Notas iniciais
E mais um capítulo. Já aviso que eu vou entrar bastante nesses temas de igreja, e vou criticar bastante com a minha visão 'ateu' da coisa.
Espero que apreciem *-*

- E, agora, ouvi-me, meus filhos, que eu descerrarei os vossos olhos para que possais escolher aquilo que amas e desprezar tudo aquilo que odeia. Para poderdes caminhar perfeitamente em todos os teus caminhos e não errardes seguindo impulsos culposos ou deitando olhares de fornicação. Porque muitos foram os que se desviaram e homens fortes e valorosos aí escorregaram, tanto outrora como hoje. Caminhando com a rebelião nos corações, caíram os próprios guardas dos céus. Todo o ser vivo que se encontrava em terra firme, caiu, sim, e morreu, e foram como se não tivessem sido, porque procediam conforme a sua vontade e não observavam os mandamentos do seu Criador, de maneira que a cólera de Deus se inflamou contra eles. Palavra da salvação.

- Glória a vós senhor — repetiram todos em coro, seguido de palmas. É, Lucius conseguiu me convencer a assistir uma missa do Bispo João 'não faço ideia do que' que estava na cidade, era uma ocasião especial e blá blá blá. Na verdade eu fui obrigada por uma puta chantagem emocional do tipo "você não passa nenhum tempo com seu pobre tio que te ama tanto", bom, ele não disse exatamente assim, mas foi o que quis insinuar. Então aqui estou, às 9 horas da manhã, sentada num banco frio e duro da segunda fila, com um monte de gente olhando torto pra minha camiseta do Slash e Lucius me cutucando toda hora pra eu prestar atenção. Nas paredes da igreja tinham vários cartazes escritos "doe dízimo e ajude a Deus" "Reparta o pão" "Ame o próximo como a sí mesmo", era missa do dízimo e tinha três caixas grandes e enfeitadas prontas para receber envelopes de dinheiro dos fiéis. Sempre achei isso uma perda de tempo, Deus não precisa de dinheiro. Quer ajudar alguém? Vá direto a instituições especializadas para isso. Afinal, o papa vive cercado de luxo com o dinheiro de QUEM MESMO? Trouxas.

Encarei a folha de cânticos em minhas mãos, estava pra começar o sermão e eu teria que fazer um tremendo esforço pra não dormir. Antes de sair de casa eu tinha surrupiado um caderninho de anotações e uma caneta pra me enterter, mas Lucius o tirou de mim na última hora. A caneta eu consegui salvar escondendo no meu bolso, e agora eu tinha uma folha.

- A queda dos anjos — começou o Bispo, com o microfone meio estridente. A igreja estava toda em silêncio, eu estava fazendo uns riscos na folha, mas conseguia ouvir seus passos descendo do altar e vindo em direção a primeira fila de bancos — um tema complexo a ser tratado. Os anjos são filhos de Deus, os guardiões do céu, do paraíso. São criaturas perfeitas, inteligentes. Vivem na luz e na bondade do pai. Então, porque caíram?

O silêncio se atenuou.

- Assim como homem, eles possuem o livre arbítrio de escolher entre o bem e o mal. E assim como nós, alguns se desviaram do caminho da luz e cederam ao pecado. Os anjos desejaram as mulheres mortais — seu tom me lembrava muito quando alguém contava uma história ao redor de uma fogueira a noite, para assustar as crianças antes de dormir. Isso me irritava. Eu nunca acreditei em nada que a bíblia dizia, e quanto mais tentavam me convencer, mais eu teimava em não acreditar. É como dizer a um cego que ele pode enxergar. Me concentrei em apenas riscar a folha.

- As mulheres corromperam os anjos, e os mesmos corromperam a terra com sua prole, que resultou no dilúvio para purificar o sangue — O Bispo andava pra lá e pra cá, na frente dos bancos, mesmo sem olhá-lo eu percebia seus olhos em mim — A luxúria que levou a morte. Pecados imperdoáveis aos olhos de Deus. Os anjos caíram da graça, e tiveram suas asas arrancadas — fechei os olhos com força e acabei rasgando a folha com a ponta da caneta, fez um 'creck' que ecoou muito alto. Esse assunto estava realmente me deixando nervosa — e foram jogados no abismo mais profundo, até o juízo final.

Uma pausa foi dada, e eu suspirei de alívio.

- Conhecendo os principais fatos, alguém saberia me dizer qual foi o primeiro pecado que os anjos cometeram? — perguntou o Bispo. Alguém levantou a mão e várias cabeças se voltaram para a minha direita, eu continuei riscando, de olhos fechados, como um bloqueio.

- Desejar as mulheres mortais — falou uma voz feminina um pouco grave, deveria já ter lá seus 50 e poucos anos.

- Não, antes disso. Eu não falei qual foi o primeiro pecado, quero que pensem — disse o Bispo. Ele entrou pelo corredor, passando pelo meu lado e de repente parou.

- Você, tem cara de esperta, prestou bastante atenção em tudo que eu falei. Qual foi? — falou para mim. Esse Bispo tá sendo sarcástico? Apertei os olhos decidida a ignorar, ser totalmente grossa e fingir que não era comigo, mas Lucius me deu um cutucão.

- Estamos esperando — anunciou. Suspirei pesadamente, levantei a cabeça e encarei o Bispo.

- Se apaixonar por uma mortal — disse. Não faço ideia do porque disse isso, não era o que eu ia falar. Eu apena abri a boca e as palavras se projetaram no meu cérebro e sairam. Mas eu gostei da cara das pessoas a minha volta, todas tipo "ooooh que infâmia", e a cara do Bispo então, impagável.

Segundos depois ele conseguiu se recompor e deu uma risadinha sem graça.

- Isso seria impossível. Anjos são criaturas perfeitas, não sentem amor por outra criatura, somente a Deus, seu criador — falou.

- A perfeição se esvai quando se é dado o livre arbítrio. Nada que pensa e sente é perfeito, tanto humanos, animais e anjos são suscetíveis a erros. Se Deus os quisesse perfeitos, não lhes teria dado sentimentos. O homem mata por ódio e morre por amor. O animal mata pra sobreviver e morre pra proteger sua prole. Os anjos mataram em nome do rei dos exércitos e caíram por amor. Isso soa familiar, Bispo João Schnneider?

Minhas palavras saíram automaticamente, carregadas de ceticismo. Ele me encarava perplexo, assim como todos que estavam ali. Foi aí que eu percebi que estava de pé, com os braços cruzados, o encarando de frente.

Lentamente, o Bispo pegou o microfone e levou a boca.

- O primeiro pecado que os Anjos cometeram, foi sentir inveja dos mortais — falou lentamente — e eu sugiro que se sente, senhorita, ou se retire — ele ainda me encarava. Olhei para Lucius que gesticulou discretamente para a saída. Tudo ficou numa atmosfera muito pesada. Coloquei os pés no corredor, e fui caminhando com calma até a porta, a última coisa que eu queria agora era levar um tombo nesse chão liso. Eu parei abruptamente ao lado da última fila.

Gabriel estava sentado, com as pernas esticadas e os braços cruzados no banco. Sozinho. Seus olhos fitavam meus pés e subiam lentamente até encontrarem os meus. Ele usava uma jaqueta de couro e uma camiseta branco, com um crucifixo prateado e com pedrinhas vermelhas e delicadas incrustadas. Senti uma raiva repentina, me deu vontade de chutar a bunda dele escada abaixo dessa maldita igreja. Mas com todos esses pescoços virados pra trás me observando, não era uma boa ideia. Mordi o lábio para descontar a raiva e sai marchando pela porta. Desci os degraus, sentindo o vento gelado encontrar meu rosto e balançar meu cabelo. Consegui me acalmar instântaneamente depois de sair de lá, por isso que eu odeio igrejas. Talvez eu sente por aqui e espere Lucius sair para irmos pra casa, ir andando nesse frio não é muito confortável.

No último degrau da enorme escadaria, uma figura capturou minha visão. Não era um gato, não era um cachorro e muito menos um rato. Não era um animal. Estava enrolado em alguns trapos sujos, pés descalços e tremia de frio. De um lado, uma latinha de ervilha tinha alguns centavos. Do outro, um vira-lata marrom e magro lhe fazia companhia. Me aproximei, e ele levantou a cabeça. As rugas marcavam os ossos do seu corpo, e os cabelos brancos escondiam algumas feridas na cabeça. Seus olhos se encontraram com os meus e ele sorriu.

- Não chore menina — falou. Então eu percebi o porque de minha visão estar embaçando, passei as mãos pelos olhos para me livrar das lágrimas e tateei os bolsos. Tirei todo o dinheiro que eu tinha, uns 30 reais não era muito, e coloquei na latinha. Os olhos do velho brilharam.

- Deus te abençoe menina — e então se voltou para o vira-lata — vamos comer hoje Scott — e o abraçou.

Eu sai caminhando portão afora. As pessoas são hipócritas e ignorantes. "Ajude ao próximo, Ame ao próximo" uma igreja lotada e alguém passando frio e fome na porta dela. Interessante não? No fundo só se importam consigo mesmas, elas estão lá dentro para se sentirem puras por fazer fofoca da vizinha, por trair o marido, por gastar o dinheiro do mês. Então elas se confessam, pagam o dízimo e voltam a fazer o que sempre fizeram. Não sabem compreender o que a própria religião diz. Bando de cretinos.

Atravessei uma rua e um Corsa prata passou raspando e buzinando por mim.

- VAI SE FUDER FILHO DA PUTA!

- Diana! — gritou Gabriel alguns metros atrás de mim. Ah não, por favor! Continuei andando, agora mais rápido. Não deu vinte segundos ele estava segurando meu braço.

- Aonde pensa que vai desse jeito?

- Que jeito? Eu estou perfeitamente bem! — puxei meu braço de volta, mas ele o segurou e apertou mais forte.

- Você está chorando. Você está descontrolada. Você quase virou patê na roda daquele Corsa segundos atrás — falou em tom repreensivo.

- E o que tem importa a minha vida?! — pisei no pé dele soltando meu braço e sai correndo. Logo Gabriel já estava vindo atrás de mim, atravessei a rua de volta e tirei os all star.

- FICA AÍ — avisei. Ele estava na calçada do outro lado.

- E O QUE TU VAI FAZER? — gritou de volta. Trinquei os dentes e fui andando, ele me acompanhou.

- UMA HORA TU VAI TER QUE ATRAVESSAR!

- NÃO!

- DIANA, ME ESCUTA. TU NÃO PODE SAIR POR AÍ DESSE JEITO! — um carro passou e buzinou — FILHO DA PUTAAA — gritou pro motorista.

- EU JÁ DISSE QUE TO BEM — gritei.

- DEIXA DE SER RETARDADA E PÕE ESSE ALL STAR! — ah eu vou pôr o all star...

Parei no cordão da calçada e joguei um par, depois o outro. Gabriel pegou os dois com expressão de tédio. Em seguida ele apontou o dedo pra mim. Bá, que merda. Comecei a correr quando ele se lançou atrás de mim. E como essa criatura era inúmeras vezes mais rápida que eu, alcançou meu cotovelo antes de eu virar a esquina.

- Qual é o teu problema?! — rosnou. Pela sua expressão, eu podia concluir que ele estava controlando a voz pra não gritar e me sacudir pelos ombros.

- Neste exato momento tu é o meu problema! Coisas estranhas acontecem quanto tu fica perto de mim! Esses sonhos, essas palavras enfiadas dentro da minha cabeça, porque eu acho que isso tem haver contigo?! — explodi. Tá é meio irracional isso, mas eu não sei mais o que pensar. Gabriel mantinha a expressão congelada.

- Sonhos? — perguntou confuso.

- Sonhos com demônios, com sangue, gritos... anjos caídos — disse, o vento frio batia em mim e eu tremia como uma vara verde.

- É só uma história bíblica — falou.

- Eu sei — sussurrei. Gabriel continuou me encarando, os olhos verdes penetrando fundo nos meus. Eu não tinha certeza do que ele pretendia quando se inclinou sobre mim, e me envolveu em seus braços. Era quente e confortável ali. Eu fiquei sem reação por um momento, e intuitivamente fechei os olhos e me deixei levar por aquele abraço.

Notas finais
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