Wanted

2 Capítulo 2


Arlequina jogou sobre a mesa o radinho de pilha que Batman usava para se comunicar com Willfried e lhe deu as costas.

Colocou as mãos nos ouvidos como se não quisesse ouvir o silêncio ao seu redor, quando na verdade o que queria era apenas um apoio para a cabeça. Girou-a de um lado para o outro, sentindo e ouvindo os estalos vindos do seu pescoço. De olhos fechados, apreciou a sensação de relaxamento que um pouco de movimento e alongamento proporcionavam.

Jogou-se para frente e apanhou as pontas dos pés. Estava em ótima forma, então mesmo aquele gesto não lhe causava dor nenhuma. Ficou naquela posição por ao menos trinta segundos, ou pelo menos assim imaginou. Retomou a posição ereta, esticou os braços como alguém que se espreguiça e abriu os olhos.

O Pistoleiro, um homem grande, de quase dois metros, com o corpo vestido, dos pés à cabeça, em um uniforme elaborado e com um olho coberto por uma lente de vidro vermelho que até hoje Arlequina ainda não tivera oportunidade de descobrir para o que servia – talvez fosse só estilo, quem saberia? –, estava encostado na porta à sua frente com os braços cruzados e uma pistola envolta em um punho. Sem conseguir saber a direção do seu olhar, Arlequina jamais poderia afirmar se de fato ele a observava, mas podia sentir o olhar dele em si. E como ele não a olharia? Ela estava bem vestida, provocante, e sabia que homens gostavam de observar uma mulher assim. E ela até gostava de ser observada.

Sabia que a sala em que se encontrava não era muito grande, então, girando o corpo um pouco para o lado, avistou todos os presentes. Eles não eram tantos e nem aqueles com os quais Arlequina estava contando: tratavam-se do Capitão Bumerangue, com seu belo rosto barbado e sujo voltado na sua direção, El Diablo, com os braços cruzados e um semblante impaciente, e Amanda Waller, a única com algo além de seriedade dançando no olhar.

— Por que ainda não começamos? – Arlequina perguntou.

— Estávamos esperando que você terminasse a sua sessão de ginástica laboral – disse Waller com ironia.

— Afinal, quem seria capaz de interromper um ritual tão bonito de assistir, não é mesmo? – disse Bumerangue e riu. Se pela ousadia da sua fala ou se porque se irritara com sua risada, o Pistoleiro o acertou com o próprio cotovelo. – Vamos com calma, cara! Não vai querer um soldado ferido nessa jornada do super-herói, vai?

— Ah, sem sombra de dúvidas, e é por isso que eu mataria um desses sem pensar duas vezes, se ele significasse um peso morto no meu esquadrão – foi a resposta concedida pelo Pistoleiro.

— É tão bom ver vocês! – disse Arlequina e correu para abraçar o Pistoleiro. – Esse negócio de prisão pode ser bem divertido quando se tem boa música, bons livros e boa companhia, mas nada se compara a ter todos vocês de volta!

Arlequina estava a um passo de puxar o Pistoleiro para um abraço quando esse ergueu sua pistola na altura da sua testa.

— Experimente – ameaçou. – Mais um passo e eu e todos os presentes aqui descobrimos se há algum miolo dentro dessa sua cabeça colorida.

Arlequina parou na ponta dos pés, como faria alguém à beira de um precipício.

— Que jeito curioso de demonstrar a falta que sentiu de mim.

— Pode me abraçar, se quiser – Bumerangue sugeriu. – Já não tenho um contato de verdade com uma mulher há, o quê?, um ou dois anos...? – Fez uma pausa para ponderar. – Faz quanto tempo desde que você nos transformou em fantoches mesmo, Waller?

— Eu jamais conseguiria dizer com precisão – Amanda respondeu. – Sabe como o tempo passa rápido quando nos divertimos, não é mesmo?

— Fale por você.

Arlequina aproveitou a distração de Bumerangue para ignorar de vez o seu pedido.

Aquele lugar era novo e, naquela altura da noite, Arlequina não conseguia se lembrar do caminho que fizera até ele. Não estava acostumada a aprender trajetos, quando viviam a levá-la de um lado par ao outro como bem entendiam, e de qualquer forma já não conhecia mais os lugares que frequentava tanto quanto antigamente, já que eles haviam mudado, e muito, desde que o Batman a colocara em uma prisão. Mas aquele, sem dúvida, era parte de Gotham. Afinal, que outra cidade teria tantos becos e saletas escuras como aquela para que um plano maldoso pudesse ser tramado sem interrupções?

As paredes e o chão eram negros e a sala não tinha mais do que uma mesa como parte da mobília. Não tinha nem mesmo cadeiras para que os presentes pudessem se sentar, e Arlequina bem queria um pouco de descanso no momento. Era muito semelhante a uma sala de interrogatório de uma delegacia qualquer, mas ela duvidava de que estivessem mesmo em uma delegacia, já que não era comum que civis comuns, como policiais, aceitassem numa boa que o exército americano agora lidasse com os antigos e principais vilões que a cidade já teve. Nem mesmo o fato de eles terem uma microbomba acoplada à cabeça, pronta para explodir ao menor sinal de traição, tornava a presença da Força Tarefa X algo mais aturável.

Culpada do julgamento!, Arlequina pensou e riu.

— O que foi isso que você nos trouxe, Arlequina? – perguntou Amanda, apoiando as mãos sobre a mesa. Arlequina achava curioso que a mulher não tivesse curiosidade de apanhar o aparelho, como se temesse que ele fosse explodir ao seu toque.

— Ah, esse brinquedinho? – Aproximou-se e tornou a apanhá-lo. – Sempre achei que o Batman fosse desses super-heróis que prezam pelo estilo e trabalham com tecnologia de ponta, mas, dessa vez, ele me surpreendeu! – Encostou o aparelho na têmpora quando disse: – Era através desse walkie talkie que o Batman fazia contato com o Sr. Willfried.

Amanda a contemplava como se esperasse um pouco mais de informação. Arlequina soltou todo o ar do pulmão em um único sopro frustrado antes de dizer:

— Eu também esperava que eles usassem iPhones ou algo do tipo, mas nem por isso estou tão decepcionada assim!

— Eles não se encontravam – foi o que a chefe do Esquadrão disse.

— Ah, não, não é uma pena? Segundo o Willfried, que é um cara muito bacana e narigudo, eles só se viram uma vez, e foi quando ele ganhou esse souvenir. – Lançou-o para Amanda na esperança de acertar a ponta do seu nariz, e teria sido muito bem sucedida se a vítima não pensasse tão rápido quanto ela. – Depois disso, só se comunicavam através disso.

— Que decepcionante – Pistoleiro opinou.

— Não é? Se fosse para eu ter uma amizade com o Batman, eu gostaria que ele aparecesse em casa pelo menos algumas vezes para um chá com biscoitos! Esse é o mal da atual geração, que não gosta mais dessa coisa “olho no olho” que tínhamos antigamente...

— Isso é péssimo! – disse Amanda com uma voz seca, impossível de sobrepor.

— Então faça melhor da próxima vez! – disse Arlequina e cruzou os braços, irritada.

— Não foi o que eu quis dizer. O rádio comunicador é de grande ajuda, e fico feliz que você tenha se preocupado em trazê-lo. O problema é que, se Willfried não costumava se encontrar com o Batman ou com quem quer que seja a pessoa por baixo da fantasia de morcego, não vamos conseguir atraí-lo.

— A menos que usemos o rádio também – disse o Pistoleiro.

— Hum, temos um problema aqui! – Arlequina riu com nervosismo antes de revelar: – Willfried disse que o Batman não costumava dar respostas, a menos que fosse ele a pessoa que fez a ligação. Então não sei se, ao usar o rádio para contatá-lo, ele vai nos responder.

— Mas em algum momento ele vai tentar usar o rádio, não vai? – disse El Diablo com sua voz cavernosa.

— Oh, eu já tinha me esquecido de que você estava aqui! – disse-lhe Arlequina aos risos.

— Ele vai – disse o Pistoleiro. – Willfried certamente não foi contatado uma única vez, senão não teríamos tantas...

— OK, há um elefante enorme nessa sala e parece que sou o único a notá-lo! – Capitão Bumerangue interrompeu, o que Arlequina considerou ousado, pois podia ver que o Pistoleiro tinha uma arma e que não teria medo de usá-la, se sentisse a necessidade. – Por que iríamos atrás do Batman? Será que sou só eu que acha irônico que nós, que fomos jogados na cadeia por ele, de repente tenhamos interesse em saber do seu paradeiro?

Arlequina podia ver que Bumerangue não estava tão bem informado quanto o restante do grupo, e isso a divertia.

— Não tem lido os jornais ultimamente, Capitão? – Amanda perguntou num tom ameaçador.

— E algum de vocês leu? Quem ainda lê jornal hoje em dia? E é engraçado você me perguntar isso, porque, na minha cela, não havia nada com o qual eu pudesse me informar, a menos que a câmera de segurança começasse a falar comigo.

— O Batman enlouqueceu – Arlequina deixou escapar, os olhos arregalados de fascinação.

— E o que você sabe sobre enlouquecer, Arlequina?

— Ele invadiu a Escola Primária Hope’s Garden. Explodiu a porta da frente e usou uma bomba de gás para derrubar qualquer adulto que pudesse estar em seu caminho. É tão típico dele, não é? Evitar a morte alheia. – Riu ao pensar na ironia do seu relato. – Ou pelo menos assim era.

— O Batman foi responsável por uma das maiores chacinas acontecidas em Gotham nos últimos anos, um ato de tamanha crueldade, sem precedentes, nem mesmo quando analisamos os atos dos quais vocês foram capazes – disse Amanda e se voltou para El Diablo quando acrescentou: – Nem mesmo os seus, no alto da sua ira. – E então voltou-se para Arlequina. – E nem mesmo os dele.

— Eu sei de quem você está falando! – Arlequina disse com animação, embora, por um instante, tivesse sentido uma pontada de angústia.

— Ele matou as crianças da escola? – Bumerangue questionou. Pelo jeito como seus lábios tremiam, descobrir aquilo não lhe fora tão divertido quanto fora para Arlequina.

— Uma a uma – disse Pistoleiro, usando a própria pistola numa encenação do que seria atirar na cabeça de cada uma das crianças. – Como porquinhos num abate.

— Mas isso...?

Bumerangue interrompeu o que tinha para falar e se jogou em uma gargalhada histérica e contagiante que fez com que Arlequina lhe direcionasse um olhar atencioso. Ao final de um minuto, ainda estava rindo, e isso fez com que Arlequina começasse a rir também, segurando a barriga como se não pudesse se conter.

— Já chega! – Waller exigiu.

— Fazia tempo que eu não dava uma risada gostosa como essa! – disse Arlequina e lançou uma piscadela pra Bumerangue.

— E por que diabos ele faria algo assim? – Bumerangue voltou a perguntar. Os olhos estavam molhados de lágrimas de riso.

Arlequina levou o indicador ao lábio inferior e fechou a boca num “O” de dúvida. Não sabia a resposta para aquela pergunta, e podia ver que tanto o Pistoleiro quanto El Diablo e Amanda Waller também não a conheciam.

— Ninguém sabe – foi o que Amanda disse, no entanto. Retomara a pose de poder com as mãos apoiadas na mesa, como se quisesse causar um efeito na conversa com isso. – Não é engraçado? O Batman, o Cavaleiro das Trevas, que passou todos esses anos livrando senhorinhas indefesas de assaltos na madrugada, um dia acorda, invade uma escola e tira a vida de centenas de crianças a sangue frio.

— Não é a atitude típica de um herói.

— Acho que, a essa altura, os principais desenvolvedores de dicionários de língua inglesa estão quebrando a cabeça para saber como descrever a palavra “herói” em uma próxima edição – disse Amanda e sorriu com a própria piada. – O Batman era a única salvação ética que Gotham tinha para os casos mais extremos. Agora, tudo o que temos são...

SOMOS NÓS! – disse Arlequina mais alto do que pretendia, sacudindo os braços no ar.

— Os piores vilões de Gotham – o Pistoleiro acrescentou.

— É uma virada e tanto, vocês não acham? – disse Bumerangue, ainda com um resquício de riso na voz. – As presas indo atrás do predador! Nem todo o tempo que tive para pensar em hipóteses na cadeia me preparou para isso!

— Vocês não têm escolha – Amanda lembrou. – E são as únicas armas de que o governo dos Estados Unidos dispõe. Não trabalharão por livre e espontânea vontade, eu tenho completa ciência disso, mas ainda assim serão capazes de fazer qualquer que seja o trabalho sujo necessário para colocarmos as mãos no Batman.

— Eu sempre quis saber se todos aqueles músculos são reais, mesmo... – Arlequina comentou em voz alta, embora pudesse jurar que estivera só pensando.

— Terão todo tipo de recurso de que precisarem às mãos. É uma questão de segurança nacional, e o Batman precisa ser encontrado.

— E o que pretende fazer quando encontrá-lo? Jogá-lo na cadeia? – Bumerangue perguntou em tom irônico.

— Temos algo reservado para ele.

— De fato, os tempos mudaram, Srta. Waller...

Senhora, para você – disse a comandante e mostrou a aliança de casamento em seu anelar esquerdo. – Não há mais heróis entre nós, Força Tarefa X. Os conceitos de certo e errado se perderam. O único objeto de estudo que se tinha sobre valores éticos e morais, o único mito com o qual a população já conviveu, se perdeu. A história, a partir de agora, vai ser reescrita.

— Com vilões fazendo a coisa certa— disse o Pistoleiro e riu.

— Não sei se estamos fazendo a coisa certa, mas algo precisa ser feito. Batman precisa ser punido, antes que mais crianças inocentes sejam assassinadas sem nenhum motivo aparente. – Amanda varreu os presentes com seu olhar poderoso e concluiu: – Terminamos por aqui.

— Finalmente! Eu já não estava mais aguentando de vontade de fazer xixi! – disse Arlequina e empurrou o Pistoleiro para o lado, rompendo sala afora.

Notas finais
Abram espaço pra Arlequina passar!