Wandinha e Enid: Crepúsculo Sombrio

5 A galeria de arte das sombras e luzes


Saindo da cafeteria francesa onde havia tomado um café da manhã tão romântico quanto desastroso com sua nova amada, Enid, Wandinha dirigiu-se até sua moto — uma MV Agusta F4 Claudio, personalizada nas cores negro e vermelho sangue.

Carregava uma sacola plástica com dois croissants de Romeu e Julieta. Antes de partir, virou-se para olhar Enid limpando as mesas e, com um leve suspiro, leu o letreiro em voz alta:


— “Cafeteria Francesa do Sr. Pereira.”

— Mon Dieu! Que nome terrível para um café no estilo parisiense! Devo aconselhar minha amada Enid a trocar isso imediatamente.


Colocou os croissants na mochila, ajustou o capacete negro e ligou a moto. O ronco do motor ecoou pela rua da pequena e pacata cidade do interior paulista chamada São Lourenço do Roncador.


Enquanto pilotava, Wandinha observava as construções locais — impressionantes casas em estilo enxaimel, que lembravam a arquitetura da região da Alsácia, ao norte da França: fachadas coloridas, telhados pontudos e janelas de madeira pintadas com charme europeu.

Por um instante, sentiu-se novamente cavalgando pelas ruas da velha França do século XVII, não sobre uma moto moderna, mas sobre seu antigo garanhão das eras passadas.


De repente, ouviu um grito vindo da calçada:

— Filha do demônio! Sedutora de mulheres! Prostituta da Babilônia! Cria do Capeta! Sai da cidade!


Wandinha apenas bufou e murmurou:

— Como dizem os brasileiros... “Tava demorando pra isso acontecer, né?”


Chegou enfim diante de sua imponente mansão de três andares, construída também em estilo enxaimel, pintada de amarelo, com janelas vermelhas e telhados verdes. No térreo, funcionava sua galeria de arte.

Após estacionar, tirou o capacete e olhou discretamente ao redor. Estava sozinha. Então começou a recitar um antigo cântico celta, dançando lentamente — e sua moto, em resposta, começou a desaparecer no ar até sumir completamente.


Em seguida, Wandinha entrou na galeria:

— Bonjour, mademoiselle Vetrova!


Uma jovem alta, loira e pálida, com camiseta do Nirvana, jeans e tênis vintage, respondeu em russo:

— Dobroye utro, Miss Addams!


— Como você está? — perguntou Wandinha, com voz seca.

— Tirando o fato de estar morta há mais de cinco anos, estou bem. E você?

— Tirando o desastre do meu café da manhã romântico com a senhorita Sinclair, também estou, Natália.


— Foi a senhorita DeMille outra vez?

— Como dizem os brasileiros: bingo, senhorita Vetrova.


Natália riu.

— Ela não te dá um minuto de paz. Como você aguenta isso?

— É que, no fundo, sou muito apaixonada pela senhorita DeMille — disse Wandinha, disfarçando o suspiro.


— E depois dizem que são as eslavas que enlouquecem nos relacionamentos... as francesas não ficam atrás!

— Não sou francesa de nascimento, mas sou francesa de alma — respondeu Wandinha, suspirando. — Nasci nos Estados Unidos.


— Piorou! — provocou Natália, rindo. — Meu avô sempre dizia: “As mulheres do império capitalista são belas por fora, vazias por dentro.”


— Isso não é verdade.

— Claro que é! Olhe o destino de Marilyn Monroe, Gia Carangi, Amy Winehouse... todas vítimas de um sistema que transforma mulheres em mercadoria quando o que elas precisavam era amor, empatia e respeito.


Wandinha a abraçou com ternura.

— Se você não tivesse morrido naquele acidente, mudaria o mundo, minha amiga.


Natália sorriu entre lágrimas.

— Melhor parar de me abraçar, senão mancha sua reputação de gótica fria como os ventos da Sibéria.


Riram juntas. Wandinha então perguntou:

— O que aconteceu na galeria durante minha ausência?


Natália pegou um caderno de couro dourado sobre uma mesa com bustos de rainhas francesas e começou a ler:

— Hoje às oito e meia, recebemos uma ligação de um escritório de decoração do Rio de Janeiro. Querem dois quadros do fim do século XIX para o saguão do Copacabana Palace.

— Diga que enviaremos esta semana. Temos um bom estoque dessa época.

— Querem franceses, alemães ou russos?

— Pergunte. E lembre-se: os franceses valem o dobro. O preço mínimo é quinhentos mil euros.


— Khorosho, Miss Addams — respondeu Natália, anotando.

— Às nove e quinze, recebemos uma mensagem no Instagram: uma cantora famosa agradecendo as estátuas entregues há quinze dias.

— Aquela que veio aqui no início do mês?

— Ela mesma.


— Ficou mais encantada comigo do que com as esculturas — provocou Wandinha.

— Ainda bem que sou imune ao seu charme. Meu negócio é outro — respondeu Natália, com um sorriso malicioso.

— Ninguém é perfeito — replicou Wandinha, séria.


— Ah, e essa cantora convidou você e a senhorita DeMille para um jantar íntimo em Alphaville.

— Diga que agradeço, mas recuso. Agnes não está... em condições de jantares amigáveis este mês.


Natália riu.

— Fez bem. Um jantar íntimo a três seria perigoso...

— Extremamente. Poderia terminar como o banquete dos Bourbon em 1793 — disse Wandinha, nostálgica. — Eu estava lá quando Luís XVI perdeu a cabeça.


— Aff! Franceses... sempre querendo ser melhores até nos massacres! — zombou Natália.


Antes que Wandinha respondesse, Natália ergueu a mão, séria.

— O que foi? — perguntou Wandinha.

— Meus sentidos fantasma... A corte sombria de Versailles está aqui.

— Quem veio desta vez?

— A senhorita Barclay. Já está com a senhorita DeMille.


— É melhor eu descer antes que Agnes conte tudo sobre meu desastre matinal.

— Vá, rápido! Ela já começou a narrar o escândalo com sotaque francês de teatro! — zombou Natália.


— À bientôt, mon ami!

— Uvidimsya, moy drug! — respondeu a russa, sorrindo.


Wandinha atravessou a galeria e abriu uma porta marrom adornada por rosas douradas. Subiu rapidamente as escadas até o segundo andar — um corredor de pedra, chão de palha e tochas acesas. No final, um portão de metal dourado decorado com serpentes, morcegos e rosas.

Fechou os olhos, recitou um antigo cântico egípcio e, com um gesto das mãos, viu o portão se abrir para revelar seu lar: um reino de mistério, poder e sombras.