Ao ouvir a terrível notícia do retorno da infame Baronesa Hilda Von Stein, Agnes deixa cair a xícara de chá que tinha entre os dedos. A porcelana se espatifa sobre o tapete medieval, mas ela não parece ouvir o som — os olhos arregalados, a voz trêmula, como se falasse com espectros.


— Mon Dieu! C’est impossible! Naquele dia de 1944, na Torre Eiffel, eu teletransportei aquela meretriz prussiana vil para o abismo submarino da Fossa das Marianas!


Wandinha aproxima-se com calma, segurando as mãos da companheira com delicadeza sombria.


— Calma, mon amour. Você estava fraca quando conjurou o portal que a enviou da Torre Eiffel. — diz com voz baixa, firme — Talvez tenha cometido um erro no destino do transporte. Pode ter enviado Hilda para outro lugar.


Agnes nega com veemência, o olhar firme.


— Minha querida companheira, eu tenho certeza absoluta do que fiz! — declara — Graças aos meus dons sobrenaturais, observei quando a meretriz prussiana foi tragada por um terrível leviatã, semelhante ao lendário Kraken, logo após surgir na Fossa das Marianas.


Bianca, que observava em silêncio, inclina-se à frente.


— Tem absoluta certeza disso, Miss DeMille?


— Absoluta, mademoiselle Barclay. — responde Agnes, um sorriso discreto surgindo — Nunca senti satisfação maior do que vê-la encontrar tal destino, antes de eu desmaiar de exaustão pelos dois portais que conjurei.


Bianca arqueia uma sobrancelha.


— Dois portais?


Antes que Agnes responda, Wandinha assume a fala.


— Tivemos ajuda do bode Tanngrisnir, enviado diretamente de Asgard, para empurrar Hilda para dentro do portal... se é que me entende, mademoiselle Barclay.


Bianca enfim se levanta, pega outra xícara, serve-se e retorna ao sofá. O olhar distante, a voz carregada de lembranças.


— Eu lembro daquele dia... — suspira — Além dos nazistas, lutamos contra ghouls, construtos mecânicos a vapor, oculares voadoras e todo tipo de aberração infestando Paris...


— Foi um pesadelo, mademoiselle Barclay. — interrompe Wandinha, arrependida pelo corte brusco.


— E o pior, — continua Bianca — foi ouvir telepaticamente a reclamação de um deus Aesir chamado Thor, furioso pelo sumiço de um de seus bodes.


Agnes baixa a cabeça, envergonhada.


— Je suis désolée, mademoiselle Barclay...


— Desculpas aceitas. — responde Bianca, com rigidez militar — Mas tivemos que procurar o bode pelas ruas destruídas de Paris! Eu, Jean Pierre, Lucien, as irmãs Durvall, o Sultão Shahriar e a Princesa Scheherazade… todos atrás do animal!


Wandinha reage com um sorriso culpado.


— Posso imaginar o inferno que foi.


Bianca gira a xícara nas mãos.


— Encontramos o bode quase sendo abatido por civis famintos no Jardin des Tuileries.


— Mon Dieu! — exclama Agnes — Conseguiram salvar o pobrezinho?


— Por sorte, sim. Se ele tivesse virado jantar, enfrentaríamos outra guerra — mas com os germânicos divinos, desta vez.

--- Graças a Deus que não aconteceu nada com o pobrezinho, mademoiselle Barclay ! Disse Agnes fazendo um sinal de gratidão para o céus.

Agnes suspira aliviada e recolhe os cacos de sua própria xícara, pondo-os na bandeja de prata. Oferece mais chá.


— Excusez-moi. Gostariam de outra xícara?


— Yes, I would like some more tea, Miss Agnes. — aceita Bianca.


Wandinha, porém, recua levemente.


— Désolé, mon amour… Hoje não tenho ânimo para chá.


Agnes serve Bianca com elegância quase cerimonial. Depois se senta ao lado de Wandinha, a voz suave.


— Não há nada melhor do que um chá vespertino em companhia tão agradável.


Bianca sorri, mas logo retoma o tom sério.


— Agora… vocês têm mais algo a me dizer sobre aquele dia? Sobre Hilda Von Stein?


— Temos. — respondem Wandinha e Agnes em uníssono.


O ar se torna denso. Bianca inclina-se, cruza os braços.


— Então fale, Miss Addams.


Wandinha respira fundo.


— Primeiro… peço desculpas por omitir detalhes. Achávamos que, com a queda de Hilda, o passado morreria com ela.


Bianca mantém-se imóvel, ouvindo.


— Agora, revelarei duas informações cruciais sobre o que ocorreu no alto da Torre Eiffel, em vinte de agosto de 1944.


— Continue. — ordena Bianca, dura como aço.


Wandinha encara-a com seriedade.


— O verdadeiro motivo pelo qual Hilda assassinou o comandante nazista Dietrich von Choltitz, tomou o comando das tropas e invocou monstros abissais… foi uma demonstração de amor. Para me seduzir. Para me possuir.


Agnes explode, nervosa, derrubando novamente a xícara.


— Foi para seduzir minha amada! — ruge — Aquela meretriz prussiana vil desavergonhada!


Bianca se volta para Wandinha.


— Miss Addams… é verdade?


— É. — admite Wandinha com vergonha — Hilda tentou me seduzir por séculos.


Agnes aperta os punhos, cheia de fúria contida.


— Mandei aquela destruidora de lares para os braços frios do leviatã. E faria de novo!


Wandinha segura sua mão.


— Sou eternamente grata, mon amour.


Bianca pigarreia, impaciente.


— A segunda informação, Miss Addams?


Wandinha continua.


— Após rejeitar Hilda, duelamos. E quando Agnes teletransportou os aviões da Luftwaffe para o período Cretáceo, causando ironicamente a extinção dos dinossauros...


Bianca arregala os olhos.


— Você está dizendo que Miss DeMille extinguiu os dinossauros?


— Infelizmente — ou felizmente — sim. — confirma Wandinha.


Agnes ergue o queixo, orgulhosa.


— Nunca suportei aquelas bestas antediluvianas!


Bianca ainda está chocada quando Wandinha conclui, a voz baixa, misteriosa:


— Mas houve algo mais… Quando Hilda ia me matar com o sabre, uma figura fantasmagórica surgiu. Uma jovem. Distraiu Hilda tempo suficiente para Agnes abrir os portais.


Bianca se inclina, fascinada.


— E você sabe quem era essa aparição?


Silêncio.


Então Wandinha declara:


— Enid Sinclair. Uma mortal. Minha salvadora.


O castelo silencia. As paredes parecem prender o fôlego. Nenhuma das três ousa se mover.


A revelação ecoa como um trovão.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.