Waldosia

1 Capítulo Único


Notas iniciais
OLÁ A TODOS E TODAS!!! ^^ Há tempos que não post uma original, então espero que gostem!!!

Fumar um cigarro, sentado com as costas na porta de casa, ao fim da tarde silenciosa, era um de seus passatempos favoritos, até o dia que começou a ser acompanhado pela jovem ave que não voa. Não é de todo ruim, o jovem respeita seu silêncio após latir irritado para que fique quieto. Desse modo, segue observando a rua movimentada e as pessoas que passam.

"Ei, major!" Nunca entendeu o porquê desse apelido que recebeu do dia para a noite, mas gosta dele. "O que você tá sempre procurando? Eu posso procurar também".

Seus olhos ovalados lentamente se dirigem ao pequeno pássaro amarelo e suas orelhas se levantam em surpresa. Nunca imaginou que aquela jovem e estúpida ave tivesse percebido seu triste olhar buscante.

"Você não sabe, pintinho?" A sombra que os observava em segredo desce do telhado em um pulo gracioso. "Não me surpreende, você é muito novo, o velho major não teve a oportunidade de contar de novo sua história".

"Para".

"Sim, senhor". Responde travesso enquanto puxa para perto o maço de cigarros jogado à calçada.

"Eu quero saber, major!"

"Não. Você é muito novo".

"Eu já sou maduro! Olha só, eu até fumo com você todo dia! Como posso não ser maduro?!"

Suspira. O gato dá uma risadinha irônica enquanto assopra uma nuvem de fumaça para longe, o maldito tinha roubado seu cigarro, mas não se importa, ele próprio tinha roubado o maço de outro. Ladrão que rouba ladrão...

"Está certo, vou contar então".

"Quando eu ainda era um filhote, muitos anos atrás, tinha uma família humana diferente da atual. Dois adultos e duas crianças, que eram minhas melhores amigas. Passeávamos todos os dias, às vezes duas vezes ao dia, viajávamos juntos, jogamos bola, corremos, dormimos juntos, eu aprendi a fazer o que eles pediam como dar a pata e rolar na grama.

Eu os amava, eles eram tudo o que eu tinha, e eu sentia que eles me amavam também.

Um tempo se passou e eu cresci, as crianças também cresceram, já não tínhamos mais tanto tempo para brincar, mas ainda acontecia. Até que nasceu o terceiro filho do casal de adultos. Uma menininha toda vermelhinha e muito pequena. Depois que ela nasceu eu não pude mais entrar na casa que até então era minha. Eu não podia me aproximar para vê-la de perto que gritavam para que eu saísse. Passaram a deixar meus pelos sempre cortados o máximo possível.

Eu logo entendi que eu era um perigo para ela, mas não sabia o porquê, e eu nunca soube.

Um dia nós fomos passear de carro, a bebê não estava com a gente, então eu imaginei que fossemos brincar de novo como fazíamos, correr por aí, brincar de pegar o graveto, algo assim. Eu pensei que fosse ser um dia bom. Não foi.

A família que eu amava, jogou pela última vez o graveto no grande campo aberto que eu amava, e foi embora. Nunca mais os vi, mas eu ainda me lembro dos seus rostos e cheiros..."

As palavras se aglomeram em um bolo no fundo de sua garganta.

"Por isso, o major vive aqui sentado, se matando com esses cigarros baratos, olhando as pessoas com a esperança de ver algum deles uma última vez, é ou não é, major?" O gato, não entende apenas naquele momento o que o cão não conseguia falar, ele sabia, sempre soube, desde que ouviu aquela história sem final pela primeira vez e percebeu os olhos tristes que fitam incessantemente a movimentação da rua. Nunca para cima, para o céu, nunca para baixo, para as formigas, sempre para os rostos dos indivíduos.

"...Entendi! Você quer vê-los uma última vez para mostrar o quanto eles foram bobos! Estou nessa com você, major. Vou encontrá-los e fazer com que paguem! Como puderam abandonar o major?! ...Mas se eu fizer com que eles paguem você não vai ter sua vingança... Eu vou trazer eles para você então!" A ave gesticula com as asas enquanto pensa.

"E você por acaso sabe como eles se parecem?" Pergunta o gato, a feição do pássaro muda rapidamente de determinada para surpresa e logo desesperada, fazendo o gato miar uma risada.

"É verdade! Como eu vou achá-los?! Major, desenhe eles!"

"Não tenho polegares, não consigo desenhar".

"Droga, o que nós vamos fazer?!"

"Descreva eles então". Diz o gato.

"Isso! Como eram os pelos da cabeça?"

Os descreve o melhor que pôde, o pássaro repassa em voz alta as informações mais importantes que recebeu enquanto caminha com o cigarro no bico, imitando detetives de filmes antigos.

"Você é fiel demais. Para que querer ver esses otários de novo?"

Pensa por um momento enquanto coça o focinho, abre a boca para responder, porém a fecha novamente tornando a pensar.

"Eu não sei".

O felino suspira e empurra de volta o maço na direção do outro antes de pular de volta ao telhado e desaparecer na escuridão. Suas visões de mundo são inteiramente diferentes, o gato sempre soube disso, é algo óbvio visto que são um felino e um canino, uma magérrima criatura destinada à malandragem, noites de cantoria nos telhados e brigas sobre os muros, e uma pobre criatura destinada à viver sempre em terra rodeado de paredes e fidelidade cega.

"Pobre major..." Não havia nada que pudesse fazer, e tão rápido quanto sua piedade surge em seus bigodes, ela se vai, dando espaço a sua face orgulhosa de sempre, hoje tem um encontro marcado com a bela lua prateada.

O cão tem um detalhe que nunca contou àqueles que já ouviram sua história, originalmente morava em outro lugar, muito distante dali, tão distante que levaram muitos dias para chegar nessa nova casa de porta verde-mugo que tanto gosta de sentar em frente. O velho major olha para todos os rostos da multidão todos os dias, procurando pessoas específicas que não têm nenhum motivo para estar ali. Nunca estiveram e nunca vão estar.

Notas finais
Eu planejei para ser uma one-shot, mas gostei tanto que talvez transforme em uma longa algum dia... o que vocês acham?
Quaisquer críticas construtivas ou elogios serão muito bem aceitos na caixinha de comentários e respondidos com muito amor!! ^^ Obrigada por ler!

A.MareliS
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.