A senhorita Fukuda pedia todos os dias para entregar o conteúdo escolar para Sayuri e consequentemente íamos visita-la logo após a aula, ela sempre nos recebia com um tímido sorriso, talvez não ficasse à vontade com nossa presença, mas com o decorrer dos dias, o sorriso tornou-se tão radiante e alegre que mal a reconhecia. A garota em que conheci nos corredores da academia se desfazia a cada risada e a cada visita, esta seria a verdadeira Sayuri? Ela não sofria mais, estava se recuperando e talvez, estava feliz, mas por que ainda escuto algo se partindo?

Numa tarde, antes mesmo de abrir a porta de seu quarto, uma alta risada de Sayuri foi escutada, chegava a ser irritante. Arrastei a porta com força e impaciência, ela gritou de susto e logo sorriu, retribui, mas logo desapareceu ao ver o motivo de toda aquela barulheira: Mic estava sentado ao pé da cama com a feição de que havia feito algo de errado e ela segurava o celular do loiro como se estivesse vendo algo. Senti uma raiva correr por minhas veias ao saber que Mic havia aprontado alguma coisa, não hesitei em usar minha peculiaridade para intimida-os.

Individualidade de Aizawa Shouta: Apagar, permite anular as peculiaridades dos outros com o olhar. Consequência: a habilidade chega ao fim quando pisca, seus cabelos medianos flutuam para cima e seus olhos negros se tornam vermelhos quando usa.

—Que legal! Tão incrível! — Sayuri dizia admirada, enquanto o loiro se encolhia amedrontado. Seus olhos verdes brilhavam, mesmo eu voltando ao normal, e ansiava para ver novamente.

—Assustador, eu diria — Mic dizia retornando ao normal, dando satisfação de porquê não fora a academia e estava aqui — Eu não estava me sentindo muito bem, mas não pude deixar vir aqui — Sua forma descontraída e estranha de se comunicar, nunca muda.

—O que você estava vendo? — Perguntei ao sentar na cadeira ao lado da cama e deixando o caderno sobre a escrivaninha ao lado da cabeceira da cama.

—Bem, o Yamada me mostrou um vídeo de um treino de vocês... — Ela responde abaixando o celular e com um sorriso de canto — Present Mic e Eraser Head, esses serão seus nomes de heróis, né? — Um sorriso animador surge e fita-nos admirada — São nomes tão legais! Chega a me dar inveja.

Mas não era isto que você sentia, ou sente, desde que nasceu?

—Heróis são tão legais...! Vocês são incríveis! — Não importava o quanto repetisse, o quanto sorrisse, não esconda seus sentimentos de nós. Sabíamos o quanto invejava, sabíamos o quão triste estava por não conseguir realizar seu sonho, o quanto era grande o sentimento de ser uma heroína, mas nós não podíamos fazer nada. Além de tentar consola-la com palavras, pois como você disse: “Ser herói é salvar pessoas. E um sorriso pode salvar”.

—Você já é uma heroína, a minha heroína — Foram as palavras que saíram pela minha boca sem ao menos perceber, olhando fixamente a garota a minha frente. A surpresa estava estampada nos rostos de ambos, Sayuri corou bruscamente e manteve-se quieta e Mic permaneceu desentendido. Quando fiquei ciente do que havia dito, desviei o olhar para a parede e senti meu rosto esquentar um pouco.

—Obrigada — Ela disse olhando o celular em mão com um sorriso tristonho, deixando as lágrimas molharem o aparelho. Ela era forte, mas conosco não precisava. Meu peito doía e não suportava vê-la chorar daquela forma, não sorria mais.

—Vamos ser heróis e nosso dever é lhe proteger — Dizia Mic e pela primeira vez, disse algo útil. Nós tentamos abraçar seu frágil futuro como fossemos os nossos, pois parecia tão bonito mesmo estando despedaçado, porém, estávamos errados.

Naquela mesma noite, um vilão invadiu seu quarto pela janela sem ninguém ver e fez alguma coisa. Ficamos sabendo apenas no próximo dia, era para ser apenas como qualquer outro dia: sorrisos e risos contagiantes, quando adentramos no quarto e ela estava adormecida com uma máscara de respiração. Senhorita Fukuda já estava aos prantos sentada na cadeira ao lado da cama e não entendíamos nada, apenas nos disseram que sua condição piorou durante a noite. A verdade era que ela fora encontrada por uma enfermeira, que estava apenas conferindo seu estado, com os olhares mortos e com falta respiratória. Ninguém sabia o que realmente havia acontecido, porém, a certeza era apenas uma: a probabilidade de Sayuri ter uma morte cefálica era alta e ela mal respirava sozinha.

“Desligar as máquinas”

Era a opção em que o médico responsável havia dado a senhorita Fukuda, a responsável por Sayuri, e ela aceitou. Mic que havia trazido um novo buquê de flores, deixou-o cair no chão e estava sem reação, enquanto eu me debati e recusei prontamente as palavras finais da mulher: “Qual é a porcentagem, a porcentagem de chances de ela não acordar mais?”

—Bem... – Antes mesmo do médico responder, já fora rapidamente cortado pela minha voz antipática e áspera:

—Não é zero, eu sei. Então ela vai, ela vai acordar! Não importe quanto tempo demore – Eu não aceitava e acreditava em minhas palavras, creio que Mic também queria dizer tais palavras, apenas não teve coragem. Argumentos de que os órgãos de Sayuri poderia salvar mais vidas era escutado, não dei a mínima. Senhorita Fukuda voltou com suas palavras após ver tanta dor e angústia em nossos rostos, ao dizer que pensaria melhor em sua decisão.

O médico se retirou do quarto junto das enfermeiras e deixando apenas as visitas, a atmosfera pesada dificultava nossa respiração e o silêncio predominou. Mic pegou as flores do chão e sentou-se ao pé da cama, abaixando o rosto para não vermos seu sofrimento, e eu fiquei apenas parado ao lado da senhorita Fukuda como se nada fosse tirar-me dali. A mulher, que provavelmente escondia-nos os fragmentos da verdade, respirou fundo e nos disse que não deveria estar fazendo aquilo, mas era o correto naquele momento: ela havia recebido uma ligação de Sayuri na tarde passada, em que não atendeu por motivos profissionais, com a voz chorosa.

“Professora Emiko, desculpe-me estar lhe ligando a esta hora... Os garotos saíram a pouco, vejo eles saírem do hospital pela janela. Eu não consegui... Eu não consigo dizer a eles, mas eu preciso contar a você professora” ela dava uma pausa para respirar fundo e continuar.

“Eu vou sair da U.A.” ao escutar apenas esta frase, eu e Mic olhamos espantados a senhorita Fukuda, mas permanecemos em silêncio para escutar o resto.

“Eu queria que a senhora ajeitasse minha transferência, por favor. Eu não vou aguentar esta dor por tanto tempo... Sinto que... Sinto que apenas sou um estorvo! O Aizawa e o Yamada, ou melhor, Eraser Head e o PresentMic, tem um grande futuro pela frente e eu apenas vou atrapalhar” isto não era verdade, nós estávamos ali por vontade própria e nada mudaria este fato!

“Eu não quero ser uma heroína, mesmo que fique feliz quando digam que sou, mas existem tantas pessoas mais esforçadas e capazes disso... Eu quero ser uma professora, igualmente a senhora.... Quero ser alguém que possa guiar as pessoas para o bem, mesmo que seja doloroso para mim ou a pessoa quem estarei guiando... Principalmente para mim... O papel de professora é dedicar-se aos seus alunos, como a senhora se machucou ao me ver desta forma, eu sei que foi difícil dizer para eu desistir do meu sonho. Mas eu, bem no fundo, eu já sabia que eu nunca seria capaz” é capaz. A minha heroína. Respirei fundo para não reagir emotivamente, enquanto Mic já não escondia seus olhos choros por trás de seus óculos.

“Eu quero que saiba, a verdade... Eu reagi a todas as vezes quando sofria bullying. Eu bati, mas eles nunca disseram nada e eu também não queria que ninguém soubesse, que eu estava deixando acontecer. Já que me chamariam de louca...” uma risada tristonha deu para ser escutada, mas isto apenas tornava mais doloroso. Por favor, não ria desta forma.

“Eu vi que eles deram tudo de si para estarem na classe dos heróis, mas não conseguiram. Chega a ser injusto... Mas esta vida é cheio de injustiças. Eu treinei, eu me esforcei para conseguir aguentar um pouco mais e estudei tudo, está escrito no meu caderno de anotações gerais. Tudo sobre cada um: individualidade, consequência e formas de melhorar, tanto o poder ou em combate. Fiz até mesmo do Eraser e do Mic... eu imaginava ela dizendo estas palavras com um simples sorriso, pois a conhecíamos muito bem. Por que não nos contou nada?

“Já falei demais... Quando vier aqui novamente, eu direi com mais detalhes... Só não sei se vou conseguir manter a calma a frente deles... Talvez eles não achem o mesmo de mim, mas eles são tão importantes para mim... Eu não quero ser deixada para trás, quero continuar com eles... Obrigada por tudo...” a mensagem de voz acabou e estávamos mais abalados do que no começo. Estava furioso comigo mesmo e sinto que Mic também tinha os mesmos sentimentos, pois não conseguimos entender o verdadeiro sentimento de Sayuri: ela não precisava ser protegida, precisava de alguém ao seu lado para lhe dizer que estava tudo bem.

Senhorita Fukuda não aceitou desligar as máquinas e pediu educadamente, como sempre, para cuidarmos dela. Talvez isto fosse apenas uma forma, para nós que ainda éramos adolescentes, de não a deixarmos morrer, uma forma de consertar o nosso fracasso e protege-la.

Bem, mas isso é uma história de quinze anos atrás.

Abri a porta de seu quarto sem cerimônia, sou surpreendido por Mic, que inacreditavelmente estava com os cabelos soltos e sem os óculos, sentado ao pé da cama como costumava fazer e um novo buquê de flores em mãos. Este era nossa rotina desde aquele mês, era algo só nosso: a dor, a angústia, a culpa e o fracasso. Não trocamos nenhuma palavra, ele apenas se levantou ao deixar as flores sobre a cadeira ao lado da cama e se direcionou a mim.

—Ela gostava de lírios e que eu usasse meu cabelo natural — Murmurou com a voz trêmula ao me dar um leve tapa no ombro e sair. Só eu, apenas eu sabia como ele se sentia. Já se passaram tantos anos e nada, nenhum sinal de que ela retornaria à consciência e voltar a sorrir, só continuamos a voltar para este quarto de hospital com a esperança de vê-la nos receber alegre.

—Faz tempo em que não venho – Digo ao vê-la deitada, ainda com a máscara respiratória, parecia estar dormindo tão tranquilamente, apenas parecia. Não aguentei fixar por mais tempo, fico de costas para a cama e minha mente me engana com a voz suave e doce da garota me dizendo em minhas costas: “Obrigada por tudo”. Fecho os olhos e ranjo os dentes, tentando conter minhas emoções, era impossível — Estaremos esperando, quanto tempo for necessário.

“Wake Up”.

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