosto, com os olhos semicerrados.
Senti sua respiração, antes calma, ofegante nos meus lábios. Quando finalmente cobriu os centímetros que restavam, selamos nossas bocas. O que havia começado com um beijo calmo, tinha se tornado urgente, desesperado. Nossas línguas dançavam, ora numa boca, ora noutra, num ritmo frenético. Depois de um tempo, nos afastamos, ofegantes, mas felizes. Beijei sua testa.
- Temos uma reunião em 40 minutos – anunciei – É melhor você ir se trocar – ri – ou querem que te vejam de camisola?
Ela riu debochada.
- Você também deve ir, ou querem que te vejam com uma blusa de patinho cor-de-rosa?
-Mas do que diabos você... – desviei meu olhar para a blusa que usava: amarela com um pato rosa no meio. Eu realmente consigo ser ridícula às vezes.
- Eu acho fofo – “Você quer é me provocar” pensei.
- É melhor eu ir – dei-lhe um selinho rápido e beijei sua testa mais uma vez -, nos vemos mais tarde – fui andando em direção à porta.
Ela agarrou meu braço, como se não desejasse minha partida. Encarou-me por algum tempo e soltou-me novamente. Nesse exato momento, alguém bateu. Olhei para ela, que me apontou o armário. Entrei lá e esperei.
-Entre. – eu a ouvi dizer.
Fechei os olhos e dei-me a concentrar no que acontecia do lado de fora.
Ouvi alguém entrar. Pelo cheiro, reconheci Anmi. A entrada calma logo foi substituída por um salgado cheiro de lagrimas e soluços embargados
- Se acalme e conte-me o que aconteceu. – o pranto tornou-se baixo, mas não se durou muito – Engula o choro Anmi – abandonando sua pose quase maternal, a voz de Scarlett tornou-se dura e fria.
Não escutei mais os soluços ou senti o cheiro das lagrimas. Ainda com a voz afetada pelo choro continuo, Anmi se pronunciou:
- Capitã Scarlett... – as lagrimas voltaram aos seus olhos, mas recusaram-se a cair -... Eu tenho que contar... Que contar a alguém o que eu vi... – a força que fazia para não deixa-las escapar fazia com que seus olhos doessem, mas prosseguiu– Eles... Eles têm...
Os braços da ruiva adornaram o corpo da menor, passando-lhe um mínimo de confiança.
-Continue minha cara.
E então, num único folego, a garota soltou toda a informação de uma só vez:
- Eu vi corpos, capitã! Eram corpos mortos, sem vida... Mortos que batalhavam! Um exército... – lagrimas de dor e angustia começaram a rolar por sua face, deixando seus os olhos vermelhos, dando-lhe mais cara de doente do que já possuía -... Um exército de mortos!
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