Wake Me Up
29 O Amor É Um Desastre
Notas iniciais
Os segundos pareceram se arrastar enquanto Aaron e Ty se encaravam e Rebecca tentava buscar uma explicação para tudo aquilo. Seu irmão parecia verdadeiramente furioso e a expressão no rosto de Aaron só podia ser descrita como pouco à vontade, mas, pela primeira vez em sua vida, Rebecca desejou que Ty não estivesse dizendo a verdade.
– E aí, você não vai falar nada? – Ty finalmente voltou a se pronunciar, quebrando o silêncio repleto de tensão que havia se instalado ali – Não vai contar a verdade à minha irmã, Aaron? Porque não mostra a ela, agora, o quão boa pessoa você é?
– Você quer mesmo discutir isso aqui? – Aaron olhou ao redor, para todas as pessoas que agora os observavam com curiosidade e, depois, se voltou para Ty – Porque você não fala mais baixo?
– Falar mais baixo para quê? – Ty também olhou ao redor e fez questão de aumentar um pouco mais o tom de voz – Todo mundo aqui já sabe que eu sou gay mesmo. O que é que eu tenho a perder?
– Ty, por favor. – Rebecca se aproximou dele e de Aaron e alternou o olhar entre os dois – Será que algum de vocês pode me explicar o que está acontecendo aqui? Que história é essa de chantagem?
– Ah, você não sabe? Puxa vida, agora eu estou mesmo surpreso. Não acredito que o Aaron, sempre tão bondoso e prestativo, nunca te contou essa história?
– Ty...
– Cala a boca! – Ty apontou um dedo para ele, irritado – Você transformou a minha vida inteira em um inferno durante mais de um ano, Aaron. É melhor ficar quieto agora.
– Talvez eu ficasse quieto se você não estivesse transformando tudo isso em um circo.
– Você acha que eu estou fazendo disso um circo? – Ty vociferou, fazendo um gesto abrangente para o jardim ao redor deles – Deixa eu te contar uma novidade, Aaron: isso sempre foi um circo. Eu só estou deixando de ser o palhaço agora.
– Ah, fala sério! – Aaron revirou os olhos e bufou – Quer saber, vá a merda, Ty. Se você quer protagonizar um show bem no meio da universidade, então faça isso sozinho. Eu não vou ficar aqui para assistir.
– Ah, você vai ficar, sim. – Rebecca se intrometeu na discussão – Ninguém vai sair daqui enquanto eu não tiver as minhas respostas, então, é melhor você e o Ty começarem a falar de uma vez.
– Oh, inferno! – Aaron chutou um aglomerado de folhas secas no chão que, provavelmente, algum pobre funcionário da universidade tinha perdido muito tempo juntando, mas Rebecca ignorou o acesso de fúria dele e se concentrou em Ty.
– Diga logo o que você tem para me dizer. – exigiu, cruzando os braços em frente ao peito para enfatizar sua determinação.
Ty olhou para Aaron, quase como se de repente tivesse começado a temer a reação dele, mas, por fim, respirou fundo e endireitou os ombros.
– Você se lembra do que eu te disse sobre o Aaron no seu primeiro dia aqui em Oxford? Lembra-se que eu disse que ele não era uma boa pessoa e que, inclusive, chantageava outros estudantes para fazerem os trabalhos dele?
– Sim, eu me lembro disso. Aliás, como eu poderia me esquecer se isso aconteceu logo depois de você socar o nariz dele e, praticamente, me arrastar para fora do seu dormitório?
Ty fechou os olhos e suspirou.
– Olha, foi mal, tá? – ele disse meio a contra gosto – Eu sei que eu não deveria sair te arrastando pelos cantos desse jeito. Sinto muito. Mas, voltando ao assunto, quando eu disse que o Aaron chantageava outros estudantes, na verdade quis dizer que ele me chantageava, mas eu não podia falar sobre isso com você naquele momento.
Rebecca olhou rapidamente para Aaron, que continuava parado, encarando os troncos das árvores a sua frente como se a conversa ali não lhe dissesse respeito e não soube dizer se a reação tranquila dele se devia ao fato de que sua consciência estava limpa ou se ele simplesmente não dava a mínima para as acusações de Ty, mas mesmo sabendo, bem lá no fundo, que seu irmão jamais mentiria sobre algo tão sério, Rebecca ainda não tinha perdido as esperanças de que tudo aquilo não passasse de um engano.
– Me explique exatamente o que aconteceu? – ela pediu voltando sua atenção novamente para Ty – Como foi que isso começou?
– Bem... – Ty baixou os olhos e coçou a cabeça, constrangido – Você já sabe sobre o meu namoro com o Mikhail, então, não tem problema se eu te contar tudo, não é? – ele respirou fundo e novamente ajeitou sua postura – Há mais ou menos um ano atrás, o Aaron passou umas duas semanas sem ir para faculdade, então, eu decidi chamar o Mikhail para passar algumas noites comigo lá no nosso dormitório.
– Entendo. – Rebecca assentiu, tentando não corar por causa das imagens constrangedoras que invadiram sem sua permissão – Continue.
– Então, nós estávamos juntos numa dessas noites quando o Aaron acabou voltando para o dormitório e nos surpreendendo. – Ty prosseguiu – Ele entrou no quarto de repente e eu levei um susto quando o vi ali, é claro. Fiquei totalmente sem reação e ele aproveitou esse momento para tirar uma foto minha e do Mikhail com o celular. – Ty explicou olhando para Aaron com raiva – Nós não estávamos fazendo nada demais na verdade, sabe? Só estávamos nos beijando, mas estávamos sem blusa e meio agarrados debaixo da coberta, então... acho você pode imaginar como ficou aquela foto. Desde então, o Aaron tem me chantageado, ameaçando mostrar a foto para os nossos pais ou divulgá-la na internet caso eu não o obedeça.
Rebecca olhou novamente para Aaron, mas, dessa vez, ela não permaneceu encarando os troncos das árvores à sua frente. Seus olhos verdes se concentraram nela e, embora sua postura ainda não revelasse qualquer coisa do que se passava em sua cabeça, ele já não parecia mais tão desinteressado no assunto quanto antes.
– Isso é verdade? – ela perguntou enquanto, internamente. rezava para que ele negasse tudo.
Não sabia explicar exatamente o porquê, mas não queria a imagem daquele Aaron gentil que a havia defendido de Vlad quando ele a ofendera e que a havia proporcionado momentos tão especiais e bonitos no Florence Park simplesmente ruísse diante de seus olhos. Ela sabia que Aaron não era um santo – tinha provado muitas vezes do veneno dele ao longo dos dois meses em que estivera em Oxford –, mas saber que havia se enganado tanto a respeito da pessoa que achava que ele era, a magoaria mais do que ela gostaria de admitir.
– É verdade, mas eu já não tenho mais aquela foto. – Aaron finalmente respondeu e, em milésimos de segundos, toda a esperança que Rebecca ainda tinha se desfez.
– Então, você estava mesmo chantageando o meu irmão? – ela cerrou os punhos, indignada – Durante todo esse tempo você o ameaçou e o obrigou a fazer os seus trabalhos da universidade e a acobertá-lo, Aaron. Como você pode?
– Espera aí, você disse que não tem mais a foto? – Ty perguntou sentindo o sangue ferver em suas veias – O que você fez com ela? Você a entregou a alguém?
– Não. Eu a excluí, Andrews. Eu não ia realmente mandá-la para os seus pais ou div... – Aaron começou a explicar, mas foi forçado a se interromper quando Ty avançou para cima dele e ele precisou segurá-lo para evitar que o Ty o agredisse.
– Quando foi que você excluiu? – Ty gritou, enfurecido – Quando foi?!
– Alguns dias depois que eu a tirei. – Aaron respondeu ainda tentando se defender dos golpes dele – Mas que merda, Ty! Quer parar com isso?!
– Alguns dias? – Ty repetiu, inconformado – Você me torturou por mais de um ano, ameaçando mostrar aquela foto aos meus pais quando, na verdade, você já tinha excluído? Você é um filho da mãe, Aaron! É um desgraçado! Eu podia matar você!
– Ty? – a voz preocupada de Mikhail se fez ouvir em meio à multidão de rostos curiosos que observavam toda a briga e Ty finalmente se afastou de Aaron para ir ao encontro dele.
– Me tira daqui. – ele pediu antes que pudesse impedir que uma torrente de lágrimas brotasse em seus olhos – Me leva para bem longe desse cara, Mikhail.
– O que aconteceu? – Mikhail o envolveu em seus braços e seu olhar duro logo recaiu sobre Aaron que continuava observando-os à distância – Eu fui até o ginásio procurar por você, mas você não apareceu, então, eu vim até aqui porque me lembrei que você havia dito que ia tentar com conversar com a Rebecca. O que foi que houve, Ty?
– Eu te explico depois. – Ty enterrou o rosto molhado na camiseta branca dele – Só me tira daqui. Me tira dessa universidade.
Mikhail olhou para Rebecca com uma expressão interrogativa e ela, por sua vez, apenas balançou a cabeça negativamente e fez sinal para que ele tirasse Ty dali. Ainda sem entender o que se passava, Mikhail lançou um último olhar duro para Aaron e, então, se afastou dos dois levando Ty consigo.
Novamente sozinha com Aaron, Rebecca olhou, rapidamente, para a massa de curiosos a sua volta, desejando que todos ali simplesmente evaporassem e, depois, se afastou dele, seguindo até o tronco da árvore frondosa sob a qual estavam para pegar sua mochila.
– Você não vai me dar nem a chance de eu me explicar? – Aaron perguntou e ela reprimiu o ataque de fúria que ameaçou irromper por seu corpo.
– O que você quer me explicar, Aaron? Porque você chantageou o meu irmão? Porque você tirou aquela foto e a excluiu alguns depois? Ou porque você está fingindo ser meu amigo enquanto mente para mim desse jeito?
– Eu não menti para você. – ele se defendeu – Posso ter feito isso antes, mas não estou mentindo agora.
– Você chantageou o meu irmão! – Rebecca retrucou com raiva – Quando é que você pretendia me contar isso? Se é que você pretendia me contar.
– Eu não pretendia. – Aaron admitiu – E isso foi errado, eu sei. Mas você não pode ficar com raiva de mim por algo que eu nem fiz à você. Qual é, Bee? Essa coisa entre o seu irmão e eu...
– “Coisa”? – Rebecca repetiu indignada – É assim que você chama o que você fez com ele? Uma “coisa”? Você o ameaçou, Aaron. Usou a vida do meu irmão como um jogo e isso não se faz com ninguém, entendeu? E se você acha que eu não posso ficar com raiva de você por causa disso, deixa eu te contar uma novidade: o Ty é a minha família. Ele é sangue do meu sangue e eu o amo. Não vou deixar que você brinque dessa forma com ele e que fique por isso mesmo.
– Eu sei que não. – Aaron se aproximou dela – E eu não estou dizendo que o que eu fiz foi certo porque eu sei que não foi.
– Mas mesmo assim você fez.
– Fiz. Mas as pessoas não podem errar? – ele segurou a mão dela e a olhou nos olhos – Bee, eu excluí aquela foto, tá legal? Eu nunca pensei realmente em mostrá-la para alguém e já nem me lembro quando foi a última vez que eu pedi ao seu irmão para fazer algo por mim, então, será que você pode parar de me crucificar por um instante e pensar nisso?
– Você excluiu aquela foto alguns dias depois de tirá-la, mas continuou chantageando o Ty por mais de um ano, Aaron. Não ter intenção de divulgá-la ou não se lembrar quando foi a última vez que você o obrigou a fazer algo por você não te torna uma pessoa melhor. Na verdade, isso não significa absolutamente nada. – Rebecca soltou a mão dele da sua e ajeitou a mochila nos ombros – Eu preciso ir para a minha aula.
– Você ainda deve ter uns sete minutos livres.
– Provavelmente tenho, mas não pretendo gastá-los com você. – ela se desviou dele, mas não chegou a dar dois passos antes que Aaron segurasse sua mão novamente e a fizesse parar.
– Qual é, Bee? Você vai mesmo fazer isso?
– Vou. E, para você, o meu nome é Rebecca, ouviu bem? Apenas Rebecca. – ela respondeu de maneira dura – Não se o que você está pensando, mas depois de tudo o que eu ouvi sobre você hoje, acho que eu não preciso dizer que a nossa curta tentativa de amizade acabou aqui. Eu quero você longe de mim, Aaron. Longe de mim e longe do meu irmão também.
– Você está cometendo um erro, sabia?
– Estou? – Rebecca o fuzilou com o olhar – Acho que o único erro que eu cometi foi ter confiado em você e acreditado que havia alguma coisa boa aí dentro, mas eu ainda posso corrigir isso. Então, fique longe de mim e nunca mais mexa com o meu irmão de novo.
Ela arrancou sua mão da mão de Aaron com um puxão forte e atravessou o gramado deixando-o para trás com um misto de fúria e desilusão estampado no rosto.
Aaron nunca tinha se esforçado daquela maneira por uma garota antes, nunca tinha telefonado ou marcado um encontro apenas pelo simples prazer de ter a companhia de alguém e poder conversar e brincar. Jamais tinha aberto seu coração e falado sobre sua família – principalmente sobre pai – para qualquer pessoas, mas com Rebecca ele havia feito tudo aquilo e, agora, ela estava lhe virando as costas.
Ele sabia que não deveria se importar, pois ela era apenas mais uma garota e havia centenas delas naquela cidade e ao redor do mundo, mas quanto mais ele repetia isso a si mesmo, menos acreditava naquelas palavras.
Rebecca podia até ser uma garota comum, com uma beleza comum escondia sob um uniforma horrível e comum, mas havia alguma coisa nela, algo sobre sua inocência ou sobre sua forma peculiar de ver o mundo e as pessoas dentro dele, que a fazia se sobressair do restante das pessoas a sua volta.
Havia uma luz e uma bondade nela, que fazia com que Aaron se lembrasse do garoto inocente que, um dia, ele também tinha sido e que, mesmo contra a sua vontade, o fazia desejar ser alguém melhor, mas agora Rebecca estava indo embora e levando tudo aquilo de volta com ela, aprisionando-o novamente na vida vazia e fria que ele tinha antes de conhecê-la um pouco melhor e aquilo o deixava com uma sensação horrível.
– É por isso que eu não sou legal com as pessoas. – ele gritou para Rebecca, enquanto ele se diria ao prédio do St. Hildas – Eu tento fazer algo bom e tudo o que eu recebo é uma porta batida na minha cara.
– Você nem sabe o que é fazer algo bom, Aaron. – Rebecca parou a alguns passos de distância da entrada na faculdade e se voltou para ele – E não é por isso que você não é legal com as pessoas. Você não é legal com elas porque tudo o que você sabe fazer é mentir e machucá-las. Você provavelmente nem estaria aqui se não estivesse tentando me levar para a cama, então, faça um favor a si mesmo e cale a boca porque você é um ser humano desprezível.
Ela voltou a dar as costas para ele e desapareceu pela porta de entrada do prédio quase no mesmo instante em que a sirene que indicava o início do segundo período soou pelo St. Hilda’s, mas Aaron ainda permaneceu parado no jardim da faculdade por um instante antes de volta para a o estacionamento e entrar no carro.
Tinha cometido um erro e até achava justo que Rebecca tivesse se irritado ao descobrir o que ele havia feito, afinal, ele tinha mexido com o irmão dela, mas era exatamente por causa desse tipo de situação que ele evitava se aproximar das pessoas.
Tudo ficava muito bem quando ele mantinha seus sentimentos fora de uma relação, mas sempre que se deixava levar pela empatia as coisas fugiam do controle. Ele não era bom com esse tipo coisa e havia descoberto, há muito tempo, que o amor, na verdade, não era uma dádiva. Era um completo desastre.
Então, decepcionado consigo mesmo e irritado demais para pensar em qualquer coisa, Aaron simplesmente ligou o carro e saiu da universidade. Não tinha nenhum destino em mente e nem fez questão de olhar as placas por onde passava. Só queria ir até onde as estradas os levassem.
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