Warmata
6 Capítulo 6. Catalina
Notas iniciais
Quando os dois garotos voltaram para a festa, Leandro deu um tapinha no ombro de Ícaro e sumiu no apartamento. Ícaro foi até a cozinha, pegou mais um pouco de refrigerante, e sentou-se no sofá da sala, esperando que algo acontecesse.
Não haviam sido seus primeiros beijos, de verdade, mas ele assim os considerou. Leandro tinha sido ótimo, e, enquanto estiveram abraçados, Ícaro não queria soltá-lo nunca mais. Ícaro podia ter se apaixonado por Leandro ali mesmo, mas não o fez. Teve aquele momento como mais uma experiência, uma história. Tentou não se prender muito a Leandro, nem ignorá-lo completamente.
Ícaro estava assistindo a dois garotos jogarem qualquer coisa no videogame, quando uma mão tocou seu ombro.
— Vem — disse Lúcio atrás dele.
Ícaro levantou-se, e foi atrás do amigo. Lúcio o conduziu até a rodinha de pessoas no canto da sala, pedindo para que o pessoal abrisse espaço para eles dois. Ao se aproximar, Ícaro percebeu que eles estavam jogando algum jogo de cartas. “Uno”, percebeu. Pelo que observou, uma garota loira com o cabelo amarrado num rabo-de-cavalo estava ganhando, pois, quando ela jogava alguma carta, todos pareciam suspirar de desânimo.
— Estamos de próxima — Lúcio anunciou.
Ícaro passou a observar o jogo, o modo como as pessoas se comportavam, e pensar em como ganharia a rodada seguinte, causando uma boa impressão. Num canto, um garoto negro com cabelos cacheados escondia sua mão de cartas com cautela. Parecia um pouco soturno, mas Ícaro conseguiu enxergar sua boca se curvando num sorriso quando a garota loira jogou uma carta para que um menino do seu lado pegasse mais duas cartas.
— Como é o nome dela? — Ícaro sussurrou para Lúcio.
— Alícia — Lúcio respondeu, virando o rosto para Ícaro, e chegando tão perto que Ícaro pôde sentir o cheiro de álcool, o que o fez torcer a boca num gesto de desaprovação.
Levantou a cabeça novamente e viu que alguém havia posto uma carta igual à de Alícia, forçando o garoto moreno a pegar, agora, quatro cartas. Mas ele simplesmente usou mais uma, e, para não pegar seis cartas, Alícia prontamente usou mais uma carta. O garoto que, inicialmente pegaria mais duas cartas, agora pegaria oito se o garoto negro não jogasse uma carta da mesma cor, e, desta vez, acabando com as chances de Alícia, a forçando a pegar dez. O sorriso de vitória foi desaparecendo do rosto de Alícia aos poucos, enquanto o garoto moreno fazia questão de pegar as dez cartas do baralho e entrega-la. A rodada acabou com a vitória dele, mas Alícia quase conseguira virar o jogo.
Ícaro jogou mais cinco ou sete rodadas, ganhando uma, e ficando em segundo lugar em pelo menos duas. Lúcio conseguiu, surpreendentemente, ganhar uma. Alícia ganhou mais duas, juntamente com o garoto de cabelo cacheado, que se chamava Renan.
Jogariam mais, mas, quando a música mudou, Marcela apareceu com dois copos de refrigerante na mão, cumprimentando todos, e os convidando para o quarto, onde quem quisesse, poderia ir assistir uma série que eles haviam encontrado na internet. Metade do pessoal a seguiu, e o resto se dispersou.
Ícaro reencontrou Leandro mais três vezes. Na segunda vez, eles trocaram números de telefone, e, no resto, piscadelas rápidas. Apesar de Lúcio ter estado com ele todo o tempo, não parecia ter percebido. Puxou Ícaro pelo braço até o banheiro de uma suíte, que provavelmente era a da avó de Marcela, e fechou a porta. Ícaro ficou sem reação. Surpreso seria uma palavra adequada. Não fez nem falou nada, esperou que Lúcio começasse.
— Tá gostando? — Ele perguntou, enquanto se encostava levemente na pia.
Ícaro o fitou com um olhar desconfiado. Inclinando um pouco a cabeça para trás propositalmente. — Por quê?
— Sei lá. Eu mal te vi por aí, na verdade. Você saiu com aquele menino do cabelo azul...
— Verde. — Corrigiu.
— Verde — Lúcio repetiu, e continuou: — e depois, só te vi sentado lá no sofá fazendo o quê, nada.
— Eu tô de boa. Você sabe, não sou muito agitado, mas estou me divertindo sim.
Lúcio abriu um sorriso de satisfação. — Como foi? — Perguntou. — Com ele.
Uma onda de vergonha misturada com alegria invadiu Ícaro. Então Lúcio tinha percebido.
— Eu ia te contar depois. Quer dizer, vou te contar depois. Se preocupe não.
Lúcio abriu um sorriso de novo, e quase deu uma risada dessa vez. Levou a mão até o interruptor do banheiro, e pousou a mão lá.
— Pra quem viria só pra me acompanhar até que você veio bem arrumado. — Ele observou. — Nunca te vi assim.
Ícaro não respondeu nada. Levantou as sobrancelhas e curvou a boca num sinal de: “é mesmo?”, então Lúcio corrigiu-se:
— Tem razão. Nunca te enxerguei desse jeito.
Ícaro sabia que, se deixasse o assunto render, ia se tornar uma conversa sentimentalista.
— Que gay, cara, pare — disse, tentando fugir do assunto o mais rápido que pôde.
Pensou ter visto um sorriso se formar pela terceira vez no rosto de Lúcio, mas então ele apagou a luz, e demorou três exatos segundos para abrir a porta.
— Peça pra Natália te dar alguma coisa. — Lúcio falou enquanto saía do banheiro.
— Sabe que eu não vou faz... — Ícaro estagnou ao ver Marcela parada na porta do quarto com um copo na mão.
— Ai, viadagem — disse ela, erguendo a cabeça e a mão que não segurava o copo para trás — amo.
Ícaro revirou os olhos, e passou por ela, sorrindo. Deixou Lúcio e ela sozinhos no quarto, e foi até o outro quarto. Quando abriu a porta, sentiu-se imediatamente envergonhado. A maioria das pessoas olhou para ele, mas logo depois, voltaram-se para a televisão. Todos, menos Leandro. Ele balançou a cabeça de leve em direção ao chão. Ícaro, envergonhado por ter que passar na frente de todo mundo, mas simplesmente sentou-se ao lado de Leandro, que não olhou para ele até ele se sentar.
— Quer pipoca? — Leandro perguntou baixinho, enquanto pegava um balde de pipoca da mão de uma menina, e o oferecia.
— Não, obrigado.
Quando Leandro não recuou, Ícaro enfiou a mão no balde, e encheu a mão com pipoca, e então sentiu a mão umedecer-se.
— Espero que goste de leite condensando. — Leandro riu.
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