Waking Up
1 Made For You
Notas iniciais
A maioria das pessoas passa a vida em busca de alguém perfeito pra você, alguém que aceite as suas manias insuportáveis e que ame você pelo que você é, mas tem horas que essa pessoa demora tanto que as suas esperanças acabam indo embora com o tempo. Foi assim que aconteceu comigo e exatamente no momento que eu havia desistido descobri que havia sido feito para alguém.
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Eram nove horas da manhã quando Noah decidiu que deveria levantar, para um sábado aquela hora estava até “cedo demais”, mas tinha de admitir que passara tempo demais na cama. Ainda sentindo-se pesado e sonolento ele caminhou até o banheiro afim de tomar um banho e livrar-se da preguiça e tentadora vontade de voltar para cama, era meio idiota acreditar que aquela era sua concepção de superar, passar o dia dormindo e quando finalmente dormir cansa, levantar e tomar banho para passar o resto do dia trancado na casa que comprara em frente ao lago Farnborough, afinal o que ele estava fazendo com a sua vida? Onde ficara seu ânimo? Fitando-se no espelho ele encarou a figura de aparência cansada e pelo menos seis anos mais velha do que realmente era. A barba por fazer, os cabelos castanhos desalinhados, olhos inchados... Sim, ele estava horrível.
Um suspiro pesado e ele tirou o short que vestia entrando no boxe e abrindo o chuveiro, inicialmente o contato com a água causou-lhe um arrepio que logo cedeu lugar a uma sensação de despertar, ele fechou os olhos e deixou-se envolver por aquela sensação, começou a lembrar-se da adolescência, antes tivesse tido toda essa sensação de torpor naquela idade, talvez de certa forma tivesse facilitado as coisas, abrindo os olhos ele tentou livrar-se daqueles pensamentos incômodos e decidiu que naquele dia iria sair, ver pessoas, sentir o dia de claridade pálida e frio inconstante. Prendeu a toalha na cintura e saiu passando a mão nos cabelos molhados, olhou-se novamente no espelho e acariciou o rosto por um segundo, pegou o barbeador elétrico e fez a barba decidido de que a vida poderia ter cor novamente e tudo que ele precisava era de inspiração, sabia o lugar exato onde encontrar isso.
Passou pelo telefone no caminho para cozinha e viu que tinha 03 mensagens novas, apertou o botão enquanto caminhava para pegar uma maçã na geladeira:
- Oi Noah, é a Brooklyn tudo bem? Porque você não atende mais quando eu ligo? Eu sinto sua falta... Me liga de volta.
Com certeza não sente. Ele pensou enquanto apertava novamente o botão para a próxima mensagem:
- Noah, eu entendo que esteja chateado, mas caramba eu não mereço uma segunda chance?
-Sinceramente eu discordo. — Falou apertando o botão vermelho do aparelho novamente.
- E ai Noah meu velho? Caramba irmão você tá vivo? Eu deixei novecentos e-mails pra você parceiro, da um sinal de vida.
Noah caminhou para o quarto e trocou de roupa, colocou uma calça jeans escura, tenis, uma camisa pólo e por cima um sobretudo preto, como se passasse por um blecaute recordara-se porque caíra naquele abismo de solidão autoimposta: Brooklyn Hails. Noah Tedder era um dos mais conceituados escritores americanos, mas vira sua vida acabar quando sua até então noiva Brooklyn Hails foi flagrada na cama com seu melhor amigo Steveh Walson. Depois do ocorrido um escândalo explodiu na mídia e ele se mudou para a Inglaterra, mais precisamente a cidadezinha de Hampshire e tudo agora era passado, ele tinha a chance de voltar a escrever, sua editora entrara em contato há algumas semanas dando-lhe o prazo de noventa dias para apresentar uma nova ideia. Agora tudo de que Noah precisava era de algo para começar coisa que ele não havia procurado nas últimas semanas.
Saindo de casa, ele se deparou com o sol fraco e o frio convidativo daquela manhã de domingo, ele definitivamente adorava aquela primavera com cara de outono, um leve sorriso se formou em seu rosto enquanto caminhava pelas ruas cercadas de árvores, ao contrário dos Estados Unidos a Inglaterra era mais calma e de uma beleza arrebatadora, ele se dirigiu até um dos tradicionais cafés da cidadezinha e sentou em uma das mesas ao lado de fora, queria observar o movimento de pessoas caminhando, brincando com os filhos, andando abraçadas, sentadas em bancos lendo, queria ver a vida que ele pensava ter perdido há sete meses atrás.
- O que deseja senhor? — A garçonete loira com sotaque irlandês perguntou aparentemente indiferente.
- Um expresso, uma porção de croissant e uma fatia da torta tradicional da casa.
- Oh meu Deus! — Ela exclamou enquanto anotava o pedido e o olhava mais atentamente. — Você é Noah Tedder!
- Infelizmente... — Noah sussurrou mais para si mesmo que em resposta esperando já que ela começasse a enchê-lo de perguntas sobre o ocorrido no passado.
- Eu sou sua grande fã!
- É? — Ele perguntou surpreso que ela não tocasse no assunto de Brooklyn.
- Ta brincando? Um amanhecer para dois é o livro mais incrível que eu já li! Devo confessar que no começo pensei que você era uma mulher!
Noah riu.
- Obrigado.
- Ha quanto tempo está em Hampshire? Pensei que você não deixasse Nova Iorque nem em questão de morte.
- Estou aqui há duas ou três semanas.
- Está preparando algo novo? Nunca mais tive notícias suas na sua página oficial...
- Não soube das últimas notícias? — Noah parecia incrédulo.
- Sobre o que?
- Por acaso você não assiste televisão?
- Prefiro ler, televisão é um meio de alienação direto. Espero que possa autografar os meus livros.
Dizendo isso ela saiu com um sorriso no rosto, Noah ficou perplexo ali em sua mesa, ele mesmo quase entrara no último assunto sobre o qual queria falar e estivera o tempo todo recluso naquele apartamento para evitar perguntas de pessoas sobre o que acontecera, agora estava ali diante daquela jovem alheia a qualquer coisa sobre sua vida pessoal e sua colocação sobre a mídia deixou-o intrigado e encantado ao mesmo tempo. Tirando um caderno do bolso ele se pôs a escrever, por um segundo foi tomado novamente por aquela sensação de estar perdido em meio as palavras que saíam tão facilmente quanto seu respirar, e havia tempo que ele não se sentia tão a vontade para escrever daquela forma estava tão imerso em seus pensamentos e palavras que não reparou quando ela voltou com seu pedido. Erguendo a cabeça Noah pôs-se a observá-la com mais atenção, era de estatura mediana, longos cabelos bronze presos em um rabo de cavalo, olhos intensamente verdes e lábios cheios que lhe davam um ar ao mesmo tempo em que delicado, sexy. Trajava uma calça jeans justa e uma blusa de mangas compridas que era quase escondida pelo avental com o nome do café.
- Mais alguma coisa? — Ela falou constrangida percebendo que ele a analisava.
- Seu nome. — Noah falou com um sorriso.
- Isso não está no cardápio.
Sorrindo ela voltou novamente a entrar no café deixando Noah ali com seus pensamentos férteis e ágeis.
Os olhos verdes irradiam luz, há ali algo superior a tudo que já foi visto, contado ou escrito por alguém, um fascínio indomável e secreto que pede um descobridor, ele observava seus modos graciosos enquanto ela se movia como um leopardo por entre as árvores, imaginou por um segundo seus cabelos livres pelo vento de um campo voando livres como os pássaros no céu, o sorriso recheando os lábios carnudos que possivelmente com sorte deleitariam de um ósculo comum. Tudo que ele precisava era coragem o bastante para abandonar os temores que ainda assolavam sua alma e arriscar-se naquele fascinante universo inóspito que o chamava em gestos silenciosos de palavras não ditas, de saberes ainda desejosos por um conhecedor, e que mais encantos teria ela? Finalmente teria ele encontrado alguém feito para ele?
Em um dado momento era como se Noah apagasse completamente de sua memória qualquer acontecimento negativo dos últimos meses, agora ali ele sentia-se novamente pronto para viver. Ele deixou duas notas de vinte sobre a mesa e com um sorriso saiu.
As visitas de Noah passaram a ser constantes no pequeno café da cidadezinha fazia sempre questão de ser atendido pela mesma garçonete de nome desconhecido, ela nem sempre estava lá, mas sempre que estava não fazia reservas em atendê-lo e uma das coisas que Noah mais gostava era a maneira como ela fazia que ele se sentisse simplesmente Noah Tedder e não um escritor famoso:
- Já faz uma semana que eu venho aqui todos os dias e você nunca me disse seu nome, vou ter que pagar pela informação?
Ela riu enquanto sentava-se na cadeira à frente dele.
- Para que essa informação é importante?
- Primeiro porque é injusto você saber o meu nome e eu não saber o seu, estou em desvantagem, segundo porque preciso de um nome para a nova personagem que estou criando.
- E porque tem que ser o meu?
- Porque ela se parece com você.
- Ok, você venceu. — Ela suspirou. — Me chamo Elize.
- Elize? Nossa, que nome lindo.
A garota sorriu observando enquanto Noah anotava algo em um caderno de capa de couro. Erguendo o rosto para ela, ele fechou o caderno e falou calmamente:
- Então, Elize... A que horas termina o seu turno?
- Está me convidando pra sair?
- Isso é proibido como dizer o nome a alguém? — Noah riu.
- Porque Noah Tedder sairia comigo?
- Talvez porque você não goste de ver televisão.
Elize riu levantando-se e caminhando até uma mesa atrás de Noah onde um casal acabara de se sentar. Enquanto ela trabalhava ele observava o modo como ela se movia por entre as mesas, o sorriso cordial que dava aos clientes...
É absurdamente fascinante o modo como o cabelo dela se move em ondas perfeitas quando ela anda, seus passos são suaves como uma modelo sobre a passarela, e ela não tem o corpo convencional que as revistas pregam, talvez por isso Elize tenha se tornado uma obsessão para David.
- Seis horas. — Ela falou colocando a conta sobre a mesa onde ele estava sentado.
Elize vestia calças Levi's azul marinho, uma blusa amarelo- bebê e um sobretudo marrom imitando couro. Os cabelos agora soltos caíam em ondas bronzeadas até a cintura, os olhos verdes estavam destacados com lápis preto e rímel. Os lábios ostentavam um brilho suavemente rosado e o rosto pálido estava corado com um blush rosado. Noah ficou alguns segundos admirando-a, o peep toe preto a fazia ficar quase da mesma altura que ele, havia achado ela encantadora quando se conheceram, mas nunca imaginava que ela conseguiria ficar ainda mais linda do que naturalmente já era. Os dois começaram o passeio pelo parque as árvores estavam iluminadas por pequenas luzes reforçadas pelas luminárias:
- Há quanto tempo trabalha no café?
- Ta perguntando por curiosidade ou porque se espantou com o que eu estou vestindo.
- Você é detetive disfarçada? — Noah riu.
- No meu trabalho aprendo a ler pessoas senhor Tedder. Eu trabalho no café há oito meses.
- E o que fazia antes?
- Era editora chefe na CBS.
- Sério?!
- Porque a surpresa? Eu pareço assim tão burra?
- Pelo contrário... Mas o que aconteceu?
- Meu pai ficou doente então eu voltei para Hampshire. Dois meses depois ele morreu de infarto, não quis mais ir embora e acabei ficando por aqui ao lado da minha mãe, consegui esse emprego no café que é mais tranquilo que as tarefas de fazenda, infelizmente com o tempo que passei fora me desabituei com o trabalho no campo.
- Ual... Que história incrível. Mas me conta, porque a aversão com a mídia.
- Eu fui criada em uma fazenda ao norte de Portsmouth, meu pai sempre foi contra aparelhos eletrônicos em casa, para ele tínhamos de continuar sendo humanos e não nos transformarmos em máquinas. Quando me mudei para cidade acabei percebendo o quão certo ele estava, na maior parte do tempo a televisão só se ocupa de nos encher de ilusões, tragédias e problemas de celebridades que colocam silicone ou terminam namoros.
Noah sentiu um gelo na espinha ao lembrar-se de Brooklyn e um enjoo apossou-se dele ao pensar que Elize poderia tocar no assunto, mas ela não o fez. Os dois sentaram-se em um dos bancos enquanto casais cercavam a grama e os demais bancos.
- Falei algo errado? — Ela perguntou confusa.
- Não... De maneira alguma.
- Então, o que o trouxe pra cá? Até onde sei sobre você a vida Rural não é muito a sua praia.
- Eu quero escrever algo diferente...
- Que inclui garçonetes de café?
- Que inclui garçonetes de café com vidas incríveis e amores verdadeiros.
- Amores verdadeiros? — Ela ergueu a sobrancelha.
- Sim... Como em Volta para Recomeçar, encontrar alguém feito pra você.
- Acredita mesmo nas coisas que escreve?
- Você não?
- O amor não é simples como você tenta fazer parecer, as dificuldades reais são bem mais complexas e a maior parte dos relacionamentos não sobrevivem a elas... Nos livros tudo é como uma sinfonia, mas na vida real é como se a música da sua vida fosse inspirada em sushi.
Noah não conteve o riso o que fez com que Elize risse também, em um dado momento os dois estavam sem ar.
- Você é incrível.
- Racional demais... Perdi a habilidade de sonhar.
- Só precisa achar a pessoa certa para ajudar você a aprender.
- Você pensa como um escritor, vive em mundos perfeitos. A tal pessoa certa é utopia. Se fosse assim todas nós esperaríamos Edward Cullen ou Damon Salvatore.
Por um segundo, Noah parou para olhar o ponto de vista dela, ficava transitando entre a impressionante inteligência que ela possuía e a vontade que tinha de discutir e provar que ela estaria possivelmente errada, mas ele sabia que ela tinha uma parcela de razão, a mesma parcela que agora era motivo de ele estar ali. Provavelmente ele achara alguém perfeita pra ele, Elize era feita sob medida das personagens que ele criara ao longo de sua carreira baseada em sonhos de uma pessoa certa que nunca apareceu. Mas como arriscar-se quando provavelmente seu coração não suportaria outra decepção?
- Você consegue sentir? — A voz dele cortou o silêncio tenebroso que tomou o lugar.
- O que?
- Como tudo é feito pra você.
E antes que ela pudesse sequer mover-se os lábios dele se encontraram com os dela em um beijo calmo, terno, intenso e apaixonado.
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