Warmness On The Soul
3 Conhecendo. Part II
Notas iniciais
Bueno, agora vão começar as sobrenaturalidades u.u o capítulo ficou meio pequeno (eu costumo fazer de 2,000 caracteres pra cima), mas o próximo será maior. E sim, o Lucas que eu falo é o fofo do Lucas Silveira :3
Espero que gostem.
Digamos que a minha primeira aula não foi tão traumatizante quanto eu esperava, bom, a não ser o professor Fernando tentando pronunciar meu sobrenome umas dez vezes até acertar. Diana Gandarski não é tão complicado? Ou é? Eu achei que por entrar no meio do primeiro semestre iria me fuder legal, mas por sorte, a matéria eu já tinha visto em minha antiga escola. Fiz um amigo, e dois inimigos com o tal do Gabriel encabeçando a lista porque definitivamente eu não fui com a cara dele. E depois o Ben Bruce, fanfarrão dos quintos dos infernos, meu santo também não bateu com o desse imbecil. Mas esquecendo o 'idi' e o 'ota', em parte, eu gostei do Rubén Darío.
- E então como foi a aula? – me assustei com Lucius entrando de repente pela porta do meu quarto.
- foi legal – disse, ainda de braços cruzados sob a janela aberta. O vento úmido e aquecido pelos últimos raios de sol da tarde batia suavemente no meu rosto. Lucius ficou me olhando e desviando o olhar repetidas vezes, como se procurasse algo para perguntar.
- o tapete, é bonito – falou ele gesticulando para o tapete verde musgo ao lado da cama.
- tentar agir como um tio preocupado, você está fazendo isso errado – retruquei voltando a encarar o nada pela janela.
- ah, ok – ele pareceu sem graça, e por um momento me arrependi do que disse. Lucius sempre foi sozinho, e de repente aparece uma adolescente de 15 anos para ele cuidar. É meio difícil de absorver de uma hora pra outra, ele estava tentando, de um jeito totalmente errado, mas estava – eu vou indo pra igreja, missa das 7 horas, quer ir? – perguntou ainda segurando a maçaneta da porta.
- Outro dia, não gosto muito de igrejas – recusei educadamente. A verdade é que eu não pisava na igreja desde meus 10 anos de idade, quando fui obrigada a fazer a catequese.
- tudo bem, eu volto lá pelas 11 horas. Deus te abençoe filha – Lucius saiu do quarto e eu voltei a focar o nada. O topo dos prédios vizinhos já tinham um alaranjado de pôr do sol que doía os olhos. Alguns carros passavam na rua, algumas pessoas, todas desligadas da vida com seus telefones. Em frente a minha janela, tinha o topo de outro prédio, uma pizzaria, e perto da caixa de água recém trocada, alguma coisa se mexendo chamou minha atenção. Era pequeno e preto, e parecia olhar bem em minha direção, apertei os olhos e constatei: um morcego.
Que estranho. Já está escurecendo, mas ainda não é hora dos morcegos saírem das tocas. Continuei encarando o bicho e vi que ele era um pouco maior do que o normal e tinha umas manchas perto da boca, umas manchas... Vermelhas. Me sobre saltei com um ruído de freios e bati a cabeça na janela. Filha da puta! No meio da rua, um homem em seu Crossfox xingava uma velhinha que tentava atravessar a rua com um menino de aproximadamente uns 4 anos. O carro havia parado a centímetros da mulher que protegia a criança em seus braços. Minha cabeça latejava num ponto específico de dor, pressionei os dedos e vi uma pequena mancha de sangue escorrer. Voltei os olhos para o topo da pizzaria quando um bater de asas capturou minha atenção, e só deu tempo de ver o morcego desaparecer no horizonte.
Depois de pedir uma pizza, assistir pela milésima vez o filme Harry Potter e as relíquias da morte e chorar na parte das lembranças do Snape, eu fui dormir, certificando-me de que faltavam 15 minutos para às 11 horas. Eu não estava evitando Lucius, só queria evitar a cena constrangedora de ele querer me colocar pra dormir e me cobrir com o edredom, nunca se sabe. Com as luzes apagadas, não demorou muito para que eu me encontrasse em estado de sonolência. Naquele momento em que você está relaxada e quase dormindo, mas ainda percebe o que acontece a sua volta. Algumas imagens do meu dia agitado passavam aleatórias pela minha mente, a vista do avião, alguns rostos borrados de pessoas no aeroporto, a sensação da chuva fria em minha pele, a risada alta e sonora do Rodrigo, tudo era um borrão distante. A única coisa que se destacou foram dois pares de olhos azuis, me encarando à distância. Preocupados, surpresos, com raiva? Impossível saber. A sensação de medo que eu tive em frente aqueles olhos, se intensificaram quando as imagens passaram para o cara que me jogou na poça de água. Alguma relação? Improvável. Nunca vi esse cara em minha vida, ele não teria motivos para me levantar do chão e me tacar numa poça de água. Ao menos que ele fosse louco. Ao longe eu conseguia ouvir um bater de asas, minha audição ainda não havia sido tomada pela inconsciência, mas eu já estava num estado impossível de acordar sozinha, então deixei pra lá.
De repente tudo ficou escuro, meus pés estavam descalços num piso frio, mas eu não enxergava nada. Estava muito frio, e um sensação agonizante me dizia para sair daquele lugar. Pisquei várias vezes e consegui encontrar um pontinho pequeno de luz muito longe, como se minha vida dependesse disso eu me pus a correr, com dificuldade e muito esforço, tropeçando em meus pés. Algo me puxava para trás, mas eu sabia que tinha que alcançar aquela luz. Quando cheguei até ela, me joguei para frente e minhas mãos agarraram um metal frio que identifiquei como uma maçaneta, girei-a e puxei-a para trás com força e uma luz branca e morna tomou conta do meu corpo.
Agora eu estava num campo de girassóis, o céu azul e limpo, a brisa quente trazia sensação de paz. Logo minha atenção foi capturada por um menino correndo e chorando entre as flores, procurava alguma coisa. Seus cabelos castanhos e pele pálida em contraste com o sol fraco de primavera. Tropeçou em uma pedra e sem forças pra se levantar, escondeu o rosto e chorou mais ainda. Uma mulher de branco surgiu e caminhou até ele. Ela tinha os cabelos cor de chocolate e a pele tão branca quanto à do garotinho. Ajoelhou-se a sua frente e ele levantou o rosto, coberto por lágrimas e se atirou nos braços dela. A mulher acariciou seus cabelos e o abraçou por um longo tempo.
- Eu não quero ir com o papai, ele é mau, eu não quero – dizia ele.
- Não quero que você vá meu amor, mas não posso me opor a ele – a voz dela era triste e agoniada.
- Eu nunca mais vou-te ver não é? Eu o ouvi dizendo isso – falou o garoto apertando mais os frágeis bracinhos em volta do pescoço dela. Nesse momento a mulher começou a chorar.
- Não vou mentir pra você, pois sei que é um garoto esperto – aconchegou-o no colo de modo que pudesse olhar no seu rosto – seu pai vai te levar pra treinar no inferno, e você não voltará ao céu – ela acariciava os cabelos do menino, e sorria. Ele chorou mais ainda.
– Filho, eu nunca vou te deixar, vou estar com você toda vez que se lembrar de mim – ela pressionou a mão de leve no peito do garoto – aqui dentro, pra sempre. – um contraste de lágrimas desciam pelos olhos dela, grandes e ternos olhos azuis.
- Mãe... – sussurrou o garoto.
Como se um grande tubo de ar me puxasse, eu fui arrancada daquela cena. O ar morno de primavera, deu lugar a uma sensação absurdamente congelante. Enquanto meu corpo ficava dormente, uma seqüência de imagens passavam por meus olhos. Uma estaca prateada. Uma garota correndo em uma floresta escura. Um bebê com uma cruz virada cortada no peito. Um cadáver balançando num lustre dourado pingava sangue no carpete marfim. Morcegos. Morcegos furiosos perseguiam uma mulher na beirada do precipício. Ela caiu. Ela caiu e gritou. Um velório no meio da chuva. Um cemitério agonizante. Sons de risos, sons de choro. Frio. Gritos. Chuva. Dor. Um anjo negro ajoelhado em frente a um túmulo enquanto suas asas eram arrancadas. Suas costas transbordavam sangue. Ele chorava. Ele gritava. Diana.
Chutei os lençóis me sentando na cama, meus ouvidos zumbindo no silêncio. Um cheiro de névoa pairava no ar, minha pele quente entrando em contato com o vento gelado da madrugada. Antes que eu pudesse sequer pensar no pesadelo, meus olhos se viraram para a janela aberta com as cortinas brancas rendadas dançando no ar. Arrastei as mãos pelo rosto tentando acalmar meu coração que dava pulos desesperados.
- Diana? Você está bem? – Lucius entrou afoito pela porta do quarto, em seu pijama de listras vermelhas. Meus olhos protestaram quando ele acendeu a luz.
- Foi só um pesadelo – falei tentando abrir uma pálpebra dolorida.
- Você gritou – ele me olhou seriamente, talvez medindo as possibilidades de eu ter distúrbios psicológicos. Mas de fato, não lembro de ter gritado – e porque abriu a janela, esse quarto tá uma geladeira!
- foi um pesadelo, eu estou bem – disse enquanto Lucius marchava pelo quarto para fechar a janela.
- tem certeza?
- Sim, eu acho que vou pegar um leite morno, estou ficando um pouco resfriada – funguei para enfatizar minha decisão. Depois de me avaliar, meu tio me deu boa noite e entrou em seu quarto. Em vez de leite, eu optei por um café bem quente, e misturado com o medo de pregar os olhos e ver aquelas cenas terríveis novamente, era tão real, tão triste. Eu não consegui dormir naquela noite.
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