Após se apresentarem, Wandinha e Enid começaram a tomar café da manhã juntas em uma mesa da cafeteria no estilo francês. Wandinha encarou Enid com seu olhar penetrante, tentou sorrir com sua expressão inexpressiva e disse, em um francês impecável:


— Bon appétit, ma chérie!


— Thank you very much, minha trevosa linda! — respondeu Enid, sorrindo alegremente e se atrapalhando no inglês.


— Você deveria responder “Merci beaucoup, ma chérie”, mas tudo bem… não sou sua professora de francês, minha nuvenzinha colorida. — disse Wandinha, séria.


— Tá bom, né! Então vamos comer, trevosa linda do coração! — respondeu Enid, animada.


Enquanto Enid dava a primeira mordida no seu misto quente, Wandinha realizava uma coreografia quase sobre-humana: com a mão direita lia o livro, com a esquerda pegava o café, tomava um gole, pegava o frasco de pimenta malagueta e acrescentava ao misto quente, mordendo depois, e repetia a sequência com precisão. Fascinada, Enid perguntou:


— Como você faz isso?


— Isso o quê? — respondeu Wandinha, sem tirar os olhos do livro.


— Como consegue ler e tomar café ao mesmo tempo, trevosa linda?


— É questão de treinar coordenação motora e concentração — disse Wandinha, dando um gole no café. — Aprendi a comer assim com meu pai, Gomez, o maior espadachim e duelista que já existiu em todas as cortes europeias.


Enid deu um gole em seu frapê de manga, mastigou um pedaço do misto quente e continuou curiosa:


— Pelo jeito que você fala, Trevosa Linda, você não é daqui do Brasil, né?


— Não sou, nuvenzinha colorida — respondeu Wandinha, mordendo o pão.


— Então de onde você é? — Enid perguntou, curiosa.


— Sou da cidade de Salem, Massachusetts…


— Nossa, Trevosa Linda! Que chique! Então você é americana! — exclamou Enid, surpresa.


— Não me considero muito americana. Quando nasci, como vocês dizem, os Estados Unidos ainda eram mato! — disse Wandinha, virando a página do livro com a mão direita enquanto segurava o café com a esquerda. — Pela fonética de seu nome, que lembra sobrenomes franceses e canadenses, você deve ser de origem franco-canadense, estou certa, minha nuvenzinha colorida?


— Nossa, que viagem, Trevosa Linda! Na verdade, sou de Potirendaba, perto de São José do Rio Preto, em São Paulo — respondeu Enid, rindo.


— E a origem do seu lindo e estranho nome, nuvenzinha colorida? Por que seus pais escolheram esse nome? — perguntou Wandinha, fazendo uma pausa na leitura.


— Ops! Esqueci de dizer meu nome completo! Sempre dá confusão… Foi mal! Me desculpe, Trevosa Linda! — disse Enid, envergonhada, levando a mão à testa.


— Então qual é seu nome inteiro, nuvenzinha colorida? — indagou Wandinha, um pouco impaciente.


Enid suspirou, abaixou a cabeça, apoiou as mãos debaixo da mesa e disse:


— Maria Antônia Enid Sinclair Pereira! É gigantesco, né? Nem cabe no meu RG! Pode rir!


— Por que iria rir de um nome tão lindo e estranho como o seu, minha nuvenzinha colorida? — respondeu Wandinha, tentando demonstrar empatia.


— Nossa, Trevosa Linda! Você é a primeira pessoa, além dos meus pais, que acha meu nome lindo! — disse Enid, sorrindo discretamente, antes de desabafar: — Na escola, todos tiravam sarro. Diziam que meu nome era de princesa sem noção e, quando comecei a me assumir, me chamavam de princesa sapatilha usada.


— Eles eram tolos! Seu nome tem ecos aristocráticos, apesar de estranho. Tenha orgulho dele, nuvenzinha colorida — disse Wandinha, dando uma mordida no misto quente.


— Obrigada, Trevosa Linda! — disse Enid, sorrindo, com uma lágrima escorrendo pelo rosto.


— Agora posso fazer duas perguntas? — perguntou Wandinha.


— Sim! Pode sim! — respondeu Enid.


— Primeiro: de onde surgiu a ideia de seus pais te chamarem de Enid? Segundo: por que seus colegas te chamavam de sapatilha?


Enid respirou fundo, sorriu e começou a contar:


— Meu nome vem de um antigo seriado americano, de uma moça que virava lobisomem e resolvia mistérios com uma turma de góticos em uma escola sinistra. Meus pais eram fãs e me deram o nome em homenagem à personagem.


— Muito interessante, nuvenzinha colorida.


— É mesmo, Trevosa Linda! Mas antes de responder à segunda pergunta, quero saber o significado do seu nome. — disse Enid, curiosa.


— A história do meu nome é longa, complexa, inacreditável e muito triste. Vou te contar uma versão resumida: é homenagem à minha irmã mais velha, Wanda, morta por fanáticos religiosos. O dia em que fui adotada foi uma quarta-feira, Wednesday em inglês, e Addams é o sobrenome do meu clã, agora quase extinto.


Após o desabafo, Enid, tomada por compaixão, empatia e amor, segurou a mão fria de Wandinha, apertou forte e olhou em seus olhos:


— Sinto muito, Trevosa Linda! Você não está sozinha neste mundo! Estarei sempre ao seu lado!


— Obrigada! — sussurrou Wandinha, emocionada.


— Suas mãos são frias, mas seu coração é quente. Por isso gosto tanto de você, Trevosa Linda! — disse Enid.


Quando Enid terminou sua confissão, Wandinha percebeu que estavam sendo observadas por uma jovem estranha, vestida com roupas de época, sentada no fundo da cafeteria. Wandinha se preparou, percebendo que seu romântico café da manhã poderia se transformar em uma batalha silenciosa de amor… e ciúmes.