Warmata

7 Capítulo 7. Fuga Número Três da Rua Nestor


Notas iniciais
Talvez devesse ter ficado maior. Eu queria deixar em dez mil palavras, mas não o fiz por que queria deixar o final mais bonitinho

— Você podia ter ficado lá mesmo — Leandro franziu o cenho —, eu não te obriguei a vir comigo.

Ícaro ficou calado. Leandro estava certo: tinha saído no meio do episódio por vontade própria. Mais para acompanhar Leandro do que outra coisa. De alguma forma, queria aproximar-se dele, e talvez fosse o que estava tentando fazer.

— E então — ele continuou — vai querer o quê?

— Água mesmo — disse Ícaro indiferente — acho que bebi muito refrigerante hoje.

Leandro pegou uma garrafa de soda, e colocou o líquido em dois copos de vidro com cuidado para que os copos não caíssem com refrigerante e tudo. Quando um deles ameaçou cair, Ícaro rapidamente o segurou. Leandro tremeu um pouco, derramando um pouco de refrigerante na mão de Ícaro.

— Esse aí é o seu. — Disse Leandro, enquanto enchia o próprio copo.

Não disse nada. Mais um copinho de soda não faria mal. “É assim que alcóolicos pensam”, disse para si mesmo. Leandro saiu da cozinha, e Ícaro o seguiu sem ser propriamente chamado. No corredor, quase esbarrou com dois garotos que conversavam baixinho com pedaços de pizza nas mãos. Leandro chegou até a sala, e se espreguiçou no sofá. A sala estava vazia. Na verdade, as únicas figuras humanas que Ícaro tinha visto desde que saíra do quarto tinham sido os dois garotos.

— Seja sincero — Leandro falou, enquanto Ícaro se acomodava a seu lado. — Foi bom?

Hesitou. Se dissesse apenas “sim”, talvez estivesse sendo frio demais. Um “ótimo” o faria parecer desesperado. E qualquer coisa abaixo disso seria rude.

— Foi muito bom. — Respondeu, tentando não se empolgar muito.

Leandro sorriu. Colocou o copo com soda na mesinha, moveu-se para mais perto de Ícaro, e lhe beijou nos lábios. Ícaro endureceu o rosto, e Leandro entendeu. Pegou o copo que estava na mão dele, e o pôs na mesa lentamente. Depois, levou a mão até seu rosto e disse baixinho:

— Não tem problema. — Leandro ficou de joelhos no sofá, e fez um gesto para que Ícaro se sentasse de frente. Deu-lhe outro selinho, e afagou seu cabelo. Ícaro permaneceu de olhos abertos, e pôde ver quando Leandro encostou sua testa na dele e sorriu. Ícaro lhe deu um beijo e fechou os olhos.

— O que você tem com o Lúcio? — Ele perguntou, seco.

Ícaro hesitou, e tentou ganhar tempo: — Em que sentido?

— No sentido de o que você sente em relação a ele.

— Afeição, eu acho. Na verdade, nem eu sei. — Respondeu.

— Não deve ser a coisa mais legal do mundo — Leandro admitiu —. Sabe, não...

— Eu nem me importo mais, pra falar a verdade. — Explicou. — Vamos conversar sobre outra coisa?

Leandro ficou sem jeito. O “vamos conversar sobre outra coisa?” acabou se tornando um “cale a boca”. Os dois ficaram ali, em completo silêncio por minutos. Talvez Leandro estivesse pensando sobre a situação de logo mais, ou em qualquer outra coisa. Não Ícaro. Ele não conseguiu pensar em nada.

— Quer um chiclete? — Leandro tentou quebrar o silêncio.

Ícaro não queria, mas estendeu a mão num sinal de boa fé. Quando Leandro colocou o chiclete em sua mão, ele agradeceu, e desembrulhou a goma.

— Você vai dormir aqui, né? — Leandro perguntou. — Se você conseguir táxi à essa hora...

— A Marcela não me convidou nem nada — Ícaro respondeu enquanto mastigava.

— Eu tô convidando — ele riu. — Você vai dormir no chão — Leandro anunciou —, comigo.

Ícaro sorriu. Não tinha nenhuma objeção.

Não demorou muito para que algumas pessoas fossem embora. Alguém que tinha carro se prontificou a levar todo mundo que ia embora para casa. No final, grande parte das pessoas tinha ficado para dormir. Marcela providenciou colchões e edredons para todos, e os espalhou pelo apartamento. Ícaro e Leandro ficaram com dois colchões vizinhos, e Lúcio ficou um pouco afastado.

No total, cinco pessoas ficaram na sala, incluindo Ícaro e Leandro, e o resto ficou nos quartos e nos corredores. Quando Marcela apagou as luzes, Ícaro rolou até o colchão de Leandro, e o beijou.

— Parece até que estamos namorando — riu.

— Por que não? — Leandro sugeriu.

Ícaro revirou os olhos, e deitou-se de costas para Leandro. Talvez ele tivesse pensado que iriam ficar o resto da madrugada conversando. Ícaro também pensara. Mas tinha percebido que não era preciso. Simplesmente dormir com Leandro, no mesmo lugar que ele, já era o suficiente para aumentar a intimidade deles.

Fechou os olhos, tentando, pelo menos, cochilar. Mas no fundo, sabia que não conseguiria. Manteve-se assim por dezessete segundos, até que sentiu alguma coisa quente em seu pescoço. Poderia ter se virado bruscamente, mas não o fez. Relaxou um pouco, e percebeu que Leandro tinha encostado o rosto em suas costas. Ícaro pôde sentir a mão de Leandro passeando pelo seu braço, e parando em sua mão. Talvez devesse ter se incomodado, mas sorriu, e decidiu que não dormiria, aproveitaria cada momento.

A manhã veio tímida, mas rápida. Durante a noite, Leandro havia até abraçado Ícaro inconscientemente. Não que fosse algo ruim. Ícaro havia se virado para ver como Leandro era enquanto dormia, e isso lhe ajudou a passar alguns minutos. Deitado e acordado, Ícaro esperou até às seis e vinte da manhã para levantar-se. Foi até o banheiro, pisando com cuidado para não acordar ninguém.

Lavou o rosto, e quase pegou a escova de dentes que estava no balcão, mas no mesmo instante, lembrou que não estava em casa. O cabelo estava um pouco bagunçado, mas nada que uma mão aqui e acolá não resolvessem. Enxugou o rosto, e foi andando até a cozinha.

— Vai querer café ou alguma coisa? — Marcela perguntou, virando-se para Ícaro com um rosto de “você não dormiu nem um pouco, né?”.

— Você dormiu? — Perguntou. — Ah, quero só um pouquinho.

— Não, não dormi — ela continuou. — Acho que vou dormir a tarde toda — disse sem esperar resposta enquanto entregava uma xícara pequena a Ícaro.

— Você acha que seria muita filhadaputagem com o Lúcio se eu fosse embora agora? — falou baixinho.

— Não. Nem se preocupe com ele, eu aviso que você já foi.

— Diz pra ele passar lá em casa mais tarde.

Marcela assentiu. Ícaro se despediu dela, e saiu do apartamento silenciosamente. Era incrível como as ruas ficavam cheias, mas também vazias de manhãzinha. Ele voltou pelo mesmo caminho pelo qual tinha vindo com Lúcio. Era mais bonito pela manhã.

O sol tímido iluminava as casas, deixando uma parte sombreada pelos muros das outras, ou por seus próprios telhados. Em algumas, pôde ver janelas aberta, sinalizando que as pessoas que ali moravam já tinham acordado. Ouviu latidos de cachorros vindo dessas casas, e pássaros cantando por entre os galhos quando chegou na praça. Até encontrou uma ou duas pessoas na rua.

O vento soprou em seu rosto, e Ícaro agradeceu por não estar com uma mochila para lhe atrapalhar. Perguntou-se se Leandro acabaria achando o bilhete que lhe deixara no bolso da calça antes que eles se encontrarem de novo. Pela manhã, as duas ladeiras não pareciam mais tão ameaçadoras. O terreno baldio estava iluminado, e talvez só precisasse de um pouco de esforço para ficar bonito novamente.

Os muros dos condomínios estavam sombreados por causa das torres que não deixavam a luz do sol passar. Ícaro passou para o outro lado da calçada para pegar a sombra, e parou um pouco. Era bem melhor do que ter de ficar com a mão no rosto toda hora. Ele podia ficar ali para sempre, quem sabe. Podia andar mais vinte quilômetros se o cenário fosse sempre aquele. Talvez pudesse até morrer ali mesmo.

— Não — murmurou para si mesmo, e sorriu —, não poderia.

Notas finais
Música título da história: "Warmata", Soviet Soviet Capítulo 1: "Bouquet de Nerfs", Noir Désir Capítulo 2: "Música de Amor Número Um", Selvagens A Procura de Lei Capítulo 3: "Sagrad Прекрасный", Grimes(título); "Immortal", Marina and the Diamonds Capítulo 4: "Prodigal Sun", The Black Angels Capítulo 5: "Romance na Cidade Grande", Selvagens A Procura de Lei Capítulo 6: "Catalina", Allah-Las Capítulo 7: "Fuga nº 3 da Rua Nestor", Cícero #Músicas bônus, que seriam títulos de capítulos, e que vocês fariam bem em ouvir: - "Capitol", TR/ST - "Ótta", Sólstafir - "Laiá Laiá", Cícero - "Funeral For a Great Drunken Bird", All Them Witches - "Nous étions deux", La Femme Aquabou Warmata... Vai ter uma segunda temporada, talvez ainda esse ano, não sei. Queria agradecer a todos que leram até o final, e quem não leu também. Espero que o final tenha sido, no mínimo, legal hehe. Um abraço!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!