Wake me up when the sun rises

1 The morning when the night arrived


Notas iniciais
Esta é minha primeira fanfic de capitulo único, e confesso não ser meu tipo preferido de fanfic, mas tinha esta historia em minha cabeça, e precisava conta-la. Espero que gostem.

Boston, Massachusetts.

28 de Maio.

Era oito da manhã. Os raios quentes do sol refletiam no vidro fino da janela da cozinha, enquanto a brisa quente do outono passava por debaixo da porta dos fundos, enquanto os chinelos quentes de Rupert Leavith arrastavam-se no chão. O senhor de média estatura tinha cabelos totalmente brancos, e estava em sua forma mais saudável, digamos, que fora adquirida com a idade e todas as refeições durante as semanas corridas de Boston em sua juventude. E após um tempo, as ceias de natal, que pareciam se esforçar para torná-lo um senhor rechonchudo.

Naquela manhã Rupert se sentia mais calmo. Seu corpo parecia estar em harmonia com todas as coisas a sua volta, tudo parecia fazer sentido e ser o resultado de um longo caminho de esforço e tentativas. Com esse pensamento, arrastou-se até a cozinha ainda dado bocejos pelos cômodos. Tudo estava limpo, como deixara na noite anterior. Abriu a geladeira, tirando de lá o galão de leite e uma garrafa térmica que carregava café super gelado. Deixou tudo encima da mesa e voltou ao pão de forma no armário mais alto.

-Quand il me prend dans ses bras. – uma voz suave e bem humorada vinha das escadas. O som de Edith Piaf corria os cômodos silenciosos, e fazia um sorriso todo enrugado se desenhar no rosto caído de Rupert. – mon coeur qui bat. – terminou o verso aparecendo no pé da escada. Herriot parecia feliz naquela manhã, devia estar sentindo o mesmo que Rupert, em paz com tudo, com aquele sentimento de que nada lhe faltava.

-Mon coeur qui bat. – repetiu o senhor próximo da mesa. Depois de todos aqueles anos, 48, para se exato, Herriot ainda encantava Rupert com aquele jeito texano. Todo aquele seu charme e carranca o faziam ser quem ele era, e quem nunca deixara de ser, um homem adorável e maravilhoso.

-Bom dia. – aproximou-se com um sorriso, depositou um beijo rápido, simples e caloroso em seu parceiro. Herriot gostava daquilo, de acordar todos os dias e saber que ao descer as escadas encontraria Rupert fazendo torradas e brigando com a cafeteira que segundo ele, era avançada demais. Pensar naquilo lhe fazia sorrir, lembrar de como Rupert sempre demorara a se adaptar as coisas que mudavam com um tempo, até mesmo quando jovens, ele já parecia um velho.

-Bom dia. – respondeu tremendo os dedos no queixo de Herriot. Seus olhos brilhavam verdes refletindo a luz ardente do amanhecer, e sua respiração mostrava sua condição de ter os pulmões em mau funcionamento. – café? – indagou sem tirar os olhos do homem.

-Por que não? – sorriu caminhando lento até a mesa. Sentou-se em uma das cadeiras estofadas com detalhes floridos. As torradas estavam quentes em seu prato, e o café do jeito que gostava. Gelado. – obrigado. – levou os olhos até Rupert que se ajeitava na cadeira do outro lado da mesa. Herriot não costumava demonstrar, mas ele amava muito Rupert. Gostava do modo como ele era cuidadoso e gentil com as pessoas, e como seu sotaque britânico continuava após todos esses anos em Boston. Herriot por outro lado perdera seu sotaque caipira, e tinha somente suas acentuações exageradas em certas palavras e sua gravata típica de quem mora no Texas, ou morava.

-Não há de que. – suas mãos tremiam servindo leite puro em um copo de plástico alaranjado. – sabe. – levantou os olhos até os esverdeados de Herriot. – enquanto estava na cama esta manhã, lembrei-me de algo.

-E o que seria? – sorriu por trás da xícara de café frio.

-Lembrei-me de que fomos convidados a uma festa. Neste sábado.

-Por quem? – franziu o cenho, parecendo um daqueles cachorros enrugados. Rupert sorriu diante da expressão.

-Por Agatha Gribbin, a senhora que mora a duas ruas daqui. – gesticulou. – aquela que senta ao nosso lado na igreja.

-Aquela que não para de falar nem mesmo quando lhe jogo indiretas? – indagou.

-Sim, ela mesma. – assentiu. – enfim, achei que seria uma boa idéia se aparecêssemos, quer dizer, somos próximos.

-São colegas de fofoca. – Herriot corrigiu.

-Parece próximo o suficiente para mim. – apontou, corcovando as sobrancelhas.

-Tem razão. É. – sorriu. Herriot não conseguia discordar de Rupert, não por muito tempo. Era como se algo estivesse errado, aquele parecia ser o costume, o costume de 48 anos. Rupert Leavith sempre estava com a razão e ponto final. – quer caminhar depois café? – indagou bebericando da xícara. – quer dizer, dar uma volta no quarteirão.

-Adoraria. – sorriu. – acho que seria ótimo para desenferrujar esses ossos velhos.

-Não estamos velhos, apenas adquirindo charme demais. – disse copiando o sotaque britânico do outro. – pelo menos de minha parte.

-Claro, havia me esquecido de como você esta em forma. – apontou-lhe o copo. – sempre atlético. – suspirou. – bem. – deu uma batida leve na mesa. – preciso lavar esta louça, e então poderemos sair.

-Deixe-me fazer isso para você. – Herriot se posicionou pegando os pratos mais rápido que Rupert. Levou-os a pia e logo voltou para buscar a xícara e o copo. – aproveite para recolher nossos casacos da cadeira na varanda, e até que termine talvez uma musica. – sorriu galante.

-Claro. – Rupert caminhou pelo pequeno corredor estreito, saindo na sala de estar, na qual ficava a vitrola enferrujada em um tom de sépia. Os discos ao lado eram todos muito antigos e era um milagre ainda funcionarem naquela velharia. Logo uma musica de Brenda Lee começou a tocar, e os quadris desajeitados de Rupert se mover para os lados de um jeito cativante e convidativo.

Herriot inclinou-se a fim de ver do corredor o ritmo do homem ao outro lado. Na cozinha, seus quadris também se moviam, de maneira ordenada e talentosa, como se ele alguma vez já tivesse sido um professor de dança, o que no caso não era verdade. Ou quem sabe em outra vida. De lá sentia uma vontade incontrolável de sair requebrando pelo corredor, e então tomar seu parceiro em seus braços já flácidos, e gira-lo pela sala, como quando eram jovens e tinham todo o fôlego do mundo.

-Sabe. – começou alto da cozinha. – acho que talvez possamos adiar a caminhada para dançarmos um pouco, o que acha? – girava a bucha amarela no prato com manteiga nas bordas. A musica tocava em um ritmo contagiante, talvez contagiante demais para deixar Rupert sem uma resposta certa. – Rupert, o que acha? – indagou novamente. – Rupert. – chamou. Herriot deixou o prato e a bucha na pia. Caminhou pelo corredor escuro, enquanto as gotas grossas de sabão caiam no piso de madeira.

A musica agora lhe parecia alta demais, e o ar do outono, quente, quase de uma maneira infernal. As janelas precisavam de um pouco de sombra e as louças de esquecimento. Por um tempo, não havia tempo, e tudo parecia rodopiar em volta do corpo Londrino sobre o sofá. Os olhos fechados, e a cabeça apoiada no ombro de maneira confortável, pareciam momentâneos a Herriot.

-Rupert? – correu até o senhor no sofá. – está cansado? Dormindo um pouco? – indagou dando um leve toque em seu ombro. – Rupert? Leavith? – agitava mais seus ombros. – acorde. Rupert! – sua voz parecia carregada de esperança. – querido. – chamou novamente. – vamos caminhar um pouco, vamos dançar. – olhou a vitrola que parecia muda diante da situação. – Rupert. – sua voz estava embargada, e suas mãos tremiam descendo pelos braços leves do homem. – não faça isso comigo. – caiu pesadamente no sofá. –não ouse me deixar sozinho. – as lagrimas já deslizavam por seu rosto enrugado. – não me abandone agora. – encostou a cabeça no ombro caído. – Ruppie. – chorava. – meu deus. – sussurrou. As lagrimas lhe pareciam mais salgadas do que nunca, e a solidão pareceu soprar eterna. 48 anos, e pela primeira vez, não havia musica dançante o bastante, nem café frio, apenas um vazio. O vazio da noite chegando em um amanhecer.

Notas finais
Acho que conseguem entender agora o sentido de a noite chegar em um amanhecer. Espero que tenham gostado e não tenham ficado meio mal com a fic. Digam o que acharam no review. E até.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!