War of Hearts
4 Capítulo 3 - Sacrifice
Notas iniciais
I don't wanna be touched by the fear in your eyes
I don't wanna be left for my demons to find
When the leaves are gone and the beating's sung
Brings the world bang drums
When the leaves are gone and the beating's sung
Brings the world bang drums
Tell me you, will hold me in the golden afterlife?
Yeah, you
You don't have to die alone tonight
I will find you in a burning sky
Where the ashes rain in your mind
Oh oh oh oh, oh oh oh oh
Sacrifice
Sacrifice, sacrifice
(Sacrifice — Zella Day)
Felicity Smoak
Olhei atônita para a porta que se fechava.
Oliver havia deixado o quarto, mas não meus pensamentos. Ele nunca deixava os meus pensamentos. Desde o momento em que entrara em minha vida, tirando-me de tudo o que eu conhecia e amava, esse homem — Oliver Queen — tem sido alvo da minha raiva, e estranhamente a única pessoa com quem eu tinha algum tipo de ligação nesse momento.
Era absurdo pensar isso, mas estando na Rússia, longe de tudo o que eu conhecia, Oliver era a minha única conexão com a minha vida antiga. Era um absurdo ainda maior acreditar que ele não era tão ruim quanto eu pensava. Principalmente em momentos como esses em que ele me surpreendia com um ato de compaixão. Talvez eu estivesse sendo ingênua, querendo que existisse algo de bom nele, querendo acreditar que ainda havia alguma bondade no mundo. Mas assim que cheguei à Rússia eu percebi que tudo se tornaria mil vezes pior.
Oliver era um homem frio, não havia dúvidas disso, afinal ele me sequestrara e me trouxera para a Rússia. Mas ainda assim era capaz de pequenos atos de compaixão. Como esse de agora, olhei para o celular em minhas mãos e um pequeno sorriso apareceu em meu rosto. Eu poderia ouvir a voz da minha mãe mais uma vez. Se eu conhecia bem Donna Smoak ela provavelmente estava surtando, e deixando todos loucos. Eu poderia acalmá-la e dizer que eu estava bem, ainda que não fosse totalmente verdade, eu só gostaria que ela sofresse o menos possível com o meu desaparecimento.
Digitei o número do celular da minha mãe, e enquanto a ligação completava, eu me vi pensando no que eu diria a ela.
Eu deveria dizer que estava na Rússia? Que havia sido sequestrada e que ela deveria entrar em contato com a polícia, o FBI ou a Interpol o mais rápido possível?
Eu deveria dizer que estava aqui porque meu próprio pai havia me sequestrado?
Meu pai.
Por um instante, meus pensamentos se desviaram para a figura do homem que vi por tão pouco tempo, mas que havia me causado uma impressão marcante. Eu não me vi atraída para as linhas duras de seu rosto, ou seu cabelo escuro com fios brancos nas laterais. Não. Foram seus olhos que prenderam a minha atenção, eram escuros e sem vida, e quando vieram até os meus eu senti uma vontade de me afastar, de correr em direção oposta a ele. Aquilo era medo. Um tipo de medo que eu nunca tinha sentido antes em minha vida, tão cru e intenso percorrendo cada célula do meu corpo, me forçando a querer ficar o mais longe possível dele. Seu rosto evocava autoridade e exigia submissão, e ainda assim eu encontrei forças para me manter altiva e de pé, ainda que minhas pernas fraquejassem, eu sabia o que aquele homem — meu pai — era do tipo intimidador, eu não poderia simplesmente aceitar.
Na verdade Anatoly Knyazev, como eu descobri ser o nome do homem que se identificava como meu pai, não era simplesmente intimidador. Eu tinha visto o suficiente para saber que tipo de pessoa ele era. Havia homens armados por toda a parte da casa, sempre atentos e carrancudos. Era óbvio que ele era algum tipo de criminoso, eu não sabia com o que exatamente ele estava envolvido, mas parecia ser do pior tipo.
Eu não conseguia compreender como Oliver poderia trabalhar para um homem como aquele. E estranhamente, meu pensamento voltava a Oliver. Sempre voltava a ele. Suspirei, isso estava se tornando um hábito muito ruim.
Desliguei o telefone quando a chamada foi encaminhada para a caixa postal pela segunda vez. Eu precisava falar com minha mãe, precisava sentir que por mais longe que eu estava eu não estava sozinha do mundo.
Eu tinha certeza de que quando o prazo de cinco minutos chegasse ao fim, ele retornaria e pegaria de volta o celular, por isso perder esse tempo precioso conjecturando o motivo de sua atitude tão bondosa agora, não era uma boa ideia.
— Vamos lá, mãe, atenda ao telefone. — supliquei ao ouvir a ligação ir para a caixa postal mais uma vez. Meu tempo estava acabando, eu precisava ao menos dizer algo. O que eu deveria fazer?
Escutei a frase curta da minha mãe “Hey, você ligou para Donna Smoak, eu não posso atender agora. Você sabe o que fazer” antes do bip era possível ouvir a risada da minha mãe e a minha ao fundo, eu me lembrava bem do dia que a convenci a gravá-la. Era aniversário dela e eu havia comprado um celular cheio de recursos e principalmente um GPS, estava cansada de ouvi-la reclamar que havia se perdido. A comemoração do aniversário em si tinha sido apenas entre nós duas, já que éramos a única família uma da outra. Porém, o que deveria ser um dia comum se mostrou muito divertido quando tentei ensinar Donna Smoak a usar um celular. Ela e tecnologia simplesmente não davam certo, o que me arrancou boas risadas.
Eu senti meu nariz arder e logo em seguida lágrimas se acumularam no canto dos meus olhos, como sempre acontecia quando eu me emocionava muito, e naquela hora aquela lembrança de um momento tão simples e ao mesmo tempo tão singelo me fazia transbordar emoção.
— Oi, mãe. — minha voz saiu tremida e eu respirei fundo buscando uma estabilidade que não veio — Sou eu sua filha. Felicity. Sua única filha, a não ser que você tenha outra e não tenha me contado. — Tentei fazer humor, mas tudo o que consegui foi fungar e fazer minha voz soar depressiva — Eu sei que você deve estar surtando agora, mas eu preciso que você se acalme, ok?! Pode fazer isso por mim? Eu estou bem, viva. Não se preocupe comigo eu não fui sequestrada e enviada para o outro lado do mundo. — Sim eu fui, pelo meu pai maluco que você esqueceu de contar que eu tinha! Tive vontade de gritar — Eu só precisava de um tempo, fazer algo impensável. Não é você que diz que eu preciso me arriscar mais? Me soltar? — Menti, satisfeita que minha mãe não pudesse me ver, eu era uma péssima mentirosa — Eu volto para casa assim que possível — prometi, mesmo sabendo que eu não estava em posição de fazer promessas. — Amo você, não se esqueça disso, mãe.
Agarrei o celular contra meu peito, como se isso de alguma forma me deixasse mais perto dela. Apertei meus olhos enquanto eu sentia a lágrima quente descer por ele. Escutei o som da porta sendo aberta, passos pesados vieram em minha direção. Eu sabia que era Oliver, ele contabilizara exatos cinco minutos.
Ele parou a minha frente, eu não precisava abrir os olhos pra saber disso. Eu sentia a sua presença se impondo, seu perfume almiscarado inundando os meus sentidos.
— Você está bem? — abri meus olhos ao escutar a sua pergunta, ele deve ter visto a minha raiva, pois logo em seguida completou. — Desculpe-me, foi uma pergunta estúpida.
Eu não estava habituada as suas desculpas, enquanto ele parecia disposto a jogá-las a todo o momento.
— Aqui está. — estiquei o aparelho celular, ignorando suas desculpas e seu olhar penetrante que pela primeira vez parecia um pouco caloroso. A geleira estava se derretendo.
Mas Oliver simplesmente assentiu sem dizer mais nada, seu olhar ficou novamente vazio ele girou seus calcanhares em direção a porta. Sua eminente partida fez algo dentro de mim se revirar. Eu o odiava? Sem dúvidas, mas não queria ficar ainda mais sozinha nesse lugar.
— Oliver? — me vi chamando por ele. Eu seria muito louca se pedisse para que ele ficasse apenas mais um pouco? Sim, completamente louca. Ele se virou, seu olhar veio até mim com força, era um olhar que me escondia coisas e pedia tantas outras em retorno. Abri a boca, sem saber ao certo o que dizer — Ainda estou vestindo o seu paletó.
Oliver piscou confuso, deu um passo até mim. Seu corpo ficando inteiramente a minha frente, ele era tão alto, forte e intimidante, mas ainda assim estranhamente eu não me sentia mais intimidada por ele.
— Mantenha-o. — ele disse, tocando as extremidades do tecido com ambas as mãos e abotoando um dos botões — Você não tem nada mais quente do que isso para vestir. — era engano meu, ou sua voz parecia pesarosa? — Nos vemos em breve, printsessa. — ele prometeu, uma de suas mãos deixando o paletó e se acomodando calidamente em minha bochecha, prendi a respiração por que por um instante fugaz eu vi o que Oliver tanto escondia em seus olhos. Havia escuridão, sim, um monte dela, mas havia luz ali também e ele se esforçava muito para que ninguém a visse. Por algum motivo tolo eu acreditei nele, acreditei que o veria em breve e o mero pensamento acalmou a agitação dentro de mim.
A essa altura eu já deveria saber que não era inteligente me agarrar a Oliver, as coisas que ele dizia ou no que eu tentava ler em seus olhos. Porque parte de mim sabia que ele não era confiável, que ele não era bom.
Essa parte estava certa em não acreditar em suas promessas de que em breve eu o veria.
Porque Oliver partiu e eu não o vi por duas longas semanas.
***
Eu não saí do quarto nos dias que se seguiram.
Ninguém veio aqui por mim. Três vezes ao dia uma garota ruiva entrava no quarto e trazia comida e roupa limpa, e era apenas isso. Eu tentei falar com ela, mas a garota parecia amedrontada demais e sempre saía às pressas do quarto. No fim eu parei de tentar, ela queria ser invisível, eu deveria ao menos respeitar isso.
Eu me sentia a própria Rapunzel, confinada em uma torre, só que sem a parte dos cabelos longos e do príncipe encantado que matava a bruxa má e a resgatava no final da história. Eu teria surtado durante aquele par de semanas sem ver ou falar com alguém, sentindo um falta imensa da minha mãe pensando se ela havia acreditado na mensagem que eu deixei. Eu tentei muito não me preocupar pensando nisso, e por sorte eu tinha algo para me apegar, algo no qual mantive minha mente concentrada. Depois que Oliver partiu, eu encontrei algo no bolso do seu paletó. Era o bilhete que o homem havia lhe entregado quando estávamos na lanchonete nos Estados Unidos. A sequência de números e palavras não fizeram nenhum sentido para mim, mas ainda assim eu concentrei todo o meu cérebro em tentar desvendar aquela charada. No fim, consegui apenas uma bela de uma dor de cabeça, e sempre que eu fechava meus olhos eu via a mesma sequência dançando em minha mente rindo de mim e da minha incapacidade de decifrá-los:
08.08.RED.23.00
Eu estava começando a ficar obcecada com aquele pequeno pedaço de papel. Eu o mantinha guardado dentro do bolso do paletó, o qual acabei me afeiçoando e usando quase todos os dias, isso e porque eu talvez estivesse começando a me viciar no perfume que aquela peça de roupa exalava, embora já estivesse bem fraco. Eu queria que Oliver aparecesse logo, eu queria questioná-lo sobre o que aquilo significava, eu queria gritar com ele e implorar para que me deixasse ligar para minha mãe novamente, eu apenas precisava fazer algo que não fosse ficar trancada dentro de um quarto olhando para um pedaço de papel estúpido!
Mas Oliver não aparecia, e no fim eu aceitei que ele não voltaria. Seu trabalho tinha sido unicamente me sequestrar e me trazer para o meu pai, agora que eu estava aqui, ele não tinha nenhuma obrigação.
Eu estava começando a me tornar um daqueles prisioneiros que marcavam a quantidade de dias com riscos nas paredes. Eu já havia perdido completamente a noção dos dias das semanas, e as vezes quando a neve era intensa demais do lado de fora da minha janela eu perdia até mesmo a noção das horas, eu não sabia o que era dia ou noite. Aliás, que diferença fazia se meus dias eram todos iguais?
Quando a porta do quarto se abriu eu não me incomodei em abrir meus olhos. Não faria diferença, a garota ruiva entraria deixaria o meu jantar sobre a pequena mesa ao canto do quarto e depois partiria, sem nada dizer.
Mas dessa vez ela falou. Eu deveria saber que aquilo era um presságio de que as coisas iriam começar a desandar.
— Senhorita Knyazev? — franzi o cenho, confusa ao ouvir a forma pela qual ela havia se dirigido a mim. Só depois de alguns momentos compreendi que aquele deveria ser o sobrenome do meu pai.
— Felicity, me chame apenas de Felicity. — pedi suavemente, sentando-me a cama me sentindo ansiosa demais com o que aquela garota tinha a me dizer.
— O senhor Knyazev pediu que eu deixasse algumas roupas aqui, e solicitou a sua presença na sala de jantar de hoje às 20:00. — a voz da garota soou tremida, era óbvio que ela estava amedrontada demais. — Eu voltarei as 19:00 para aprontá-la adequadamente de acordo com os desejos de seu pai.
Eu estremeci, eu só havia encontrado meu pai no dia em que cheguei e ele me tratou como um nada. Por que esse jantar aconteceria agora? Eu não era ingênua, eu sabia que ele não era uma pessoa boa, os homens armados por toda a propriedade, eram um indicativo de que ele era alguém poderoso e perigoso.
— E se eu me recusar a ir?
— Eu... — Os olhos da garota se arregalaram de medo e ela empalideceu. Sua expressão me dizia tudo: ela não queria ser a portadora daquela informação, não queria dizer a Anatoly que a filha tinha recusado sua ordem tão direta.
— Não se preocupe eu irei. — garanti apressadamente, apenas para que ela se acalmasse. A garota assentiu, murmurou algumas palavras em russo e saiu correndo do quarto tropeçando nos próprios pés.
Olhei a arara de roupas que ela havia deixado ali e prendi a respiração. Eram todos vestidos de luxo, cada um mais deslumbrante do que o outro. Aquele não seria um simples jantar com o meu pai, para um jantar eu não precisaria usar um vestido caro, saltos altos e maquiagem. Aquilo que estava ali era uma grande produção, eu sentia que estava sendo preparada para uma exibição.
Eu só não entendia o porquê disso.
***
Eu sequer pude escolher o que iria vestir.
Quando eu saí do meu banho, a garota ruiva estava lá. Anne era o seu nome e isso foi tudo o que consegui arrancar dela, nenhuma informação. Sobre a minha cama estava um vestido vermelho carmesim curto de seda com um decote que evidenciava meu colo, sandálias prateadas e um conjunto de brinco e colar de brilhantes.
Anne prendeu parte dos meus cabelos de um lado, deixando a cascata de fios loiros e ondulados caindo pelo outro em um penteado sofisticado. O resultado final foi impecável, eu estava linda. Em outra época eu teria me regozijado com a imagem que eu via refletida no espelho, eu teria ficado nas nuvens apenas de tocar a seda fina daquele vestido caro.
Mas quando eu me olhava naquele espelho, tudo o que eu via refletido era uma garota desesperada olhando de volta para mim. Uma garota que teve sua liberdade arrancada, mas que estava pronta para exigi-la de volta.
Anne sorriu para o meu reflexo e disse que eu estava linda. Seus elogios não tiveram nenhum efeito sobre mim. Eu não me importava com a minha aparência, tudo o que eu queria era sair desse lugar e voltar a vestir meus jeans desgastados e prender meus cabelos num rabo de cavalo bagunçado.
Anne deixou o meu quarto, e eu fiquei ali parada tentando me preparar mentalmente para o que poderia acontecer nesse jantar, eu não estava pronta para encontrar o homem que havia feito tanto para me trazer para Rússia, mas eu estava pronta para conseguir respostas. Ele provavelmente esperava por uma garota amedrontada, porém por mais medo que sua face me causasse eu não lhe daria isso. Eu estava disposta a manter o queixo erguido, ele já havia me tirado do meu lar, não permitiria que tirasse mais nada de mim.
Ouvi batidas na porta e quando a abri me deparei com dois homens. Os meus adoráveis amigos Crabble e Goyle, como eu carinhosamente nomeei os dois brutamontes com o cérebro do tamanho de uma ameba que estavam sempre de guarda a porta do meu quarto.
— Está atrasada. — um dos guardas rosnou grosseiramente, me puxando para fora do quarto.
Às vezes eu me perguntava se eles eram capazes de formar uma sentença coerente ou eram como cachorros que somente obedeciam cegamente às ordens, incapazes de pensar por si mesmos. Pela forma grosseira que um deles me agarrou pelo pulso arrastando-me por corredores e escadas, eu concluí que não podiam passar de cães adestrados sem o mínimo de gentileza humana. Ignorei o aperto que machucava, mas me concentrei em decorar o caminho, aquela era a primeira vez que eu caminhava pelo interior da mansão desde o momento em que eu havia chegado ali. Precisaria do máximo de informação para o dia que conseguisse fugir daquele lugar.
Eu sei que parecia impossível, aquela mansão era como uma fortaleza, cercada por homens armados por todos os lados. Mas desistir e aceitar a situação que me era oferecida, como uma garotinha assustada e submissa, não combinava comigo.
Me surpreendi ao chegar a sala de estar. Pela forma com a qual eu havia sido obrigada a me vestir eu deduzi que haveria algum tipo de reunião sofisticada, mas não. Apenas Anatoly e outro homem na que aparentava ter uns cinquenta e tantos anos estavam ali sentados bebendo suas doses de bebidas, o restante dos “convidados” era formado por uma quantidade exagerada de homens armados, colocados em cada canto do cômodo.
Ao me ver de pé no final da escada, meu adorável pai sorriu. Sorrisos não combinavam com ele, um sorriso em seu rosto tendia a deixá-lo ainda mais assustador, porque seu sorriso era vitorioso, e para ele sorrir assim significava que alguém havia sido derrotado.
Esse alguém era eu.
Ele se aproximou. E eu permaneci controlando minha respiração, mantendo-me ereta e altiva diante dele. Ele parou a minha frente, senti o peso do seu olhar analisador em cada parte de mim, em contrapartida eu o analisei também. Nosso primeiro encontro tinha sido rápido demais, e agora eu podia ver com perfeição as linhas inflexíveis do seu rosto, a barba escura bem desenhada e as cicatrizes que cobriam parte do seu rosto, e ele parecia as ostentar com orgulho.
— Fico contente que tenha deixado os seus aposentos e se juntado a nós para o jantar, querida. — pisquei ao ouvir a sua voz educada, não comprando sua aparente simpatia.
— Não é como se eu tivesse escolha. — devolvi acidamente, deixando claro que eu não era uma idiota. Seus dentes se apertaram e rangeram, transformando o falso sorriso em uma carranca de desgosto. Sua mão se colocou ao redor do meu pulso já machucado o apertando sem piedade, mas respirei fundo e ignorei a dor. Mantive-me ereta ainda o encarando, tentando não vacilar, não mostrar medo ou derrota.
— Ainda bem que compreende. — cuspiu com raiva apertando mais o pulso, foi impossível conter o gemido de dor. Anatoly ao ouvi-lo, pareceu satisfeito. — Você nunca terá uma escolha aqui, acho melhor se comportar porque tenho um convidado especial e não quero ser obrigado a interromper o jantar para ensinar uma liçãozinha a uma criança mal comportada. — alertou, eu tentei ignorar, mas foi impossível ficar alheia ao medo que se espalhava por mim ao escutar sua ameaça tão clara. Anatoly viu minha reação, e pareceu muito mais satisfeito puxou-me com ele até o homem que estava parado no meio da sala de estar, apenas nos observando com curiosidade.
Quando ficamos frente a frente a curiosidade desapareceu, e vi algo diferente brilhar em seus olhos que varriam meu corpo desde as pernas desnudas ao decote do colo, sem o mínimo de pudor ou vergonha, senti uma vontade sem igual de cobrir-me com o paletó de Oliver que estava no quarto jogado sobre a cama, e evitar seus olhos que mostravam-me tanta cobiça, luxúria e perversidade.
Instintivamente eu dei um passo para trás, tentando me afastar daquele homem que me causava arrepios. Mas senti a mão de Anatoly me empurrando mais para frente em direção a ele.
— Vladmir, conheça a minha filha Felicity Knyazev. — disse parecendo satisfeito com a forma que o homem assentiu em aprovação sem desviar os olhos de mim, revirei meus olhos ao escuta-lo dizer meu nome acrescido do sobrenome russo — Seja educada filha e ofereça a mão ao meu amigo. — deixou a ordem nada sutil e muito contrariada eu obedeci entendendo-lhe a mão.
Pensei que sentiria apenas um aperto rápido de mãos, mas não, para o meu desespero o tal Vladmir pegou minha mão com a sua e levou até seus lábios finos e molhados, demorando por muito tempo. Sua boca em minha pele deixou-me enjoada, suja.
— Eto vkusno. — disse rindo depois que eu bruscamente puxei minha mão a limpando no tecido do vestido.
— O quê disse? — perguntei sem o menor tato ao escutar a frase em russo. Foi impossível não comparar, quando Oliver falava em russo eu tendia a achar a língua bela, eu gostava da sonoridade das palavras em sua boca, eu não queria admitir, mas sua voz rouca dizendo palavras em russo era absurdamente sexy. Mas quando esse tal de Vladmir falava, as palavras pareciam podres, elas perdiam toda a beleza que costumavam ter aos meus ouvidos.
— Infelizmente ela foi criada nos Estados Unidos, e a língua russa não fez parte da educação dela. — Anatoly disse com desdém.
— Isso não tem muita importância mesmo. — deu de ombros, seu olhar lascivo se fixando em meus lábios — Há tantas coisas boas para uma mulher fazer com a boca e nenhuma delas inclui falar. — gargalhou alto, virando uma dose do líquido claro em seu copo logo em seguida.
Nojo. Era tudo o que senti daquele homem misógino, e senti um nojo ainda maior do homem que se dizia ser meu pai, e que acompanhou divertido, as risadas do outro, mostrando que ambos compartilhavam o mesmo pensamento.
Eu estava cercada pelo pior tipo de ser humano.
Eu segurei minha boca com muito custo, havia muitas coisas que eu gostaria de dizer e protestar, mas olhei bem a minha volta. Eu era o cordeiro na gaiola dos lobos, falar demais me colocaria em uma situação muito pior do que a que eu já me encontrava.
Não demorou muito para que anunciassem que o jantar seria servido. Caminhámos para a suntuosa sala de jantar, eu mal senti o gosto da comida, para ser honesta nem me lembro do que foi servido. A odiosa conversa dos dois me deixou tão enjoada que sequer consegui comer. O tópico parecia sempre se voltar para a venda de armas ou drogas, e essa era apenas a parte leve da conversa, eles conversavam calmamente sobre assassinatos e alguns métodos de tortura, o que me deixou mais informada do tipo de negócio escuso que eles praticavam. Em determinado momento, enquanto ambos falavam de suas aventuras e proezas, eu me senti numa daquelas competições de quem mija mais longe.
Eu não sabia quem era o tal Vladmir, mas a cada palavra dita por ele meu ódio por ele crescia, assim como meu pai, ele parecia sentir orgulho em enaltecer cada ato ruim feito e era incapaz de demonstrar o mínimo de arrependimento pelos seus atos. Por fim, desliguei-me da conversa antes que eu vomitasse diante de tanta atrocidade que eles falavam, só voltei a prestar atenção quando percebi que eu havia me tornado o tópico da conversa.
— Quantos anos tem a sua filha, Anatoly? — Vladmir questionou em um dado momento. Achei curiosa a forma como ambos falavam de mim, como se eu não estivesse sentada a mesa com eles.
— Pouco mais de vinte. — respondeu com desinteresse, percebi que sequer meu pai sabia com exatidão a minha idade.
— Isso é bom, garotas jovens são mais resistentes. — seu comentário me incomodou, ele desviou seu olhar para mim por alguns momentos me analisando, como se analisasse a qualidade de uma mercadoria. — E o que aconteceu com a mãe? — Voltou a pergunta ao meu pai.
— Fugiu, pouco tempo após o casamento. — pisquei, ficando mais interessada na conversa. Minha mãe nunca falava sobre o meu pai, e agora eu entendia o porquê, embora não entendesse como ela pode se casar com alguém tão ruim quanto ele.
— Essas uniões arranjadas são sempre um problema. — Arranjadas? Como se estivéssemos no século XVIII e os pais obrigassem suas filhas a se casarem? — Mas ainda assim deveria ter segurado as rédeas mais firmemente com ela. Na primeira vez que Taiana me desafiou eu a deixei trancada por três dias no quarto, sem comer e beber. — comentou como se aquilo não fosse nada demais — Infelizmente ela não aprendeu a lição da primeira vez, ou da terceira... Fui muito condescende, no fim perdi minha paciência e você sabe o que fui obrigado a fazer recentemente.
Minha boca se abriu em choque, o que aquele monstro teria feito para a própria mulher?
— Uma lástima, ela era uma mulher bonita que me deu muito prazer, que descanse em paz. — vi meu pai assentir, enquanto Vladmir ordenava que seu copo de vodca fosse preenchido novamente.
Meus pensamentos ainda estavam na frase dita pelo homem “ela era uma mulher bonita” “e descanse em paz”, tudo levava a crer que tinha matado a própria mulher. Eu estava em choque com a forma como ele dissera aquilo, como se não fosse nada demais. Não sei por que estava surpresa, o lugar estava repleto de homens armados, Oliver já havia me alertado que meu pai era alguém ruim, um criminoso da pior espécie, é obvio que seus amigos seriam assim também, assassinos frios e sem um pingo de compaixão.
— Deveria ir atrás da sua mulher. Não é bom para um homem com uma imagem a zelar, que tem tantos homens ao seu serviço, ser visto como flexível, justo com uma mulher. — eu vi o intuito de Vladmir em ofender com aquele comentário.
— Ela irá pagar, na hora certa. — ele disse friamente, e meu coração parou pensando em minha mãe. Ele havia me encontrado, é obvio que sabia onde minha mãe estava também, eu precisava encontrar uma forma de avisá-la, de mantê-la segura. — Por hora basta ter recuperado o que me pertence. — ele estava claramente descontente com o que o homem havia dito. Mas forçou-se a ser educado. — Lhe asseguro que não cometerei o mesmo erro com Felicity. — completou seguro.
— Acho bom, não me interesso por mulheres rebeldes, elas são interessantes no começo, é divertido tentar domá-las, mas depois de um tempo é apenas cansativo. — Seu olhar caiu em mim novamente e a pouca comida que eu havia ingerido revirou dentro do meu estômago.
Eu deveria ter compreendido errado, eu tinha que ter compreendido errado. Aquele homem agia como se... se tivesse a intenção de... Eu não conseguia nem pensar naquilo!
— Eu lhe garanto Vladmir, Felicity Knyazev será uma excelente mulher para você. — meu pai assegurou.
Não consegui respirar.
Eu puxava o ar, mas ele não parecia encontrar o caminho para os meus pulmões.
Até aquele momento eu havia me contido, eu havia segurado a raiva, a aversão, eu tentei fazer como Oliver havia me dito e não provocar a ira em ninguém naquele lugar. Mas eu estava ali, em uma sala de jantar e estava sendo oferecida numa bandeja de prata a um homem nojento, pelo meu próprio pai.
Eles estavam muito enganados se pensavam que eu aceitaria ser subjugada dessa forma tão desumana sem me rebelar.
— Meu nome é Felicity Smoak! — gritei a plenos pulmões. — Você não é meu pai, não pense que tem o direito de me exigir nada ou me obrigar a fazer nada, eu não irei me dobrar de joelhos aos seus desejos ou de qualquer outro homem tão sujo e odioso quanto você. — coloquei-me de pé, deixando que a cadeira caísse ao chão num barulho estrondoso, enquanto eu seguia a passos firmes para fora dali.
Os seguranças não sabiam o que deviam fazer. Afinal eu podia ter feito uma cena e gritado com o chefe deles, mas eu ainda era a filha do chefe. Me tocar sem a autorização poderia colocá-los em sérios apuros. Assim que virei em um corredor, eu senti um puxão forte em meu braço e meu corpo era jogado contra a parede com força.
— Você é exatamente com sua mãe, garotinha impertinente... Vai aprender a nunca mais me humilhar na frente de alguém. — seu rosto estava contorcido em pura fúria, seus olhos escuros flamejavam em ira. Era de se esperar que eu me encolhesse quando vi sua mão se levantar pronta para me atingir, mas não, eu ergui o queixo e esperei pela bofetada.
Não me importava o que aconteceria comigo, eu estava disposta a aceitar seus castigos e punições. Mas eu nunca, nunca aceitaria que ele me obrigasse a ser de um homem tão sujo quanto o tal Vladmir.
Fechei meus olhos esperando pelo golpe.
— Anatoly! — escutei o grito que o fez interromper o tapa que estava prestes a me dar, e imediatamente meu coração começou a palpitar, eu não precisava olhar na direção da voz para saber quem era, mas ainda assim eu fiz, porque algo em mim estava ansioso por revê-lo.
Oliver caminhava pelo corredor parecendo desesperado e apressado, eu esperava sentir seu olhar em meu rosto quando parou a nossa frente, mas para meu desapontamento ele não fez, ele agiu como se eu não estivesse ali.
— Você pode puni-la outra hora, mas não acho que seja apropriado deixar o seu convidado sozinho na sua sala de jantar, sabemos que Vladmir não é alguém confiável.
Sua voz fria me incomodou. Por um momento eu pensei que Oliver seria aquele cavalheiro de armadura a me salvar, eu havia me esquecido que apesar de uma ou outra atitude de compaixão, ele ainda pertencia ao lado ruim dessa história. Ele trabalhava para o vilão, esperar algo bom vindo dele era estupidez.
— Tire-a da minha frente, deixe-a trancada no quarto que pensarei no que fazer à ela mais tarde. — ordenou irritado, dando passos duros de volta para a sala de jantar.
Oliver não me disse nada. Sequer olhou para mim enquanto me arrastava por corredores e escadas até chegar a porta do meu quarto a qual ele abriu violentamente. Sua respiração saía em lufadas rápidas dizendo-me que ele não estava apenas irritado com algo, ele estava puto e era comigo.
— O que você tem na cabeça? Está tentando ser morta? É isso o que quer? — começou a gritar assim que fechou a porta do meu quarto — Eu te avisei Felicity, eu disse para ser cautelosa, para não enfrentá-lo, você não faz ideia do quão ruim seu pai pode ser!
— Ruim ao ponto de negociar a própria filha? — joguei a informação — Você sabia que era por isso que ele me trouxe dos Estados Unidos? Para me oferecer ao tal Vladmir? — olhei para o rosto de Oliver, ele parecia envergonhado, mas nem um pouco surpreso com o que eu disse — Oh Deus! Você sabia! —constatei me sentindo doente ao perceber aquilo.
Eu era uma idiota, é claro que ele sabia. Eu havia sido tola em pensar que havia algo diferente em Oliver, que ele poderia ser bom, que havia luz escondida em seus olhos azuis sempre tão envolto a sombras. Mas ele sabia, e ele não se importou com a sordidez da coisa, ainda assim ele me trouxe para esse lugar, sabendo os planos que Anatoly tinha para mim.
— Você é como ele, como todos eles. — percebi tardiamente, as lágrimas começando a se acumular no canto dos olhos e um bolor se formando em minha garganta.
— Felicity... — seu tom suplicava-me algo, pedia desculpas.
— Apenas vá embora Oliver. — pedi segurando as lágrimas e forçando-me a ser forte — E não se atreva a voltar aqui. — exigi, olhando-o nos olhos e mantendo-me altiva. Seus olhos azuis me encararam de volta testando a força da minha decisão.
— Eu não consigo ir. — suas palavras soaram como uma confissão, como se contasse um segredo. E por que será que seus olhos pareciam pesarosos? Não, eu não me importava, eu evitei seus olhos azuis, não seria a idiota a acreditar que poderia haver nada mais ali além de maldade, ele trabalhava para o meu pai, e isso o fazia exatamente igual a ele.
— É claro que consegue! A porta é logo ali. — apontei, a raiva crescendo em mim fazendo minha cabeça doer. Oliver assentiu fracamente, deu-me as costas e caminhou para a saída.
— Eu não posso. — ele disse parando antes de chegar a porta e virando-se para mim — Eu não consigo mais fazer isso! — exclamou mais decidido, as íris de seus olhos queimavam na minha direção.
— Oliver... — comecei a ficar assustada com seu tom desesperado, com seus olhos que estavam fixados em mim. Do que ele estava falando? O que ele não conseguia fazer mais?
Os acontecimentos seguintes ocorreram tão rapidamente que foi difícil processá-los. Em um momento Oliver estava de um lado do quarto e no outro seus passos decididos fecharam a distância entre nós, e continuaram empurrando meu corpo junto ao seu até que eu estivesse encostada a parede. Cada parte do seu corpo intimamente pressionada contra o meu, sua respiração ofegante batendo quente contra meu rosto.
— Você vai ser minha ruína. — sussurrou a confissão antes que seu rosto se abaixasse e seus lábios tomassem os meus com propriedade. Eu deveria afastá-lo de mim, eu até tentei no princípio ao espalmar minhas mãos sobre seu peitoral, mas Oliver viu aquilo como incentivo e pressionou seu corpo ainda mais no meu. Sua língua circundou meu lábio inferior de uma forma sexy e ele rugiu querendo muito mais de mim. Eu não contive a reação do meu corpo àquele contato, apenas gemi e arfei, entreabrindo meus lábios o convidando a explorar ainda mais, senti sua língua quente e provocativa aproveitar da minha entrega para adentrar em minha boca e se mover faminta contra a minha.
Eu nunca tinha sido beijada daquela forma tão passional e desesperada.
Sua língua provava da minha boca como se estivesse com sede de mim, seus dentes puxavam meu lábio inferior de forma faminta. E suas mãos? Essas eram a minha perdição! Moviam-se ao redor do meu corpo tão rapidamente que pareciam estar por toda a parte, apertadas em minha cintura, alisando os meus seios, e em um momento agarraram-se com força em minha bunda empurrando-a para cima, puxando minhas pernas e colocando-as ao redor de seu tronco, pressionando-me em direção a sua evidente excitação e me fazendo gemer com o contato.
Minha cabeça girava confusa, sua boca havia deixado os meus lábios e ido para meu pescoço se concentrando na área atrás da minha orelha, sugando a pele sensível enquanto suas mãos subiam por minhas coxas até encontrar o elástico da calcinha. Eu ofeguei, estava tudo indo muito rápido, precisávamos desacelerar antes, eu precisava entender o que estava acontecendo.
Eu sabia que era errado correspondê-lo, era errado querê-lo. Mas Oliver havia despertado algo dentro de mim de uma forma que ninguém havia despertado antes e eu queria mais das suas carícias, mais de seus beijos, mais de suas mãos percorrendo o meu corpo. Porém Oliver soltou-me abruptamente, dando rápidos passos para trás. Sua respiração estava ofegante, ele me encarou com olhos alarmados, passou a mão por seus cabelos e meneou a cabeça.
— Eu não deveria ter feito isso, printsessa. — disse num tom cheio de culpa, e saiu do quarto sem olhar para trás, me deixando ali ainda colada a parede e me sentindo completamente devastada pelo seu beijo.
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