Wake Me Up

17 Quem Tem Medo do Lobo Mau?


Notas iniciais
Oie, Prontos para algumas mudanças? Então preparem-se e divirtam-se ^^ Boa leitura.

Rebecca se dirigiu à universidade sem realmente enxergar as ruas por onde passava. Aquela era a primeira vez que ela e Ty discutiam daquela forma e as palavras cruéis de seu irmão ainda ecoavam em sua mente, deixando-a tão triste e magoada quanto haviam deixado quando ele as pronunciou.

Ty era o irmão de quem Rebecca mais gostava e com quem ela mais se identificava também. Ele era o único que sempre era gentil com ela e que compreendia seus sentimentos quase tão bem quanto ela própria, mas a forma como ele havia agido no restaurante a fazia se questionar se realmente o conhecia de verdade. Ela se perguntava se ele havia dito tudo aquilo apenas da boca para fora ou se, realmente, era aquilo que pensava sobre ela e, se fosse esse o caso, sentia que havia se enganado muito quanto a que tipo de pessoa seu irmão era.

Estava tão perdida em seus pensamentos que, ao atravessar uma rua próxima ao campus, só reparou que o semáforo ainda estava verde quando ouviu o barulho alto causado pela freada brusca de um carro e quando virou-se em direção ao som, deu de cara com um Range Rover Evoque azul derrapando em sua direção, mas por causa do susto não conseguiu se mexer um centímetro sequer para escapar do carro, que se chocou contra seu corpo milésimos de segundos depois.

Por sorte, a velocidade do carro já havia diminuído o suficiente para não lhe causar nenhum dano grave, mas o impacto ainda foi grande o bastante para jogá-la de encontro ao chão e causar-lhe algumas escoriações e hematomas que, por causa da adrenalina, se tornaram quase imperceptíveis e não a impediram de se colocar de pé rapidamente – mais atordoada pelo susto que pelo acidente em si –, surpreendendo-se quando a porta do carro se abriu e a figura conhecida de Aaron surgiu por ali.

Ele usava uma camiseta branca simples, calça jeans escura e um All Star vermelho. Seu cabelo loiro estava ligeiramente bagunçado por causa do vento e seu rosto sério sugeria que ele estava bastante irritado.

– Você é louca?! – Aaron gritou fechando a porta do carro com força e seguindo apressado até Rebecca – Você não pode simplesmente atravessar a rua desse jeito. Eu podia ter te matado, caramba! Você não sabe olhar por onde anda, não?

Ele a encarou nervoso e, dentre todas as situações nas quais Rebecca imaginou que pudesse acabar encontrando-o ao longo da semana, aquela era a mais improvável e, depois de tudo o que havia acontecido, ela não se sentia nada preparada para aquele encontro. O nervosismo apoderou-se dela imediatamente e ela olhou para Aaron tão assustada quanto alguém que havia acabado de ver um fantasma, mas não conseguiu pronunciar uma única palavra.

– Rebecca? – Aaron a chamou, agitando uma das mãos em frente aos olhos dela numa tentativa de tirá-la de seu estado petrificado. Ela estava tão pálida e tão imóvel que ele começou a ficar preocupado com a possibilidade de a queda ter afetado seu cérebro – Você está bem?

– Hã? – Rebecca piscou, saindo de seu estado de transe, mas um segundo depois foi atingida por uma dor lancinante em seu joelho esquerdo, que antes tinha sido ignorada por causa do susto e da adrenalina. A dor foi tão intensa que ela quase desabou no chão, mas antes que isso acontecesse Aaron a amparou.

– O que houve? – ele perguntou preocupado. Depois da visita de Erick, a última coisa da qual ele precisava era que seu padrasto fosse chamado para vir até Oxford tirá-lo da cadeia por ter causado algum tipo de dano físico ou mental à Rebecca no acidente, portanto, quanto mais saudável ela ficasse, melhor para ele.

– Meu joelho... – ela respondeu entredentes, fazendo uma careta por causa da dor.

Com a ajuda de Aaron, Rebecca mancou até a calçada onde se sentou e ergueu um pouco a saia de seu uniforme, encontrando um grande corte ensanguentado em seu joelho esquerdo que, provavelmente, tinha sido causado pelo impacto com a placa do carro de Aaron.

Assim que viu o ferimento, outra careta de dor invadiu seu rosto.

– Mas que droga! – ela praguejou, quase choramingando – Droga. Droga. Droga.

Aaron sentou-se na calçada ao lado dela e soltou um pequeno suspiro cansado.

– Posso dar uma olhada? – ele pediu, apontando para o ferimento e Rebecca o olhou desconfiada por um instante.

Aquele tipo de gentileza vindo de Aaron não era normal. Mesmo que agora ela soubesse que havia um pouco de humanidade dentro daquele coração gelado, aquele tipo de atitude por parte dele era, no mínimo, suspeita e ela só conseguia pensar que a qualquer momento descobriria que havia algum tipo de pegadinha por trás de tudo aquilo, mas como não havia nada na expressão dele que o denunciasse, Rebecca apenas assentiu, brevemente, e rezou para estar enganada quanto às suas suspeitas.

Aaron, por sua vez, segurou a panturrilha dela e, com cuidado, ergueu um pouco sua perna, para analisar o ferimento mais de perto, mas mesmo o mais leve dos movimentos fez Rebecca soltar um pequeno gemido de dor.

– Desculpe. – disse ele, sem desviar os olhos do corte que havia no joelho dela.

Um estranho formigamento percorreu a perna de Rebecca por causa de seu toque e de seu olhar atento e ela sentiu as bochechas corarem instantaneamente por causa disso. Nenhum garoto havia tocado em sua perna antes – nem mesmo Vlad, que agora era seu namorado – e, apesar de Aaron estar tocando apenas sua panturrilha e de seu olhar estar concentrado apenas no ferimento que havia ali, ainda assim Rebecca considerou aquele simples toque algo íntimo demais.

– É um corte bem grande. – Aaron disse ao final de sua análise – Acho que vai precisar de alguns pontos. É melhor eu te levar para o hospital.

– Não! – Rebecca exclamou rapidamente.

Sua fobia a hospitais, só não era maior que o seu medo de agulhas e juntar as duas coisas que ela mais detestava em uma única situação, parecia algo bem pior que qualquer dor que pudesse sentir. Então, a menos que não ir ao hospital significasse que seu joelho iria sangrar até que ela morresse, ela faria questão de evitar.

– Você tem algum problema com os hospitais? – Aaron perguntou com um sorriso torto.

Ele soltou a perna de Rebecca, com o mesmo cuidado que havia tido antes e voltou a se sentar ao lado dela, na calçada, deixando Rebecca um pouco mais confortável com a situação, agora que as mãos dele estavam longe de suas pernas.

– Não tenho problema nenhum. – Rebecca mentiu usando a primeira desculpa que passou por sua cabeça – É só que o meu joelho já não está mais doendo tanto assim e eu tenho alguma experiência com esse tipo de ferimento, então, acho que os pontos não serão necessários. Posso fazer um bom curativo quando chegar ao meu dormitório e tudo vai ficar bem. Não precisa se incomodar ainda mais tendo que se desviar de seu caminho para me levar a um hospital.

– Tem certeza? – Aaron ergueu uma sobrancelha para ela, desconfiado e Rebecca ergueu a cabeça, tentando não demonstrar qualquer sinal de fraqueza.

– Absoluta. – ela afirmou rapidamente – Eu estou bem. Posso me virar.

– Ok. Se você diz... – Aaron deu de ombros.

Pela forma como o sorriso jocoso que pairava em seus lábios se extinguiu estava claro que ele não havia acreditado em uma só palavra do que Rebecca tinha dito e que ainda achava que ela deveria ir a um hospital, mas como ele não retrucou, o assunto morreu ali e ele se colocou de pé novamente, olhando com desprezo para o pequeno grupo de curiosos que havia se formado ao redor deles após o acidente e que, agora, começava a se dispersar.

Para Aaron, aquelas pessoas eram como um bando de expectadores sádicos assistindo a um show de horrores. Quanto mais terrível fosse a tragédia, mais interessante se tornava e já que seu acidente com Rebecca não havia sido grave, não havia mais nada ali que prendesse a atenção daquelas pessoas. Ainda assim, não se surpreenderia se encontrasse seu rosto e o de Rebecca em alguma rede social depois. Curiosos adoravam fotografar acidentes, até mesmo os mais simples.

Aaron olhou de volta para Rebecca e ao notar que o ferimento em seu joelho já estava começando a formar uma pequena poça de sangue no chão, junto ao meio fio, percebeu que mesmo que Rebecca não quisesse ir ao hospital e que estivesse planejando cuidar do ferimento quando chegasse ao seu dormitório, ela não poderia permanecer com o joelho naquele estado por tanto tempo.

Então, sem pensar duas vezes, Aaron retirou a camiseta branca que usava e, sem muito esforço, começou a rasgá-la desde a costura da gola até sua barra, deixando Rebecca completamente boquiaberta com a cena.

– O... O que você está fazendo? – ela perguntou, olhando ao redor alarmada e, ao mesmo tempo, constrangida, enquanto tentava obrigar seus olhos errantes a não se concentrarem no abdômen definido e repleto de inscrições em tinta negra que Aaron estava exibindo, sem o menor pudor, no meio da rua.

As pessoas a sua volta pareciam estar pensando o mesmo que ela, porque paravam e olhavam para a cena com curiosidade – e, no caso de algumas garotas, até mesmo com certo desejo –, enquanto Aaron parecia estar completamente alheio a toda aquela atenção indesejada e apenas se concentrava em dobrar a camiseta que havia rasgado como se estivesse se preparando para fazer um torniquete.

– O seu ferimento está sangrando muito e isso não é nada bom. – ele explicou, abaixando-se diante dela e começando a enrolar a camiseta rasgada ao redor do ferimento de seu joelho, sem pedir permissão – Quanto menos sangue você perder até chegarmos à universidade e você poder cuidar disso, melhor.

Rebecca abriu a boca para responder, mas as palavras pareceram se perder em algum lugar no caminho entre seu cérebro e sua boca e tudo o que ela conseguiu fazer foi encará-lo, embasbacada, sentindo o coração martelar dentro do peito toda a vez que as mãos de Aaron roçavam contra a pele nua de sua perna. Ela não sabia dizer se ele a estava tocando de propósito ou não e tinha quase absoluta certeza de que era a única pessoa no mundo que via aquele gesto como algo mais, mas isso não mudava a forma como seu corpo reagia ou a forma como seu rosto parecia ruborizar um pouco mais a cada segundo, ao ponto de quase fazê-la se sentir febril.

– Acho que isso deve bastar por hora. – Aaron atou a camiseta com um nó firme e verificou se o tecido estava cobrindo todo o ferimento, antes de se colocar novamente de pé e estender a mão para Rebecca para ajudá-la a se levantar – Venha. – ele a incentivou com um sorriso tranquilo – Você disse que não quer que eu te leve ao hospital, mas acho que vai precisar, pelo menos, de uma carona até o St. Hilda’s, não é?

– Acho que sim. – Rebecca respondeu, hesitando um segundo antes de segurar a mão dele e deixar que ele a ajudasse a se levantar.

Não se sentia muito à vontade com a ideia de pegar uma carona com Aaron, principalmente pelo fato de ele estar sem camisa e de ela não poder confiar em seus olhos para ficarem longe dos contornos do peito dele durante o caminho, mas com o joelho naquele estado seria extremamente difícil e doloroso chegar ao alojamento do St. Hilda’s a pé, então não havia muito que pudesse fazer a não ser aceitar a oferta dele.

Aaron ajudou Rebecca a seguir até o carro e, depois de ajudá-la a se sentar, tomou seu lugar no banco do motorista e seguiu para o alojamento do St. Hilda’s, com Rebecca ao seu lado, fazendo todo o possível para não olhar para o corpo dele e para as linhas de tinta negra que o marcavam durante o trajeto.

– Já almoçou? – Aaron perguntou apenas para puxar assunto.

O silêncio imperava dentro do carro e pelo fervor com que Rebecca se concentrava nas ruas que se estendiam a sua frente, ficou claro para ele que aquele silêncio permaneceria até chegarem ao St. Hilda’s se não puxasse assunto nenhum.

– Almocei, sim. – Rebecca respondeu desviando a atenção da paisagem por um breve instante – Estava voltando do The Grand Café quando você me atropelou.

Aaron abriu um sorriso.

– Isso é o que eu chamo de azar.

– Acho que teria sido pior se você tivesse me atropelado antes mesmo de eu conseguir almoçar, não?

– Teria, sim, mas eu não estava me referindo a você. – ele respondeu sorrindo – O azarado aqui sou eu.

– Por quê? – Rebecca olhou para ele, confusa– Quem foi atropelada fui eu, não você.

– Eu sei, mas se eu tivesse te atropelado antes, talvez agora eu pudesse usar isso como desculpa para te convidar para almoçar de novo. – Aaron deu uma piscadela para ela e ela apenas revirou os olhos. Ao que parecia o velho Dom Juan de frases feitas ainda estava por baixo de toda aquela gentileza e boa vontade.

Sem que Rebecca percebesse, seus olhos acabaram se desviando do rosto dele e se concentrado nas linhas negras que adornavam seu torso nu. Aquela era a primeira vez que ela o via sem camisa e a quantidade de tatuagens que ele escondia por baixo de suas roupas a surpreendia, porque quando ele estava vestido nenhum daqueles desenhos ficava à mostra, talvez porque a maior parte deles estivessem concentrados em seuas costas, peito e costelas.

– Quer ouvir um pouco de música? – Aaron perguntou, pegando Rebecca de surpresa e fazendo-a praticamente torcer o pescoço na tentativa de afastar os olhos do corpo dele rapidamente – Eu posso ser bonzinho e deixar você escolher a playlist, se quiser.

– Não. Obrigada. – Rebecca voltou a ficar seus olhos na estrada, amaldiçoando-se por não conseguir controlar sua curiosidade e Aaron a olhou de esguelha.

Aquela não era a resposta que ele estava acostumado a receber. Geralmente, a maior alegria das garotas era comandar o som de seu carro, mas Rebecca parecia tão desinteressada nisso quanto em sua presença ali e aquilo feriu seu ego de uma maneira que ninguém tinha conseguido fazer antes.

– Bem – ele disse cheio de teimosia –, já que esse é o meu carro, eu vou ligar o som, queira você ou não.

– Tanto faz. – Rebecca deu de ombros e isso só serviu para irritá-lo ainda mais.

Aaron conectou seu iPod ao som do carro de forma rude e percorreu as pastas procurando pela música mais depravada que pudesse encontrar ali apenas para irritar Rebecca. Para Aaron, ela era o tipo de garota certinha que, com certeza, se ofenderia com isso e, naquele momento, tudo o que ele queria fazer era tirá-la do sério.

A música escolhida foi “P.I.M.P.” do 50 Cent e, assim que ela começou a tocar, a expressão de desagrado no rosto de Rebecca deixou claro que Aaron tinha atingido seu objetivo, mas ainda assim, ele não se satisfez.

Aaron queria muito mais que uma simples expressão de desagrado por parte de Rebecca. Queria vê-la realmente irritada, então aumentou o volume do som quase ao máximo e começou a cantar junto com a música.

Não demorou muito até Rebecca se irritar e desligar o som e Aaron soltou uma gargalhada satisfeita quando ela o encarou com raiva.

– Qual é o seu problema, hein? – ela perguntou cruzando os braços diante do peito e fechando a cara para ele – Você tem sempre que ser tão desagradável assim.

– Olha quem fala. – ele retrucou ainda rindo – Com esse seu jeito sonso você chega a ser mais irritante que eu.

– Como é que é? – Rebecca olhou para ele indignada. Não podia acreditar que Aaron não apenas havia acabado de chamá-la de sonsa como, ainda por cima, estava rindo da cara dela.

– É o que você ouviu. – disse ele sem se preocupar.

– Mal educado! – ela retrucou enraivecida.

– Chata.

– Grosso.

– Mimada.

– Convencido.

– Gorda.

– Gorda? – Rebecca o encarou, visivelmente ofendida com esse último comentário e Aaron apenas deu de ombros.

Ele não achava que ela fosse gorda realmente. Na verdade, achava que ela tinha um corpo muito bonito e atraente, mas sabia muito bem que toda mulher se incomodava com essa ofensa. Chamar uma mulher de gorda era a pior coisa que um homem podia fazer.

– Monstro! – Rebecca exclamou com o rosto vermelho de raiva, virando a cara para ele. E pensar que havia até gostado de suas tatuagens...

– Foi você quem começou. – disse Aaron, mas ela nem se dispôs a retrucar.

O resto do caminho foi percorrido em silêncio e, assim que Aaron estacionou o carro em frente ao alojamento do St. Hilda’s, Rebecca desceu do carro e bateu a porta com força.

– Já que vai quebrar a porta do meu carro, podia pelo menos me agradecer por te trazer até aqui. – Aaron reclamou, saindo do carro também.

– Ah, tá. Vai sonhando, babaca. – Rebecca retrucou enquanto mancava em direção ao alojamento.

Aaron trancou o carro e a seguiu de perto, observando sua frustrante tentativa de subir a longa escadaria principal do alojamento. Por causa do ferimento em seu joelho ela subia cada degrau tão lentamente quanto uma tartaruga e precisava parar por vários segundo antes de prosseguir para o próximo degrau, o que era ao mesmo tempo engraçado e entediante de se assistir.

Antes que Rebecca conseguisse percorrer metade da escadaria, porém, Aaron se dirigiu até ela e sem nenhum aviso a pegou no colo, fazendo-a se sobressaltar a tal ponto que um pequeno gritinho ridículo escapou por seus lábios.

– O que você acha que está fazendo? – ela perguntou sentindo o ar fugir de seus pulmões, enquanto Aaron subia o restante dos degraus e adentrava no alojamento.

– O que parece que eu estou fazendo? – ele perguntou de maneira retórica – Estou te ajudando a chegar ao seu quarto, ora essa.

– Eu não preciso da sua ajuda!

– Não seja tão orgulhosa, Rebecca. Nós dois sabemos que sem a minha ajuda você não conseguiria chegar ao seu quarto antes da noite de natal. Então, ao invés de reclamar, você deveria era me agradecer.

Rebecca bufou de raiva, mas uma pequena parte dela sabia que, de certa forma, Aaron estava certo. Subir a escadaria principal do alojamento e mais três lances de escadas até chegar ao seu dormitório, com o joelho naquele estado, seria péssimo, mas ela jamais daria o braço a torcer.

– Não importa. – disse, por fim – Você sabe que os garotos são proibidos de entrar no St. Hilda’s e, se alguém te ver aqui, eu vou ficar encrencada.

– Já passam das duas da tarde, Rebecca. – Aaron revirou os olhos desfazendo-se das reclamações dela – A essa hora todas as pseudo-freiras desse lugar já estão na aula.

– É. Mas as monitoras ainda estão aqui. – Rebecca replicou.

Ela tentou desesperadamente se soltar dos braços de Aaron, mas tudo o que conseguiu foi fazer com que ele a segurasse com mais força e desse um pequeno tapinha em sua bunda.

– Fique quieta. – ele exigiu – Se você continuar se sacudindo assim, não apenas vai cair e rolar escada abaixo como vai me derrubar também.

– Não acredito que você teve o atrevimento de bater na minha bunda! – ela retrucou furiosa – Juro por Deus, Aaron, se eu não for expulsa por trazer um garoto para o alojamento, eu farei questão de ser expulsa por matar você.

– Pare de besteira. – ele riu – Foi só um simples tapinha na bunda entre amigos. Não é como se eu tivesse tirado a sua virgindade ou algo assim e quanto mais quieta você ficar, menor é o risco de sermos pegos. Então, cale a boca e pare de se mexer.

Eles subiram os dois lances de escadas que restavam, com Rebecca ainda resmungando ameaças de morte e, apenas quando estavam em frente ao seu dormitório, Aaron a colocou no chão.

– Está entregue. – disse ele enquanto Rebecca retirava a chave da porta de um dos bolsos do blazer azul de seu uniforme.

– Obrigada. – ela disse à contra gosto – Agora saia daqui.

– Nossa! – Aaron fingiu estar ofendido – Eu te carrego por três lances de escadas e é assim que você me trata?

– Você deu um tapa na minha bunda, seu infeliz. E eu não pedi sua ajuda para subir as escadas!

– Mas eu ajudei mesmo assim. Você deveria, pelo menos, me oferecer um copo d’água.

Rebecca colocou a chave na fechadura e a girou algumas vezes antes de se virar novamente para Aaron e apontar um dedo para sua cara.

– Escute aqui – ela disse, decidida –, você não vai entrar no meu quarto nem hoje nem nunca!

Porém, ela mal terminou de pronunciar a frase quando o som de passos vindos da escada fez com que ela e Aaron se sobressaltassem e, sem pensar duas vezes, Aaron abriu a porta do dormitório de Rebecca e entrou, puxando-a consigo e fechando a porta um segundo antes de umas das monitoras do St. Hilda’s surgir no corredor.

Rebecca abriu a boca para reclamar, mas antes que ela pudesse dizer uma só palavra, Aaron a puxou para junto de si e ergueu o dedo indicador até a altura de seus lábios, pedindo que ela fizesse silêncio e, então, os dois aguardaram, tensos, até que o barulho dos passos finalmente desapareceu.

– Essa foi por pouco. – ele comentou, abrindo um sorriso divertido para Rebecca, que lançou um olhar enraivecido para ele e começou a estapeá-lo.

– Você é um idiota! – ela exclamou, enquanto o bombardeava com tapas – Eu deveria te cobrir de socos! Aliás, eu deveria matar você! Deveria te jogar pela janela!

– Calma, Rebecca. – Aaron tentou se desvencilhar dos tapas dela, mas não teve muito sucesso – A gente nem foi pego, nem nada. Porque você está tão brava?

– Porque você existe, caramba! – Rebecca aumentou a intensidade dos tapas e ele se encolheu um pouco mais para tentar evitá-los – Eu podia ter sido expulsa por sua causa!

Ela continuou a desferir tapas contra Aaron e, para se defender, ele precisou segurá-la e jogá-la sobre a cama, tomando cuidado para não esbarrar nas pernas dela e agravar o ferimento em seu joelho.

– Fica calma. – ele pediu novamente, segurando-a com força, embora isso já nem fosse mais necessário.

Com o corpo de Aaron sobre o seu e com seus rostos tão próximos, tudo o que Rebecca conseguia fazer era encarar aqueles intensos olhos verdes que pareciam poder enxergar através dela e possuíam um magnetismo que a impedia de desviar o olhar do dele.

Havia tantos segredos por trás daqueles olhos... Segredos que ela estava louca para decifrar e que, ao mesmo tempo, a deixavam com medo do que poderia encontrar. Aaron Greed era uma caixinha de surpresa em que, ao abri-la, havia a possibilidade de encontrar um presente ou uma bomba relógio e Rebecca não sabia se era corajosa o suficiente para se arriscar.

Mas de uma coisa ela sabia: Aaron estava perto demais.

Seu corpo estava quente sobre o dela, seus olhos a fitavam de uma forma profunda e a maneira como seus lábios estavam meio entreabertos, o deixava tão convidativo que, por um instante, Rebecca conseguiu entender exatamente o porquê de tantas garotas caírem aos seus pés. Mas foi apenas por um instante, pois todos os pensamentos que passavam por sua cabeça naquele momento se dissiparam quando Cadence abriu a porta do dormitório e entrou no quarto, parando abruptamente quando se deparou com Aaron e Rebecca jogados sobre a cama.

Ela encarou toda aquela cena com olhos arregalados e houve um instante de total inatividade de sua parte e da parte de Rebecca, enquanto ambas pareciam absorver os detalhes daquela situação, mas antes que Rebecca pudesse sequer pensar em dizer qualquer coisa para se defender, Cadence soltou a mochila que carregava e bateu a porta atrás de si.

– O que diabos você está fazendo? – ela perguntou sem tentar disfarçar a raiva em sua voz, enquanto alternava o olhar entre Aaron e Rebecca na cama.

– Não é nada do que você está pensando. – Rebecca respondeu empurrando Aaron para longe de si e lutando para se levantar da cama – Sei que parece que nós estávamos... Bem... No meio de alguma coisa, mas nós não estávamos fazendo nada disso, Cadence. Eu juro.

– É. Dá para notar que não. – Cadence retrucou com ironia, observando o fato de que Aaron estava sem camisa.

– É sério. – Rebecca olhou para ela e depois se voltou para Aaron, suplicante – Diga a ela, Aaron. Diga o que aconteceu aqui.

Cadence cruzou os braços, esperando seu pronunciamento e Aaron encarou Rebecca por um instante, antes de finalmente se encostar à cômoda ao lado da cama dela e enfiar as mãos nos bolsos de sua calça jeans.

– Foi só um beijo. – respondeu desavergonhado – Nada que exija grande atenção.

– O que?! – Rebecca arregalou os olhos para ele e Cadence fechou a cara.

– Não estavam fazendo nada demais, não é? – ela disse enraivecida – Você é tão falsa e dissimulada, Rebecca. Achei que você era minha amiga.

– E eu sou. – Rebecca tentou se defender, mas Cadence lhe virou às costas e abriu a porta novamente.

– Espero que se engasgue com o seu próprio veneno, sua víbora traiçoeira. – ela disse antes de sair e bater a porta, com força.

– Cadence! – Rebecca a chamou e tentou correr atrás dela, mas o ferimento em seu joelho latejou de tal forma que o máximo que ela conseguiu foi mancar até a porta, mas quando chegou lá, Cadence já não estava mais a vista no corredor.

– Não se preocupe. – Aaron disse calmamente – Ela volta.

Rebecca virou-se para ele, encontrando-o com a mesma postura despreocupada de antes e um sorrisinho vitorioso no rosto. Ele não parecia nenhum pouco arrependido ou envergonhado do que fizera e seu descaramento sem fim, despertou a fúria de Rebecca de tal maneira, que ela se dirigiu até ele e começou a empurrá-lo para fora do quarto, esquecendo-se até mesmo da dor latente em seu joelho esquerdo.

– Dê o fora daqui agora! – ela rosnou entredentes – Eu quero que você apodreça no inferno, Aaron! Seu mentiroso, filho de uma mãe!

– Ei! – ele disse ainda sorrindo – Não suje essa sua boquinha linda com essas palavras chulas. Não pega bem para a sua pose de boa moça.

– Vá para o inferno!

– Você não quer realmente que eu vá. – Aaron parou e virou-se segurando-a pela cintura – Você fala isso, mas eu vi o jeito que olhou para mim antes de a Cadence aparecer. Você queria me beijar, Rebecca. Só não tem coragem de admitir.

– Cale a boca e saia já daqui! – Rebecca o empurrou para longe – Eu não quero nada com você, seu idiota.

– Boa sorte tentando convencer a si mesma de que isso é verdade. – ele riu e quando Rebecca bateu a porta em sua cara e a trancou, ele ainda permaneceu encarando a porta fechada por um breve instante, antes de se virar e seguir seu caminho com um sorriso satisfeito nos lábios.

Algumas vezes tinha começado a pensar que Rebecca fosse uma conquista impossível, mas agora via que ela não era assim tão diferente das outras garotas com quem ele já havia se envolvido. Ele só precisava descobrir a maneira certa de abordá-la e, então, ela seria sua. Rebecca Andrews não era inalcançável.

Ainda com esse pensamento fervilhando em sua cabeça, Aaron desceu as escadas do alojamento, mas antes que alcançasse a saída do prédio, deu de cara com uma das monitoras do St. Hilda’s que o olhou com uma expressão séria.

– Posso saber o que o senhor faz aqui, Sr. Greed? – ela perguntou de forma severa e Aaron a olhou por um instante, praguejando mentalmente.

Se tivesse sido pego porque qualquer outra monitora do St. Hilda’s, talvez ele conseguisse se safar inventando uma boa desculpa ou jogando um pouco de charme, mas nenhum desses artifícios funcionaria com Eleanor.

Eleanor era uma das monitoras mais antigas do St. Hilda’s. Era morena, tinha cabelos pretos e curtos, possuía estatura mediana e estava na casa dos cinquentas anos e um pouco acima do peso, mas o mais importante, é que ela já tinha pegado Aaron perambulando pelos corredores do St. Hilda’s mais vezes do que conseguia contar nos dedos de uma única mão e, sempre que isso acontecia, Aaron acabava indo parar na reitoria, sentado em uma cadeira diante de um Andrew Hamilton nada contente.

– Oi, Eleanor. – disse ele com um sorrisinho amarelo – Adorei o novo corte de cabelo. Ele combinou muito, muito mesmo com a cor do seu batom. Aliás, ele é de quê, cereja?

Eleanor estreitou os olhos para ele e sua expressão se tornou ainda carrancuda.

– Acho bom o senhor começar a responder a minha pergunta, antes que decida levá-lo pelas orelhas até a sala do reitor, Sr. Greed. O que está fazendo aqui?

– Ah. Eu? Bem, eu só estava... – antes de concluir a frase, porém, Aaron correu porta a fora, obrigando Eleanor a disparar atrás dele, movendo seu corpo roliço com dificuldade.

– Aaron! – ela gritou enquanto tentava alcançá-lo, sem sucesso – Eu vou relatar isso ao reitor. Você não vai se safar dessa, mocinho. Volte aqui, agora! Aaron!

Mas toda a correria foi inútil, porque Aaron era muito mais rápido que ela e antes que ela conseguisse chegar à escadaria principal do alojamento, ele já havia entrado em seu carro e dado marcha a ré para sair do estacionamento.

– Se eu te encontrar por esses corredores mais uma vez eu juro que não irei descansar até que você seja expulso! – Eleanor o ameaçou, ainda um pouco sem fôlego por causa da corrida, mas Aaron nem a escutou.

Ele dirigiu despreocupadamente de volta ao alojamento da Trinity College, e quando entrou em seu quarto, se jogou sobre a cama, sorrindo satisfeito.

Ao sair de seu apartamento naquela tarde, ele não esperava que seu dia fosse tomar o rumo que tomou. Atropelar Rebecca não tinha sido a melhor coisa que acontecera em sua vida, mas pelo menos agora sabia que, mesmo que ela negasse, ela sentia, sim, alguma atração por ele e aquilo era tudo de que ele precisava.

Estava na cara que Rebecca se fazia de durona e de difícil, mas era apenas mais uma garota ingênua, que sonhava com um romance de conto de fadas e com um príncipe encantado. E, foi pensando nisso, que Aaron percebeu exatamente o que deveria fazer para conquista-la.

Se Rebecca queria um romance de conto de fadas, então ele daria a ela um protagonista muito melhor que um príncipe encantado sem graça. Ele daria a ela o mais belo lobo mau que ela já tinha visto e, quando ele terminasse, ela estaria implorando por mais.

Notas finais
E aí, galera, quem tem medo desse lobo mau, hein? rsrs Eu posso afirmar com toda a certeza que eu não tenho kkk Espero que tenham curtido as mudanças e que tenham gostado do capítulo. Beijos e até o próximo!