Wake Me Up

41 Todas as Faces de Um Medo


Notas iniciais
Oi de novo, Não faz nem 24h que postei um capítulo, mas como esse daqui já estava meio escrito, consegui terminar bem rápido. Ainda fiquei na dúvida se postava hoje ou não, mas para quê ficar regrando capítulos se eu não sei se o mundo vai acabar amanhã, não é mesmo? XD Então, aproveitem a leitura e... Enfim.

Quando Rebecca acordou, na manhã seguinte, os braços de Aaron ainda estavam ao seu redor, envolvendo-a em um perfeito refúgio de calor e músculos que a fez se sentir bem mais que apenas aquecida. A fez sentir amada.

Ela mal podia acreditar que finalmente tinha dado aquele grande passo em sua vida. Nunca tinha parado muito para pensar em como seria a sua primeira vez ou com quem, mas diante da forma como seus pais a tratavam sempre achou que sua primeira vez aconteceria em sua noite de núpcias com o homem que tivesse escolhido para ser seu marido, mas estava realmente feliz por não ter sido assim.

Seus pais certamente teriam um ataque se soubessem que ela tinha perdido sua virgindade aos dezoito anos, com um cara que eles, provavelmente, considerariam um marginal, mas para Rebecca nada disso importava. Estar com Aaron na noite anterior e compartilhar com ele todas aquelas experiências havia sido algo incrível e, apesar do que seus pais ou do que qualquer outra pessoa nesse mundo pudesse lhe dizer, ela tinha certeza de que sua primeira vez havia sido perfeita e de que tinha acontecido com a pessoa certa. Nada poderia ser melhor que aquilo.

Sem conseguir retirar aquele sorriso bobo de felicidade dos lábios, Rebecca se inclinou um pouco na cama para poder olhar para Aaron que ainda estava adormecido ao seu lado. Ele parecia sereno e ainda mais bonito, aos seus olhos, naquela manhã e Rebecca só conseguia pensar em como ele era perfeito. Ela se perguntou se era dessa forma que as garotas com quem ele havia ficado se sentiam quando acordavam e o encontravam ao seu lado, mas logo se forçou a parar de pensar sobre isso. Aquele tempo havia acabado. Aaron era dela agora e ele próprio havia dito que nunca olhava nos olhos de ninguém durante o sexo e que nunca se importava com nada. As garotas com quem ele estivera antes não foram importantes para ele como ela era, então, não havia sentido ficar imaginando coisas que não existiam de verdade.

Rebecca se remexeu um pouco na cama, tentando se desvencilhar do abraço apertado em que Aaron a prendia e, então, após depositar um breve selinho em seus lábios, ela retirou os braços dele de seu corpo e se esgueirou para fora da cama, para poder escovar os dentes e fazer o café da manhã.

Christopher também não tinha acordado ainda, então, dessa vez, não havia cheiro de panquecas recém-preparadas espalhado pela casa e Rebecca sorriu ao perceber como sentiu falta disso, porque as panquecas que Christopher fazia eram realmente saborosas.

Ela abriu a geladeira e os armários para dar uma olhada nos ingredientes que haviam ali e descobriu que poderia fazer desde torradas com geleia até Waffles com calda de morango, mas, depois de pensar um pouco, decidiu que seria melhor dar uma passadinha rápida na padaria que havia a algumas ruas dali, para poder comprar alguns pães, biscoitos e rosquinhas e, talvez, até uma fatia da torta de frutas deliciosa que Margareth já comprara para ela, algumas vezes, quando estava em seu apartamento.

Rebecca então voltou para o quarto, silenciosamente, abriu sua mochila e trocou o pijama que usava por um leve vestido florido e curto e saiu para comprar o café da manhã. A padaria não estava muito cheia e, após comprar alguns pães doces, donuts, uma fatia de torta de frango e outra da torta de frutas que queria, ela voltou para o apartamento, recebendo um cumprimento educado do recepcionista ao passar pela portaria.

Quando abriu a porta do apartamento, entretanto, Rebecca quase deixou todas as sacolas que segurava caírem no chão, porque foi pega de surpresa por um Aaron que, praticamente, pulou em seus braços quando ela entrou. Ele a abraçou com tanta força que por um instante Rebecca ficou sem saber se deveria abraçá-lo de volta ou perguntar se algo ruim havia acontecido enquanto estava fora, mas todas as palavras que queria dizer foram esquecidas quando Aaron se afastou e olhou para ela com uma expressão que era uma mistura estranha de alegria e medo.

– Achei que você tinha ido embora. – ele disse finalmente – Acordei e não te encontrei aqui, pensei que você tinha me deixado, Bee. Já estava começando a ficar maluco.

Rebecca o encarou por instante, absorvendo as palavras dele e depois abriu um pequeno sorriso.

– Eu só fui à padaria comprar o nosso café da manhã, seu bobo. Só passei uns dez minutos fora.

– Não importa. Nunca mais me assuste desse jeito. Meu Deus, eu quase chorei aqui. Você tem ideia do que é isso?

Rebecca riu.

– Você quase chorou?

– Isso não é engraçado. – Aaron olhou para ela de cara feia – Eu pensei que tinha te machucado, te irritado, te decepcionado, sei lá. Achei que você nunca mais ia falar comigo de novo. Isso não tem a menor graça, Bee. Quer para de rir de mim, por favor.

– Desculpe. É que isso é muito engraçado. Eu só fui à padaria. Não precisava de todo esse desespero.

– Devia ter deixado um recado avisando aonde iria, sabe? Para não matar o seu namorado de susto e fazê-lo achar que tinha sido abandonado na manhã seguinte.

Rebecca olhou para ele, surpresa.

– Você acabou de dizer que é meu namorado?

Aaron desviou os olhos dela, parecendo um tanto desconfortável com o rumo daquela conversa, porque aquela era a primeira vez que ele se envolvia em algo tão sério assim.

– Claro que eu disse. – ele respondeu envergonhado – Só porque eu nunca falei isso antes não significa que não te via dessa forma e...

Rebecca não esperou para saber o final daquela frase. Simplesmente se jogou nos braços dele, com as sacolas da padaria e tudo e o beijou de maneira apaixonada.

– Eu te amo, sabia? – ela sussurrou contra seus lábios – Você é o garoto mais lindo e fofo que eu já conheci na vida, apesar de eu não ter conhecido muitos.

– Obrigado. – ele sorriu – Da próxima vez, porém, eu prefiro que me chame apenas de lindo e deixe o fofo para falar com o seu irmão ou com o meu. Esse adjetivo é meio esquisito.

– Ele não é esquisito. – Rebecca deu um tapinha em seu ombro e, depois, desceu de seus braços para o chão – E você é fofo, sim. Não importa se você gosta desse adjetivo ou não.

Aaron fez uma pequena careta para ela.

– Ai, meu Deus, não fala que eu sou fofo. Se depois eu começar a pintar as unhas de rosa e dançar umas músicas do Village People, a culpa vai ser toda sua.

– Larga de ser bobo. – Rebecca o segurou pela mão e o conduziu até a cozinha – O que vai querer de café da manhã? Eu comprei pães, donuts, torta de frango e torta de frutas. – ela enunciou retirando os lanches das sacolas e depositando-os sobre o balcão – Também comprei suco de laranja, que eu adoro e leite desnatado.

– Hum. Comprou o café da manhã completo. Sabia que eu nunca comi um donut na vida?

– Nunca? – Rebecca arregalou os olhos para ele e, rapidamente, pegou um donut com cobertura de chocolate e nozes de dentro da caixa – Aqui. Dá uma mordida.

Aaron fez o que ela pediu e assim que provou o donut, seu rosto se iluminou com uma expressão de extrema satisfação.

– Gostoso. – ele aprovou – Posso pegar um copo de leite?

– Não pode. Deve. – Rebecca foi até o armário e pegou um copo, enquanto Aaron abria garrafa de leite e, então, os dois se sentaram ao redor do balcão para tomar seu café da manhã.

Ela comeu a torta de frutas que havia comprado, acompanhada do suco de laranja do qual gostava e Aaron devorou metade dos donuts da caixa e dois dos pães açucarados. A conversa girou em torno de assuntos simples como trabalhos acadêmicos, filmes e outra dezena de assuntos banais que iam surgindo um após o outro. Aquela era a manhã mais divertida que Rebecca já tivera na vida e, como uma grande boba, ela se pegou imaginando como seria acordar todas as manhãs e ter momentos como aquele. Mas ainda era muito cedo para pensar em coisas assim.

– Acha que eu devia acordar o Christopher? – Aaron perguntou quando eles terminaram o café da manhã e se juntaram diante da pia para lavar as poucas louças que havia sujado.

Rebecca olhou para relógio de parede atrás de si e sacudiu a cabeça.

– Não. Deixe-o dormir um pouco mais. Hoje é domingo e ainda nem são onze horas da manhã. Daqui a pouco ele acorda.

Aaron assentiu e secou as louças que ela havia lhe passado.

– Quero fazer amor com você de novo. – ele comentou aproximando os lábios da orelha dela, o que quase a fez derrubar o copo que estava enxaguando.

– Meu Deus, você tem que me avisar quando for se aproximar desse jeito. Meu corpo reage de maneira estranha.

– Acho que ele reage da maneira certa. – Aaron refutou, largando o pano que segurava e retirando o copo das mãos de Rebecca, para poder erguê-la pelos quadris e a carregar até um espaço livre no balcão cozinha, onde a colocou – Não estou conseguindo manter as minhas mãos longe de você hoje. – ele disse colocando-se entre as pernas dela e segurando sua cintura – Acho que você me deixou viciado, Bee.

– E isso é bom ou ruim?

– Isso é ótimo. – Aaron tomou seus lábios nos dele e Rebecca sentiu-se derreter em suas mãos exatamente como na noite anterior.

– A gente devia mesmo estar fazendo isso na cozinha?

– Ainda não estamos fazendo nada, mas essa é uma situação que eu pretendo remediar rapidamente. – então, ele colou a mão embaixo do vestido de Rebecca e acariciou a parte interna de suas coxas, beijando-a de maneira intensa.

Não demorou muito para que os dedos de Aaron deixassem suas coxas e tocassem a área quente e úmida sob sua calcinha e Rebecca reprimiu um gemido que ameaçou escapar por seus lábios, enquanto entrelaçava os dedos nas mechas do cabelo loiro dele.

Ela nem sabia dizer se aquilo era realmente permitido, afinal aquela era a cozinha e o balcão não deveria ser usado para aquele propósito, mas por um instante ela se pegou imaginando como seria se Aaron a possuísse ali mesmo. Tudo isso, porém, foi esquecido em um milésimo de segundo quando Rebecca abriu os olhos e viu Christopher se aproximar da cozinha e, tão rápida e silenciosamente quanto um ninja, dar meia volta para sair dali sem ser notado.

– Ai, meu Deus. – Rebecca corou de vergonha e rapidamente retirou a mão de Aaron debaixo de seu vestido e o afastou para longe.

– O que foi? – ele olhou para ela sem entender a súbita mudança e Rebecca acenou com a cabeça em direção a porta da cozinha, onde Christopher já havia sumido de vista.

– Seu irmão acordou. – ela explicou arrumando o vestido e descendo do balcão.

Aaron olhou para trás, mas não viu ninguém.

– Ele estava aqui?

– Não exatamente. Ele estava entrando na cozinha, mas viu nós dois aqui e saiu de fininho.

– Bom garoto. – Aaron sorriu parecendo não dar nenhuma importância àquilo, enquanto Rebecca só queria cavar um buraco no chão e desaparecer dentro dele.

– Bom garoto, uma ova! Ele tem quatorze anos, Aaron. Vá atrás dele e tente consertar isso.

– Tentar consertar o quê?

– Isso! – Rebecca exclamou apontando para si mesma e para ele, como se quisesse enfatizar o problema.

– Tá falando sério? – Aaron riu – Você quer que eu vá até lá e tenha com ele aquela conversa básica sobre sexo, que eu acho que ele já sabe de cor ou quer que eu bata a cabeça dele na parede até que ele esqueça o que viu?

– Ai, meu Deus, eu não sei. Quer dizer, não bata a cabeça dele na parede, tá? Só... faça alguma coisa.

– Bee – Aaron se aproximou dela e segurou suas mãos –, fique calma, está bem? O Christopher tem quase quinze anos, ele não é mais uma criança que não entende que coisas desse tipo acontecem. Aliás, do jeito que ele é, eu aposto que ele já assistiu a filmes que você nem sonharia em ver, então, não precisa ficar tão nervosa assim.

– Acha mesmo que ele não vai ficar traumatizado?

– Traumatizado? Com isso? É claro que não. Eu acho que ele nem viu nada. Você mesma disse que ele chegou aqui e deu meia volta. Ele é um garoto esperto. É mais fácil você ficar traumatizada que ele.

– Certo. – Rebecca abriu um sorriso constrangido para ele – Certo. Acho que estou exagerando um pouco, não é?

– Está, sim.

– Okay. Tudo bem. – Rebecca soltou as mãos dele e arrumou um pouco o cabelo tentando se acalmar – Ótimo. Não aconteceu nada demais. Então... Só vá atrás dele e chame-o para tomar café. Ele deve estar com fome.

– Vou fazer isso. – Aaron depositou um selinho em seus lábios e então saiu da cozinha para ir atrás do irmão.

Ele encontrou Christopher em seu quarto, deitado na cama com seu iPod ligado no último volume em seus fones de ouvido.

– Eu não vi nada. – Christopher disse, antes mesmo que ele pudesse dizer alguma coisa e Aaron se sentou aos pés de sua cama, fazendo sinal para que ele tirasse os fones. Com certa relutância, Christopher fez o que ele pediu – Desculpe ter atrapalhado vocês. – ele já foi logo se desculpando – Eu não sabia que estavam lá. Achei que ainda estavam dormindo. Eu ia fazer o café da manhã e...

– Christopher – Aaron ergueu a mão para interrompê-lo –, está tudo bem, cara. Sério. Eu não me importo. Não vim aqui para brigar com você, está bem? Vim para conversar, para falar sobre o que aconteceu ontem.

– Ainda está bravo pelo que eu disse ontem?

– Não. E nem tenho motivos para ficar bravo com você. Eu só queria te pedir desculpas. – Aaron explicou aproximando-se um pouco mais dele – Eu não devia ter gritado com você daquele jeito e eu sinto muito por ter me irritado e agido como um idiota, tá? Eu te amo muito, moleque. Prometo que nunca mais vou discutir com você daquele jeito.

Christopher abriu um pequeno sorriso para ele e pulou em seus braços para abraçá-lo.

– Prometo que nunca mais vou atirar uma vasilha em você também. Foi mal.

– Tudo bem. A sua mira é péssima. – Aaron retribuiu ao abraço dele e, então, se levantou – A Bee está te chamando para tomar café. Ela comprou donuts e alguns pães.

Christopher fez uma pequena careta.

– Será que eu posso tomar o café mais tarde? Não estou com muita fome agora.

– Como assim você não está com fome? – Aaron se surpreendeu – Geralmente você quer comer até os móveis da casa.

– Eu não estou muito legal hoje. Não dormi muito bem e estou com um pouco de dor de cabeça.

– Não foi por minha culpa, foi? – Aaron lançou a ele um olhar significativo e Christopher riu.

– Não. Não foi por sua culpa. Eu só não estou bem mesmo, mas daqui a pouco isso passa e eu volto a querer comer os móveis da casa.

– Só deixe a minha cama intacta e a TV e o videogame. – Aaron piscou para ele – São itens de necessidade básica.

– Principalmente a sua cama, não é?

– É. Só não fala isso para a Bee. Ela vai ficar com vergonha.

– Minha boca é um túmulo. – Christopher fez sinal de trancá-la e Aaron assentiu, retirando-se do quarto.

Ele e Rebecca passaram a maior parte do tempo na sala, jogados no sofá enquanto fingiam assistir a um programa qualquer na TV a cabo do qual nada estavam entendendo porque estavam muito ocupados se beijando para poder prestar atenção no conteúdo. Christopher, por sua vez, só foi tomar seu café quase às duas da tarde, mas, ainda assim, ele tomou apenas um copo de suco de laranja e comeu apenas um pequeno pedaço da fatia de torta de frango que Rebecca havia comprado.

Ela até insistiu para que Aaron o convidasse para uma partida de videogame, já que sabia que ele adorava isso, mas Christopher preferiu não jogar e decidiu ficar em seu quarto mesmo, alegando que estava com sono.

– Ele está bem? – Rebecca perguntou a Aaron, quando Christopher voltou para o quarto e fechou a porta.

Aaron deu de ombros.

– Ele disse que não dormiu muito bem e que está com um pouco de dor de cabeça. Acho que deve ter comido demais ontem a noite.

– Mas ele não está passando mal, está? Será que foi a comida mesmo? Acha que a gente deveria dar algum remédio para ele? Algo para dor de cabeça ou coisa assim. Ele pode ter pegado um resfriado?

Aaron sorriu para ela.

– Você parece uma mãe preocupada, sabia?

– É porque eu não gosto de vê-lo doente assim. Ele está muito abatido hoje. E você viu como ele está pálido? Ele quase nem comeu nada.

– Eu sei. Também estou preocupado, mas não sei o que ele tem. Ele só diz que está cansado e que não dormiu direito. Talvez mais tarde ele esteja melhor.

– Espero que sim. – Rebecca soltou um suspiro cansado e voltou a assistir ao programa na televisão, perguntando-se o que diabos estava passando.

Algumas horas mais tarde, ela já estava praticamente adormecida nos braços de Aaron de novo, quando um barulho alto de vidro se partindo a fez se sobressaltar e olhar em volta a procura de qualquer coisa que pudesse ter causado aquilo.

– Que barulho foi esse? – perguntou quando Aaron também se colocou de pé e olhou ao redor tentando descobrir sua origem.

– Parece que veio do quarto do Christopher. – ele concluiu, trocando um rápido olhar com Rebecca antes de sair da sala e atravessar o corredor, seguindo rapidamente para o quarto do irmão.

Ainda um pouco assustada, Rebecca apenas conferiu se seu vestido e seu cabelo não estavam muito desarrumados e seguiu atrás de Aaron, mas antes mesmo que ela tivesse dado três passos no corredor o barulho ensurdecedor de algo se chocando contra a porta fez seu coração se acelerar novamente.

Alarmada, ela disparou ainda mais rápido pelo corredor e quando se aproximou do quarto de Christopher encontrou Aaron bombardeando sua porta com chutes.

– Aaron, o que você... – Rebecca começou a perguntar, mas antes que pudesse concluir a frase Aaron a interrompeu.

– O Christopher não responde! – ele disse, chutando a porta uma vez mais – O meu irmão não responde e essa droga de porta tá trancada!

Aaron depositou mais dois ou três chutes fortes na porta enquanto Rebecca assistia a toda cena apreensiva e quando a tranca finalmente cedeu, fazendo a porta se chocar com força contra a parede, ele se precipitou para dentro do quarto como um raio.

Rebecca o seguiu, rapidamente, e embora estivesse atordoada com toda a situação e já suspeitasse que o que encontraria no quarto de Christopher, assim que a porta se abrisse, não seria nada bom, a cena que viu ao se aproximar do local acabou se revelando ainda mais apavorante do que ela esperava.

Christopher estava caído de costas no chão, próximo da cama, enquanto seus olhos se reviravam nas órbitas e seu corpo inteiro se agitava violentamente, em convulsão. Seus braços continham alguns arranhões, causados pela fricção de sua pele contra os cacos de vidro que estavam espalhados pelo chão do quarto por causa do abajur que ele, provavelmente, havia derrubado do criado-mudo no início de sua crise e um pouco de sangue escorria de seu nariz.

– Ai meu Deus! – Rebecca exclamou adentrando no quarto, no mesmo instante em que Aaron se abaixou ao lado de Christopher e, com cuidado, segurou sua cabeça para evitar que ela continuasse batendo contra o piso.

Tudo ali parecia se desenrolar em câmera lenta e apesar de Rebecca ter tido uma breve aula sobre o que fazer diante de uma convulsão nas aulas de primeiros socorros de sua antiga escola, ela estava tão nervosa que mal conseguia se mexer.

– Christopher! – Aaron o chamou, completamente desesperado. O medo e a angustia eram visíveis através de seus olhos verdes e a cada espasmo muscular violento que o corpo de Christopher sofria a preocupação em seu rosto parecia aumentar um pouco mais – Chama uma ambulância! – ele gritou para Rebecca, sem desviar os olhos do irmão por um instante sequer – Por favor, Bee, chama uma ambulância!

Mesmo tomada pelo nervosismo, Rebecca assentiu brevemente e obrigou suas pernas a se mexerem, correndo até o quarto de Aaron para pegar seu celular. Por sorte, Margareth a havia feito decorar o número de emergência que era usado no Reino Unido antes de elas irem para Oxford, então em vez de discar o 911 como costumava fazer no EUA, Rebecca discou o 999 e aguardou, inquieta, até que alguém atendesse o telefone.

A voz calma da atendente ecoou do outro lado da linha, após o segundo toque e antes mesmo que ela tivesse terminado de fazer sua apresentação, Rebecca já estava gritando:

– Eu preciso de uma ambulância! Pelo amor de Deus, manda uma ambulância para cá. Ele está tendo uma convulsão!

– Senhora, por favor, fique calma. – a atendente do serviço de emergência disse de maneira atenciosa e experiente – Antes de qualquer coisa eu preciso que você me diga o nome da pessoa que está tendo a convulsão.

– Christopher. – Rebecca disse rapidamente – O nome dele é Christopher.

– Muito bem. O Christopher ainda está em convulsão?

– Sim!

– Você está sozinha? Tem alguém que possa ajudá-la com ele?

– O irmão dele está aqui comigo.

– Ótimo. Eu preciso que vocês retirem de perto do Christopher qualquer coisa com a qual ele possa se machucar e preciso que mantenham a cabeça dele segura para evitar que ele a bata durante a crise, tudo bem? Ele está usando óculos ou alguma outra coisa que possa feri-lo?

– Não. – Rebecca respondeu voltando a passos rápidos para o quarto onde Aaron estava com Christopher e de onde ela poderia dar maiores informações para a atendente – A cabeça dele já está segura, mas ele está com um sangramento no nariz. O que eu faço?!

– Ele tem alguma fratura no rosto?

– Eu acho que não, mas... Meu Deus, eu não sei! Me ajuda, por favor!

– Fique calma. – a atendente pediu novamente – Eu preciso que você e o irmão do Christopher virem o corpo dele de lado, com muito cuidado, para evitar que o sangue obstrua as vias aéreas dele, tudo bem?

– Tudo bem. Espera um pouco. – Rebecca afastou o celular do ouvido e depois se voltou para Aaron: – A gente precisa deitá-lo de lado para o sangue não obstruir o nariz dele. Você consegue fazer isso?

Aaron assentiu e, com certa dificuldade, conseguiu virar o corpo agitado de Christopher um pouco de lado, permitindo que o sangue de seu nariz escorresse para o piso.

– Pronto! – Rebecca anunciou para atendente, já a beira do desespero – O que eu faço agora? Ele ainda está se debatendo e eu não sei o que fazer!

– Vocês já fizeram tudo o que podiam. Agora eu preciso que vocês observem o Christopher e que aguardem até que a crise convulsiva acabe. A convulsão é um evento autolimitado que dura em média entre 1 e 3 minutos, mas pode ser que o Christopher fique inconsciente depois que ela acabar e vocês precisam ficar atentos para qualquer sintoma incomum que ele possa apresentar. – a atendente explicou – Vou mandar uma ambulância para buscá-lo nesse momento. Você pode me passar o seu endereço?

– Sim. Claro. – Rebecca concordou, mas entregou o celular a Aaron e assumiu o posto dele ao lado de Christopher, que já havia parado de se debater um pouco, para que ele pudesse passar o endereço de seu apartamento à atendente.

Enquanto Aaron ditava o endereço às pressas para a atendente, Rebecca o observou caminhar de um lado a outro do quarto, inquieto. O cenário de destruição a sua volta, desde a porta quebrada até os cacos de cerâmica branca do abajur, espalhados pelo chão do quarto junto com alguns outros objetos que Christopher havia derrubado, tornavam todo aquele momento completamente surreal, mas o rosto úmido e frio de Christopher entre suas mãos a deixavam bastante consciente da realidade terrível daquela situação.

– Ela disse que a ambulância deve chegar em cinco minutos. – Aaron avisou ao desligar o celular e se sentar ao lado de Rebecca no chão. Seus olhos não desgrudavam um só segundo do corpo de Christopher e, por mais que suas ações aparentassem alguma calma, Rebecca sabia que tudo aquilo devia estar sendo insuportável para ele.

Era fácil perceber, pela forma como suas mãos jamais se afastavam a mais de três centímetros de Christopher que Aaron estava usando todo a sua força de vontade para não abraçar o irmão e irromper em prantos ali mesmo e tal atitude só a fez admirá-lo ainda mais. Ela sabia dos momentos de terror que ele havia passado na infância, ao ver o pai cometer suicídio bem diante de seus olhos e o fato de que ele ainda não tinha surtado completamente mostrava o quanto ele era forte. Se estivesse em seu lugar, Rebecca tinha certeza que já teria enlouquecido. Ela era muito fraca para esse tipo de situação.

– Ele está muito quieto. – Aaron comentou tirando-a de seus devaneios – Isso é normal?

– A atendente do serviço de emergência disse que ele poderia ficar inconsciente depois da crise. – Rebecca respondeu, apoiando a cabeça de Christopher em seu colo – Isso foi assustador, Aaron. Ele já teve outras crises como essa antes?

Aaron balançou a cabeça de forma negativa.

– É a primeira vez que eu vejo isso acontecer.

– Mas já fazia sete anos que vocês não se viam, não é? Você acha que ele pode ter tido alguma crise desse tipo depois que você saiu de casa?

– Eu não sei. – Aaron respondeu rapidamente e agora ele estava mais nervoso que antes. Rebecca quase podia ouvir as engrenagens de seu cérebro trabalhando a procura de respostas e a cada resposta que ele parecia encontrar, seu semblante só demonstrava mais tristeza e remorso. Ele amava o irmão e não era preciso ser nenhum gênio para saber que ele jamais iria se perdoar se algo tivesse acontecido com Christopher enquanto ele se recusava a voltar para casa.

– Vai ficar tudo bem. – Rebecca acariciou sua mão, procurando em suas palavras o conforto de que ela também precisava – O Christopher vai ficar bem. Tenho certeza que, se alguma coisa grave estivesse acontecendo com ele, a sua mãe te avisaria. Certamente, isso foi só algum fato isolado.

Aaron assentiu com a cabeça, mas seus olhos revelavam que a preocupação ainda estava presente em seu interior. Ele certamente estava pensando no relacionamento conturbado que tinha com a mãe e, por um instante, Rebecca chegou a se perguntar se isso impediria que a mãe de Aaron lhe passasse alguma informação importante sobre Christopher, mas logo ela tirou essa ideia da cabeça. Christopher havia dito a Aaron, na noite anterior, que sua mãe o amava e que sentia falta dele em casa, então ela certamente não seria capaz de esconder uma coisa tão importante quanto essa do filho mais velho.

– Ele vai ficar bem. – Rebecca o reconfortou novamente – Você vai ver. Vai ficar tudo bem.

Aaron assentiu e soltou um suspiro profundo, enquanto se recostava na cama e fechava os olhos.

– Obrigada.

– De nada. – Rebecca recostou a cabeça no ombro dele e, juntos, eles esperaram até que a ambulância chegasse.

O atendimento dos paramédicos não demorou muito. Eles verificaram os sinais vitais de Christopher e limparam um pouco do sangue que escorria por sua face, antes de colocarem um cateter de oxigênio em seu nariz e colocá-lo na maca. Aaron foi para o hospital com ele, acompanhando-o na ambulância, mas antes de ir anotou o endereço do hospital para onde Christopher seria levado e entregou as chaves de seu carro para Rebecca, para que ela pudesse ir ao encontro dos dois no hospital.

Por causa das sirenes altas da ambulância e de toda a movimentação dos equipamentos àquela hora da tarde um pequeno grupo de curiosos havia se formado na rua e Rebecca já estava pronta para ignorar todos os olhares questionadores que eles lhe lançavam e voltar para dentro do prédio quando o rosto preocupado de Margareth surgiu no meio da multidão.

– Becca? – Margareth correu até ela, aflita – O que aconteceu?

– Ah, Margareth! – Rebecca a abraçou, permitindo que as lágrimas que segurara por tanto tempo enquanto estava na presença de Aaron finalmente se libertassem e transbordassem em seus olhos – O Christopher teve uma convulsão. O Aaron foi para o hospital com ele, mas eu estou com tanto medo, Margareth. Ele estava inconsciente quando a ambulância saiu daqui.

– Oh, menina. – Margareth retribuiu ao seu abraço com força e depois de tanto reconfortar Aaron enquanto estavam no apartamento, foi a vez de Rebecca ouvir algumas palavras de consolo – O Christopher vai ficar bem. Você precisa pensar positivo e mandar boas energias para ele, para que ele possa melhorar.

– Eu sei. – Rebecca secou os olhos com as costas das mãos – Mas foi tão horrível. Eu fiquei apavorada.

– Eu imagino, mas agora você precisa se acalmar. Vem. Eu vou fazer um chá para nós duas e aí você pode me explicar melhor como foi que tudo aconteceu, ok?

Rebecca balançou a cabeça de forma negativa.

– Desculpa Margareth, mas eu não posso tomar um chá agora. Preciso ir para o hospital ficar com o Aaron. – ela apertou as chaves do carro com força contra o peito – Ele está tentando se manter tranquilo, mas eu sei que ele vai acabar desmoronando em algum momento. Ele está angustiado. Eu preciso ficar lá com ele.

– Eu sei, Becca, mas você precisa se acalmar um pouco antes de ir para o hospital. Você não pode dirigir nervosa desse jeito e se estiver assim não vai conseguir ajudar o Aaron em nada. Vamos subir e tomar um chá e, depois, quando você estiver mais calma e tiver trocado de roupa, eu vou com você até o hospital, está bem? Você com certeza não vai querer ir para lá com o seu vestido todo sujo desse jeito, vai?

– O meu vestido? Não. Eu só... – Rebecca olhou para baixo e envolveu o corpo com os braços, ao notar as manchas de sangue que estavam espalhadas pelo tecido florido de seu vestido. Ela certamente não queria ir para o hospital com a roupa daquele jeito, mas se Margareth não tivesse mencionado tal fato era bem provável que ela acabaria indo assim mesmo.

Depois de passar por um momento tão terrível quanto aquele parecia que todas as outras coisas perdiam a importância. O vestido, o chá, o fato de estar descalça... Tudo isso ficava em segundo plano. O dia parecia se resumir apenas àquele momento angustiante e, enquanto Margareth a conduzia de volta ao interior de seu prédio, tudo em que Rebecca conseguia pensar era no corpo frágil de Christopher se debatendo no chão.

O breve momento de alegria que ela e Aaron tinham compartilhado parecia ter ficado a anos-luz de distância e ela só podia rezar para que, no fim, Christopher ficasse bem e tudo aquilo não se tornasse mais que uma lembrança ruim.

***

Enquanto os paramédicos retiravam a maca de Christopher da ambulância e o conduziam para dentro do pronto socorro, tudo o que Aaron conseguia fazer era manter os olhos fixos no rosto inexpressivo e, ainda um pouco manchado de sangue, do irmão.

Desde criança Aaron se empenhara em cuidar de Christopher e não foram poucas as vezes em que ele o havia defendido das maldades de Joseph ou de algum coleguinha malcriado da escola, mas diante daquela situação ele se sentia totalmente impotente. Ele queria acreditar, com todas as suas forças, que a crise convulsiva que Christopher tivera naquela tarde tinha sido apenas um fato isolado do qual Christopher se recuperaria rapidamente, mas algo dentro de si insistia em gritar que havia algo muito errado naquela situação. Ele não sabia o que era, mas estava com medo. Estava com muito medo.

Forçando-se a reprimir o choro que ameaçava irromper por seus olhos a qualquer instante e seguindo a recomendação de uns dos paramédicos, Aaron se dirigiu ao balcão de registros do pronto socorro e passou todos os dados de Christopher para a atendente. Por sorte, Christopher tinha levado seus documentos na viagem maluca que fizera até Oxford para vê-lo e Aaron pode apresentá-los juntos com seus próprios documentos, para comprovar seu parentesco e ser aceito como o responsável pelo garoto até que sua mãe estivesse presente, o que aconteceria assim que ele tomasse coragem para telefonar para ela.

Apesar das desavenças e de todos os anos afastados, Aaron sabia que não havia como fugir daquela situação. Seria realmente complicado reencontrar a mãe depois de ter passado tanto tempo ignorando-a e, é óbvio que a simples perspectiva do acontecimento o deixava nervoso, mas ele precisava telefonar. Então, seguindo até o lado de fora do hospital, Aaron percorreu os contatos de sua agenda telefônica até encontrar o nome correspondente àquela pequena palavrinha com M que ele não utilizava há vários anos.

Pressionar o ícone de discagem certamente foi uma das batalhas mais ardilosas que ele já travara consigo mesmo, mas depois de respirar fundo algumas vezes, Aaron finalmente tomou coragem para fazê-lo.

A medida que o telefone tocava do outro lado da linha, o coração de Aaron se acelerava um pouco mais. Eram quase sete da noite agora e em alguns instantes ele ouviria a voz da mãe. Aaron se perguntava se ela estaria em casa naquele momento, se Erick estaria com ela, se ela ficaria surpresa ao ver seu nome escrito na tela do celular, se ficaria feliz... Ele se perguntava muitas coisas, mas no instante seguinte um ruído baixo substituiu os tons de discagem e todas as perguntas desapareceram de sua cabeça quando a voz suave de sua mãe ecoou do outro lado da linha:

– Alô. – ela disse baixinho e sua voz denunciava que ela quase não conseguia acreditar que era realmente ele quem estava telefonando.

– Mãe? – Aaron disse sentindo sua boca ficar pateticamente seca de repente.

Houve um momento de silêncio do outro lado da linha e ele pode ouvir o barulho de lençóis se agitando enquanto sua mãe parecia se sentar na cama rapidamente.

– Aaron? – ela disse visivelmente surpresa e já preocupada – Meu filho, você está bem?

A resposta era não, mas o problema não era com Aaron como aquela ligação repentina a fazia crer. O problema era Christopher e o fato de que ele havia mentido e que Aaron o havia acobertado. O problema era que em vez de estar em um passeio escolar na França, Christopher agora estava num hospital, sabe-se lá Deus em que estado e o problema era que a primeira ligação que Aaron fazia para a mãe, depois de anos, era para explicar tudo isso, só que ele nem sabia por onde começaria a explicar. O problema também era que sua mãe surtaria no mesmo instante em que as palavras saíssem de sua boca e que ele não fazia a menor ideia de como lidaria com aquilo.

Tudo o que Aaron sabia era que estava apavorado. Por Christopher, por ele e pela mãe. De repente, mesmo após dezessete anos e tantas experiências de vida, Aaron tinha voltado a se sentir como aquela criança indefesa e assustada que havia visto seu pai se suicidar durante sua festa de aniversário.

Notas finais
Pois é, ontem vocês terminaram o capítulo todos felizes, vomitando o arco-íris e agora... Vão terminar no desespero, com o coração apertado por causa do Christopher... Gente, eu faço cada maldade com vocês né? A fannfic finalmente chegou no capítulo onde eu havia parado antes de excluir e eu já comecei a escrever o capítulo 42, mas acho que vou fazer uma pausa de uma semana para eu poder responder aos reviews que deixei acumular nesse tempo, porque se vocês me mandam reviews é minha obrigação respondê-los, né? Assim sendo, vejo vocês em breve e, até lá, respira fundo, segura na mão de Deus e vai! Beijos e até o próximo capítulo.