Wandinha e Enid: Crepúsculo Sombrio
7 Chá, Ciúmes e Cartas de Sangue
Ao atravessar rapidamente o portal energético transportador, Wandinha e Mãozinha encontraram-se na ampla sala de visitas do Château Addams, um antigo e sombrio castelo francês de estilo barroco, magicamente transportado para uma dimensão fantasmagórica décadas atrás.
Wandinha tirou a mochila das costas, a pendurou no cabideiro e, com olhar perdido, encarou uma poltrona de encosto alto em juncos negros trançados, parecendo o trono de uma antiga rainha.
— Mamãe… saudades da minha pomba sombria! — sussurrou tristemente.
Virou-se para a esquerda, onde uma antiga máquina de fita de ações repousava sobre um pedestal de madeira:
— Papai… que falta fazem seus conselhos agora.
À direita, uma dama de ferro medieval, usada para torturas, e uma cadeira elétrica coberta de teias de aranha evocavam lembranças macabras:
— Meu irmão e meu tio… saudades das nossas pequenas brincadeiras!
Por fim, um órgão de igreja macabro encostado na parede com uma vassoura próxima despertou outro suspiro:
— Minha avó e meu assustador Tropeço… eram o horror da família, saudades também!
Mãozinha, no ombro de Wandinha, gesticulou tristemente.
— Que situação bad, minha amiga!
— É a vida… C’est la vie! — disse Wandinha, segurando com dificuldade uma lágrima.
Uma voz suave surgiu atrás dela:
— És tu que sussurra tristemente, minha amada imortal?
— Quem mais seria, mon amour! — respondeu Wandinha, virando-se.
Agnes apareceu carregando uma bandeja de prata com chaleira, três xícaras e uma pequena travessa de biscoitos.
— Triste demais, minha amada… também sinto falta dos meus sogros e do meu cunhado! — disse Agnes, mudando o tom rapidamente.
— Estás atrasada como sempre, ma chérie!
— Tive um contretemps, minha querida!
— Com certeza este contretemps envolveu os abraços e beijos da meretriz do Pigalle, mon amour!
— Agora não, meu amor ciumento! — respondeu Wandinha seriamente.
— Podes ficar tranquila, minha amada imortal. Temos a visita da nossa querida amiga, a senhorita Barclay, e não quero estragar este momento formal com uma celeuma… apesar de tu merecer sentir a minha ira hoje! — disse Agnes, sorrindo ironicamente.
— Depois que nossa querida amiga se for, prometo que faremos as pazes, mon amour! — disse Wandinha com um sorriso confiante.
— Veremos, mon amour! — respondeu Agnes, erguendo a cabeça e levando a bandeja ao fundo da sala.
— Vocês duas não têm jeito mesmo, né, gótica da Shopee! Deviam ir imediatamente para o CAPS, suas doídas! — gesticulou Mãozinha ironicamente.
— Se comportar na frente da senhorita Barclay, senhor Mãozinha! — repreendeu Wandinha, séria.
— Vixe! Hoje você está com humor do cão também, gótica de Taubaté! — continuou Mãozinha.
Seguindo Agnes com a bandeja de chá, Wandinha a acompanhava com Mãozinha no ombro, até uma jovem admirar um estande com uma roupa japonesa e uma katana. Ela usava blazer roxo escuro, camisa social preta, calça de linho roxa, sapatos pretos, maquiagem discreta e joias sutis.
— Bienvenue, Mademoiselle Barclay — disse Agnes, em francês polido, sorrindo e mostrando a bandeja.
— Thanks, Miss DeMille! — respondeu Bianca com um sorriso.
— Poderia nos acompanhar até o sofá para contar as novidades da corte sombria de Versailles, enquanto desfruta deste Green Tea quentinho e meus deliciosos cookies caseiros, Mademoiselle Barclay? — continuou Agnes.
— Será um prazer! — disse Bianca, ainda olhando para o memorial de Yoko Tanaka com nostalgia.
— Gostei muito que tenham feito um memorial para nossa amiga… ela era a melhor de nós! — sussurrou Bianca tristemente.
— Era o mínimo que eu podia fazer para minha sempai! — disse Wandinha, cabisbaixa.
— Até hoje sinto falta dos nossos saraus e das conversas nos salões do palácio de Yoko em Kyoto — suspirou Agnes, saudosa.
— Bons tempos, minhas amigas — disse Bianca, com uma lágrima escorrendo.
Guiadas até os sofás antigos, Bianca sentou no menor, enquanto Agnes e Wandinha ocuparam o maior. Mãozinha, ágil, preparou o chá e os biscoitos com gestos graciosos, servindo Bianca cuidadosamente.
— Quantos torrões de açúcar, GOAT? — perguntou Mãozinha.
— Um, senhor Mãozinha! — respondeu Bianca.
— E quantos biscoitos? — continuou ele.
— Dois, meu amigo! — disse Bianca.
— Dois biscoitos no capricho para minha GOAT! — concluiu Mãozinha, entregando a bandeja.
— Isto que é classe, bem diferente das duas cavalas imortais que dividem o teto do meu barraco — murmurou Mãozinha.
— O que disseste, seu desavergonhado? — reagiu Agnes, nervosa.
— Duas cavalas! — provocou Mãozinha.
— Como ousa dizer isso na frente de Mademoiselle Barclay, seu malcriado! — exclamou Agnes, apontando o dedo.
— Querem parar com este vexame agora? — interveio Wandinha.
— Mãozinha, castigo. Agnes, se acalme, ou sem biscoito, leite quente, historinha e cafuné por um mês! — decretou Wandinha.
— Sim, senhora! — responderam Agnes e Mãozinha simultaneamente.
Agnes voltou a se sentar, tomou o chá, mas a tensão ainda pairava. Wandinha, então, perguntou a Bianca:
— Então, quais as novidades da corte sombria de Versailles?
— Antes de tudo, quero saber como vocês vivem no Brasil — disse Bianca, interessada.
— Mal cheguei nestas terras tropicais e já encontrei minha amada imortal cortejando uma meretriz do Pigalle, mon amour! — cortou Agnes, furiosa.
— Não é educado falar de nossas intimidades para as visitas! — repreendeu Wandinha.
— Sua intimidade, não a minha! — rebateu Agnes.
— Tu a seguraste pela mão e disseste juras de amor bem na minha frente! Que ódio!
— Mas não fui eu que a beijei na boca, mon amour! — respondeu Wandinha, séria.
— O beijo foi tão longo e ardente que coitada da Sinclair sentiu o gosto do teu hálito!
— Como ousa, indecente! — ameaçou Agnes.
— Precisas melhorar a higiene bucal, pois reclamou muito, ma chérie! — disse Wandinha, ternamente.
Quando Agnes se preparava para dar um tapa, Bianca interveio autoritária:
— Querem parar com esse espetáculo de ciúmes sem noção agora?
— Sim, Mademoiselle Barclay — responderam em uníssono.
— Excelente! Agora podemos conversar como adultas civilizadas.
— Antecipando o mais urgente: o assassinato do Sultão Shahriar.
— O quê? — exclamou Wandinha.
— Sim. Ele foi mortalmente ferido pela esposa, a princesa Scheherazade, há três dias.
— Mas… como? Ele era um dos mais antigos imortais! — disse Agnes, assustada.
— Tudo indica que o assassinato foi cometido com um sabre do leste europeu.
Assustada, Agnes derrubou a xícara e o silêncio sepulcral tomou o Château.
— Mas… como sabem que foi uma assassina? — perguntou Wandinha.
— Elementar, minha cara… a assassina deixou uma carta endereçada a você, Miss Addams.
— O quê? — perguntou Wandinha, intrigada.
— Sim… Baronesa Hilda Von Stein, mon amour! — disse Wandinha, e o horror do passado congelou a sala.
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