Por um momento, Sebastian não soube o que dizer. Ficou encarando fixamente a mão de Lily segurando a sua, confuso se deveria ir embora ou respondê-la.

— Eu estou sonhando de novo, Sebastian? – Lily perguntou.

— Sim, está sim. – Sebastian respondeu suavemente e desvencilhou sua mão da dela devagar, se sentando ao seu lado em seguida – Feche os olhos mais uma vez e descanse. Você precisa sair logo daqui.

Lily concordou, se ajeitando melhor na cama. Sua vista estava um pouco embaçada e seus pensamentos claramente confusos.

— Eu não pude ajudar o James. – ela sussurrou – E ele está sofrendo. Ele sempre sofreu e eu não pude ajudar.

— Você o ama e é a melhor irmã que ele poderia ter. Isso é o suficiente.

— Mas ele não está feliz.

— Claro que está. – Sebastian sussurrou – Ele tem pessoas que o amam.

— E pessoas que não gostam dele – Lily insistiu e sua voz ficava cada vez mais baixa. Estava claramente sendo vencida pelo sono. – Eu só queria...

— Shh... Descanse, Princesa Lily – Sebastian sussurrou mais uma vez e passou a mão pela cabeça da menina – Tudo vai ficar bem.

Lily apenas concordou e fechou os olhos. Não tinha mais forças para manter aquela conversa e Sebastian não tinha mais o que dizer. Ele claramente não era a pessoa ideal para dar bons conselhos e fazê-la mergulhar em seu mundo mágico e cor-de-rosa.

Lentamente, ele se levantou e caminhou para fora do quarto. Para o bem de todos, era melhor que ele ficasse longe de Lily ou acabaria causando mais problemas.

~*~

— O que foi que aconteceu com vocês? – Rose perguntou assim que chegou ao Salão Principal e foi até a mesa da Sonserina falar com os amigos.

— Ontem eles claramente estavam tentando se matar – Scarlett revirou os olhos – Se eu não tivesse aparecido na hora, o estrago seria bem pior.

— Em minha defesa, eu apenas segui o fluxo. Eles já estavam rolando quando apareci. – Will explicou e bebeu um pouco de seu suco.

— Tentar parar a briga não era uma opção? – Rose perguntou mais uma vez.

— Eu até tentei, mas me acertaram no olho e eu não pude deixar barato – Will apontou para o próprio rosto – Quero dizer, olhe bem para essa perfeição esculpida pelas mãos de Merlin. Quando alguém tenta estragar, eu preciso revidar.

Rose deu uma risada e balançou a cabeça. Aquelas piadinhas eram típicas de Will.

— Albus, quando terminar seu café me chame. Preciso falar com você.

— Falar o que? Que o nosso mais novo amigo passou por cima da nossa autoridade e contou a verdade para Lily sem o menor cuidado? – Albus perguntou de forma sarcástica – Se for isso, não precisa se dar ao trabalho. Eu já sei o que ele fez.

— Ótimo, assim eu não preciso gastar meu tempo – Rose ignorou o tom irritado do primo – Eu pedi a Diretora McGonagall que enviasse uma mensagem para James, e ele virá aqui mais tarde.

Rose disse e em seguida se levantou, indo para a mesa da Grifinória. Estava muito preocupada para iniciar uma discussão naquele momento e o dia ainda nem havia começado direito.

— Ok, alguém precisa perguntar: por que a Rose não falou com você? – Will encarou Scorpius, que permanecia observando Rose se afastar.

— Nós terminamos.

— Terminaram o que se vocês nem tinham começado nada? – Will tornou a perguntar e levou um chute na canela – Scar, meu amor, nós vamos ter que repensar o nosso relacionamento se você for ficar me agredindo dessa forma.

— Não tenho culpa se você não tem filtro – Scarlett respondeu – Scorpius, por que você não fala com ela?

— E falar o que? “Oi, Rose, será que nós podemos voltar? Estou com saudades”. – Scorpius disse de forma seca.

— Seria uma boa opção.

— Acho que vou passar essa, Scar. – Scorpius respondeu – E você, cara? Eu acordei a noite e você não estava na cama. O que houve?

— Insônia. – Sebastian respondeu – Fiquei no salão comunal.

— A consciência pesada faz isso mesmo. – Albus alfinetou.

— Ok, se começarem de novo com a briga vou furar os olhos de vocês com meu garfo.

— Você tá nervosa, querida? – Will perguntou e abriu um sorriso, servindo um pedaço de bolo de chocolate para a namorada – Toma aqui um chocolatinho.

— Isso é uma torta, Will.

— Mas é de chocolate e é o que importa.

Scarlett deu uma risada e balançou a cabeça negativamente, sem acreditar que estava lidando com quatro crianças.

— Escutem, eu não sou babá de ninguém. Tratem de resolver seus problemas e superarem isso. – ela disse e apontou para a porta do Salão Principal – E eu sugiro que seja rápido, por que o James, o tio Harry e a tia Gina acabaram de chegar. E, eu acho, que aquele deve ser o novo namorado do Jay.

~*~

James não pensou duas vezes em correr para a enfermaria assim que McGonagall o liberou. Ele pediu para ser o primeiro a conversar com a irmã, deixando os pais e o namorado no Salão Principal com a Diretora.

Quando chegou, Lily ainda estava dormindo e seu café da manhã estava em cima da cômoda ao lado da cama.

— Sr. Potter, que bom que está aqui. Ia agora mesmo acordar sua irmã para fazê-la tomar o café da manhã.

James sorriu, mas era um sorriso triste. Ele detestava ver os irmãos mal, ainda mais Lily que era extremamente sensível.

— Pode deixar que eu faço isso – James sorriu e se sentou ao lado de Lily. Devagar, passou a mão pelos seus cabelos e sussurrou – Bom dia, estrelinha! A Terra diz olá!

Lily abriu os olhos devagar e se deparou com James ali, encarando-a com um sorriso.

— Hora do café da manhã, Lilica.

— Eu não estou com fome – ela disse e se sentou na cama.

— Não perguntei se estava com fome – ele arqueou a sobrancelha e serviu um copo de suco para a irmã – Não vim até Hogwarts para perguntar se queria tomar café, vim aqui para te obrigar a tomar café. Sou seu irmão mais velho, me respeite, Luna.

— Não me chame assim – ela disse emburrada e bebeu um pouco do suco – E nem comece a latir, eu já superei isso.

— Não é o que parece – James sorriu – Você quer me explicar o motivo desse leve surto emocional? Lilica, eu estava cozinhando para Marco quando a mensagem da McGonagall chegou. Meu susto foi tão grande que esqueci a torta de abóbora e o pobrezinho comeu a comida queimada.

— Com certeza o gosto não estava muito diferente. A sua comida é péssima.

James levou a mão até o peito, se fazendo de chocado.

— Você magoou meus sentimentos.

— Eu só disse a verdade – Lily bebeu um pouco mais do suco – Diferente de você e de todo mundo. Por que não me contou, Jay?

James olhou um pouco para baixo e respirou fundo. Sabia que precisava escolher bem as palavras para não deixar a irmã ainda pior.

— Lilian, não foi fácil admitir que sou gay. Não foi fácil para mim. Mas quando tomei coragem o suficiente para me aceitar e contei aos nossos pais, esperava que o meu mundo fosse cair. Eu estava preparado para ser expulso de casa ou ouvir algum discurso sobre vergonha e etc. – ele explicou – Mas os nossos pais aceitaram muito bem, assim como nossos tios e avós... E eu me senti completo. Naquele momento, eu me senti livre o suficiente para ser eu mesmo e feliz o suficiente para não permitir que nada e nem ninguém me fizesse sentir inferior por causa da minha vida pessoal.

“Eu decidi esconder de você o verdadeiro motivo por não ter um trabalho estável apenas porque a opinião daquelas pessoas não me importa. Se eles não me querem no emprego apenas por não conseguirem lidar com o fato de que tem um empregado gay, eles não merecem a minha presença. Eu não sofro pelo preconceito deles, porque as pessoas que eu mais amo no mundo me aceitam do jeito que eu sou. Pra você, pro papai, pra mamãe, pro Albus, enfim, para a nossa família, não importa se eu tenho um namorado ou uma namorada. Vocês me amam e me aceitam assim, e isso me dá forças todos os dias.”

Lily ouviu tudo com bastante atenção e permaneceu em silêncio enquanto o irmão falava. Ela ainda não conseguia entender o motivo pelo qual as pessoas rejeitavam seu irmão, mas sabia que ele realmente não se importava; pode sentir isso nas palavras dele.

— E por que não me contou a verdade?

— Porque eu queria que continuasse me vendo da mesma forma. Que continuasse achando minha vida maravilhosa e não se preocupasse comigo.

— Mas você é o meu irmão – ela resmungou, deixando a comida de lado.

— E você é a minha irmã e precisa comer tudo para sair logo daqui. – James respondeu e pegou um pedaço da torta com um garfo, levando até a boca de Lily. – Quando era pequena, você adorava que eu servisse comida assim.

Lily sorriu e comeu o pedaço de torta que seu irmão lhe deu. Ela não conseguia ficar zangada com ele por muito tempo.

— Estou cansada das pessoas mentirem ou fingirem que nada está errado só por minha causa. Não é justo que todos saibam a verdade, enquanto eu fico de fora.

James suspirou e deu mais um pedaço da torta para a irmã.

— Se te faz sentir melhor, prometo contar toda a verdade a partir de hoje.

— Sem a bobagem do comitê Lily?

— Sim – James sorriu e beijou a bochecha da irmã – Agora se concentre na comida e em ficar bem.

Lily concordou e continuou comendo, enquanto seu irmão contava o desastre que havia feito na cozinha. Ela não conseguia deixar de imaginar a cara de desespero de Marco quando percebeu que apesar de ser péssimo cozinheiro, James insistia em tentar.

Agora que estava com James, conseguia se sentir melhor. De fato, já estava sentindo fome e imaginou que era um bom sinal.

— James?

Lily ergueu os olhos e se deparou com um rapaz lindo, de cabelos escuros e sorriso bondoso.

— Venha cá, Marco! Quero que conheça a minha peste – James sorriu e acenou para que o namorado se aproximasse.

— Uau, ele é lindo mesmo – Lily sussurrou.

— Eu tenho um ótimo gosto, eu sei – James piscou para a irmã – Marco, essa é Lilian. A responsável por você ter comido torta de abóbora queimada.

— Amore mio, não jogue a culpa em sua irmã. A torta ficaria péssima de qualquer forma – Marco sorriu e olhou para a Lily – Ele fala muito de você e de Albus.

— Ele fala muito de você também. – Lily sorriu – E eu fico muito feliz por você estar aqui.

— Eu tenho a ligeira impressão que ela ficou doente só pra conhecer você antes do natal.

— Que droga, você descobriu meus planos – Lily respondeu e voltou a comer.

Estava se sentindo feliz por finalmente ter esclarecido as coisas e, principalmente, por saber que Marco era uma pessoa tão boa para James. Agora que observava os dois rindo com ela, percebeu que James estava certo: a opinião de pessoas más não importava, e ele daria um jeito de vencer todos os obstáculos para ser sempre feliz.

~*~

Rose estava saindo de mais uma de suas aulas quando encontrou Scorpius no corredor. Ele esperava por ela e ignorava o vai e vem dos alunos atrasados. Era impressionante como os anos passavam e alguns nunca aprendiam a chegar no horário.

Um pouco surpresa, ela pensou em ignorar o fato dele estar ali parado e passar direto, mas achou que não adiantaria muito, então simplesmente foi ao seu encontro. As coisas com Scorpius não tinham dado muito certo e, em grande parte, sabia que era culpa dela. Se tivesse se permitido sentir sem medo, talvez os dois tivessem evoluído de amizade colorida para namoro.

— É sério, o que aconteceu com você? – Rose perguntou. Sabia que essa não era a melhor forma de puxar assunto, mas estava realmente curiosa.

— Seu primo e meu primo caíram na porrada, e acabei ganhando uns hematomas de graça. – ele respondeu.

— Pelo menos você conseguiu separar os dois.

— A Scarlett conseguiu. Na real, ela chegou lançando feitiço em todo mundo, foi extremamente vergonhoso. – Scorpius sorriu – Podemos conversar?

— Já estamos conversando.

— Há-há, que engraçadinha. – ele disse e começou a caminhar junto com Rose pelo corredor.

Eles permaneceram em silêncio por alguns instantes. Antes as coisas fluíam tão facilmente, agora eles precisavam pensar no que dizer para não invadir o espaço do outro, e isso estava se tornando um pouco cansativo.

— Você não tem treino de quadribol hoje?

— Cancelei. – ele respondeu – Acho que Albus ainda está com muita mágoa naquele coração e eu tenho amor à vida.

— Afinal de contas, por que vocês brigaram?

— Basicamente, ele ouviu o Sebastian me contando o que houve com Lily em Hogsmeade, se estressou e distribuiu soco para todos os lados. Agora o Sebastian está proibido de chegar perto dela.

— E nenhum de vocês pensou em usar magia para resolver todos esses machucados?

— Sim, mas aparentemente esse é o castigo da Scarlett. Vamos ter que nos curar normalmente ou ela vai entregar todo mundo. Não que as pessoas já não tenham notado os machucados, mas parece que nós precisamos aprender a não resolver as coisas como seres primitivos.

Rose riu. Precisava concordar que aquele castigo era ótimo, só assim eles pensariam antes de começar a brigar como criança.

Os dois andaram em silêncio por mais um tempo. Scorpius tinha ensaiado em sua cabeça milhares de vezes o que iria dizer, mas agora nada parecia ser bom o suficiente e aquela caminhada estava começando a se tornar constrangedora.

— A gente devia recomeçar – Scorpius disse finalmente.

— Oi?

— Não estou dizendo para reatarmos o nosso quase relacionamento, fique tranquila. – Scorpius se apressou em explicar – Estou apenas sugerindo um recomeço. Rose, a não ser que eu esteja louco, o lance das férias não aconteceu por acaso. Quero dizer, estávamos meio bêbados e tudo, mas isso não tem nada a ver. Ficar com você aquela noite bagunçou muito a minha cabeça e não consegui parar de pensar em você; de querer ficar com você.

— Scorpius...

— Escute, eu não quero forçar nada. Se você não quiser recomeçar e quiser seguir como se nada tivesse acontecido, eu posso lidar com isso. Vou ficar meio puto? Vou, mas não com você e sim comigo. Eu fui burro por não ter pedido uma chance ou por não ter me forçado a tentar te provar que não sou um idiota como seu ex.

— Mas ainda sim é um idiota – Rose sorriu.

— Sim, sou mesmo – Scorpius sorriu – Eu estou tentando aprender essa coisa de lidar com sentimentos. Eu nunca amei ninguém antes e...

— Você me ama?

— Eu não disse isso.

— Você disse “nunca amei ninguém antes”.

— Vamos manter o foco dessa conversa na parte em que sugeri um recomeço para nossa relação.

— Isso quer dizer que você me ama. – Rose sabia que estava deixando Scorpius desconfortável e estava se divertindo.

— Isso quer dizer que nutro fortes sentimentos dentro do meu coração frio e venenoso.

— É, você me ama.

— Weasley, foco.

— Ok.

Scorpius deu uma risada. Na sua cabeça, tudo seria muito simples e ele conseguiria terminar sem raciocínio sem muitas interrupções, mas aquela era Rose Weasley e é óbvio que ela não tornaria aquilo fácil.

— Acho que devemos fazer como as pessoas normais fazem.

— E como elas fazem?

— Elas têm encontros. – Scorpius sorriu – Eu sou um cara de encontros? Não sou. Eu sou cheio de romantismo? Não sei nem o que é isso, mas por você vale a pena começar a rever tudo e tentar ser melhor.

— Scorpius, você gosta de mim do jeito que sou, não é?

— É claro que sim. – Scorpius respondeu – Caso contrário, qual seria o sentido de ficar com alguém para tentar mudar a pessoa?

— Exatamente – Rose sorriu – Eu gosto de você do jeito que é. Não quero que mude nada. Eu nunca pedi isso.

— Rose, eu sou loiro, facilita.

— Se vamos recomeçar, temos que recomeçar do jeito certo. Sem atropelar nada, sem forçar nada, sem mudar nada.

— Então nós vamos recomeçar?

— Vamos recomeçar. – Rose sorriu e beijou o rosto do rapaz – Sem mentiras, ok?

— Sem mentiras – Scorpius ergueu a mão em juramento – E a propósito, eu consideraria traição.

Rose olhou para ele completamente confusa.

— Você me perguntou se seria traição você ficar com outro cara quando estávamos naquele relacionamento aberto. Eu disse que não, porque achava que era o que queria ouvir.

— Agora sabe que não era.

— Graças a Merlin.

Rose deu uma risada e seguiu com Scorpius pelo corredor em direção ao pátio. Depois da confusão dos últimos dias, era bom ver que algumas coisas estavam voltando ao normal.

~*~

— O meu cabelo está azul. – Louis comentou o óbvio, no momento em que chegou ao salão principal para jantar.

Havia esbarrado com Pirraça, o poltergeist da escola, e ele havia lhe atirado balões de tinta. Apesar de todo esforço para se limpar, Louis não obteve um resultado positivo com seu cabelo e agora era a atração da mesa da Grifinória.

— Em algumas culturas, tenho certeza que isso é sinônimo de poder. – Fred respondeu.

— Sério? – Louis perguntou esperançoso.

— Não, eu só queria te fazer sentir melhor.

Louis suspirou e voltou a atenção para seu prato. Era impressionante como as coisas pareciam dar errado apenas para ele.

— E por que você não lavou a cabeça? – Fred perguntou mais uma vez.

— E você acha que não tentei?

— Misericórdia, o que aconteceu? – Albus perguntou enquanto se aproximava da mesa onde os primos estavam. Havia acabado de voltar da enfermaria.

— O meu cabelo está azul – Louis respondeu o óbvio – E sim, eu já lavei e não saiu.

Albus deu uma risada e tirou a varinha do bolso da jaqueta; com um simples feitiço, ele fez com o que o cabelo do primo voltasse ao normal.

— Sério, nenhum de vocês pensou em usar magia pra limpar o menino?

— Nós somos Weasley’s. Primeiro a gente enche a barriga e depois pensa no resto. – Fred respondeu.

— Isso é verdade – Albus concordou e guardou a varinha no bolso – Escutem, voltei da enfermaria e Lily já está bem melhor. A febre foi embora e ela provavelmente sairá da enfermaria amanhã. Repassem a notícia para o resto da família enquanto vou encher a minha pança. Toda essa confusão aumentou meu apetite.

— E o que não aumenta seu apetite, Al? – Dominique perguntou. – Sai daqui e vai pra sua mesa.

— Você está muito agressiva comigo, Domi. Isso está partindo meu coraçãozinho.

— Pensei que você não tivesse coração.

— Vocês estão vendo, né? Depois sou eu que não contribuo para a boa harmonia familiar. – Albus se levantou e foi em direção a sua mesa.

Um pouco isolada dos primos e dos amigos estava Harleen. Ela não havia dito nada desde que se sentou para o jantar e não parecia nada interessada no que estava a sua frente. Sua mente estava ocupada demais pensando nas coisas que Hugo havia dito. Ela sabia que não era exatamente uma pessoa fácil, mas também não imaginava que ele a considerava a responsável por tornar complicado o relacionamento dele com Lily.

Ela gostava de pensar nos três como inseparáveis. Seriam amigos para sempre e ninguém poderia mudar isso. A união deles parecia mais forte do que qualquer outra coisa, e então ela começou a sentir algo que não era fácil de definir. Conforme cresciam, Hugo se tornava mais presente em seus pensamentos e ela se pegava tentando incluir ele nas coisas mais bobas de seu dia-a-dia.

Foi só depois de conversar com a mãe sobre isso que percebeu o que estava realmente acontecendo. Ela havia se apaixonado e não conseguia encontrar uma forma de acabar com esse sentimento.

Harleen se lembrava perfeitamente do dia que decidiu dividir seus sentimentos com Lily. Imaginava que esse era o tipo de conversa que melhores amigas podiam ter a qualquer momento, e como nunca havia se apaixonado antes, estava muito ansiosa para dividir isso com a prima.

Tudo parecia que iria dar certo, até que Lily também decidiu compartilhar que estava apaixonada. Harleen achou que seria bom perguntar por quem, já que tinha quase certeza que era algum menino da Corvinal que vivia de olho nela. Obviamente, ela estava errada e quando Lily respondeu que era por Hugo, a única coisa que Harleen conseguiu responder foi: eu também.

As duas estabeleceram esse acordo de paz e o triângulo amoroso se formou. Nenhum dos três queria brigar e essa parecia a melhor solução para o problema.

Agora com Lily na enfermaria e Hugo alegando que sua chegada atrapalhou a vida dos dois, Harleen não conseguia afastar a sensação de que tinha feito tudo errado e precisava sumir o mais rápido possível.

Assim que viu Albus terminar seu jantar e sair do salão, Harleen decidiu segui-lo. Se tinha alguém que poderia ajudar sem passar um sermão, esse alguém era seu primo.

— Albus, espera!

Albus parou e se virou para encarar a menina que se aproximava as pressas.

— E aí, Harls! ‘Tá tudo bem?

— Sim, mas eu preciso da sua ajuda. – ela respondeu – Preciso entrar em contato com meus pais.

Albus franziu cenho e permaneceu encarando a menina a sua frente. Se estava tudo bem, por que ela precisava falar com os pais?

— Posso saber pra que?

— Sim! Quero voltar pra casa e ter a minha vida de antes.

— O que? – Albus perguntou em choque. Aquela era a coisa mais bizarra que havia escutado aquele dia – Harls, você é uma bruxa. Seus pais são trouxas. Você pode me explicar como pretende levar a sua educação a diante?

— Não pretendo. Eu não quero mais ser bruxa. Eu não quero mais estar aqui.

— Ok, vamos caminhar e você me diz o que está se passando por essa cabecinha loira que acha que é de boas ficar em meio a tantos trouxas sem conseguir ter total controle dos próprios poderes.

Ele passou o braço por cima dos ombros da menina e começou a andar com ela pelo corredor bem devagar, desviando vez ou outra de alguns alunos que passavam. Finalmente, eles chegaram ao pátio e se sentaram em um dos bancos de pedra.

— Estou cansada, Al. – ela suspirou – A Lily está doente e o Hugo diz que é tudo culpa minha.

— Espera, o Hugo disse o que?

— Não fica chateado. Ele estava triste e despejou esse monte de coisa. Mas, de certa forma, ele está certo. Ele e a Lily tinham uma relação boa antes da minha chegada e, desde que apareci, a única coisa que faço é ficar entre os dois. Ele gosta dela e ela gosta dele, e eu fico sendo a amiga que atrapalha o relacionamento.

— A Lily ficou doente de preocupação e isso em nada teve a ver com o fato de vocês duas gostarem do mesmo garoto. Ela sempre foi muito tranquila quanto a isso, o que me surpreende bastante. – ele começou a explicar – A Lils ficou doente porque estava preocupada com o James. Ela descobriu da pior forma que o motivo dele não parar fixo em um trabalho e começou a se descabelar com a ideia de que não podia fazer nada para mudar.

— Mas o Hugo...

— Merlin sabe que amo todos vocês, apesar de ser meio relapso, mas o Hugo simplesmente foi um idiota. Você não pode se dar ao luxo de abandonar todo o seu futuro porque ele cismou de dar piti e jogar em você uma responsabilidade que não é sua. – Albus deu de ombros – Eu sou o pior cara dando conselhos, por isso a Rose está aí na família para ajudar, mas largar a escola só para deixar as coisas “normais”, é uma atitude irresponsável e covarde. E se é covarde até pra mim, que pertenço a Sonserina, imagina a puta decisão errada que você pretende tomar.

— Eu não quero atrapalhar ninguém, Al.

— Quem disse que você atrapalha? A opinião do Hugo não tem muito valor nessa discussão e você sabe. – Albus respondeu um pouco impaciente – Escute, Harls, se você quiser ir de verdade, eu vou até a Diretora e explico a situação. Ela não pode te obrigar a ficar. Mas, se você estiver indo porque o Hugo disse que você estava atrapalhando o sonho de amor dele, não vá. O único que atrapalha a vida do Hugo é ele mesmo, e ele sabe disso.

Harleen ficou em silêncio por alguns instantes, refletindo sobre o que o primo havia acabado de dizer. Ela gostava de estar em Hogwarts, gostava daquele ambiente e gostava de estudar magia. Talvez Albus estivesse mesmo certo e fugir não fosse a melhor solução.

— Lily ficaria arrasada se você fosse. Assim como eu. – ele passou a mão pelo cabelo da prima e beijou a sua bochecha – Você é inteligente e amiga, Harls. E todos amam você. Você sabe que eu sou um babaca em todos os aspectos, mas não finjo gostar de ninguém. Se estou dizendo que você é importante em nossas vidas, é porque você é. E se o Hugo ficar de fogo no rabo, eu dou um jeito nele.

Harleen riu e concordou, abraçando o primo em seguida. De todos ali, Albus era o último que ela imaginava que fosse lhe dar conselhos de vida.

— Obrigada por ser um ótimo primo e irmão, Al. – Harleen comentou.

— Obrigado por confiar a mim seu dilema de vida. Vou para o céu depois disso.

— Você tinha que estragar o nosso momento fraterno, não é?

— Se eu não fizer isso, minha vida fica incompleta.

~*~

Depois de um dia cheio com pais, irmão e cunhado na escola, e de seu momento quase fofo com sua prima, Harleen, Albus estava cansado. Quando foi até a enfermaria ver sua irmã, ela já estava dormindo e a enfermeira disse que ficaria assim até a manhã seguinte graças ao efeito do remédio. No final das contas, Albus estava se sentindo útil de verdade pela primeira vez em muito tempo.

Ele sempre soube que não era exatamente a pessoa mais responsável do planeta. Era péssimo no quesito demonstrar afeto e mais péssimo ainda quando se tratava de ficar fora de confusão. Os hematomas em seu rosto eram a prova de que quando se exaltava agia por impulso e acabava se dando mal.

Agora ali, naquele corredor vazio, sentia o peso do estresse dos últimos dias. Seu corpo estava moído e a única coisa que queria era relaxar. Não estava em clima para discutir e tinha certeza que se alguém puxasse uma briga, ele simplesmente daria as costas e iria embora. Sua energia havia sido sugada e ele se sentia mais cansado que nunca.

Estava tão distraído, que passou por Dominique sem fazer nenhum comentário. Seus pés praticamente o guiavam pelo corredor e era como se não tivesse ninguém ali.

— Uau, agora eu sou invisível? – Dominique perguntou e não conseguiu esconder a insatisfação em sua voz.

— Oi? – Albus parou e se virou para a prima – O que foi que eu fiz dessa vez?

— Ignorou a minha presença.

— Ah tá. – Albus respondeu – Pensei que você curtisse a ideia de ficar longe de mim, depois de toda nossa bagagem emocional esquisita.

— E eu curto.

— E está reclamando por quê? – ele perguntou um pouco confuso – Se eu faço piada, você reclama. Se eu falo sério, você também reclama. Se a gente fica e no dia seguinte eu tento arrumar as coisas, você reclama. Se eu peço desculpas, você aceita e depois reclama. Dominique, está começando a ficar difícil te agradar.

— Não preciso que me agrade, Albus! – Dominique respondeu um pouco zangada.

— Ótimo, então estamos resolvidos. – ele disse e se virou para ir embora, mas o puxão em sua capa o fez virar – Dominique, eu estou cansado, dolorido e sem paciência. Eu adoraria ficar aqui e brigar com você, ou ter um daqueles diálogos doces como limão, mas eu estou realmente exausto.

— Você nunca havia falado assim comigo antes. Você nunca me ignorou dessa forma.

— Eu também nunca havia me apaixonado antes e aqui estamos nós tendo essa discussão imbecil, e eu nem posso resolver porque você não consegue acreditar que eu realmente sinto algo e que eu realmente estou arrependido por ter sido tão insensível depois da festa do Scorpius. – Albus falou um pouco alto demais e balançou a cabeça – Existe uma primeira vez pra tudo, Dominique. E chegou o dia de lidar com o fato de que essa é a primeira vez que eu passo direto sem tentar chamar a sua atenção.

E dizendo isso, Albus foi embora, deixando Dominique para trás. A jovem estava com um misto de raiva e tristeza. Albus havia dito que estava apaixonado por ela pela segunda vez e isso devia ser uma espécie de recorde na vida dele.

Albus, por sua vez, caminhou pelo corredor o mais rápido que conseguiu e seguiu em direção a Sonserina. Aquele dia precisava acabar de uma vez, antes que ficasse mais estranho.

~*~

N/A: aaaaaaaaa Mais um capítulo para vocês! E dessa vez nem demorou muito xD

Espero que tenham gostado! Rose e Scorpius vão ter o primeiro encontro em breve e espero que vocês gostem ♥

Não tenho muitas observações para fazer. Só tenho mesmo que agradecer pelos comentários fofos de sempre.

Até a próxima!!! Continuem comentando e fazendo uma autora feliz.

Beijinhos,

Marls..