" Sua vida pode acabar com essa decisão, quando tudo desmoronar não terá como voltar atrás..."

Foram com essas palavras que acordei, suada e ofegante, em um colchão mais duro que pedra e um lençol bolorento aos meu pés.

" Como vim parar aqui?", começo a me perguntar, chutando o pequeno pano que um dia fora branco para fora da cama, mas eu já sabia a resposta, fora tudo por causa de um erro tonto de minha parte, mas o que eu havia feito de errado?, era questão de vida ou morte!

Olho para fora da pequena janela na parede oposta a minha cama, o dia estava acinzentado, prometendo tempestade, como todos os outros dias que vivi, como tudo começou?, quando minha vida tinha começado o seu fim?






[flashback mode on]


Estávamos numa pequena cidade, tudo parecia ter um tom de bege, ou podia ser só a minha imaginação, já que aquela cidade não me agradara antes mesmo de vê-la.


– Por que vamos nos mudar para cá, papai? — pergunto naquela voz infantil esganiçada de criança fazendo birra.

– Porque vai ser melhor para todos nós — ele respondeu do banco da frente do velho carro, ele não sabia o quanto estava errado.

Me encostei de novo no estofado desbotado, tentando ver algo de bom para nós naquela cidade.



[Flashback mode off]


Não era justo, eu nem mesmo queria ter entrado naquele lugar, por que justo eu me ferrei?


Talvez se não tivesse me acostumado aquela vida não aconteceria isso...



[flashback mode on]


– Quem são aqueles? — perguntei ao meu irmão, nós dois sentados no capô do novo carro do meu pai, não pergunte por que faziamos isso.


– Ah, são uns caras da vizinhança, dizem que são barra pesada... — meu irmão conhecia todos por ali, já eu, a princesinha adolescente do papai, não podia andar sem vigilancia familiar.

Eles começaram a se aproximar, um grupo de seis ou sete meninos, apenas centimetros mais altos que eu.

– Estão falando da gente? — um deles perguntou, olhando para mim, eu retribui o olhar.

– Apenas queria conhece-los — disse, pois meu irmão estava branco como aquela cidade nunca havia visto, belo guarda-costas.


– Por que não falou diretamente com a gente? Somos fonte mais confiável do que o que esse fedelho lhe contou — ele apontou para meu irmão.


– Não preciso saber muito para entender que é melhor não ficar perto de vocês — disse, sem medo daqueles meninos. Eles se julgavam fortes, mas quando a briga era séria, com certeza fugiriam.

O menino riu, mexeu nos cabelos pretos já bastante desarrumados e me lançou um olhar de desconfiança.

– Se julga mais forte que nós? — perguntou, desafiando.



[Flashback mode off]


Aquilo durou tempo, não faz sentido lembrar de tudo, o importante foi o que aconteceu depois daquele dia.


Estranhamente, eu entrei para aquele grupo de "caras barra pesada", eles gostaram de minha atitude, e eu gostei do lider do grupo, Christian, o menino de cabelos pretos que eu discutira aquela primeira vez, estranho como os opostos se atraem, não é?

Depois de poucos meses ficamos juntos, todos comentavam sobre a gente e eu adorava aquela fama, seria ela boa ou ruim, não ligava sobre o que falavam (na maioria das vezes "como aquela menina tão direita foi parar com aquele bando de malfeitores?", de acordo com meu timido irmão) desde que nós estivessemos na boca do povo.


Enfim, pouco a pouco fui entendendo os esquemas daquele grupo, sim, eles eram um bando de malfeitores barra pesada mesmo, do tipo que saiam po aí queimando tudo ou pior, mas eu estava tão obscecada por Christian que tudo que ele me pedia para fazer eu fazia, sem nem pensar se era certo ou errado, o resutado é óbvio.


[flashback mode on]


– Onde esteve, garota? — perguntou meu irmão, quando me viu chegando altas horas da noite sorrateiramente em casa.


– Com o Christian oras! — eu disse, irritada. Aquele menino ia acordar nossos pais daquele jeito!

– Gloria, você não percebe o que está fazendo? — disse ele, ainda mais alto. Segurou meus braços para eu não fugir.

– Dá pra falar baixo?! Quer acordar todo mundo? — disse, desvencilhiando rapidamente.

– Se isso te parasse...

– Ai, me deixa garoto! A vida é minha, eu tomo as minhas decisões! — explodi.


– Alguém tem que mostrar que você está errada! — disse ele, firme.


– E se eu estiver? Eu vou ter minhas consequências. Ninguém precisa cuidar de mim.

– Mas eu me preocupo com você...

– Ah, fala sério! — eu disse, comecei a ir para meu quarto.


– Gloria, sua vida pode acabar com essa decisão, quando tudo desmoronar não terá como voltar atrás... — ele disse, mas eu fechei a porta na cara dele antes de ele poder completar.


[Flashback mode off]


Eu sei que você está pensando que me pegaram em uma das tramas de Christian, e por isso estou aqui. Sei que acha que é justo eu estar aqui, mas você errou.


[flashback mode on]



– Christian, eu quero conversar com você em particular — eu disse, em meio a todos os outros meninos me encarando sem entender.


– Por quê? É algo tão importante assim? — perguntou ele, não queria sair da brincadeira entre amigos.

– É rápido — eu disse, esperando que fosse verdade.


Puxei Christian para o canto mais afastado, um beco escuro com cheiro de lixo, eu só via a silhueta dele graças ao único poste para o bairro todo.


– Christian, eu não posso mais fazer isso... — eu comecei, com todo o discursso decorado.

– Como? — ele perguntou, em tom de brincadeira.

– Eu não posso mais ficar aqui, não é o meu lugar. — eu disse, esperando que ele entendesse.

– Claro que é! Você tem a mim! Do que mais precisa?

– Não sei... Estou com medo disso tudo, acho que agora eu vi a realidade... Preciso ir embora — eu disse, o cheiro forte estava me deixando tonta.

– Como é?! Você vai me deixar assim? Sem mais nem menos? — ele falou, irritado.

– Eu preciso ir — não aguentava mais.

– Espera ai! — ele disse, e me empurrou contra a parede, meu pulmões ficaram sem ar com a batida.

Me ajoelhei tentando fazer meus pulmões voltarem ao ritmo normal, quando vi um pequeno brilho prateado no bolso dele.

– Chris... — tentei dizer, mas ele já havia me pegado de novo, agora com uma só mão, na outra estava a faca.

– Cala a boca! — disse ele, pronto paar me apunhalar.


Me preparei para a morte, talvez ela fosse melhor do que minha vida miserável... Senti um gelo metálico na minha mão, a arma que o meu pai escondia sempre de nós (não me pergunte com a achei)estava no meu bolso, havia me prevenido levando ela para falar com Christian. Não pensei duas vezes e a saquei, colocando ao lado da cabeça dele, como se usava m aquele negócio mesmo?


Ele riu.

– Quer ver quem é mais rápido? — ele perguntou, mas claro que um tiro era mais rápido que uma apunhalada.

Não vi quando aconteceu, apenas senti o puxão da arma na minha mão quando disparou, Christian afrouxou seu aperto sobre mim, com um sorriso que não entendi nos lábios.

– Esperta — consegui ouvir ele sussurrar, e então estava morto, a discussão entre nós finalmente acabada.



[Flashback mode off]


Claro que os amigos de Christian ouviram o diparo e viram eu ao lado do corpo dele, com a arma do crime firmemente na mão, e claro que fui presa.


Ainda acha que é justo eu estar aqui? Ainda tem raiva de mim, e acha que sou culpada? Se sim, por que ainda está aqui? Vá fazer algo que preste com o resto de sua vida.

Aos poucos que me apoiam, espero que tenham entendido que eu quiz mudar, eu havia mudado, se não fosse ele, agora eu estaria em uma pequena casa, almoçando com meus pais e meu irmão.

Como as coisas são... Quem iria imaginar aquela "menina direita, princesinha adolescente do papai" aqui?


Alguém bateu na minha cela, detesto isso.


– O quê? — disse, sem vontade, nem olhando para quem quer que fosse.

– Você tem vista — disse a voz sem emoção do policial.


– Essa notícia mudou minha vida — eu disse, ainda sem olhar.

– Boa sorte, será milagre se tirar uma palavra dela — disse o policial para o visitante, me ignorando, ele se afastou, ouvi seus passos ecoarem pelas paredes vazias.

– Ironico — o vistante disse, reconheci a voz na hora e me virei sem acreditar.

Ali estava meu irmão, agora não tão tímido, todo certinho em contraste com aquela prisão empoeirada e velha, isso me enjoou. Nos seus olhos, a expressão de "eu te disse" me fuzilava.

Notas finais
Reviews me fazem feliz