War of Hearts
3 Capítulo 2 - It’s where my demons hide
Notas iniciais
I want to hide the truth
I want to shelter you
But with the beast inside
There’s no where we can hide
No matter what we breed
We still are made of greed
This is my kingdom come
This is my kingdom come
When you feel my heat
Look into my eyes
It’s where my demons hide
It’s where my demons hide
Don’t get to close
It’s dark inside
It’s where my demons hide
It’s where my demons hide
(Demons — Imagine Dragons)
Oliver Queen
Depois de alguns anos trabalhando com a máfia russa você aprende a ignorar o sofrimento alheio, você passa a ver cada ato terrível como um meio necessário para atingir um fim. Você blinda o seu coração, você se nega a sentir qualquer emoção e aprende a demostrar apenas indiferença diante das mais diversas atrocidades. Para sobreviver nessa vida você precisa abrir mão da sua humanidade e demonstrar aos outros nada além do que frieza e falta de compaixão.
Esse é o tipo de trabalho que muda você.
Eu pensei que eu fosse forte o suficiente para suprimir a parte de mim que se importa, para ser nada mais do que um bom soldado cumprindo a sua missão. Quando eu entrei para os Bratvas eu tinha um plano traçado, cada pequeno detalhe esquematizado ao longo de uma elaborada e confusa teia, desde o meu ingresso na organização até o momento em que salvei a vida de Anatoly, tudo estava orquestrado. Mas agora, tanto tempo depois, eu me via frustrado por ainda não ter alcançado o meu objetivo, e irremediavelmente culpado pelos danos colaterais de minhas ações. Eu sabia que esse seria um trabalho árduo, que algumas coisas que eu tive que fazer me tirariam o sono durante a noite e me assombrariam para o resto da vida, ainda que eu me dissesse que era por uma boa causa. Eu costumava ser muito bom em banir esses meus pensamentos de culpa para uma parte escura da minha mente, uma parte que conscientemente eu gostava de ignorar.
Até ela aparecer.
Com Felicity eu simplesmente não conseguia mais conter meus pensamentos de culpa presos. Eles gritavam dentro de mim, censuravam minha conduta e exigiam que eu fizesse algo para mudar isso. Para que não causasse mais sofrimento, principalmente à ela.
Eu observava Felicity dormir, apenas isso, não havia nada de mais na forma tranquila em que ela ressonava com a cabeça ligeiramente inclinada sobre o encosto da poltrona, como os seios subiam e desciam pelo decote da blusa por causa de sua respiração fluida. Desviei meus olhos quando notei em que parte da sua anatomia eles haviam se fixado, e me censurei mentalmente por esse lapso. Eu precisava de muita concentração e clareza quando estava perto dela, havia algo diferente nela, algo único e que eu não sabia descrever o que era, mas que me atormentava e a tornava fascinante aos meus olhos.
Tinha sido extremamente difícil fazê-la entrar no avião, ela relutara, brigara comigo e tentara fugir mais umas duas vezes. Ela era assim, rebelde, simplesmente não aceitava que fosse do jeito fácil, ela lutaria por sua liberdade, e de certa forma essa tenacidade a deixava ainda mais apelativa aos meus olhos. No fim eu entendi que por mais que eu a ameaçasse, Felicity não dava o braço a torcer, ela era teimosa demais para simplesmente aceitar o que eu impunha. Por isso mudei de tática, fiz algumas ameaças à mãe dela e imediatamente ela ficou tensa, como eu já esperava eu vi medo em seu semblante, mas fui pego completamente de surpresa pela chama de ódio dirigida a mim que havia em seus olhos. Me senti compelido a prometer que nunca machucaria alguém com quem ela se importava, por algum motivo o mero pensamento de ser ainda mais responsável por seu sofrimento me deixava nauseado. Mas no fim, ela aceitara que não tinha uma escolha, ou uma saída, que o que eu lhe oferecia era o seu destino.
Felicity se recostara em uma das poltronas do jato particular que nos levaria à Rússia, não me dirigiu nem mesmo um olhar ou uma palavra. Não respondeu minhas perguntas se havia algo de que precisasse. Ela me tratou friamente, eu ainda via o brilho de fúria que tanto me fascinava em seu olhar, mas que agora estava nublado pelas lágrimas que ela tão teimosamente segurava em seu esforço de não demostrar fraqueza na minha frente. Eu me afastei porque compreendi que era aquilo que ela precisava. Espaço para aceitar que toda a sua vida mudara, e tempo para lamentar a perda de tudo o que ela conhecia. Me senti estranhamente incomodado porque não importava o que aconteceria a seguir, não importava o quão gentil eu tentasse ser com ela ou minhas tentativas de diminuir sua dor, no final ela sempre me veria como o responsável, o algoz que lhe tirou de uma vida tranquila e sem preocupações, que lhe tirou de tudo o que ela amava e se importava e a mostrou um lado mais sombrio do mundo.
E ela sequer tinha se aprofundado nas sombras.
Voltei meus olhos para Felicity novamente, não que eu os tenha desviado dela por muito tempo. Ela se remexia na poltrona, parecendo não encontrar uma posição confortável para dormir. Eu teria me sentado ao lado dela, tenho certeza que estaria muito mais confortável se tivesse apoiado sua cabeça em meu ombro, ou até mesmo adormecido em meu colo. Mas ela não aceitaria, minha presença apenas lhe causava repulsa.
Levantei-me do meu lugar e fui até ela quando a escutei resmungar algo incompreensível, sorri inconscientemente ao constatar que ela falava dormindo, era algo tão simples e ao mesmo tempo tão adorável. Porém meu sorriso desapareceu tão logo compreendi suas palavras “por favor, não a machuque!” era um pedido desesperado, meu peito afundou, um vazio tomou conta de mim quando percebi a pequena lágrima que escorria por seu rosto. Felicity parecia triste e atormentada em seu sono. Observei seu rosto que agora estava desprovido de todo o orgulho que ela sempre dirigia a mim. Sem as barreiras que ela erguera para mim, eu via seu rosto pálido, sua tez sem brilho, ela parecia tão triste e vulnerável agora. Ver isso me corroeu por dentro, era tão somente minha culpa, nunca eu veria um sorriso brilhar em seu rosto, nunca mais ela seria feliz outra vez e não havia nada que eu pudesse fazer para mudar isso.
Tirei o paletó que vestia e coloquei sobre o seu corpo pequeno fazendo as vezes de um cobertor quando notei que ela estremecia de frio. Felicity soltou um pequeno gemido de prazer inspirando profundamente e se acalentando sob o tecido quente. Sentei-me na poltrona ao seu lado, indo contra seu pedido expresso para que eu ficasse longe dela. Puxei seu corpo para o meu, de modo que sua cabeça se apoiasse em meu ombro, queria que ao menos ela tivesse um pouco de conforto durante o longo voo. Fui pego de surpresa quando um de seus braços se apoiou ao redor de mim, quase me abraçando. Fechei meus olhos fortemente ao sentir o carinho inconsciente dela.
— Eu sinto muito, printsessa — sussurrei as palavras contra seus cabelos, me desculpando novamente. Isso estava se tornando um hábito ruim, pedir desculpas a ela quando era incapaz de escutá-las.
Por algum motivo meus lábios se viram atraídos para ela, os repousei com uma leve carícia em sua testa, um beijo demorado, porém tão suave que com toda certeza ela foi incapaz de senti-lo, mas o qual eu expressava tantas emoções. Emoções essas que sempre mantive trancadas, mas que com ela, por algum motivo pareciam estar sempre a flor da pele.
O canto de seus lábios se ergueu num pequeno sorriso e ela suspirou assim que minha boca deixou sua pele. Franzi o cenho ao notar que seu semblante parecia bem mais leve do que antes, um sentimento de orgulho o qual não consegui impedir se alastrou por mim ao pensar que eu era o responsável por seu pequeno momento de felicidade. Afastei a sensação tão logo percebi que aquilo não era certo, deixei meu olhar cair sobre ela mais uma vez.
Eu estava em sérios problemas.
Por que eu não conseguia desviar meus olhos dela? Por que eu não conseguia parar de me preocupar com o que o futuro na Rússia lhe reservava? Por que eu me importava tanto?
Ela é inocente.
A frase gritou em minha cabeça, ela não tinha culpa de ser quem ela era, não tinha culpa de Anatoly ter decidido que queria sua filha de volta e de que a usaria como uma simples peça em um jogo elaborado pelo poder. Ela não era má, não merecia nada daquilo que iria lhe acontecer.
Trinquei meus dentes quando pensei no que lhe reservava na Rússia. Anatoly era um homem duro, ela nunca teria um pai amoroso ou minimamente atencioso. Seria refém dele até o momento em que ele obtivesse dela o que precisava, só depois que ele destruísse toda a luz que havia dentro dela, e não restasse nada da garota que mantinha o queixo erguido mesmo diante das piores circunstâncias, ele ficaria satisfeito. Ele esmagaria seu espírito, e só então ele a descartaria como se fosse lixo. Era isso o que ele fazia com as pessoas.
Pensei nos seus planos que ele tinha para Felicity. Um casamento com o filho do seu maior rival, apenas para tornar os Bratvas ainda mais fortes. Eu não conhecia muito sobre o tal Dimitri, provavelmente era apenas mais um porco sedento por poder como todos os outros desse meio, que via na oportunidade de um casamento com a filha do grande Anatoly de se tornar alguém grande também.
Era ridículo esse tipo de união nos tempos de hoje, um casamento arranjado, pior do que isso, um casamento obrigado. Felicity não teria escolha nesse ponto, e por algum motivo a ideia de vê-la sendo obrigada a isso me causava uma raiva tão grande que eu desejava ser capaz de fazer o avião voltar e deixá-la seguir com a vida simples que tinha antes. Não era certo tratar alguém assim, como um simples objeto, uma mercadoria, ainda mais alguém como Felicity. Por via das dúvidas eu decidi que manteria meus olhos sobre ela, teria algum plano reserva, me certificaria de que ela estava bem e se, e apenas se as coisas chegassem a um extremo, eu tentaria impedir o seu destino. Era o certo a fazer.
Fechei meus olhos me perdendo em pensamentos temerosos por ela, pensando em maneiras de salvá-la do que lhe esperava. De repente senti seu braço se apertar ao redor de mim espalhando um calor confortável como há muito tempo eu não sentia, e antes que eu percebesse, eu adormeci com seu corpo ao meu lado, me abraçando. Nunca tinha dormido tão bem em toda a minha vida.
***
Acordei sentindo uma pressão em meu peito, como um batuque constante. Pisquei meus olhos ao ver a garota loira irritada desferindo uma série de pequenos socos furiosos em mim. Por algum motivo a visão dela parecendo tão brava me fez sorrir, o que a deixou ainda mais irritada.
— O que faz aqui? Eu deixei claro que não o queria próximo a mim! — ela esperneava enquanto continuava o seu ataque, tentando me empurrar para longe dela.
— Printsessa — chamei, segurando seus pulsos impedindo que ela continuasse. Ela bufou ao escutar o apelido em russo que eu havia lhe dado, me perguntei se ela sabia o seu significado. — Quer dizer que agora está falando comigo de novo? — devolvi não conseguindo demover o sorriso de meus lábios. Felicity mordeu o lábio inferior, seu rosto adquiriu um tom vermelho, ela cruzou os braços se ajeitando no banco e virando para o outro lado.
— Eu só queria que você parasse de babar em mim. — tentou manter o tom frio — Acho que estamos chegando. — comentou, seus olhos se fixando na pequena janela do avião.
Ergui meu corpo por sobre o dela, apenas para ver a paisagem que ela via. Notei que minha proximidade a fizera prender a respiração, e imediatamente me afastei, incomodado comigo mesmo por causar esse tipo de reação à ela. Será que algum dia eu lhe causaria uma reação diferente de medo? Pouco provável.
— Você tem razão. — eu disse ficando de pé, me afastando dela e percebi que minha distância lhe deixou um pouco menos tensa — Eu vou falar com o piloto, verificar se falta muito para chegarmos à Moscou.
Saí de sua visão com certa rapidez, eu estava acostumado a intimidar as pessoas quando eu me esforçava, mas saber que minha simples presença já a deixava tensa me incomodava.
Voltei minutos depois, informei Felicity que em pouco tempo estaríamos chegando, e ela apenas bufou e virou rosto para a janela. Senti vontade de provocá-la por me tratar tão friamente sendo que há minutos atrás seus braços estavam ao redor do meu corpo, me abraçando tão calorosamente. Mas me contive, não era certo, ela já tinha muito em sua mente, já estava irritada demais, não precisava que eu agisse como um ogro e piorasse o seu estado.
Assim que pousamos em um pequeno aeroporto particular Felicity se levantou da sua poltrona e caminhou até mim a passos duros, segurei a vontade de sorrir ao ver seu rosto tão sério. Por que qualquer mínimo ato dela despertava em mim uma vontade irracional de sorrir? Isso não era bom, não no meio no qual eu trabalhava.
— Isso é seu. — disse altiva, parando a minha frente e me entregando o paletó que eu havia usado para cobri-la.
— Eu não o quero. É melhor você vestir, vai estar frio lá fora e você não tem nada mais quente para te aquecer. — expliquei, e a vi arquear uma das sobrancelhas.
— E a culpa é de quem? — ela retrucou num tom azedo. Eu me acanhei ao sentir aquele ataque, ela estava certa até mesmo o maldito moletom verde que ela usara para tentar escapar de mim, havia sido esquecido dentro do carro nos Estados Unidos.
— O ponto é que eu não quero que você morra de frio.
Por que ela simplesmente não vestia o paletó sem discutir? Ela sentia frio, eu via a forma que sua pele estava arrepiada e isso só pioraria quando estivéssemos do lado de fora. Mas ela estava certa, era culpa minha, me senti um imbecil por não pensar em trazer roupas quentes para ela, o frio na Rússia era bem rigoroso.
— Oh, agora se importa com o meu bem estar? Ou está preocupado que a sua mercadoria sofra alguma depreciação? Sou isso que sou para você não é mesmo? — respirei fundo, suas palavras me atingindo mais profundamente do que eu gostaria. Eu tive vontade de explicar que eu me importava com ela, que ela era uma pessoa para mim. Mas isso não seria certo, já que para Anatoly, Felicity era apenas uma mercadoria cuja qualidade ele gostaria de garantir.
— Apenas vista o paletó. — ordenei usando meu tom mais imperativo, eu estava cansado de discutir com ela e estranhamente estava começando a me sentir aborrecido com Felicity.
— Não! Eu não vou vestir suas roupas! — explodiu irritada jogando o paletó em mim. Seus olhos faiscavam de ódio, e eu estava confuso. Eu sabia que ela tinha todo o direito do mundo de estar furiosa comigo, afinal eu a havia tirado do seu país, a afastado das pessoas que ela amava, mas por que ela brigava por causa de um maldito paletó? Não via que eu apenas estava cuidando dela?
— Qual é o seu problema? Você já usou minhas roupas para dormir na outra noite. Talvez esteja esperando que eu o vista em você novamente. — meu tom provocativo fez com que suas bochechas adquirissem um tom avermelhado delicioso, Felicity dessa vez pareceu não encontrar palavras para continuar a nossa discussão, apenas deu meia volta saindo do avião com passos decididos.
A vi se contrair assim que sentiu a lufada de ar frio contra seu corpo, ela apertou os braços firmemente ao redor do próprio corpo e seguiu descendo as escadas fingindo que o frio não a incomodava. Inferno! Felicity não era apenas teimosa, ela era orgulhosa e estúpida, e estava disposta a morrer de frio apenas para não me dar o prazer de estar certo.
A puxei pelo braço tão logo ela alcançou o último degrau, as costas de seu corpo batendo contra meu peitoral a abracei assim por um tempo, sentindo seu corpo gélido contra o meu quente, o calor passando de mim para ela.
— Pochemu ty vsegda takoy upryamyy, printsessa? — sussurrei a pergunta ao pé do seu ouvido, consciente de que ela não entenderia nenhuma palavra. Senti que Felicity estremeceu deixando escapar um pequeno gemido, não sabia se por causa da minha abordagem que a havia assustado ou porque agora meu corpo aquecia o seu. — Vamos, o carro está ali, logo você estará aquecida. — falei suavemente, colocado o paletó ao redor de seus ombros fazendo-a suspirar. Segurei sua mão gelada na minha e a levei até o carro escuro que esperava por nós dois a poucos metros. Andar de mãos dadas com ela era um ato um tanto quanto incomum, eu admito, já que até então eu sempre a puxava pelo braço, mas em pouco tempo ela estaria com Anatoly, e eu não sabia se a veria novamente, não queria que sua última lembrança minha fosse de mim a tratando como se não fosse nada.
Felicity não me dissera nada, e eu também não tentei começar nenhum diálogo. O carro seguia dando voltas pela cidade, enquanto nós dois permanecíamos no mais perfeito silêncio. O olhar de Felicity não se desprendia da janela, e de alguma forma eu sabia que ela não estava olhando para a paisagem do lado de fora. Ela estava pensando e eu a deixei assim, já tinha interferido demais em sua vida, eu não tinha o direito de interferir em seus pensamentos também.
— Oliver? — ela me chamou tão logo o carro passou por um portão em direção a uma gloriosa mansão. Era visível os homens armados por toda a parte. Anatoly não era muito discreto com sua segurança, na verdade ele tendia a ostentar seus homens na tentativa de deixar qualquer um que se atrevesse a se aproximar da sua casa intimidado.
— Sim?
— Você nunca me disse o que meu pai faz. — seus olhos viraram-se para mim esperando por uma resposta.
— Verdade, eu não disse. — contornei sua pergunta, eu não iria dizer, eu não sabia como dizer que o pai dela era o líder de uma das facções mais poderosas da máfia russa.
— Mas você me disse que ele não era uma boa pessoa.
— Ele não é. — confirmei e Felicity assentiu voltando o seus olhos para os dois homens armados com metralhadoras à porta da casa.
Ela era uma garota esperta sua mente já fazia a ligação, vi que ela tomou uma respiração funda quando o carro parou. Seus dedos apertaram-se tão fortemente em sua perna que temi que ela estivesse se machucando, percebi tardiamente que Felicity estava apavorada.
— Tente não parecer com uma garotinha assustada. — falei colocando minha mão sobre a dela, a impedindo de continuar a se machucar — Não se preocupe, nenhum desses homens lhe fará mal, estão aí apenas para assustar.
— Eles são muito bons no serviço. — respondeu, não desviando o olhar e apertando sua mão ainda mais na minha.
— Vse budet khorosho, ne volnuytes’, ya budu na vashey storone vse vremya... — Felicity virou o rosto para mim, surpresa.
— Eu queria entender as coisas que você diz em russo. — seus olhos azuis estavam fixados nos meus buscando por algo que eu gostaria de ser capaz de lhe dar.
— Eu disse que vai ficar tudo bem. — assegurei.
— Foi uma frase muito longa para significar apenas “vai ficar tudo bem”. — observou.
Sorri para ela involuntariamente. Porém meu sorriso desapareceu quando escutei as batidas na janela do carro, precisávamos sair. Anatoly não era um homem conhecido por sua paciência, e eu não deveria estar dentro desse carro tentando acalmar a sua filha. Soltei minha mão da dela abruptamente, e mudei completamente a postura.
— Vamos, está na hora de conhecer o seu pai. — falei duramente, me lembrando de que aqui eu não podia ser um homem que sorria ou segurava a sua mão, o homem que lhe confortava, por mais que eu quisesse ser, aqui eu era Capitão Queen, braço direito de Anatoly Knyazev. Eu precisava me lembrar de reprimir qualquer sensação que ela despertava em mim, para o bem de nós dois.
Caminhamos por corredores e mais corredores até o escritório de Anatoly no terceiro pavimento. Felicity estava tensa, eu seguia ao seu lado, mas dessa vez dois homens armados nos guiavam até o local. Eu via o medo em seus olhos, mas também vi o brilho de fúria ali e me preocupei, uma coisa era Felicity me enfrentar, outra completamente diferente era fazer isso com Anatoly, ele não aceitava ser desafiado e gostava de punir aqueles que o contrariavam. E eu não queria que ela fosse punida.
Paramos em frente a uma grande porta dupla no final de um corredor onde havia mais homens armados, as portas se abriram e entramos, e então elas tornaram-se a se fechar.
— Oliver! Você finalmente voltou — o homem corpulento ergueu da cadeira atrás da escrivaninha, dei um passo a frente e com um leve assentir de cabeça o cumprimentei. —, confesso que fiquei decepcionado quando perdeu o primeiro avião e tive que fazer arranjos para que pegasse um novo em outra cidade. — Esse era seu jeito de me dizer que não gostava que as coisas não tenham seguido conforme o seu plano inicial.
— Tive algumas complicações, mas o importante é que cumpri minha missão. — mantive-me sério.
— Certo. — deu a volta na mesa, seu olhar se fixando na filha.
Eles não poderiam ser mais opostos, eu olhava para Felicity e via luz, sua visão me fazia pensar em coisas boas e belas, enquanto tudo em Anatoly gritava destruição. Ele parou de frente para ela, a analisando satisfeito, senti o gosto de algo amargo em minha boca, ele não olhava para ela como um pai feliz por conhecer a filha depois de tantos anos, embora estivesse feliz, sua felicidade vinha do lucro que Felicity lhe proporcionaria.
— Muito bela. — apoiou seu dedo sobre o queixo o erguendo e analisando as feições de Felicity.
— Claramente não herdei a beleza de você papai — trinquei os dentes ao escutar as palavras sarcásticas vindas de Felicity, ela não poderia ter segurado a língua ferina por pelo menos mais alguns momentos?
Vi um pequeno tique no olho esquerdo de Anatoly, ele estava se segurando. Mas o aperto no queixo dela se tornou mais opressor, ele se aproximou dela, a olhando nos olhos e tenho certeza que ele viu o mesmo brilho de fúria que eu via em seus olhos azuis que tanto me fascinavam. Ele não estava satisfeito com isso.
— Um pouco arisca, como a mãe, mas tenho certeza de que é algo que podemos corrigir, para a sua sorte querida eu preciso que esse rostinho lindo permaneça lindo. — respirei aliviado quando ele a soltou e se afastou — Victor e Ivan, — chamou os dois homens que haviam entrado na sala junto conosco, eu não os conhecia muito bem, eles não eram de falar muito, mas eram algo como os cachorros treinados de Anatoly. Sempre prontos para obedecer. — Eu quero que a levem ao quarto, e fiquem de guarda é claro. — Os dois brutamontes assentiram, e puxaram Felicity rudemente para fora do escritório. Eu sentia o ódio arder dentro de mim, queria ir atrás deles e os obrigar a tratá-la com o mínimo de gentileza.
— Vladmir irá gostar dela, ele tem um fraco por garotas loiras. — Anatoly comentou quando estávamos a sós, se recostando na poltrona e acendendo um charuto.
— Como? — devolvi confuso ao escutar o nome de Vladmir.
— Vladmir Dashkov, meu maior concorrente.
— Pensei que tinha planos de casá-la com o filho dele, Dimitri e, além disso, Vladmir é casado. — Argumentei. Vladmir Dashkov, era um homem asqueroso com seus cinquenta e tantos anos, era conhecido no mundo do crime por sua falta de paciência e volatilidade.
— Dimitri é apenas uma criança, não está apto e nem tem maturidade para assumir os negócios do pai e Vladimir ainda pretende permanecer muito mais tempo no poder. E eu não teria qualquer poder se a casasse com a criança. — Poder, no final tudo sempre se resumia a isso quando se tratava da máfia — E a esposa de Vladimir, Taiana faleceu recentemente, em um pequeno acidente doméstico. — Anatoly riu e se engasgou com a fumaça do próprio charuto, era óbvio que Vladimir havia matado a própria mulher não era a primeira vez que ele fizera isso e com toda a certeza não seria a última. — Então, creio que a vaga está aberta. Quanto mais cedo essa união acontecer, mais cedo Felicity poderá engravidar e então, com a certeza de um herdeiro eu me livro do pequeno Dimitri e de Vladimir, tomo conta da organização como o avó do pequeno herdeiro e assim os Bratvas serão a única e maior máfia da Rússia. — falou com um sorriso satisfeito soltando uma baforada do seu charuto.
Não consegui compartilhar da euforia de Anatoly quando finalmente compreendi a extensão de tudo aquilo. O que esse plano significava para Felicity, a mera ideia de vê-la casada com um homem daquele, sujeita a esse tipo de vida causava em mim uma repulsa sem igual. Não era justo, ela não merecia nada disso.
— Você parece anormalmente quieto, Oliver. — Anatoly passou a analisar-me e enrijeci — Sua pequena viagem a América despertou o seu desejo de voltar? Ou alguma mulher o fez? — inqueriu fingindo uma simples curiosidade humana, mas na verdade Anatoly sondava a minha lealdade.
— Não diga besteiras! Estou apenas cansado.
Anatoly assentiu ainda com os olhos em mim esperando por algum vacilo, enquanto despejava uma garrafa de vodca em dois copos e deslizava um deles para mim.
— A uma nova era dos Bratvas. — ergueu o copo — Prochnost.
— Prochnost. — Eu disse brindando os nossos copos, virei a bebida logo em seguida e forcei um sorriso.
***
Caminhei pelos corredores até encontrar a porta do quarto em que estavam os cães de guarda de Anatoly.
— Anatoly mandou chamá-los. — anunciei, e os dois cães sequer se moveram. — Ele parecia irritado, não serei eu a explicar o motivo da demora de vocês dois em atenderem uma ordem direta. — eles se entreolharam, e então saíram. Abri a porta rapidamente e entrei antes que alguém aparecesse, eu sentia uma urgência inexplicável em ver Felicity, me certificar de que ela estava bem.
— O que você faz aqui? — Felicity desferiu as palavras com ódio tão logo me viu, seus olhos estavam avermelhados eu tinha certeza que ela estivera chorando.
— Eu precisava saber se você estava bem. — respondi, correndo os olhos por todo o seu corpo buscando por qualquer indício de ferimento, fixei meus olhos em seus pulsos, estavam um pouco avermelhados, e fiz uma nota mental para acertar isso com os cachorros de Anatoly de algum jeito.
— Oh, você precisava saber se eu estava bem — seu tom era puro deboche. — Como se você se importasse! — dei passos até ficar de frente para ela, Felicity mantinha o mesmo queixo erguido e o olhar petulante.
Eu não podia dizer a ela que eu me importava, isso poderia lhe dar falsas esperanças sobre mim. E no momento não havia nada que eu pudesse fazer por ela, eu precisava apenas que ela jogasse o jogo e que seu comportamento não lhe causasse problemas.
— O paletó ficou bem em você. — falei num tom conciliatório, eu não estava a fim de discutir com ela. Sentei-me na cama, era grande e confortável. Aliás, o quarto todo era assim, claro e bem mobiliado. — Eu sinto muito. — finalmente eu disse as palavras que tenho dito somente a mim mesmo, ou quando Felicity não conseguia escutá-las. Pensei que sentiria um alívio maior quando as dissesse, mas não senti. — Mas essa é a sua vida agora, precisa entender que sua atitude não vai ser bem vista aqui e só te colocará em mais problemas, você precisa abaixar a cabeça, precisa jogar conforme o jogo. — pedi, Felicity me observava tentando decidir se deveria confiar em mim, ou ao menos considerar minhas palavras. Ela meneou a cabeça e se aproximou, sentando-se ao meu lado.
— O que vai acontecer comigo agora? — perguntou baixinho, virei meu rosto para ela e me surpreendi ao ver Felicity ali, sem o ar petulante, sem o olhar de fúria, ela estava despida de qualquer armadura, apenas seus olhos azuis cálidos e preocupados com o que o futuro lhe reservara.
— Eu não sei. — menti, não era capaz de contar isso a ela, não queria apavorá-la nesse momento. Queria apenas dar-lhe um pequeno momento de felicidade ainda que fugaz — Ligue para a sua mãe, converse com ela um pouco diga que está bem, isso irá te deixar um pouco mais calma. — falei retirando o meu celular do bolso e colocando em suas mãos. O toque de nossas peles durou muito mais do que o necessário.
— Por que você está fazendo isso? — levantei-me da cama fugindo de seus olhos questionadores. Aquela era uma pergunta perigosa, eu não podia respondê-la a ela quando eu me recusava a responder para mim mesmo.
— Tem cinco minutos, printsessa. — dei-lhe as costas, olhei para ela antes de deixar o quarto e pensei ter visto o vislumbre de um sorriso se formar em seus lábios.
Eu sorri também, mesmo sabendo que esse era o único lugar em que eu não deveria sorrir, mas o que eu poderia fazer se isso era algo que eu não conseguia controlar?
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