Wake Up, Daniel
1 Capítulo Único
Eu me sentia cansada. Desgastada, para ser mais específica.
Estava no meu limite, lutando para me manter sentada e sentindo os músculos dos meus braços tremerem pelo esforço em segurar seu corpo sobre o meu. Sua cabeça pendia sobre minhas cochas, e eu não conseguia ver nada além do sangue escorrendo pela sua bochecha, chegando até o pescoço. O barulho do alarme de incêndio soava, aparentemente distante demais para eu prestar atenção nele. Estava quase em choque. A única coisa que me mantinha no limiar disso era o fato de que eu sabia que tinha que sair dali. Sair dali e salvá-lo.
O tiro. O som do tiro ainda rebombava nos meus ouvidos. Não conseguia lembrar de quase nada depois disso. Não lembro se gritei, se escondi meu rosto entre minhas mãos ou se fingi que nada daquilo estava acontecendo. Eu quero dizer, qual era a chance? Qual era a chance de dois caras entrarem armados na minha escola, em uma cidade pequena e tranquila? Qual era a chance de eles nos virem debaixo de uma das mesas, escondidos, logo antes de resolverem irem embora? Logo nós, os mais excluídos, a dupla dinâmica de amigos que ninguém enxergava? Quão irônico.
Tudo que estava acontecendo tinha que ser uma piada. Uma brincadeira sem graça. Eu tinha certeza de que era. Estar sentada no chão da biblioteca, cercada por vários corpos flácidos e manchas de sangue não era exatamente o tipo de coisa que eu esperava quando acordei de manhã para ir para a escola. Francamente, era uma realidade mais terrível do que qualquer uma que eu poderia imaginar.
E então eu não conseguia mais ouvir sua respiração fraca. Coloquei minhas mãos em torno de seu rosto e o primeiro pensamento que me veio na cabeça foi o fato de que elas estavam muito frias. Afinal, isso importava? Abaixei minha cabeça lentamente e encostei a parte lateral do meu rosto em seu peito, temendo o pior e torcendo para que eu estivesse errada. Prendi minha respiração: não conseguia ouvir seu coração bater.
− Daniel? − Murmurei baixinho, com minha voz falhando.
Minha garganta ardia e o esforço que eu fazia para não chorar estava tornando tudo pior. Passei a mão sobre sua testa molhada de suor antes de apertar minhas têmporas fortemente, tentando manter o controle sobre meu corpo. Ele não respondia. Observei seus lábios entre abertos com tanta intensidade que, por um momento, pensei tê-los visto se mexer.
− Daniel, por favor... − Falei em um fio de voz, sentindo meu corpo tremer pelo medo de perdê-lo. − Por favor, fale comigo.
Assustei-me ao ouvir passos no corredor, do lado de fora da biblioteca. Apressei em arrastar a mim e a Daniel para a região mais escondida que podíamos ficar debaixo da mesa, com medo de que fossem os assassinos novamente. Enquanto com uma mão segurava seu rosto, para que não pende-se, alisei seu cabelo loiro com a outra, sentindo meus olhos arderem e ouvindo passos cada vez mais pertos. Ignorei os barulhos vindos justamente em frente a nossa mesa, cada vez mais desesperada, me agarrando ao corpo de Daniel e à esperança que ele abrisse seus olhos novamente.
− Por favor, acorde, por favor. Não faça essa brincadeira de mal gosto comigo, Dan. Acorde, vamos. − Balbuciei, incapaz de me conter.
− Ei, você! − Ouvi alguém gritar e, ao levantar meus olhos, pude ver um rosto me analisando.
− Daniel, por favor... − Voltei a olhar para meu amigo, sentindo todo meu rosto perder a cor e as lágrimas escorrerem fortemente pelas minhas bochechas.
− Garota! Você está bem? − Ignorei os chamados e abracei Daniel, soluçando. − Nós temos que sair daqui! Está tudo bem agora. Eu sou da polícia, venha comigo.
Depois de algum tempo, vendo que eu não fazia a mínima menção para sair dali, um braço tentou me alcançar debaixo da mesa, mas me arrastei mais para o fundo, batendo minhas costas na mesa e contendo um grito de dor quando Daniel tombou de lado, sobre minha perna ferida. Dois braços envolveram minha cintura por trás e me agarrei ao braço do meu amigo, sem conseguir largá-lo.
− Precisa deixá-lo. Vamos levá-la para a ambulância. Prometo que voltamos depois para buscá-lo. − A voz disse de forma carinhosa, mas eu não conseguia me livrar daquele terror. A única coisa que eu podia ver quando fui levantada e segurada no colo pelo desconhecido era seu corpo deitado de lado no chão, os olhos abertos me encarando e o sangue escorrendo pelo seu rosto.
− DANIEL! − Gritei seu nome, sem acreditar que o pior poderia ter acontecido. − DANIEL! − Gritei novamente, rebatendo contra os braços fortes que insistiam em me segurar.
A cada passo que o homem dava para longe da mesa que estávamos estudando minutos antes de tudo acontecer, eu sentia meu coração pesar mais contra meu peito. Eu não queria que ele fosse embora. Eu não queria vê-lo estendido no chão, largado sozinho. Se eu pudesse apenas ouvir sua risada mais uma vez e dizer que eu o amava, eu me sentiria completa.
Mas ele estava morto, e a única coisa que eu podia sentir era as lágrimas correndo pelo meu rosto.
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