War of Hearts
18 Capítulo 17 - Your sword and shield
Notas iniciais
No time for rest
No pillow for my head
Nowhere to run from this
No way to forget
Around the shadows creep
Like friends they cover me
Just wanna lay me down
And finally try to get some sleep
We carry on through the storm
Tired soldiers in this war
Remember what we're fighting for
Meet me on the battlefield
Even on the darkest night
I will be your sword and shield
Your camouflage and you will be mine
Echoes of the shots ring out
We may be the first to fall
Everything could stay the same
Or we could change it all
Meet me on the battlefield
(Battlefield — Svrcina)
Felicity Smoak
Oliver estava morto.
Eu o vi morrer.
Eu o vi levar três tiros e cair num rio. Não havia como sobreviver a tudo isso. Eu sabia disso, eu apenas não queria aceitar. Por mais que minha mente estivesse tentando racionalizar as coisas, meu coração gritava um sonoro não. Ele se rebelava contra os fatos, negava a acreditar que aquele era o fim, meu coração buscava pelas mais improváveis possibilidades, e mesmo assim, ele não conseguia encontrar nenhuma.
Eu não pude fazer absolutamente nada, eu apenas assisti horrorizada o homem que eu amava morrer diante dos meus olhos. Por que ele tinha que vir por mim? Por quê? Não importava mais, eu nunca saberia a resposta. Ele estava morto. Tudo estava acabado.
Senti mãos grandes e nenhum pouco gentis me arrastando e me jogando para dentro de um carro. Eu sabia que deveria brigar, ou protestar contra aquilo. Eu queria gritar, eu queria chorar tanto, mas eu não conseguia. Minha voz parecia presa naquele bolor no meio da garganta. Minha mente não funcionava direito, ela ainda estava revivendo o breve momento em que me permiti ser feliz apenas em ver Oliver, o momento em que meu coração se encheu com esperanças, para logo em seguida tudo ser destruído ao vê-lo ser tirado tão violentamente de mim.
Vladmir atirou nele.
Não uma vez, mas três vezes.
Ele matou o homem que eu amava, tirou o pai do bebê que eu carregava. Oliver morreu sem sequer saber que seria pai. Instintivamente levei minhas mãos ao meu ventre, aquilo era tudo o que me sobrava de Oliver. A única prova de que o nosso amor foi real, de que foi capaz de criar uma nova vida. Mas se eu não lutasse por esse pedacinho do amor de Oliver, talvez até mesmo ele fosse tirado de mim.
Olhei para Vladmir sentado ao meu lado, seu rosto não apresentava nenhum arrependimento ou remorso. Ele não parecia se importar se ele havia matado alguém, parecia algo comum ou até mesmo entediante para ele.
Uma lágrima quente rolou pelo meu rosto, seu gosto salgado morrendo em minha boca, me despertando para a minha nova realidade. Eu estava casada com um monstro, que pretendia fazer as maiores atrocidades a mim, eu estava sozinha, ninguém viria me salvar, não havia herói salvando a printsessa no final dessa história. Mas isso não era novidade para mim, o novo era forma como eu me sentia. Eu estava triste, dilacerada, revoltada, todos esses sentimentos brigavam dentro de mim, dominados por um que sobressaia: raiva.
Raiva de Anatoly por destruir a vida da minha mãe e a minha. Raiva por ele nunca ter sido o pai que eu sempre sonhei em ter e me trazer para a Rússia me condenando a esse destino cruel.
Raiva de mim mesma, por estar sentada nesse carro ao lado do assassino de Oliver.
Raiva até mesmo de Oliver, por me amar a tão ponto de se sacrificar em nome desse amor.
Mas, acima de tudo. Raiva de Vladmir que agia indiferente, e até mesmo superior. Eu o olhava e eu via um sorriso presunçoso em seu rosto, ele havia vencido e era consciente disso. Não havia escapatória para mim. Como se notasse que eu o observava, ele virou o rosto para mim, analisando minha expressão desolada parecendo satisfeito com o que via.
— Não fique com raiva por eu tê-lo matado. — disse com sarcasmo — Apenas facilitei as coisas para você, assim não criará falsas esperanças de que um dia ele virá te resgatar. — Vladmir tentou tocar a minha mão, mas eu a puxei antes que seu toque me fizesse vomitar — Continua arisca. — reclamou ao me ver bufar — Ou será que devo interpretar esse seu olhar insistente como ansiedade para a noite de núpcias, minha querida? — não consegui disfarçar a expressão de nojo — Não se preocupe, eu te darei duas opções: pode ser divertido, se você apenas abaixar essa pose de princesa e se comportar como deve. Ou pode ser apenas doloroso. Sua escolha. Eu fico bem com qualquer uma das opções.
Trinquei meus dentes me impedindo de dizer algo, a raiva dentro de mim aumentou, essa raiva me fazendo mais fria e calculista. Eu estava perdida, não havia uma saída fácil dessa situação, mas isso não significava que eu tornaria as coisas fáceis e aceitaria essa maldita vida.
Eu poderia ter dado a Vladmir uma resposta cortante, eu deveria tê-lo mandado enfiar suas opções num lugar não muito bonito. Eu o teria irritado desnecessariamente, mas meu orgulho estaria bem menos ferido do que estava agora. Porém, eu não o fiz. Eu virei o rosto na direção da janela e olhei a paisagem, eu conseguia ouvir a voz de Oliver em minha mente dizendo-me que eu deveria me conter e jogar conforme o jogo, me rebelar agora não traria nada de bom.
Finalmente eu percebi que Oliver sempre estivera certo. Agir por impulso, ou por orgulho nunca me levaria a nada nesse meio. Eu precisava ganhar tempo, tempo para pensar em como fazer o que deveria ser feito.
Eu olhei novamente para Vladmir, eu sabia que fugir dele seria provavelmente impossível. E havia algo mais urgente que eu queria fazer ao monstro que matou o homem que eu amava.
Ele merecia pagar.
Eu o faria pagar.
***
A casa de Vladmir era menor que a mansão de Anatoly, embora também tivesse um ar meio sombrio. Eu só poderia imaginar todos os horrores que já ocorreram ali, e o que ainda ocorreria se eu não fizesse nada para impedir. Eu fui puxada com brutalidade pelo braço por Vladmir enquanto subimos as escadas e andamos por corredores e mais corredores, eu tentei decorar o caminho, mas foi praticamente impossível. Por fim, ele apenas abriu a porta de um dos quartos e me jogou lá dentro.
— Eu vou beber um pouco, em breve venho vê-la. — anunciou — Faça-me o favor de não estar tão coberta, eu não tenho paciência para despir mulheres. — falou com a voz arrastada antes de sair e bater com a porta.
Escutei o trinco ser girado, e novamente aqui estava eu, sendo mantida como prisioneira dentro de um quarto. A primeira coisa que fiz foi arrancar a aliança grossa feita de ouro do meu dedo e jogá-la do outro lado do quarto. Chutei os sapatos de salto para o lado também e arranquei agressivamente a maldita tiara de brilhantes dos meus cabelos desfazendo de qualquer jeito o penteado ridículo. Sentei-me sobre a ampla cama e tentei respirar com calma, eu precisava me acalmar e organizar meus pensamentos. Me lembrar quais eram as prioridades.
Eu não tinha um plano formado na minha mente quando eu fui até Diggle e pedi que por favor ele salvasse Oliver e minha mãe, eu não estava preocupada com o que aconteceria a mim naquele momento, não era eu presa dentro de uma prisão particular no porão de Anatoly. Eu apenas sabia que Anatoly era o diabo em pessoa, e eu não confiava nenhum pouco que ele cumpriria a parte dele naquele acordo que ele me forçara a aceitar.
Por isso eu não pensei muito, eu apenas tentei salvar aqueles que eu amava e depois eu pensaria em mim. E agora eu estava aqui, casada e tendo apenas ideias confusas que eu não fazia ideia se funcionariam.
— O que Oliver faria? — perguntei a mim mesma, sentindo uma pontada de tristeza perfurar meu coração ao dizer o nome dele em voz alta. Eu ainda não tinha me permitido chorar pela sua morte, mas eu sabia que tão logo eu o fizesse eu sucumbiria e me veria sem forças e exausta demais.
Eu não podia viver o luto agora, respirei fundo prendendo aquele sentimento no meu peito. O coração doeu, se rebelando, desejando que eu ao menos extravasasse a minha dor.
Eu sabia o que Oliver faria. Ele atacaria Vladmir sem a menor piedade, mas ele era um soldado treinado e eu era uma garota de vinte e dois anos, presa e grávida. Eu tinha que me salvar. Eu precisava disso, só assim eu teria a chance de dar um futuro ao meu bebê bem longe daqui.
Minhas mãos tremiam quando ergui a saia do vestido de noiva e retirei a arma que Oliver havia me dado. Eu a tinha prendido na cinta liga que usava por baixo do vestido, eu estava andando com ela o tempo todo, me questionando quando seria o momento certo de usá-la e se eu conseguiria usá-la. Respirei fundo e fechei meus olhos relembrando-me de suas palavras quando ele me ajudou a atirar “Use seu olho dominante para encontrar a mira certa, tente coordenar o tiro conforme a sua respiração, tome fôlego e expire metade dele e então aperte o gatilho e destrave a arma.”
Era muita coisa para fazer.
Coloquei-me de pé e apontei a arma em direção a porta apenas testando, mas senti minhas mãos tremerem e as pernas fraquejarem, tentei respirar mais profundamente tentando me acalmar, mas foi em vão, eu estava nervosa demais. Eu não conseguiria acertá-lo assim, provavelmente só o tornaria consciente de que eu tinha uma arma, e antes que eu me desse conta ele a tiraria de mim e eu estaria novamente sem nada.
Eu precisava que ele chegasse mais perto, constatei perturbada. A mera ideia de ter Vladmir a uma distância menor do que quilômetros de mim, já me enojava.
Você consegue, Felicity! Você precisa fazer isso, é sua única chance.
Eu teria coragem para atirar?
Essa não era a pergunta certa.
Eu tinha um motivo para matar alguém?
Me lembrei de Oliver morrendo, da forma injusta e sem a menor piedade com a qual ele foi tirado de mim. Certamente eu tinha a motivação, e ainda havia um plus considerando o que Vladmir planejava me estuprar essa noite. Havia uma parte feroz de mim que desejava vê-lo pagar, que o queria ver morto, ou ao menos sofrendo muito apenas para equilibrar as coisas. Eu sabia que matar Vladmir não acertaria as coisas, não traria meu Oliver de volta, mas ao menos eu protegeria a parte de Oliver que ainda vivia em mim.
Além disso, aquele estranho sentimento dentro de mim exigia que eu fizesse justiça.
Por mim.
Por Oliver.
Pelo nosso bebê.
Escutei a maçaneta se mexer e imediatamente me encostei contra a parede, escondendo a arma atrás de mim. Vladimir voltara muito antes do que eu esperava, antes que eu tivesse uma ideia concreta do que fazer.
— Ao que parece seu precioso pai já fez um movimento. Ele sequer esperou que eu consumasse meu casamento. — Vladmir entrou no quarto com um copo de bebida âmbar na mão — Ele matou meu único filho. Parece que o recado dele é bem óbvio não acha? Ele quer que seus filhos sejam meus únicos herdeiros, então é melhor começarmos logo com a produção. — ele disse desfivelando o cinto. Calculei a sua distância, ainda longe demais para que eu o acertasse. — O que eu disse sobre estar despida quando eu viesse? — Ele me observou parecendo não gostar do que via. Eu engoli em seco ao ver sua raiva, ele pegou seu copo, virou o líquido de uma única vez — Já começou sendo uma menina má.
— Eu não sou sua submissa, não espere que eu vá atender cada pedido sujo seu! — gritei deixando a raiva sair de mim, sabendo que meu protesto seria o que o faria se aproximar.
— Cale a sua maldita boca! Você vai ser a porra que eu precise que você seja! — ele gritou, jogando o copo contra a parede do outro lado do quarto, que se espatifou em vários pedacinhos e então ele caminhou até mim com fúria.
Seu corpo grande parou a minha frente, ele bufava parecendo um touro bravo. Uma de suas mãos apertou meu pescoço tornado difícil de respirar, enquanto a outra mão me prendia ainda mais contra a parede. Senti o metal da arma preso às minhas costas, eu precisava agir, mas não conseguia me movimentar.
— Eu quero ver você manter esse olhar insolente quando eu fizer você gritar. Eu poderia ser condescendente, se você ao menos mostrasse um pouco mais de colaboração.
Eu apenas cuspi em seu rosto, já que não conseguia falar. Ele soltou o meu pescoço para limpar com as costas da mão meu pequeno ato de rebeldia.
— Pode enfiar sua condescendência no... — comecei a dizer, sentindo a voz agarrar na garganta dolorida.
— Vai ser do jeito doloroso para você e divertido para mim, então. — ele sorriu me interrompendo, seu bafo de álcool batendo contra meu rosto me deixando enjoada, suas mãos começaram a puxar para cima o tecido da saia do vestido, e comecei a entrar em pânico, estava tudo acontecendo rápido de mais. — Ou pode apenas fingir que eu sou seu precioso Oliver...
Ouvir o nome de Oliver no tom desdenhoso de sua voz foi como o ponto de ruptura para mim. Foi onde eu encontrei minha clareza, meu motivo para agir.
— Eu acho que vai ser doloroso apenas para você. — falei tirando a mão das minhas costas, apertando o gatilho da arma e o soltando, o barulho do tiro ecoou pelo quarto enquanto Vladmir abria a boca num urro baixo e arregalava seus olhos para mim num misto de surpresa e dor.
***
Deixei a arma cair ao chão e observei minhas mãos trêmulas tingidas com o seu sangue, meu vestido antes de um branco puro agora exibia uma mancha grande e avermelhada no corpete. Eu me sentia suja apenas em ter seu sangue podre tão perto de mim. Mas esse não era o momento para pensar nisso, eu apenas empurrei o corpo de Vladmir para trás que caiu num baque surdo ao chão. As mãos dele indo até o ferimento no lado esquerdo no abdômen tentando estancar o sangue.
Ele respirava com dificuldade e suava como o porco que era. Da sua boca saía uma profusão de xingamentos em russo. Infelizmente ele ainda estava vivo, mas para a minha sorte ferido demais para correr atrás de mim.
Eu apenas pulei seu corpo, senti uma das suas mãos segurarem a barra do meu vestido tentando impedir que eu fosse mais longe. Olhei para ele, seu rosto suado e a carranca de ódio. Mesmo ferido ele não desistia.
— Vai pagar por isso. — cuspiu a ameaça com dificuldade.
— Hoje você é o único que está pagando por algo. — devolvi sentindo toda a raiva fluindo por mim, esse era um dos homens que destruiu a minha vida. Ele me tirou Oliver, eu não deixaria que ele fizesse mais mal a mim, ou a parte de Oliver que eu levava comigo.
E então corri para fora do quarto determinada a ter um destino diferente daquele que me era oferecido, eu corri sem olhar para trás.
Passei por corredores e mais corredores, inutilmente tentando encontrar a saída, mas aquele lugar parecia um labirinto de corredores e salas que não davam em lugar algum e por vezes eu sentia que estava andando em círculos.
Eu parei de correr e estanquei no lugar apenas no instante em que algo impossível aconteceu.
— Printsessa!?
Eu teria imaginado que fosse a minha mente me pregando peças ao ouvir o apelido carinhoso que Oliver me dera, na mesma voz rouca que sempre me fazia estremecer em puro deleite. Eu quase pensei que estivesse louca no momento em que me virei em direção aquela voz por mim tão amada e conhecida, e o vi, a poucos metros de mim parecendo tão sem fôlego quanto eu. Senti meu coração disparar em alegria e mesmo sabendo que era impossível, afinal eu vi Oliver morrer diante dos meus olhos, ainda assim eu corri na direção da alucinação, porque não importava o qual louco e sem sentido isso parecesse eu sabia que Oliver sempre seria o meu caminho.
Nós vamos encontrar o caminho um para o outro, eu prometo.
Sua promessa feita depois de uma noite amor que agora parecia tão distante, reverberou em minha mente. Talvez eu estivesse louca, talvez eu estivesse dormindo e tudo isso não passasse de um pesadelo horrível do qual eu não conseguia acordar. Ou talvez, e a mais provável das possibilidades era que Oliver tivesse me marcado de tal forma que sempre permanecesse em meu coração. A lembrança do quanto ele me amou, do quanto eu havia me apaixonado tão perdidamente por aquele capitão bratva de olhos azuis frios como uma geleira, mas que se derreteram revelando-me um homem de grande coração, talvez a lembrança de tudo o que vivemos, dos sentimentos que compartilhamos juntos fosse forte demais para ser esquecida só porque ele havia morrido.
E esse sentimento, esse amor tão grande e único fosse de agora em diante ser parte de mim, viveria para sempre em mim. Lembrando-me de Oliver diariamente, fazendo-me o sentir presente em cada momento, mesmo que eu soubesse que ele não iria mais voltar, mesmo que eu soubesse que eu havia perdido o amor da minha vida e tudo o que me restariam seriam aquelas preciosas lembranças.
E claro, nosso bebê.
O bebê que Oliver nunca soube que existia.
Senti braços fortes me envolverem e me apertei contra seu corpo sentindo-o responder contra o meu com a mesma intensidade. Seu cheiro ainda era o mesmo, e embora suas roupas estivessem úmidas e frias seu abraço ainda era capaz de me envolver num calor abrasador.
Nada disso fazia sentido! Era suposto que ele não fosse real, era para ser uma alucinação da minha mente cansada e do meu coração dilacerado. Eu o vi morrer diante dos meus olhos, como seus braços poderiam me envolver assim? Como ele poderia parecer tão vivo? Tão real?
— Oliver... — sussurrei seu nome num misto de alívio, confusão e tristeza, mas antes que eu pudesse perguntá-lo sobre como aquilo era possível, uma de suas mãos subiu pela minha coluna afundou os dedos em meus cabelos, movendo-se em meu pescoço e puxando meu rosto para si.
Seus lábios tocaram os meus, e de repente todas as perguntas que rondavam em minha mente se fizeram desnecessárias.
Eu exalei contra sua boca, sentindo o nervosismo, o medo e todos aqueles sentimentos ruins e destrutivos que eu carregava desaparecerem de mim no instante em que sua língua adentrou nela e se moveu contra a minha.
Seu beijo era lento e ainda assim urgente, como se tentássemos tomar tudo um do outro, mas ao mesmo tempo as bocas quisessem levar seu tempo e apreciar aquele beijo da forma que merecia ser apreciado. Percebi que acima de tudo seu beijo me acalmava. Fazia cada parte de mim relaxar, até mesmo meu coração agoniado agora estava contente, não havia mais motivos para a dor. Havia apenas Oliver, e eu não precisava de mais nada para mandar a dor embora.
Inclinei-me mais para Oliver, meu corpo se acomodando a cada curva do dele garantindo que estávamos o mais perto possível. Pousei minhas mãos em seu peitoral sentindo o seu coração pulsando sob minhas mãos, eu amava aquele som, amava o quão forte e acelerado ele parecia.
E vivo.
Parecia tão vivo!
Eu não queria parar de beijá-lo. Eu queria permanecer nesse paraíso que era feito de eu e ele. Não queria abrir meus olhos e encontrar o inferno queimando ao meu redor. Por isso eu protestei veemente quando senti sua boca se afastando da minha, me inclinei novamente, temendo que ele desaparecesse a qualquer momento.
— Calma, printsessa. — ele sussurrou abraçando-me ternamente, suas mãos acariciando meus cabelos enquanto sua boca deixava um beijo tranquilizador em minha testa. Respirei profundamente ao perceber que Oliver ainda me abraçava, eu ainda sentia o calor de seu corpo colado ao meu, ele não havia desaparecido afinal. Ele estava aqui, comigo. Isso era real.
— Eu vi você morrer. — minha voz saiu tremida, apenas a recordação daquele momento trazia-me uma tristeza quase impossível de suportar. Coloquei minhas mãos ao redor do seu rosto, eu precisava tocá-lo, sentir que ele realmente estava aqui, ainda havia uma parte de mim que se questionava se eu não havia enlouquecido de vez.
— Sinto tanto por você ter visto isso. — ele soou pesaroso, as mãos realizando um leve carinho em meu rosto — Eu estou vivo, ainda mais vivo do que é possível, apenas por estar com você. — um pequeno sorriso brincou em seus lábios, e antes que eu percebesse eu estava sorrindo de volta para ele.
Apenas Oliver era capaz disso, me fazer sorrir quando o futuro parecia incerto e tudo desmoronava ao nosso redor.
— Como é possível? Aquele monstro atirou em você três vezes, e depois você caiu no rio... — balancei a cabeça tentando me livrar daquela imagem mental que ainda me causava tanto horror.
— Eu estava usando um colete a prova de balas, Diggle me deu um quando me resgatou da mansão de Anatoly. — falou calmamente, mas senti um leve toque de repreensão ali, seus olhos me diziam que ele queria falar sobre isso mais tarde — Eu queria ter chegado até você antes, mas cair no rio me atrasou um pouco. Quando eu consegui deixar o rio, eu roubei mais uma moto e vim o mais rápido que pude até você.
Assenti ainda absorvendo tudo aquilo vagarosamente. Era loucura, mas o importante era que era real, eu aceitaria qualquer coisa, qualquer explicação, eu realmente não me importava com o como, eu apenas me importava que Oliver ainda estivesse aqui, comigo.
— Você não está morto. — repeti em voz alta, sentindo um alívio verdadeiro passar por mim, eu senti as lágrimas quentes descerem em meu rosto sem que eu conseguisse evitá-las. Eu não gostava de chorar, mas chorar de felicidade era sem dúvida um choro que eu aceitava com prazer.
— Não estou, printsessa.— Oliver sorriu, igualmente emocionado. Uma de suas mãos limpou delicadamente as minhas lágrimas. — E você está bem? Vladmir fez algo a você? Eu cheguei tarde demais? — Oliver lançou as perguntas com um olhar sério e a voz muito preocupada e triste, temendo que a minha resposta fosse sim para as duas últimas questões.
— Não, amor, você chegou na hora certa. — Oliver soltou um suspiro aliviado, desceu sua mão até a minha as entrelaçando tão forte que seria impossível alguém soltá-las.
— Está sangrando. — Ele olhou horrorizado para a mancha vermelha em meu vestido, eu vi aquele olhar de puro ódio em seu rosto, garantindo-me que ele iria com tudo atrás do responsável por aquilo.
— Não é meu sangue. — tratei logo de assegurá-lo. Oliver piscou, surpreso e confuso ao ouvir aquilo, seu semblante ficando bem menos carregado ao saber que eu não estava ferida. — Eu atirei em Vladmir quando ele tentou... — balancei a cabeça mandando aquela imagem embora, eu não queria pensar nisso agora. Ou possivelmente, eu não iria pensar nisso nunca mais.
— Estou orgulhoso, não esperava menos de você. — Oliver falou compreensivo — Agora precisamos ir, printsessa, eu quero tirar você daqui o mais rápido possível.
Oliver me puxou delicadamente pela mão e andamos apressadamente pelos corredores. Parando e nos escondendo em algum quarto quando Oliver escutava algum barulho de passos ou vozes. Tinha sido muita sorte minha reencontrá-lo, eu não teria sido assim tão cuidadosa, mas Oliver tinha sido treinado para isso.
— Só precisamos descer a escadaria no final do próximo corredor a direita, eu não sei se haverá alguém no caminho. — Oliver explicou sussurrando em meu ouvido — A casa de Vladmir é bem menos vigiada do que a de Anatoly, e ao que parece ele havia pedido um pouco de privacidade hoje. — cuspiu com raiva, se irritando com o óbvio motivo para esse pedido de Vladmir. — Mas é provável que haja alguém na porta principal. Se encontrarmos alguma resistência, eu quero que apenas que faça o que eu pedir, se eu disser corra, você corre e não pense em mim, printsessa. Não ouse se arriscar para tentar me proteger novamente. — seus olhos azuis calorosos estavam nos meus implorando para que eu concordasse com aquilo.
— Tudo bem. — eu concordei, mas pude ver que Oliver não acreditou em mim completamente, e ele não estava errado em fazê-lo, eu já havia mentido para ele uma vez, e continuava a omitir coisas dele nesse momento.
— Eu vou ter apenas que confiar em você. — falou consternado. Olhou para o corredor adjacente, verificando se estava livre. Ele apertou a minha mão forte na sua. — Vamos.
— Oliver, pare. — pedi nervosa quando chegamos ao meio do corredor, ele estava indo muito rápido eu havia acabado de reencontrá-lo depois de o ver morrer, eu precisava de um momento. Eu o vi morrer e tudo o que pensei, era que Oliver havia partido sem saber que seria pai e eu continuava a esconder isso dele. E se assim que descêssemos aquela escada algo acontecesse a um de nós dois? — Há algo urgente que preciso falar com você. — soltei nervosa.
— Felicity, seja o que for isso pode esperar. — ele respondeu sério, e continuou a andar em frente levando-me com ele.
— Não, não pode esperar mais. — bati o pé e o puxei pelo braço tentando fazer com que ele parasse e me olhasse, eu precisava dizer isso olhando nos olhos dele. Não sei se foi meu tom exigente ou minha atitude de não acompanhá-lo que o fez parar, de toda forma eu consegui a sua atenção — Eu menti para você.
— Eu sei. — ele revidou sem paciência, olhando para ambos os lados no corredor, temendo que alguém aparecesse.
— Sabe? — pisquei confusa. Como ele poderia saber? Eu não havia dito a ninguém.
— Quando me prometeu que não deixaria Anatoly te chantagear, eu sei que mentiu, ele estava com a sua mãe também, e você achou que não haveria outra saída a não ser concordar com ele. Eu entendo, eu preferia que tivesse sido honesta comigo, estou um pouco chateado com você, mas isso não muda o quanto eu ainda a amo. — Oh, eu tinha mentido sobre isso também — Agora, precisamos sair daqui. — disse com urgência, enlaçando minha mão na sua e me puxando novamente pelo corredor.
— Eu estou grávida. — eu falei de repente e Oliver parou de uma única vez como se tivesse tomado um choque.
— O quê disse? — ele virou-se para mim. Olhos arregalados, respiração alterada e semblante confuso.
— Eu estou grávida. — soei um pouco mais estável dessa vez — Quando eu fiz o teste de gravidez o resultado deu positivo, eu não quis te contar na época, porque temi que isso fosse te enlouquecer e que você cometesse alguma estupidez ao tentar me tirar de lá. — esclareci, feliz por ao menos olhar em seus olhos dessa vez. Mas não vi nenhuma emoção ali, apenas aflição e pânico que se confirmou quando Oliver apertou minha mão mais firme na dele e voltou a caminhar ainda mais rápido e urgente.
— Você deveria ter me dito isso antes. — ele parecia tentar conter a raiva na voz — Nós realmente precisamos sair daqui. — ele disse.
Aquela não era a resposta que eu precisava e queria. Mas Oliver parecia impassível e determinado, eu não tentei falar com ele novamente, era estupidez minha sequer tentar quando ele estava no modo soldado implacável. Apenas o segui, tentando não me incomodar com a falta de reação de Oliver à notícia de que eu estava grávida dele. Mas eu não conseguia evitar aquela parte sensível de conjecturar se Oliver queria esse bebê.
Nós descemos as escadas calados e apressados, e assim que chegamos a porta principal vi Oliver encará-la, e xingar um palavrão em russo que a esta altura eu já conhecia bem.
— Der’mo! — ele praguejou socando a porta.
— O que há de errado, Oliver? — me atrevi a perguntar, não gostando da sua perda de controle.
— Escuto passos no andar de cima, acho que estão procurando por nós. — respirei mais fundo, nós tínhamos chegado tão perto — Não se preocupe com o que vai acontecer agora, printsessa, eu estou aqui, e eu vou proteger a vocês dois. — seu olhar abaixou-se em direção ao meu ventre liso, seu tom de voz era decidido, havia uma ferocidade ali, uma vontade de lutar contra tudo e todos apenas por mim e o pequeno bebê que ainda crescia em mim. Eu fui tola por um momento ao pensar que Oliver não desejaria esse filho. Ele estava agindo assim, justamente porque ele tinha muito a perder, não apenas a mim, mas ao nosso bebê também se algo desse errado.
Eu fiquei emocionada, mas a emoção foi substituída por medo assim que passamos pela porta. Oliver parou de repente e colocou o seu corpo como um escudo a minha frente, tornando-se quase impossível ver algo além da muralha de músculos que era Oliver Queen. Mas ainda assim eu me inclinei tentando ver do quê ele estava tentando me proteger e no instante que vi, meu coração parou. Abracei Oliver fortemente por trás, me perguntando como sairíamos dessa.
Eu nunca tinha visto tantos homens armados em toda a minha vida, eram dezenas deles e todos apontavam suas armas para nós dois.
Estávamos cercados.
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