Warning

1 Capítulo Único


Victor só voltou a gostar de festas por causa de Yuuri Katsuki.


Foi por causa do mesmo baile que, um ano antes, ele dançou e se apaixonou pelo patinador japonês que agora era seu noivo. E mais uma vez eles estavam lá, na mesma festa, em Barcelona.


O homem de cabelos platinados andava despreocupadamente pelo salão, uma taça de champanhe na mão, um sorriso modesto no rosto e um ocasional aceno para os familiares.


Decidiu deixar Yuuri um pouco sozinho por enquanto. Ele precisava de um tempo para receber os elogios e parabéns pelo desempenho na competição. No momento podia vê-lo conversando com Jean-Jacques Leroy e sua noiva, o brilho de orgulho em seus olhos ainda não se dissipara.


Victor viu-se encostado a uma mesa de petiscos, ao lado do patinador Phichit Chulanont, que no momento estava ocupado atualizando seu Instagram. Ao notar a presença do outro, o tailandês sorriu e se virou para ele.


— Oi, Victor. — ele falou com aquele toque alegre característico de sua voz.


— Olá, Phichit. Parabéns pela sua apresentação, você se saiu muito bem. — ele disse cordialmente, antes de tomar um gole da bebida.


A verdade é que Phichit havia ficado em sexto lugar e com certeza não estava satisfeito com o resultado, mas não é como se ele fosse expressar o seu descontentamento. O rapaz sorriu e voltou a olhar para o celular.


— Obrigado. Mas há pessoas que merecem muito mais elogios do que eu. — ele disse e olhou para trás, onde Yuuri parecia estar se soltando cada vez mais na pista de dança a poucos metros dali. Era impressão sua ou o olhar do moreno brilhou quando olhou para seu noivo?


Tão rápido quanto surgiu, o brilho sumiu quando Phichit voltou a olhar para o smartphone, dedos rápidos ao digitar algo em alguma rede social.


— É uma grande droga, sabe? — ele disse sem levantar o olhar.


— O quê? — o russo perguntou confuso.


— Ver seu melhor amigo apaixonado pelo cara que o machucou mais do que ninguém até agora. — ele disse finalmente guardando o celular e olhando seriamente para o outro patinador.


O ambiente pareceu ficar mais frio para Victor. Sentia que aquela conversa ficaria bem desconfortável dali em diante. Antes que pudesse falar algo, Phichit continuou:


— A culpa não é toda sua, claro. Mas coloque-se no meu lugar. Yuuri foi o meu primeiro e melhor amigo quando cheguei em Detroit. Nós treinamos, estudamos, moramos, competimos, choramos juntos. Eu passei cinco anos da minha vida cuidando dele e ele de mim. E sabe o que eu aprendi? Yuuri é frágil. A facilidade que tem para seguir em frente é a mesma que tem para sucumbir ao menor dos incômodos. Você, Victor, trouxe muitos incômodos. — ele disse impassível, suas palavras quase saindo imperceptíveis por conta da música eletrônica que começava a tocar.


— A ansiedade de Yuuri não é culpa minha. — ele defendeu-se com o cenho franzido. A maior culpada pelos fracassos de Katsuki até agora foi a sua insegurança.


— Claro que não. Mas você não sabe lidar com ela, e isso acaba ferindo-o sem perceber. — ele disse enquanto pegava um canapé da mesa — A Cup of China me deixou particularmente irritado. Você fez Yuuri chorar — o desgosto em seu olhar e voz era claro.


Victor suspirou, a mão sobre a testa como fazia quando estava estressado. Pensava que aquela história já tinha sido resolvida.


— Eu me desculpei com ele, ok? Eu não sabia o que estava fazendo, admito que foi uma atitude idiota.


— E nisso eu te admiro, Nikiforov. Mas há vezes em que as coisas não são tão claras assim. — ele cruzou os braços, um indicador no próprio queixo em ar pensativo — Devemos falar sobre ontem nos programas curtos, quando você estava todo alegre assistindo as outras apresentações enquanto Yuuri se acabava em nervos por causa de um erro no desempenho?


Ele arregalou os olhos.


— Como...Como você...?


— Yuuri vem falar comigo quando se sente inseguro. Ele me disse que se sentia culpado por estar tirando você da patinação quando parecia claro que você queria voltar ao gelo.


— Mas...como eu ia saber?! Eu fui o surpreendido na história quando ele falou que iria se aposentar e que não me queria mais como técnico. — ele disse frustrado. Como Victor seria capaz de prever quais ações magoariam o nipônico?


— Agora chegamos a uma parte muito legal. — ele disse com um sorriso artificialmente alegre — Você voltando ao ringue. Já parou para pensar em como Yuuri vai se sentir competindo contra você? Não é mais Victor Nikiforov, a lenda. É Victor Nikiforov, o noivo, o companheiro. Ele ficará com medo de te magoar, seja ganhando ou perdendo. Não saberá se você está realmente se esforçando para ganhar, se está jogando de igual para igual. E se você conseguir mais um ouro, ele pode achar que foi tudo em vão. Afinal, o que é um aprendiz que não consegue superar o próprio mestre? — ele falava como se fosse uma conversa normal, mas havia uma ameaça implícita em suas palavras.

Seus lábios formaram um sorriso sarcástico e ele voltou a falar:


— Mas vamos ser sinceros, a cereja do bolo foi isso aqui. — disse pegando a mão do mais velho com a aliança, palma aberta para que os dois pudessem observar a joia. Victor engoliu em seco — "Vamos nos casar assim que Yuuri ganhar a medalha de ouro." Mas não, ele ganhou prata. Então não vai mais ter casamento? — ele perguntou arqueando uma sobrancelha.


— Foi o que eu disse. Vamos nos casar quando ele ganhar ouro nos Quatro Continentes...


— E se ele não ganhar, Victor? Vai continuar adiando o evento até se cansar dele e de brincar de técnico? — ele apertou seu pulso com força — Yuuri não merece mais incertezas. Ele precisa de suporte, de alguém que ficará ao seu lado não importa o que aconteça. Entende?


— Eu não sou estúpido, Phichit. — disse soltando-se da mão do mais novo com uma carranca — Eu não vou abandoná-lo. Eu amo o Yuuri.


— É bom que esteja falando a verdade. Ele depende muito de você agora. Por mais que eu agradeça aos céus por terem deixado meu Yuuri feliz, agora qualquer deslize seu pode desagradá-lo. — ele olhou novamente para o amigo que dançava não muito longe dali. Havia preocupação nos olhos do mais novo.


Phichit amava Yuuri. Platonicamente, mas ainda era amor. Os dois haviam passado tanta coisa juntos. O japonês sempre precisou de mais conforto por conta de suas inseguranças, mesmo sendo o mais velho da dupla. O tailandês ainda se lembrava da noite em que Yuuri voltou para Detroit e chorou por que Victor Nikiforov não o reconhecera como um competidor ao oferecer uma foto. Ele não era ninguém. Era apenas mais um figurante. Logo depois faria papel de bobo ao conseguir a pior colocação do Grand Prix em Sochi. Aquilo acendeu algo no patinador mais novo: raiva. Pois de todas as pessoas no mundo, Yuuri era a que menos merecia passar por aquilo. Dane-se se Victor Nikiforov não sabia do ocorrido, ele ainda magoara seu amigo.


Mas ele aguentou bem. Ficou feliz quando Victor se tornou o técnico de Yuuri, quando os dois se beijaram na Cup of China e principalmente quando o noivado foi anunciado em Barcelona. Acima de tudo ele estava satisfeito pois seu amigo estava feliz.


Isso não diminuía a culpa do russo nem um pouco.


Inconscientemente seus olhos baixaram para o seu celular, sua pequena obsessão. A foto do papel de parede mostrava ele e Yuuri em um restaurante em Detroit. Era uma das primeiras fotos que eles haviam tirado, quando Phichit tinha pouco mais que 16 e o mais velho 19. Ele estava sorrindo. Protegeria aquele sorriso até o fim. Suspirou cansado.


— Só quero que saiba que eu não vou poupar esforços em te destruir se fizer Yuuri sofrer de novo. — ele disse levantando o olhar do celular para encará-lo com aqueles frios olhos castanhos.
— Como pretende me destruir? — Victor sabia que estava brincando com fogo, mas não pode conter sua curiosidade ao olhar para o mais novo.


Phichit sorriu de lado, como se estivesse ouvindo uma piada velha, mas que nunca perdia graça.


— Eu tenho meus métodos, Nikiforov. Não pense que eu tenho medo do seu poder, da sua fama ou do seu dinheiro. Um clique meu, — ele balançou o smartphone em sua mão — e você verá o seu mundinho desmoronar. Yuuri pode ser magoado no processo, mas é o preço que eu pago para afastá-lo da pessoa tóxica que você pode vir a ser. — ele sorriu alegremente como antes — Mas eu sei que você será um ótimo marido e que fará meu amigo muito feliz! Estou torcendo por vocês!


— Phichit! — Yuuri chamou da pista de dança, a gravata afrouxada e o rosto corado mostravam que já bebera bastante — Vamos dançar, é a nossa música!


— Já estou indo! — ele respondeu com a mesma animação. Voltou a olhar para o russo a sua frente — Não me desaponte, Victor. Ou melhor, não desaponte o Yuuri. — dito isso ele foi embora para dançar com o outro medalhista.


Victor ficou ali mais um tempo processando a informação. Seja lá o que for que Phichit tinha na manga, ele não queria esperar pra ver. Seria o marido perfeito para Yuuri Katsuki.


Para se distrair começou a mexer no celular. Só por curiosidade começou a pesquisar planos de seguro de vida. Nunca se sabe.

Notas finais
Queria fazer um pouco mais, porém é só isso por hoje :< Eu assistiria três animes e um filme se falassem só do Phichit caçando as pessoas que machucaram o Yuuri. Adoro esse garoto.
XOXO
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!