War Angel - Sonhos
4 Capítulo 3 – As Bestas Guardiãs
Notas iniciais
~ Capítulo 3 – As Bestas Guardiãs ~
Uivos, ranhuras, estalos inconstantes e rápidas movimentações. Os ouvidos atentos de Witc e Mylla captavam inúmeros sons pelo ambiente, vindos de toda parte, embora desconhecessem por completo a estrutura da caverna, algo semelhante a um imenso salão com dezenas de corredores se ligando a ele.
Mais à frente, em um altar, Akira permanecia ajoelhada aos pés da estátua feminina, esculpida em gelo, onde fora lançada pela mariposa gigante. Seus olhos fitavam atentos às curvas bem definidas, detalhes milimétricos, a expressão facial marcante da escultura e seu forte brilho.
— Que lugar será este?
— Não faço a menor ideia, Mylla, mas espere... – Witc a respondeu enquanto se aproximava do local. Estranhamente observava uma mulher coberta com um longo vestido e cabelos brancos como a neve, enquanto a mesma prendeu à perna de uma coruja, de penas cinza azulado, um pergaminho. Seus lábios rosados sussurraram baixo, mas ele pôde ouvir parte da mensagem. “Vá! Voe até a rainha. Serei sua mente na batalha e farei aquele arco brilhar tanto quanto a arma de nosso inimigo...”. Logo esfregou os olhos e avistou uma estátua de gelo próxima de Akira, onde antes viu a mulher de cabelos brancos. Por que estou tendo esses vislumbres estranhos novamente? Questionou-se. – Não... Não era nada demais... Ia dizer que sabemos que, seja lá quem vivia aqui, gostava bastante dela.
— Ou ela possuía um ego insaciável, a ponto de mandar construir uma estátua de si mesma. – Akira o complementou e o interrogou sobre o curioso comportamento a poucos instantes. – O que aconteceu com você agora? Ficou parado olhando para essa estátua... Para mim... Seu olhar era vago e distante.
— Foi apenas uma tontura, acho que estou com um pouco de frio... Ainda bem que te encontramos segura. Onde estará aquele inseto gigante?
— Toma, pode pegar de volta. Estou melhor. Obrigada! – Jogou-lhe o agasalho e ajustou sua capa novamente.
— Não tenho interesse em mariposas, mas ficaria feliz em saber por que viemos atrás dela, ou melhor, você veio! – Exclamou sua companheira, impaciente.
— O que foi, vadia da cidade? Está com medo de perder para a mestra arqueira aqui? – Indagou sarcasticamente ao virar-se e apontar uma flecha em sua direção.
— Talvez queira que eu arranque esse seu capuz, para mostrar melhor seu rosto insano e esse sorriso falso. – Suas mãos brilhavam de tantas faíscas emanando.
— Parem de brigar, por favor! Quantas vezes precisarei falar que devemos...
— Abaixe-se! – Com destreza, Akira rapidamente efetuou um disparo certeiro na Sunafinx que se aproximava silenciosamente por trás do garoto. A flecha partiu cortando alguns fios dourados do longo cabelo da herdeira do raio e passando de raspão pelo jovem feiticeiro. – Nunca imaginei que elas existissem. Minha... – Fez uma pausa ao retomar algumas memórias. – Minha mãe costumava contar que nossos antepassados caçavam com a ajuda de Sunas, mas que elas foram extintas há muito tempo.
Sunafinx ou Suna, como foi identificada a besta por Akira, era uma espécie extremamente rara, dada como extinta. É da mesma família das raposas, que podem ser encontradas facilmente pelos continentes da superfície. É de um pequeno porte, move-se com grande velocidade, suas orelhas são maiores que o convencional para o seu tamanho e possui pelagem branca e densa, características que provavelmente a fez suportar as baixas temperaturas da região.
— Você quase me atingiu... Por causa de uma raposa?
— De nada, va...
Antes que pudesse terminar, a lâmina, que estava presa à cintura de Mylla, fora arremessada, atravessando o espaço entre as pernas da arqueira e acertando o peito da criatura que permanecia parada ao lado da escultura e um pouco atrás de Akira, como se a venerasse.
— Estamos quites. Mas achei muito estranho aquele bichinho estar parado quase ao seu lado e não lhe atacar. – Será que elas possuem alguma relação? Pensou.
— Você sabia que quase me acertou?! – Agachando-se, ela pôde perceber que a espada havia perfurado a base do pedestal e, ao removê-la, a fissura se estendeu aos pés da estátua.
Um forte abalo foi sentido em seguida e um rugido ameaçador se espalhou pelo salão. Em um local próximo ali algo havia despertado de um longo sono, nem brando nem piedoso.
— O que foi isso? Precisamos sair... Witc, vamos voltar pela mesma passagem que chegamos aqui.
— Não vai dar, Mylla. O tremor fechou o caminho, veja! – Apontou para o teto. – E Lina e Ayurik? Para onde foram?
— Quando penso que a situação finalmente poderá mudar, tudo começa a dar errado... – Em voz baixa, Akira pronunciou com alguns suspiros.
— Temos companhia, meninas, preparem-se!
Poucos instantes se passaram e já estavam quase cercados pelas centenas de Sunas e algumas mariposas gigantes que vieram ao encontro dos três herdeiros. Ferozes, elas se aproximavam, levando-os ao altar em recuo.
— São pequenas, mas muitas. Não conseguimos cuidar de todas. Precisamos sair daqui rápido. – Mantendo-os seguros, Witc segurava a parede de energia entre eles e as bestas enquanto procuravam por alguma rota de fuga, mesmo sabendo de sua limitação com a telecinese.
— Há uma aqui, a direita da estátua, vamos! – Akira os chamou.
Com cautela atravessaram a porta e seguiram por um dos corredores enquanto a barreira de proteção se desfazia. Estava escuro. Novamente ouviram o rugido. Um olhar de conferência fora feito ao sentirem um tremor nas proximidades e, ao voltarem a visão para o salão, avistaram uma imensa sombra tomar o local, espantando as inúmeras Sunas e mariposas. Mais um passo dado pela criatura e foi possível avistar o imenso casco parado em frente a passagem e a ponta de um machado, um pouco mais atrás, arrastado pelo monstro.
— O que é aquilo?
— Não faço ideia, Ryser. – Akira o respondeu.
— Acha que nos seguirá?
— E você acha que tenho resposta para tudo?
— Falei que não devíamos ter ajudado ela. Agora que se recuperou vai tentar nos matar na primeira oportunidade. – Mylla comentou ironizando a situação.
— Caramba! Vocês duas estão com as emoções a flor da pele hoje, é a única explicação! Apenas continuem correndo e procurem por alguma saída que nos leve de volta à superfície.
Porta após porta, eles atravessaram sem saber o que encontrariam. Deixar aqueles corredores parecia se tornar cada vez mais difícil. Estavam presos em um imenso labirinto e não se deram conta da mitologia que os cercavam. Naquele momento, suas melhores opções para sair de vez do Santuário da Princesa de Gelo estavam há algumas centenas de metros ou quilômetros de distância, de fronte à chave e muitos segredos da maior estrategista da história. A imagem de quem Zenkatsu deveria carregar como espelho. Musa inspiradora dos seus dons de clarividência.
***
Na superfície, milhares de Sunas haviam surgido e seguiram para a direção apontada pelos três sepulcros, onde Witc encontrara um mapa com cinco molduras e uma ligação entre elas, molduras dos cinco santuários perdidos.
O iglu criado por Shawn, como esconderijo, funcionara perfeitamente. As criaturas, que por ali passaram, desviaram do abrigo como a rodear um mero obstáculo.
— Ao que parece, não notaram a nossa presença.
— Sim. Esse iglu veio bem a calhar. Bela habilidade esta sua. Quando estudante eu não acreditaria, mas hoje sou grato por ter um amigo alquimista como você. – Murmurou Zenkatsu em sua declaração.
— Cada um de nós possui algum tipo de talento, amigo, apenas precisamos descobrir como usá-los da maneira mais eficiente. – Agachando-se para olhar através da estreita entrada, ele indagou-se sobre a segurança de seus filhos e os outros.
— Shawn, antes de irmos atrás dos garotos, preciso que me acompanhe novamente às ruinas. Há algo que preciso investigar. – O antropólogo fortificou seu pedido com a presença de um fragmento de hieróglifo do mesmo tipo encontrado na tumba, em Déviron Garden.
— Não precisaria pedir, pois também tenho algo que eu gostaria que traduzisse para mim. O que é este cristal? – Disse ao revelar a pedra de uma cor azul forte, lapidada na forma de um octaedro.
***
Tão semelhante quanto seu irmão, Lina caminhava pelos corredores, perdida, ao lado de Ayurik.
— Isso não tem mais fim?!
— Reclama menos e ajuda mais! Porque, para início de conversa, seguimos por outro caminho por sua causa. – Bradou Lina.
— Mas eu só queria descobrir se conseguia manipular o gelo...
— Para nossa infelicidade, ainda não e acabou nos jogando para a outra passagem naquela bifurcação, sem falar que há um bicho enorme andando por aí, só esperando para devorar o primeiro mago que encontrar.
— Você me dá medo, às vezes... – Sussurrou. Filha do capeta. – Olha ali, uma...
Sem que esperassem, aquele som que os assustou outrora, retornara, mais forte e mais próximo.
— Precisamos nos apressar e encontrar os outros, vamos atravessar aquela porta.
— Mas está fechada, Lina.
— Isso não será problema. – Cercou seus punhos em chamas azuis e as disparou com velocidade contra o obstáculo, abrindo um buraco por onde passariam.
Do outro lado, espantados pela explosão, Witc e Mylla foram surpreendidos uma segunda vez, desta, por encontrar Lina e Ayurik.
A equipe havia se reunido novamente, entretanto, ainda não estavam a salvos do monstro que os perseguia naquele labirinto subterrâneo.
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