War
5 Capítulo 4 - Ameaças.
Notas iniciais
Na tarde seguinte... no Léia...
— É o calooooor! Que fritou a minha cabeça e me deixou assim!
Uma jovem cantava animadamente à beira de uma chapa de cozinha, onde remexia diversas carnes e frituras. Apesar de seu ânimo não ser compartilhado pelo resto da tripulação, ela não deixou de fazer sua tradição musical no almoço da tripulação.
— Hum... Espera! Português! – Clarisse grita no meio da mesa.
A jovem acena com a cabeça de forma positiva.
— Onde aprendeu a ser poliglota? – Nico se intromete.
Por regra a maioria da tripulação almoçava depois dos superiores, o que significava que na precária mesa chumbada ao navio estavam apenas o capitão, Percy, que basicamente estava parecendo um cachorro de língua para fora devido ao calor, a imediata, Clarisse que estava tentando adivinhar qual o idioma das músicas que a cozinheira do navio cantava, e o segundo imediato, Nico, que estava com os pés em cima da mesa enquanto amarrava novamente sua bandana roxa na testa para impedir que a franja lhe caísse sobre os olhos enquanto comia. Os demais da tripulação temporária estavam no convés com esfregões e gaivotas.
— Na zona de menores desacompanhados de um aeroporto internacional. Passei bons anos lá! Aquilo sim era uma verdadeira fonte de cultura!
— Passou anos em um aeroporto? – Clarisse pergunta.
— É! Desde os oito anos quando minha mãe me botou lá e não voltou. Até que eu fiz uma festa tão grande na zona junto com as outras crianças que chamei atenção até do sr. D, ele se transformou em criança para entrar de penetra na festa, ele me conheceu como a melhor fabricante de bebidas batizadas e cá estamos!
A cozinheira da tripulação tinha por volta de seus quatorze anos. Alexia era uma neta de Hermes e filha de Hefesto. A semelhança com Leo primeiramente deixou Percy intimidado em admiti-la na tripulação, mas a aceitou em cargo oficial no final das contas, embora tecnicamente isso fosse trabalho infantil a própria Alexia achava melhor isso a ter que ficar o ano todo presa no acampamento esperando o verão chegar. E cá entre nós, se uma criança pode empunhar uma espada e lutar contra monstros de mais de cinco vezes o próprio tamanho, ela com certeza tem maturidade de trabalhar. Alexia tinha olhos cor de mel intenso, elétricos, intensos e inquietos. Diferentemente da maioria dos filhos de Hefesto, ela não se dava muito bem com mecânica ou fogo, embora fizesse belos trabalhos com os mesmos. Talvez por causa de seus genes vindos de Hermes, ou por simplesmente ser uma exceção, ela preferia a área eletrônica e se dava muito bem com tudo o que tinha eletricidade correndo no núcleo, e isso combinava completamente com sua personalidade extremamente hiperativa. Tinha a pele bem amorenada em tom chocolate ao leite, cabelos loiros no corte joãozinho bem volumoso com uma mexa roxa na franja. Tinha adquirido o abito dos seus superiores de andar seminua pelo barco, usando apenas bermuda e a parte de cima de um biquíni com a bandeira da Austrália estampada.
— Você faz bebidas alcoólicas? – Nico pergunta.
— Serio que você tá mais interessado nisso com o fato de que o sr. D se transformou em uma criança para ir para uma festa? – Percy perguntou com uma gota na testa.
— Percy, ele é o deus do vinho E da festa. Obvio que ele adoraria cair na gandaia com um corpo jovenzinho!
— Jovenzinho é o caralho! Na festa rolava até maconha! – Alex se “defendeu”.
— Como você arranjava maconha lá? – Clarisse pergunta com uma interrogação estampada na testa.
— Você ia se surpreender com a quantidade de mães que usam os filhos como mulas.
De repente um grito estridente corta o clima.
Sean aparece nas escadas segurando uma criança chorona o mais longe o possível de si, como se fosse um bicho peçonhento. Ambos estavam fedendo a leite e a criança tinha uma blusa (provavelmente de Nico) enrolada na cintura como fralda.
— Alguém acode!
A primeira coisa que aconteceu foi uma espátula ser estrategicamente lançada entre as pernas do garoto que fica com o rosto pálido e junta os joelhos. A criança ri banguela com a reação do menino.
— O QUE RAIOS ESSA CRIATURA DO MUNDO INFERIOR FAZ NA MINHA COZINHA?! – Alex berra.
Percy não tem tempo de reparar em como a cozinheira foi parar em cima de sua mesa antes de correr para pegar a criança antes que Sean desabe no chão e se contorça em agonia masculina. Nico e Percy torcem o rosto e até mesmo Clarisse estreita as sobrancelhas.
— Uuuuuuuui! – Os três dizem em uníssono compartilhando a agonia do rapaz.
— PERSONNE NE VA ME DIRE COMMENT CETTE CREATURE EST APPARU DANS MA CUISINE?!
Percy coloca a criança calmamente sentada em cima da mesa, mas a moleza por ter apenas dois meses a fez quase cair e Percy a colocou de volta no colo. Uma criança geralmente choraria ao ouvir gritos hostis, mas essa determinada criança parecia achar graça da situação. Ela levava a mão a boca babada e banguela e sorria abertamente para o irmão mais velho que simplesmente ficava com cara de tacho.
— Baba não, Percy! Ela é sua irmã, não sua filha. – Clarisse espetou.
— Se ele ficou bobão assim com a irmã, imagina quando for o filho dele! – Nico concordou.
Ambos tiram as pernas mesas e Alex sai da mesa apressadamente, como se a criança fosse espirrar ácido. Percy se senta e ajeita o bebê em seu colo de modo que ficasse de frente para a cozinha.
— AIXÍ COM LA GERMANA?!
— Fale na nossa lingua, Alex. – Nico pede.
— Como? Quem? Onde? Quando? – Ela fala em velocidade assustadora enquanto se esconde atrás do balcão que limitava a sala de refeições e a cozinha.
— Como? Pergunte ao professor de ciências sobre o tema reprodução sexuada. – Sean se pronuncia enquanto se levanta apoiado nas paredes — Quem? Não sei o nome dessa criatura também. Onde? Provavelmente em Atlântida. Quando? Provavelmente deve ter um ou dois meses.
— ISSO NÃO ME RESPONDE NADA!
—ENTÃO TORRE VOCÊ SEUS NEURONIOS ANTES DE TACAR UMA ESPATULA NOS DOCUMENTOS DE ALGUÉM! AH! É, MESMO! VOCÊ NÃO TEM!
— TÁ ME CHAMANDO DE BURRA SEU ANÃO DE JARDIM?!
— SE A CARAPUÇA SERVE, TÁBUA DE PASSAR ROUPA!
Alex cruza a distância como um jato e acerta um soco no rosto de Sean. Os dois começam a se estapear e a rolar pelo chão com as mãos no pescoço um do outro. Era cotidiano, sendo assim Nico e Clarisse apenas bocejaram. No entanto, Percy teve uma atitude fora do comum quando uma veia pulsou na sua testa e jatos de água salgada invadiram o recinto e com uma pressão exorbitante jogaram os dois adolescentes briguentos no outro lado do cômodo, na parede da cozinha.
— PAREM COM ESSA BAGUNÇA! HÁ UMA CRIANÇA AQUI!
— EU ME SURPREENDERIA SE TIVESSE UM ADULTO! – Alex rebate.
A água salgada parte para fora do ambiente com a mesma sutileza com que entrou, deixando assim um aroma de algas e sal, dois adultos molhados com cara de tacho e dois adolescentes vomitando água marinha na cozinha. Percy demora um pouco para notar que também havia molhado Nico e Clarisse e que eles o encaravam mortalmente.
— Obrigada, Jackson! Não bastava ter que fritar por causa do Nico! Tinha que temperar também!
O bebê ri novamente no colo de Percy e se impulsiona pra frente. Percy a segura inclinada, o bebê estica a mão gorducha com a pulseira e faz um movimento de abrir e fechar de mão na direção de Clarisse. A punk de início não entende mas faz careta ao perceber algo.
— Tá quente! – Ela diz.
— A culpa é do Nico! – Percy rebate.
— Não isso! A água.... tá quente! TÁ QUENTE!
A filha de Ares salta para fora da cadeira e tenta desesperadamente se secar. O bebê no colo de Percy faz uma careta e começa a se debater destrambelhadamente. Não tendo nenhuma experiência com crianças com menos de seis anos, o filho de Poseidon simplesmente não sabe o que a criança quer o que resulta em um choro estridente e mais gritos de Clarisse.
— Faz ela parar! Tá pelando!
Alex parece ser a primeira entre os “adultos” a ter alguma reação e sai da cozinha com uma forma de gelo que dispersa dentro da camisa da outra. Um gemido de alivio é solto pela filha de Ares que sente vários calafrios percorrerem sua pele. As atenções rapidamente se voltam para o bebê que tinha parado de gritar mas continuava com a cara de choro.
— Tudo bem... Algo definitivamente não está certo. – Percy se pronuncia após um período silencioso.
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Passos ecoavam apressados no longo corredor com paredes de mármore. O salto agulha escarlate combinava perfeitamente com o batom e o vestido longo com bainha quase transparente, sem mangas e com as costas nuas. As cores intensas em vermelho deixavam transparentes a natureza constantemente intensa da deusa do amor. Os olhos geralmente de íris que mudavam de cor, hipnotizando a quem olhasse, tinham se fixado em um tom também escarlate. A pele branca também havia adquirido tons róseos devido ao esforço de seus finos músculos de chegar rápido ao seu destino. Os cabelos castanhos levemente cacheados voavam no ar, espalhando um doce aroma de maçãs. Apesar da beleza delicada da deusa, ela provava no momento de uma das emoções que menos gostava: A Ira. Tão comum para muitos do Olimpo... mas não para ela. Afrodite sentia algo errado no Olimpo. Algo muito errado. O outro único deus que parecia também ter notado o ar pesado como cimento era Hera, mas se ela sabia de alguma coisa preferiu não contar e se esconder.
Afrodite, sendo a deusa do amor, era altamente sensitiva as emoções mortais, principalmente quando envolvia um dos seus filhos. E agora a raiva tomava seu corpo. Como pode deixar algo assim acontecer? Achava que sua filha estava morta, a própria deusa tinha sentido as emoções dela cessarem de súbito! Diferentemente dos demais deuses que podem literalmente monitorar e ver seus filhos em carne e osso, mesmo que do alto do Olimpo, Afrodite apenas vê emoções e a partir delas sabe o que está acontecendo. Deuses tem influência maior apenas em seus territórios, o problema de Afrodite era que seu “território” apesar de existente em tudo, é algo flutuante como o ar, não é palpável, mas está ali. Apenas uma vida muito sofrida ou igualmente traumatizada perde a sensibilidade à emoções. E deuses... quando isso acontecia com um dos filhos da deusa do amor, que são igualmente sensitivos... era algo irreparável.
Mas após dois anos em silencio, a vida de sua filha voltava a bater. Com apenas dois escassos sentimentos forçando seu coração a bater: Dor e esperança, sendo o último o mais fraco dos dois. E o primeiro, um dos mais perigos à um filho de Afrodite. A junção dos dois era simplesmente caótica num filho da deusa do amor. Seu instinto não estava errado! No início dos dois anos era apenas uma suspeita, uma suposição formada pela coincidência do pródigo filho de Ares estar tão perto de sua filha em momento tão decisivo. Mas agora Afrodite tinha certeza do que o filhote da guerra fizera a sua filha. Tinha sido sábia ao pedir discretamente para seus filhos se afastarem dos filhotes da guerra de Ares. Mais sábia ainda quando a própria Afrodite decidiu se afastar do ex—amante. Mas agora havia perdido um aliado. Como prosseguir?
Ares estava furioso consigo, e Afrodite temia que ele fizesse algo contra seus filhos. O que se concretizou a pouco tempo, quando o deus da guerra blasfemou contra os filhos de Afrodite, incitando os filhos dele próprio contra os dela. A violência entre os filhos de ambos estava piorando a cada dia e Afrodite temia que isso ultrapassasse o limite. Há destinos muito piores que a morte para um filho do amor... e Afrodite não queria que isso acontecesse novamente como aconteceu com sua filha.
“Mia...” ela pensou sentido os olhos umedecerem.
Fechou os olhos com força, reprimindo as lagrimas, afinal, chorar borra a maquiagem. O importante agora era prevenir que isso acontecesse novamente com um dos filhos seus. Problema era: como? Seu único aliado era Ares, e agora com ele como inimigo ela simplesmente não tinha como reagir. Ela não tinha grandes alianças com nenhum outro deus. Atena simplesmente a olhava torcendo o rosto, segundo a deusa da sabedoria o amor deixa as mentes mais brilhantes borradas, atrapalham estratégias e fazem os sábios ficarem irracionais. Ártemis? Era melhor nem tocar no assunto. Hera era a deusa do casamento, e Afrodite sabia em primeira mão que casamento era um acordo político que nem sempre tinha amor. E mesmo que Hera concordasse em ajuda-la, iria fazer o que? Convocar vacas para darem leite? Não. Zeus estava simplesmente irracional nos últimos tempos, e seus irmãos haviam sumido. Apolo estava irritado demais com o casamento do filho e a implicância com o primo mortal, ou seja, Nico. Hermes estava simplesmente ocupado com os processos judiciais contra a deep web, que ele como criador estava levando a culpa de muita coisa. Sua única saída tinha sido Héstia. Afrodite havia praticamente implorado a ajuda da deusa do lar, a única coisa que tinha conseguido era uma informação de alguém que poderia ajudar.
“Choras pela desgraça de um filho? Seu marido já chorou e ainda chora a desgraça de vários, no entanto você nunca ligou para isso não é mesmo? Diferente de você, Hefesto leva a sério a frase “na saúde e na doença”, não em questão de casamento, mas com os filhos. Ele provavelmente vai saber o que fazer. Faça um teatrinho básico. Implore, esperneie, faça o que quiser! Apesar de ser muito discreto ele faz o possível pelos filhos, e ás vezes... até o impossível. ”
Foram essas as palavras de Héstia. Afrodite ainda não havia entendido o que ela quis dizer com o final, mas se Hefesto tivesse alguma solução para seus problemas com o deus da guerra, ficaria eternamente grata. Mas então surge outro problema: onde está Hefesto? Afrodite passara tanto tempo alheia ao marido que simplesmente não sabia mais onde ele estava. Tinha passado por várias ilhas vulcânicas antes de decidir procurar no Olimpo, mais precisamente abaixo dele. A sala de projetos de Hefesto.
Achou finalmente a rustica porta que levava as masmorras. Estranhou a maçaneta estar quebrada e a porta entre aberta, Hefesto tinha sempre muito zelo pelos seus projetos e jamais os deixaria tão... alcançáveis. Afrodite empurra a porta, que range longamente e mostra uma escada em caracol feita de pedra. Afrodite pega uma das tochas que estavam na parede e começa a descer, fazendo seu salto alto denunciar sua presença.
Foi um longo trajeto cheio de pedaços de metal jogados nas escadas e ratos em abundancia que corriam ao ver o brilho da tocha em sua mão. Chegou até outa porta feita inteiramente de ferro. Estava quente. Ao entrar pensou imediatamente se deveria ou não dar meia volta perante a cena em sua frente.
O escritório de Hefesto era lambido pelas chamas. Os papiros, rolos, pastas, pergaminhos, laptops, recheados de projetos eram destruídos enquanto Hefesto observava imponentemente de joelhos em frente à sua mesa. Parecia um pai orgulhoso perante o tumulo do filho.
— O que você quer? – Ele perguntou sem tirar os olhos do grande acervo que se reduzia a cinzas.
— O que aconteceu aqui?! – Afrodite perguntou, ainda chocada com a situação.
Hefesto riu sem humor da pergunta feita pela esposa. Ele se levantou dolorosamente. A haste de metal que tinha substituído a bengala era feita de bronze e com sorte, conseguiria reparar o dano que sofrera logo após seu nascimento, mas até lá, a dor em seus nervos da perna ainda o fariam sofrer muito. O macacão que usava estava sujo de cinzas e com uma das alças soltas. Ele não vestia blusa por baixo, deixando seu peitoral peludo e robusto a mostra, cheio de cicatrizes de acidentes que ocorria dentro de sua ferraria. A barba estava mais aparada do que antes, não era mais algo que dava para ser trançado, nem algo para se denominar uma barba malfeita. O cabelo tinha as laterais presas em coque/rabo de cavalo para retirar as mexas que poderiam cair em seus olhos enquanto trabalhava, mas o resto continuava solto e literalmente pegando fogo. Os olhos estavam sem os tradicionais óculos de proteção, deixando-os expostos, nos glóbulos não havia íris ou a parte branca, apenas uma pedra de carvão com as íris em brasa que imitava o órgão.
— Você é muito egoísta, sabia? – Ele perguntou em tom acusatório – Você não percebe que quando toma uma atitude, isso pode afetar os outros também. Seu namoradinho vem me ameaçando a quase dois anos, e agora ele incendiou meu escritório.
Afrodite engoliu seco. Ela achava que Ares estava apenas a ignorando e lhe dando um gelo, quando na verdade ele tinha ido tirar satisfações com Hefesto.
— Você não tinha nada a ver com isso.
— FALE ISSO PRA ELE! Os quase dois anos ele vem criando uma paranoia de que o amor deixa os guerreiros dele mais fracos. Dia após dia ele enlouquece mais assim como os guerreiros que o seguem.
Afrodite sentiu o lábio tremer levemente, mas não deixou transparecer. O sentimento de culpa, raiva, remorso, e orgulho de Hefesto eram praticamente palpáveis para Afrodite. Ela praticamente podia ver a aura colossal que contornava o deus e a penetrava como um gás venenoso.
— Sinto muito. Eu não sabia que Ares tinha recorrido a você. Você não tem nada a ver com isso, desculpe.
Afrodite não sabia se a culpa que sentia era genuína ou um contagio pela aura de Hefesto. De toda a forma, envolvera Hefesto, mesmo que sem saber, em algo que que não lhe dizia respeito e era culpada por isso.
— Isso tem tudo a ver comigo. – Afrodite sentiu um arrepio lhe trilhar a espinha por conta da voz rouca e ameaçadora que Hefesto usou – Você pode até ignorar o fato de que carrega a mesma aliança no anelar que eu, mas eu não sou fraco a ponto de ignorar meus problemas.
A deusa do amor não soube reagir à informação ou entender o que ela significada, simplesmente permaneceu estática por tal declaração.
Hefesto riu maliciosamente ao ver a reação da esposa, para alguém que dizia ter nojo do mesmo, ela havia corado muito fácil. Ele se vira em direção os projetos em chamas atrás de si e sorri sarcástico.
— Estupido, não? – Ele pergunta
— Como?
— Ele queria uma arma. Ele desenhou uma geringonça qualquer e me mandou criar aquilo. Era algo totalmente estupido e sem nenhuma lógica mecânica, mas com um objetivo muito funcional.
O Deus ferreiro adentra o braço no meio das chamas e de lá retira um único pergaminho que não está em brasas. Enfeitiçado, Afrodite pensou. Ele passa os dedos calosos pelo pergaminho aparentemente novo em comparação aos outros com suas telas amareladas.
— Diga logo o que você quer, mulher.
Afrodite engole seco novamente.
— Eu vim pedir ajuda ao único possível aliado que eu poderia ter neste momento, mas devido aos estragos que fiz, mesmo sem perceber, vejo que não tenho mais o direito de lhe pedir nada.
— Fale logo!
Afrodite repensa mil e uma maneiras de não deixar seu desespero de mãe se opor ao diálogo que tinha ensaiado para convencer Hefesto. Pro mundo inferior! Ela era mãe e era a deusa das emoções, oras! Seus instintos de mãe estavam berrando e alguém tinha que ouvir!
— Tenho certeza que Ares trama contra meus filhos e eu não tenho nenhum poder físico ou destrutivo para impedir isso!
— As emoções são o poder mais destrutivo que se tem.
— Você entendeu o que eu quero dizer!
Hefesto se senta na mesa atrás de si, que não fora encostada pelo fogo. Ele coça a barba e passa a mão nervosamente pela cicatriz grotesca que lhe cortava a cabeça.
— Pois bem, não posso interferir diretamente no acampamento, assim como você ou Ares, mas eu também tenho meus meios e se eu não me engano Morfeu ainda me deve um favor.
— Isso é um sim?
Hefesto estreita os olhos negros para a esposa.
— Isso é um talvez.
Hefesto se levanta e ajeita as calças ao corpo e trota em direção à Afrodite que dá cinco passos para trás antes de perceber que ele estava na verdade indo para a porta. Ele dá uma sequência de batidas na porta que tem suas arestas iluminadas brevemente. A porta começou a parecer gélida na opinião de Afrodite, até cicatrizes de gelo começarem a se formar em seu aço.
A porta se abriu em um longo ranger e apesar de alguns flocos de neve terem voado para dentro do recinto em chamas, o portal era escuro e de escuridão palpável. Hefesto entrou no portal até sumir. Afrodite petrificou perante a porta, até um sopro gélido apagar a tocha que ainda estava segurando sem perceber. Um ponto vermelho no meio do portal se iluminou. Os cabelos de Hefesto. Ele parecia estar a uns vinte metros da entrada e apenas seus cabelos iluminavam sua face. Ele pôs o indicador entre os lábios em um pedido mudo de silencio e a porta bate apagando todo o fogo da sala e deixando Afrodite na escuridão abissal.
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Reyna esperava muitas possibilidades da palavra caolho, apenas não cogitava a ideia absurda do tal caolho ser um fauno.
Acordara em pleno sábado ás seis da manhã ouvindo a porta de seu simplório apartamento ser esmurrada pelos cascos do futuro intruso. Não que não pretendesse acordar ás seis da manhã, mas pretendia acordar para fazer uma maratona de Game of Thornes, não pra fazer hora extra!
O fauno era, sem dúvida, o bode negro do acampamento Júpiter. Splintter, era um fauno de poucas palavras, e apesar do desprezo cultural dos romanos pela sua espécie, ele vivia com a cabeça erguida para cima em um sinal claro de orgulho. Os pelos cor de tangerina eram um grito aos olhos de qualquer pessoa, os chifres eram longos e voltados para cima, olhos negros como obsidias, sendo um azulado devido à fala de visão; e punhos duros como madeira. Após a guerra contra os gigantes, todos os pontos de conexão com o futuro foram cortados. Rachel não teve mais visões, Ella não se recordava mais de nenhum trecho sibilino, e Octavian… bem, vocês sabem. Mas ninguém esperava que um fauno seguidor fiel de Plutão receberia o dom da profecia, e de maneira tão… incomum.
Ao constatar o fauno carrancudo à sua porta, Reyna teve o reflexo de fechá-la de novo, mas o fauno foi mais rápido e pôs o casco dentro da casa. Splintter se divertiu por alguns momentos enquanto Reyna tentava estrangular seu pé com a porta por pura raiva. A ex-pretora não o deixou entrar, mas quem disse que ele obedeceu? Ao velo passar pelo batente da porta, as alturas e posições ficaram bem claras.
Reyna era filha de Belona, orgulho e honra são de sua natureza, coragem e lealdade são seus dotes. Tinha respeito dos outros de nascença. Splintter era um fauno que saiu pela culatra, não mendigava, não se retratava com qualquer romano, vivia com uma carranca na face, e foi abençoado por Plutão. Tinha o respeito dos outros conquistado.
— Reunião. Agora. — Sibilou o fauno caolho.
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