Era mais uma noite vazia, preenchida pelos barulhos da cidade. Sirene, buzinas malucos gritando sobre o fim do mundo. Enfim, uma noite como todas as outras neste mundo louco. Mas eu estava cansada disso, não quero mais fazer parte dessa loucura. Fui até o terraço do prédio onde meu pai trabalhava. Outro lugar louco. Cheio de robôs sem vontades, confinados em seus cubículos e ternos cinza. Fiquei em pé no parapeito, era possível sentir o vento bem forte, até pensei que perderia o equilíbrio. Mas então lembrei a razão de eu ter vindo até aqui. Olhei para aquela “paisagem” com certo nojo.

Ah sim, esqueci de me apresentar certo? Me chamo Carrie e tenho 16 anos, cabelos rosas e... Ah, que importância isso têm? Não vou existir por muito mais tempo mesmo. Você já deve ter percebido a razão de eu estar aqui né? Agora sua pergunta deve ser “Por quê?”. Pois lhe respondo com outro pergunta: “Por que não?”. Tenho muito mais motivos para fazer isso do que para continuar aqui. Do topo deste prédio posso ver claramente a razão mais importante de todas: seres nojentos. Que construíram cidades onde eram matas. Que matam e roubam. Que não ligam para os outros e pensam apenas em si mesmos. Que esqueceram de que são criaturas como qualquer outra. Lembrei então daquela manhã, em que eu saí da aula e vi uns meninos pisarem em uma lagartixa e jogarem futebol com a mesma. Sinceramente eu queria mais do que tudo que essas pessoas sofressem o mesmo que o animal, que pelo menos entendessem que não era um ser inferior, mas sabia que isso era impossível.

Impossível enquanto os humanos não fossem completamente massacrados desse planeta, pobre planeta que tinha que sofrer pelos prazeres dessa raça nojenta. E o pior de tudo, que se achavam as donas do mundo e que poderiam fazer o que bem entendesse com ele. Se ao menos entendêssemos que não somos e nem devemos ser superiores que a natureza... Se ao menos percebêssemos que somos parte dela... Mas não, o ser humano tem este desejo incontrolável de saber e querer dominar tudo. Isto me enoja.

Suspirei enquanto sentia o vento acariciar meus cabelos, era como se a terra estivesse me chamando de volta para ela. Dei mais uma olhada naquela visão e pensei “Bem, pelo menos. Não é nesse mundo que eu vou ficar.” Arremessei o aviãozinho de papel que estava comigo em direção ao amanhã. Nele estava escrito “Acordem.” Tomara que alguém o leia e compreenda. E enquanto o via voar pela aquela cidade cheia de pessoas que se esqueceram do que é viver, suspirei novamente. Olhei para baixo e vi aquela rua cheia de carros, movimentada por máquinas sem mente. “Acordem”. Pensei mais uma vez e então fechei os olhos e respirei fundo. E então pulei desta ponte... Desta ponte chamada loucura.

“Acordem.”

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