Wake Me Up

44 Visita Surpresa


Notas iniciais
Olá, Voltei depois de uma década, mas faço tanto isso que vocês já nem se surpreendem mais, não é? Estou um pouco sem tempo, pois tenho que correr pra faculdade ainda, então não vou falar muito aqui. Só queria dizer que coloquei hiperlinks no texto que os redicionarão para imagens, sobre as quais não darei maiores informações aqui para não correr o risco de lhes dar um spoilers sobre o capítulo. Bem, acho que é isso. Espero que gostem. Boa leitura.

Quando Rebecca se acomodou no sofá da sala do apartamento de Aaron, naquela tarde, seu corpo parecia pesar uma tonelada. A noite mal dormida, a preocupação com Christopher e o estresse causado pela presença de Joseph a tinham atingido com um míssil e, agora, ela podia sentir muito bem o impacto de tudo aquilo. Aaron, por sua vez, não se sentia muito diferente. Descobrir sobre a doença do irmão caçula, reencontrar a mãe e, principalmente, se ver frente a frente com uma das pessoas que mais odiava no mundo o tinham deixado exausto e tudo o que ele mais queria era tomar um banho quente, se jogar na cama e dormir até a semana seguinte.

— Acha mesmo que o Joseph foi embora? – Rebecca levou as mãos aos lábios para conter mais um dos bocejos indesejados que a estavam perseguindo desde a manhã – Eu não o vi quando saímos do hospital, nem vi o carro da sua mãe estacionado por lá, mas talvez ele não tenha saído da cidade. Talvez ainda esteja hospedado em algum hotel por aqui e eu realmente não quero correr o risco de cruzar com ele em uma esquina qualquer de Oxford.

— Se ele ainda estiver por aqui, espero que ele esteja rezando para que eu não descubra onde. – Aaron se jogou no sofá ao lado dela, perguntando-se, mentalmente, se seria muito desleixo da parte dele deixar o banho para mais tarde e, simplesmente, adormecer ali.

— O Joseph é muito estranho.

— Ele é mais que estranho. É um psicopata.

— Bem… – Rebecca pensou naquela informação – De fato, ele é um tanto excêntrico, mas supor que ele seja um psicopata, apenas baseando-se no fato de que…

— Não. – Aaron a interrompeu e ela se voltou para ele, surpresa com sua interrupção enérgica – Eu não estou supondo que ele seja um psicopata, Bee. Estou te dizendo, com total certeza, que ele é um.

— Como você pode ter tanta certeza? Quero dizer, eu sei que o Joseph age de maneira estranha, que é emocionalmente distante e que matou o seu cachorro a sangue frio, coisas que revelam fortes indícios de distúrbios psicossociais, mas isso não é suficiente para fazer um diagnóstico de psicopatia, Aaron. Há muitas variáveis a serem levadas em consideração quando…

— Ele é um psicopata. – Aaron insistiu – Conversei com o Christopher. Ele me contou que o Joseph passou os últimos seis anos em um hospital psiquiátrico e que o médico responsável por ele fez o diagnóstico.

— Sério?

— Eu não brincaria com isso.

— Bem, eu imagino que não, mas, caramba, ele realmente é um psicopata? Isso é… incrível.

— Incrível? – Aaron estreitou os olhos para ela, parecendo nada satisfeito com o adjetivo escolhido e Rebecca pigarreou, constrangida.

— Não quis dizer “incrível” desse jeito, sabe? Como se ele fosse um ser humano maravilhoso ou algo assim. Não é nada disso. Ele certamente não merece um Nobel da Paz. – ela se corrigiu – Só estou dizendo que de um modo acadêmico e clínico, conhecer um psicopata é bem incrível. Para mim, no caso. Como uma estudante de psicologia, eu quis dizer.

— Isso significa que quer estudar o Joseph?

— Eu não disse isso.

— Então o que você disse?

— Eu disse apenas que, para uma futura psicóloga como eu, o Joseph representa um bom objeto de estudo para teses, artigos, dissertações…

— O que significa que você gostaria de estudá-lo. – Aaron concluiu – Como um rato de laboratório.

— Sabe, soa bastante ofensivo quando você fala assim.

— Mas não deixa de ser verdade, certo?

Rebecca sacudiu a cabeça, discordando dele.

— Não. Primeiro porque o Joseph não é um rato e, segundo, porque psicólogos não trabalham como cientistas de laboratório, Aaron. Não fazemos experiências com cobaias. Somos observadores.

— Ah, é? – Aaron apoiou o queixo em uma das mãos e sorriu – Porque não me conta um pouco mais sobre isso então, doutura?

— Está brincando?

— Bem, você é a futura psicóloga e observadora aqui. Então, o que suas observações ao meu respeito dizem sobre a minha atual atitude?

Rebecca fechou a cara para ele.

— Pode parar com isso, tá legal?

— Posso parar com o que?

— Com isso. – ela gesticulou em sua direção, referindo-se tanto a sua atitude quanto a sua postura – Está agindo como um cético. Zombando de mim e da minha futura profissão como se quisesse me fazer acreditar que nossos estudos são inúteis.

— Vocês tratam pessoas como o Joseph como doentes!

— Porque é exatamente isso que eles são.

— Ah, não são, não. Não é como se eles tivessem sido expostos a algum tipo de vírus que os tornou assassinos e que pode ser curado com uma vacina. Eles são criminosos, Bee. Pessoas de péssima índole que vivem em função da violência e da crueldade e sem os quais o mundo seria um lugar muito melhor.

— Esse é um julgamento errôneo e bastante preconceituoso.

— Preconceituoso? – Aaron a encarou – Esse cara matou o meu cachorro!

— E é exatamente por isso que o seu julgamento está comprometido. Você teve uma experiência traumática. O Joseph matou o Screapy que, para você, não era apenas um cachorro, mas também um objeto de ligação entre você e o seu pai. É natural que este seja um assunto tão sensível para você, mas a questão é que psicopatas veem o mundo de maneira bem diferente da nossa e que há vários níveis de psicopatia, Aaron. Nem todos os psicopatas são violentos e, tudo bem, não se pode curá-los com uma vacina, mas orientações psicológicas regulares podem ajudá-los a conviver em sociedade e a respeitar as regras estabelecidas por ela.

— Tipo: não mate as pessoas?

— Sim. E muitas outras como: não roubar, não ser desonesto com colegas de trabalho, não ser um pervertido sexual…

— Eu não acredito nessas coisas.

— Nas orientações psicológicas ou na possibilidade delas ajudarem pessoas como o Joseph a conviverem em sociedade?

— Nas duas coisas! – Aaron disse mau humorado.

Rebecca revirou os olhos e suspirou.

— Você me disse que o Joseph odiava a sua mãe e o seu irmão, não foi? Disse que ele os via como inimigos e que, praticamente, os queria mortos, certo? Pois bem, o Joseph trouxe a sua mãe até aqui para ver o Christopher e, sim, ele não quis entrar para vê-lo, mas não fez comentários maldosos sobre a condição dele no hospital. Além disso, se ele ficou na clínica psiquiátrica por seis anos, como o Christopher te disse, significa que já faz algum tempo que ele saiu de lá e voltou para casa. Então, se ele não fez nada de errado até agora, podemos afirmar que as orientações psicológicas que tem recebido, tem contribuído para uma melhora significativa em sua maneira de se relacionar com as pessoas.

— E agora você o está defendendo?

— Não estou defendendo o Joseph.

— Está, sim.

— Não estou, não. Eu ainda acho que o que ele fez foi errado. Só estou dizendo que ao avaliar essa situação de maneira racional, baseando-me em estudos psicológicos já realizados, consigo ver uma melhora no comportamento dele em comparação com o que você me contou sobre ele antes.

— E, a meu ver, isso tudo não passa de uma grande armação por parte dele, mas cansei de discutir. – Aaron se colocou de pé e se espreguiçou um pouco – Vou tomar um banho. Quer vir comigo?

Os olhos de Rebecca se arregalaram.

— Você quer que eu tome um banho com você? Tipo, nós dois dentro daquele box?

— Bem, podemos encher a banheira, se você quiser, mas isso nos tomaria mais tempo que ligar o chuveiro, não acha?

— Acho. É que… essa é a primeira vez que vou fazer algo assim.

Aaron franziu as sobrancelhas para ela.

— Como assim a “primeira vez”? Você estava no chuveiro comigo na noite em que dormimos juntos, lembra?

— Sim, eu me lembro, mas nós não tomamos banho juntos naquela noite. Quero dizer, nós nos beijamos e eu me assustei com a intensidade que as coisas estavam tomando, então, você saiu do banheiro e eu terminei de tomar banho sozinha. Não foi um banho de casal, daqueles que vemos nos filmes, com as pessoas ensaboando os corpos umas das outras…

Aaron não permitiu que ela concluísse a explicação. Simplesmente, enlaçou sua cintura e tomou os lábios dela nos seus, beijando-a de maneira apaixonada e intensa.

— Adoro essa sua forma racional e literal de interpretar as situações, sabia?

— Bem, você não gostou da minha forma racional e literal de falar sobre a psicopatia.

— E nós vamos continuar muito bem se você deixar esse assunto de lado e apenas me acompanhar até o chuveiro. – ele pousou dois dedos sobre os lábios dela e sorriu – Tente não ser um gênio da psicologia por quinze minutos, Bee. Consegue fazer isso?

Dessa vez, foi Rebecca quem sorriu.

— Asseguro-lhe que nenhum termo técnico da psicologia escapará por esses lábios enquanto estivermos no chuveiro. – ela concordou.

— Ótimo. – Aaron retirou os dedos de seus lábios e a segurou pela mão – Pois eu consigo pensar em outra dezena de maneiras de usar os seus lábios enquanto estivermos lá.

As bochechas de Rebecca coraram, mas ela o acompanhou de bom grado até o banheiro, onde permitiu que ele a ajudasse a se desfazer das peças de roupa que usava antes de entrar no box. Sua timidez havia se esvaído quase que completamente desde a noite que haviam passado juntos e ela percebeu que Cadence estava coberta de razão: falar sobre sexo ou, até mesmo, se despir diante de outra pessoa não era algo tão constrangedor depois de já se ter vivido a experiência.

A água quente do chuveiro se chocou contra o corpo nu de Rebecca quase no mesmo instante em que os lábios de Aaron pousaram sobre a pele sensível de seu pescoço e ela reclinou a cabeça para trás, dando-lhe mais acesso àquela região. Sempre que estava com Aaron, ela se via querendo cada vez mais dele, embora ele já tivesse lhe dado tudo de si: seu coração, seu corpo, sua história… Não havia um centímetro do corpo dele que ela já não conhecesse, assim como ele conhecia o dela, mas aquela sensação de que sempre haveria muito mais por descobrir jamais a abandonava.

— O que significam as suas tatuagens? – ela perguntou ainda de olhos fechados, porque não precisava vê-las para se lembrar de cada número, palavra ou desenho ali. Algumas pessoas faziam tatuagens ao acaso, apenas por acharem os desenhos bonitos e bem elaborados, mas Aaron não lhe parecia ser esse tipo de pessoa. Intimamente, Rebecca sabia que tudo nele era bem mais profundo do que aparentava.

— Minhas tatuagens? – ele pausou os beijos que depositava em seu pescoço e se afastou alguns centímetros para poder olhar para ela.

— Sim. Suas tatuagens. – Rebecca finalmente abriu os olhos e espalmou as mãos sobre o peito dele, correndo as pontas dos dedos pelos desenhos ali – Elas significam alguma coisa, não é? Não são apenas desenhos, letras e números escolhidos ao acaso, certo?

Rebecca subiu as mãos por seu peito e acariciou seus ombros largos antes de escorregar as mãos por seus braços até parar em seus pulsos e girá-los para cima.

— Estas. – ela questionou, passando os polegares em cima das inscrições “Things I Can't”¹ e “Things I Can”², gravadas em seus pulsos direito e esquerdo, respectivamente.

Aaron observou as palavras em tinta negra, marcadas em sua pele, por um instante e abriu um leve sorriso.

— Oração da Serenidade. – explicou – Ela diz: “Deus, concedei-me serenidade para aceitar as coisas que não posso mudar, coragem para mudar as coisas que posso e sabedoria para reconhecer a diferença entre uma e outra.”.

— Bonito. – Rebecca sorriu para ele e voltou a subir por seu braço esquerdo, até chegar a parte interna de seu bíceps – E esta? – ela apontou para a pequena tatuagem onde as palavras “Permettete A Voi Stessi” estavam gravadas em itálico, logo abaixo do desenho de uma gaiola aberta da qual três andorinhas escapavam e uma permanecia lá dentro, como se estivesse olhando para o nada.

— É italiano. Significa “permita-se”. É sobre deixar para trás os medos que o aprisionam e aproveitar as oportunidades e experiências que a vida tem a oferecer. Às vezes nos acostumamos com aquilo que temos e nos esquecemos que há um mundo bem maior nos esperando fora da nossa zona de conforto. Em resumo, não quero ser o pássaro que continua preso apenas por ter medo do que pode encontrar.

— Entendi. – Rebecca deixou a tatuagem dos pássaros em seu braço e seguiu para outra inscrição em itálico, logo abaixo de sua clavícula – Just Breathe³. – ela leu em voz alta.

Aaron suspirou.

— Fiz esta porque há momentos na vida em que isso é tudo o que podemos fazer. Apenas respirar fundo e esperar até que a dor passe. – uma sombra de tristeza escureceu seus olhos e Rebecca não precisou de muito tempo para entender que, enquanto morava com a mãe e o padrasto em Londres, sendo agredido diariamente por coisas fúteis e por pura crueldade, respirar fundo e esperar até que a dor passasse era a única coisa que Aaron podia fazer.

Ela se inclinou e depositou um beijo breve em seus lábios.

— Você está bem agora. – confortou-o e, então, então seguiu para a próxima tatuagem: um desenho da Rosa dos Ventos sob a clavícula direita – E esta aqui? – pediu.

— Esta é sobre um sonho que tenho. – ele passou a mão sobre o desenho como se pudesse sentir a tinta negra da tatuagem queimando sob sua pele – Quando o meu pai ainda estava vivo, nós falávamos sobre viajar para diferentes lugares do mundo e, em cada um desses lugares, conhecer a história de vida de dez pessoas aleatórias, como o motorista do táxi, a florista em frente ao restaurante, a velha senhora que apenas se senta todos os dias no parque… Pessoas que a sociedade rotula como comuns, mas que, muitas vezes, têm uma linda história de vida para contar. Você entende?

— Entendo muito bem e acho que esse é um sonho muito bonito, Aaron. Talvez eu possa fazer parte dele também, se você permitir.

Aaron sorriu e a abraçou.

— Eu adoraria que fizesse parte dele, Bee.

Ela sorriu.

— Muito bem, então. Próxima tatuagem. – Rebecca guiou sua mão da Rosa dos Ventos sob a clavícula de Aaron até a lateral de seu corpo, onde duas pequenas patas caninas estavam desenhadas junto a frase “Wild Hearts Can't Be Tamed”⁴— Screapy? – ela supôs, sem precisar de maiores explicações e Aaron apenas assentiu. – Sente muita falta dele, não é?

— Muita.

Ela assentiu, compreensiva e seguiu para uma tatuagem que nada mais era que uma sequência de números romanos, que muito provavelmente formavam uma data, gravados sobre uma de suas costelas.

— O que esta significa?

— Consegue sentir a cicatriz que está embaixo dela? – Aaron perguntou, guiando as pontas dos dedos de Rebecca de um lado a outro da sequência de números, enquanto ela balançava a cabeça afirmativamente – Ganhei esta cicatriz um dia antes do meu aniversário de sete anos. Foi a primeira surra que o Erick me deu.

— E você tatuou a data?

— Sim. – ele assentiu – Para eu nunca me esquecer de quem o Erick é e de tudo o que ele já fez para mim. Há um ditado que diz que aquilo que não te mata, te fortalece. Eu acredito nisso. – explicou.

— Também acredito. – Rebecca concordou, mas não pode deixar de se sentir triste por aquele garoto que, mesmo sendo tão jovem, já havia enfrentado coisas tão ruins.

Ela continuou mapeando as tatuagens do corpo de Aaron, desde as mais simples, como um pequeno trecho de Paradise – uma de suas músicas favoritas da banda Coldplay – cercado de algumas notas musicais na lateral esquerda de seu corpo, até o Filtro dos Sonhos tatuado atrás de seu obro direito e que parecia esvoaçar para a parte posterior de seu bíceps. Aaron tinha dezenas de tatuagens, cada uma relacionada a uma fase de sua vida ou a um momento especial e marcante que tinha vivido e descobrir o significado de cada uma delas fez Rebecca se entristecer, se alegrar e se admirar com ele a cada desenho, número ou frase em que punha as mãos.

— São lindas. – ela disse quando terminou seu exame minucioso – Acho que elas até me inspiraram a fazer uma tatuagem também.

— Você não tem nenhuma?

Ela negou com a cabeça.

— Eu tenho um pouco de medo. Algumas pessoas dizem que dói muito e eu também fico pensando no que acontece se eu me arrepender depois. Ter de cobrir com outra tatuagem ou remover com laser, isso não me aparece agradável. Além disso, os meus pais não são os maiores fãs de arte corporal.

— Eles são bem conservadores, não é?

— São, sim. Muito. – ela assentiu – Acho que esse receio que eu tenho em relação às tatuagens é mais uma influência deles que qualquer outra coisa, mas depois de conversar com você e de saber o que cada uma das suas tatuagens significas, realmente estou com vontade de fazer uma.

— Se quiser mesmo, posso te apresentar ao Luke, meu tatuador.

— Um dia. – Rebecca concordou com um sorriso – Ainda preciso pensar no que eu gostaria de tatuar. Tem que ser algo bastante significativo.

— Vou te ajudar a pensar em alguma coisa. – Aaron depositou um beijo em sua boca e, então, eles se concentraram em terminar o banho, pois ambos estavam exaustos após passarem a noite no hospital e mal podiam esperar para caírem na cama e dormirem por várias horas.

Seus planos, no entanto, foram completamente frustrados cerca de quinze minutos após se deitarem, quando o celular de Rebecca começou a tocar de maneira incessante.

— Desligue essa coisa e, se necessário, retorne para a pessoa mais tarde. – Aaron a aconselhou, tentando tapar os ouvidos com um travesseiro – Nós dois merecemos algum descanso depois da noite horrível que passamos. Desligue, Bee.

— Ei. Tenha calma. – Rebecca se desvencilhou do abraço dele e rolou pela cama até alcançar a bolsa que tinha deixado largada na mesinha de cabeceira – Acho que pode ser a Margareth querendo saber notícias do Christopher. Ela me pediu para mantê-la informada, mas eu me esqueci de telefonar.

— Dois minutos. – Aaron estipulou deitando-se bruços, com a cabeça apoiada sobre os braços cruzados – Depois disso, você diz a ela que precisa dormir e desliga.

— Tá. Dois minutos. – Rebecca alcançou seu celular dentro da bolsa, mas quase caiu da cama ao ver o nome de sua mãe estampado na tela – Ai, meu Deus! – exclamou com tanta veemência que Aaron abriu os olhos e se virou para encará-la.

— O que foi?

— É a minha mãe. – ela explicou ainda observando a tela do celular que vibrava em sua mão – Minha mãe nunca me liga. Porque será que ela está me ligando hoje?

— Talvez ela queira falar com você.

— Falar comigo sobre o que? Ela nunca fala comigo, Aaron. É sempre com a Margareth. O que será que ela quer?!

— Eu não faço a mínima ideia, Bee, mas porque você não atende e descobre? – Aaron sugeriu.

Rebecca olhou para ele por um instante, tentando acalmar as batidas rítmicas que dominaram seu coração nos últimos trinta segundos e, depois, se voltou para a tela iluminada do celular, onde o nome da mãe parecia mais chamativo que as fachadas dos cassinos em Las Vegas. Não tinha motivo para ficar tão nervosa porque sua mãe estava sempre viajando a trabalho, ao lado se pai, e os dois, certamente, não tinham como saber sobre seu namoro com Aaron, a menos que Margareth os tivesse dedurado, algo que Rebecca duvidava que a tutora fosse capaz de fazer. Então, seja lá qual fosse o motivo de sua mãe telefonar, muito provavelmente não era para discutir sobre seu namoro proibido. Ela respirou fundo.

— É. Você tem razão. – concordou e Aaron se sentou na cama, ao seu lado, para observá-la, enquanto ela atendia o celular – Mãe?

— Rebecca. – a voz de sua mãe, Samantha Andrews, ecoou do outro lado da linha acompanhada por um burburinho de outras vozes – Meu amor, que saudade. Como você está?

— Eu estou bem. – Rebecca respondeu ainda confusa com aquela ligação – A senhora… precisa de alguma coisa?

— O que? – sua mãe sorriu – Não. Não, meu amor. Estou ligando porque eu e seu pai estamos aqui.

Rebeca franziu a testa.

— Estão aqui onde?

— Aqui em Oxford. – sua mãe respondeu contente – Tivemos uma conferência no País de Gales, que terminou um dia antes do previsto, porque um dos palestrantes não pode ir, então, seu pai e eu decidimos que poderíamos usar esse tempo para vir até a universidade e visitar você e o seu irmão.

A palpitação no peito de Rebecca voltou a crescer.

— A senhora e o papai estão aqui em Oxford? – ela lançou um olhar aterrorizado para Aaron e este apenas a encarou sem compreender o motivo de tamanho assombro – Por acaso estão no aeroporto?

— Não, querida. Estamos em frente ao seu alojamento. Desça e venha nos dar um abraço.

— Ah. – um riso nervoso escapou dos lábios de Rebecca, fazendo Aaron franzir a testa – Vocês estão em frente ao St. Hilda's College. Esperando por mim. Que… maravilha, mãe.

— Sim. Seu pai e eu queremos levar você e o Tyler para comer alguma coisa, amor. Desça para que nós possamos ir até Trinity buscar o seu irmão.

— Descer? – as mãos de Rebecca começaram a suar – Sabe o que é, mãe, eu não vou poder encontrá-los aí porque não estou no dormitório. As aulas terminaram mais cedo hoje e eu pensei em dar uma passadinha no apartamento da Margareth para ver como ela estava.

— Querida, nós acabamos de sair do apartamento da Margareth.

— Saíram? – Rebecca engoliu em seco – Quero dizer, isso é ótimo, mãe. Maravilhoso. Sabe, o que eu realmente quis dizer antes foi que eu pensei em passar no apartamento da Margareth hoje, mas que não fiz isso porque eu me lembrei que tinha um trabalho muito importante para fazer. Por isso, em vez de ir para lá, eu vim para uma biblioteca.

— Em qual biblioteca você está? – sua mãe questionou – Nós podemos passar aí e encontrar você. Seu pai e eu alugamos um carro.

— Não! – Rebecca quase gritou e Aaron arregalou os olhos para ela, surpreso e confuso – Eu quero dizer, não precisam se incomodar, mãe. Eu estou numa biblioteca um pouco afastada do St. Hilda's. Porque vocês não me esperam aí? Estou fechando os livros e arrumando minhas coisas. Chegarei aí em alguns minutos.

Sua mãe pensou naquilo por alguns segundos.

— Tudo bem. – concordou – Estaremos te esperando no jardim.

— Ótimo. Vejo vocês daqui a pouco.

— Até logo, querida. – sua mãe se despediu e desligou o telefone.

— Deus, eu estou tão ferrada! – Rebecca exclamou, caindo de costas na cama de maneira dramática.

— O que foi tudo isso? – Aaron questionou, sustendo o peso de seu corpo sobre os cotovelos, enquanto pairava acima dela, observando-a.

— Meus pais saíram mais cedo de uma conferência em Gales e decidiram me fazer uma visitinha surpresa. – ela choramingou – Estão em frente ao St. Hilda's, nesse exato momento, esperando que eu saia da biblioteca onde eu disse que estava.

— Você mentiu para os seus pais?

Rebecca abriu um dos olhos para espiá-lo.

— O que você queria que eu dissesse? Desculpe, mãe, mas não vou poder encontrá-los na universidade agora porque estou seminua na cama do meu namorado?

Aaron riu.

— Ah, isso certamente renderia um pouco assunto.

— Não. Isso renderia lucro a alguma casa funerária, porque meus pais certamente me matariam. – Rebecca voltou a choramingar – O que eu faço?

— Bem, eu não sou um especialista no assunto, pois nunca precisei dar muitas satisfações para a minha mãe, mas acho que sair desta cama e se vestir seria um ótimo começo.

— Ah, meu Deus. Você tem razão. Eu disse a eles que chegaria em alguns minutos.

— Eu posso te levar lá se você quiser.

Os olhos de Rebecca foram novamente tomados pelo pavor.

— Não! – ela exclamou colocando-se rapidamente de pé – Não mesmo. Sem chance.

— Porque?

— Porque não.

— Tem vergonha de me apresentar aos seus pais, é isso? Acha que eles não me considerariam bom o bastante para você?

— Não. – Rebecca negou aquela afirmação com veemência, mas quando Aaron a encarou com uma expressão que deixava claro que ela não estava sendo convincente, ela respirou fundo e se deu por vencida – Ok. É isso. Mas eu não tenho vergonha de você, tá? O problema é que os meus pais são um pouco difíceis.

— Me apresente como um amigo, então?

— Um amigo?

— Qual é, Bee? Você não pode nem ter amigos? – Aaron se desvencilhou do travesseiro que segurava e também se colocou de pé – Diga que ia chamar um táxi, mas que eu estava saindo da biblioteca na mesma hora e te ofereci uma carona. Sou um cara legal e nós estudamos juntos algumas vezes. Já até te ajudei com um dos seus trabalhos sobre a psiquê humana ou algo assim.

Rebecca começou a rir.

— Isso não vai dar certo.

— Porque não? Acha que eu não sou capaz de te ajudar com um trabalho?

— O que eu acho é que meus pais não vão acreditar nessa história de estudo em dupla. Olha só para você.

— O que tem eu?

— Tem que você é um gato e possui esse seu jeito de bad boy e essas suas tatuagens magníficas. No mínimo eles vão achar que você só está estudando comigo porque quer me levar para a cama.

— Bem, eles não estariam muito enganados, não é? – Aaron riu e Rebecca lhe acertou com alguns tapas.

— Viu? É exatamente disso que eu estou falando. Eles nunca vão acreditar que somos só colegas de estudo com você agindo assim.

— Eu me comporto. – Aaron prometeu – Por favor, Bee.

— Eu achei que você estava com sono.

— E eu estou, mas quero ir com você. Seus pais vão ter que saber sobre nós em algum momento, então, eu acho que será muito melhor se eles já me conhecerem como um bom amigo que te ajuda e te incentiva a estudar. Por favor.

Rebecca refletiu sobre aquilo por um instante e, mesmo sem querer, precisava admitir que era um bom plano. Se seus pais achassem que Aaron era um aluno aplicado que a ajudava com estudos e trabalhos, talvez aceitasse melhor a relação deles no futuro.

— Tudo bem. Você pode ir, mas tem que me prometer que não vai falar coisas impróprias.

Aaron ergueu uma das mãos.

— Eu prometo. Vou ser o melhor amigo nerd de estudo que você já teve. Acredite em mim.

— Que Deus nos ajude. – Rebecca depositou um selinho nos lábios dele e correu para se vestir, enquanto Aaron fazia o mesmo. Se seus pais acreditariam nela ou não, ela não sabia, mas esperava que as coisas não fugissem muito do controle.

Notas finais
TRADUÇÕES: 1) Things I Can't: Coisas que eu não posso. 2) Things I Can: Coisas que eu posso. 3) Just Breathe: Apenas respire. 4) Wild Hearts Can't Be Tamed: Corações selvagens não podem ser domados. *** Bem, minha gente, por enquanto é isso. Próximo capítulo teremos um encontro épico com Samantha e Benjamim Andrews, então preparem seus corações. Espero que tenham gostado de descobrir sobre as tatuagens do Aaron e, como vocês puderam ver nas imagens do hiperlinks, elas não são exatas (ou seja, não estavam nas partes do corpo que citei no capítulo) mas as coloquei aí para que vocês pudessem ter uma ideia dos desenhos e dos traços que imaginei enquanto escrevia, Agora preciso me apressar em ir para a faculdade aqui e, infelizmente, na minha não tem nenhum Aaron Greed (soooo sad). Beijocas e até o próximo capítulo.