Wake Me Up

2 Nunca Julgue Um Livro Pela Capa


Notas iniciais
Demorei um pouco para postar o segundo capítulo, mas aqui está ele. Espero que gostem.

Ty puxou Rebecca escada abaixo até finalmente estarem distantes do alojamento da Trinity College e, mesmo já estando fora de seus limites, ainda continuou a caminhar com passos firmes e decididos. Ele não olhou para trás em momento algum e também não parou de resmungar enquanto a guiava para longe do prédio, o que só deixou Rebecca mais atordoada com toda a situação.

– Ty, o que está havendo? – ela se atreveu a perguntar finalmente.

– Eu não quero você perto dele. Nunca mais. Está ouvindo, Rebecca?

– Por quê? Quem é ele? – Rebecca questionou, confusa, mas Ty não respondeu e apenas continuou resmungando e andando a passos largos, deixando a irritada – Ty! – Rebecca estacou e o encarou com seriedade – Quem é aquele garoto?

Ela estava cansada de ser arrastada daquela forma, sem receber nenhuma explicação do irmão e não iria dar mais um passo sequer antes que ele lhe desse algumas respostas.

Ty parou, soltando um palavrão pesado – algo que ele, com certeza, não se atreveria a fazer perto dos pais – e, depois, se virou para Rebecca, segurando o rosto dela entre as mãos.

– Apenas me prometa que vai ficar longe dele. – pediu, olhando-a no fundo dos olhos, em um tom quase suplicante – Prometa, Rebecca.

– Eu prometerei se me disser o que está acontecendo. – Rebecca respondeu decidida – Quem é aquele garoto?

Ty tirou as mãos do rosto dela e soltou mais um pequeno palavrão em voz baixa, depois, se dirigiu até uma árvore próxima dali e encostou-se a ela, ainda resmungando, o que fez Rebecca revirar os olhos e segui-lo até lá.

– Você vai me dizer ou não?

– O nome dele é Aaron Greed. – Ty respondeu assim que ela se aproximou dele – Ele é meu colega de quarto. Convivo com ele há quase dois anos, Becca, e posso dizer que o Greed não é uma boa pessoa.

– O que quer dizer com: “ele não é uma boa pessoa”? – Rebecca indagou – Ele já te fez alguma coisa? Vocês já brigaram outras vezes?

– Nós brigamos praticamente todos os dias, Becca. – Ty respondeu, com um sorriso nervoso, parecendo travar uma batalha interna para decidir o que contar sobre o tal Aaron Greed – O Aaron é um desordeiro. Sempre arruma confusão e frequenta os piores lugares possíveis. Mata aulas para beber com os amigos e depois chantageia outras pessoas para fazer seus trabalhos do curso. Perdi a conta de quantas vezes ele foi parar na reitoria por dar festas regadas a álcool aqui no campus.

– Ele faz tudo isso? – Rebecca perguntou horrorizada. Ela não conseguia imaginar como uma pessoa podia ser tão desprezível.

– Sim. E... Becca... – Ty pareceu constrangido – Não é só isso. A questão é que o Greed...

– O que tem ele? – ela perguntou, imaginando se ainda haveria mais alguma atrocidade envolvendo aquele garoto.

– O Greed não tem uma fama muito boa com as garotas. – Ty a olhou sério – Não. Espere. Estou mentindo. A fama dele é péssima!

– Como assim?

– Bem... Eu não sei o quanto você conhece sobre garotos, mas não há uma só garota nesse campus com quem o Greed tenha ficado que não tenha se arrependido amargamente disso.

– Por quê? – Rebecca perguntou sem entender.

Até onde ela sabia, Aaron era um cara atraente e, sim, podia ser um desordeiro de primeira classe, mas as meninas pareciam gostar disso. Então, ela se perguntava por que elas se arrependeriam depois de ficar com ele.

– O Aaron é um cafajeste da pior espécie. – disse Ty – Ele seduz as garotas e depois que consegue o quer, as descarta como se não fossem nada para ele.

– O que quer dizer com isso? – perguntou Rebecca, sem saber onde o irmão queria chegar com toda aquela conversa.

– Quero dizer, Rebecca, que ele faz de tudo para levá-las para cama e, depois que consegue, simplesmente se livra delas como copos descartáveis. Então, por favor, evite ficar perto dele, ok? Não quero que você seja a próxima vítima do Greed.

– Eu?! – ela praticamente gritou – Porque eu seria a próxima vítima dele?

– Porque você é bonita, ingênua, virgem e, acima de tudo, porque é minha irmã. O Aaron me odeia. Faria de tudo para me atingir e, para ele, seria ainda mais divertido fazer isso utilizando você.

Rebecca o encarou sem saber o que dizer. Estava constrangida demais para formular qualquer frase que fosse. Além de Margareth, ninguém havia falado tão abertamente assim com ela e, embora ela soubesse que era para a sua própria proteção, não estava gostando nada do assunto.

– Acho melhor eu voltar para o St. Hilda’s. – disse ela, querendo encerrar a conversa ali.

– Está bem. – Ty assentiu estendendo a mão para ela – Te levo para conhecer o campus amanhã, ok?

– Ok. – Rebecca concordou e segurou a mão dele, deixando que ele a guiasse de volta ao seu dormitório.

Eles fizeram todo o caminho praticamente em silêncio e quando pararam em frente ao alojamento do St. Hilda’s, Rebecca se despediu de Ty e seguiu para o quarto, onde encontrou Margareth ainda desfazendo as malas.

– Ty já te mostrou a universidade toda? – Margareth perguntou surpresa.

– Não. – Rebecca respondeu sentando-se em uma das camas ali – Ele não me mostrou lugar algum na verdade.

Margareth largou as malas e sentou-se ao seu lado.

– Aconteceu alguma coisa?

– Ty e eu fomos até o dormitório dele para poder guardar uns livros que ele tinha na mochila, mas ao chegar lá, ele percebeu que havia esquecido a chave do quarto na biblioteca e me pediu para esperá-lo enquanto ia buscá-la. – Rebecca explicou – Nesse meio tempo, seu colega de quarto apareceu e conversamos um pouco, mas quando Ty voltou com a chave ficou furioso com o garoto.

Margareth a olhou, desconfiada.

– Vocês só conversaram mesmo?

– Sim, Margareth. E o Ty não gostou de vê-lo conversando comigo, por isso deu um soco no garoto.

– Ty fez o que?! – Margareth perguntou estupefata.

– Deu um soco nele. – Rebecca repetiu.

– Sim, eu ouvi. Só não estava acreditando. – disse Margareth pensativa – Esse garoto não fez nada com você mesmo?

– Não. – respondeu Rebecca – Não fez nada mesmo.

– Hum. – Margareth disse apenas. Conhecia bastante sobre garotos para desconfiar de situações assim.

Diante do assunto, Rebecca ficou em dúvida se contava a ela o que Ty havia lhe dito sobre seu colega de quarto, pois aquilo a deixava envergonhada, mas como não tinha nada a perder resolveu contar tudo.

Quando ela terminou, Margareth soltou uma gargalhada.

– Ah, sim. – disse ela – Agora entendi o motivo da briga.

– Não acredito que o Ty me disse essas coisas, Margareth. – Rebecca cobriu o rosto com as mãos – Ele tinha mesmo que mencionar a minha virgindade?

– Ele só quer proteger você, Becca. – disse Margareth ainda rindo.

– Sim, eu sei. Mas ele não precisava expor os motivos na minha cara daquela maneira. Você sabe o quanto é vergonhoso ouvir o seu irmão te dizer: “Porque você é bonita, ingênua e virgem.”? – Rebecca perguntou, tentando imitar a voz de Ty ao lhe dizer aquilo.

– Eu imagino.

– Pois é! – disse ela indignada.

– Agora, mudando de assunto. Esse colega do Ty...

– Aaron Greed. – Rebecca a interrompeu, lembrando-se do nome do garoto.

– Pois bem. – Margareth assentiu – Esse tal Aaron Greed é um demônio, hein? Não sei como ele ainda não foi expulso aprontando todas essas coisas.

– É. Eu também não sei. – disse Rebecca, pensativa.

Todos sabiam muito bem que Oxford era uma universidade totalmente conservadora. Ela não conseguia entender como alguém como Aaron ainda estudava ali depois de fazer todas aquelas coisas, pois vários estudantes já haviam sido expulsos por muito menos.

– Enfim, Becca, se ele e o Ty são colegas de quarto, então seu irmão deve conhecê-lo bem. E se o Ty acha que esse garoto pode querer fazer algum mal a você, sugiro que faça o que ele lhe pediu e fique longe desse tal Aaron. – Margareth a aconselhou.

– Claro. – respondeu Rebecca.

Ela não se arriscaria a ficar perto de alguém como Aaron Greed, mas não havia necessidade de pronunciar isso em voz alta, pois Margareth a conhecia suficientemente bem para saber que esse tipo de companhia não lhe agradava. Aaron podia até ser atraente e sedutor, mas se ele era tão mau caráter quanto Ty havia lhe dito, não haveria beleza que compensasse.

– Agora venha. – Margareth a arrancou daqueles pensamentos – Ajude-me a terminar de arrumar isso.

Rebecca ajudou Margareth a terminar de arrumar as malas e, então, as duas simplesmente caíram no sono. Estavam ambas exaustas por causa da viagem e adormeceram quase no mesmo instante em que suas cabeças tocaram os travesseiros.

Quando Rebecca acordou, no dia seguinte, Margareth não estava no dormitório, mas tinha deixado um bilhete dizendo-lhe que estaria na reitoria resolvendo uns assuntos. Logo abaixo do recado havia uma nota de “P.S.” dizendo que Ty a havia procurado para lhe mostrar o campus e que ela deveria entrar em contato com ele depois.

Rebecca decidiu que faria isso depois que tomasse seu café da manhã e, então, foi escovar os dentes e tomar um banho, coisa que não havia feito na noite anterior.

Aproveitando que ainda era verão, optou por usar um vestido rodado azul que sua mãe trouxera para ela da França e suas sapatilhas pretas favoritas. Deixou o cabelo solto mesmo e colocou uma tiara brilhante para que ele não ficasse tão sem graça. Ela gostava de deixar seu longo cabelo castanho e ondulado livre, pois em suas antigas escolas ele tinha que estar sempre amarrado.

Finalizou tudo, passando um lápis de olho bem claro e um gloss de cereja nos lábios, pegou seus óculos e sua pequena bolsa – onde levava quase tudo que era importante, como cartões de crédito e documentos – e desceu para procurar uma lanchonete, deixando antes um bilhete para Margareth.

Rebecca não conhecia Oxford, mas haviam lhe dito que a universidade possuía várias lanchonetes e bistrôs espalhados pelo campus, então sua missão era caminhar por aí até encontrar um deles.

Não precisou procurar muito. Encontrou um pequeno bistrô próximo à biblioteca e se sentou numa das mesas externas, sendo prontamente atendida por um dos garçons. Fez seu pedido: chocolate quente e rosquinhas. E aguardou.

Em cinco minutos recebeu seu apetitoso café da manhã e aproveitou para curtir a paisagem enquanto o saboreava.

– Hummm, eu adoro chocolate. – disse uma voz conhecida atrás dela e Rebecca virou-se bem a tempo de ver Aaron pular a pequena cerca que delimitava o espaço do bistrô.

Ele usava calça jeans escura e All Star novamente, mas dessa vez estava com uma camiseta preta e sem a touca e a blusa de frio que vestia no dia anterior. Seu cabelo loiro tinha um tom dourado ao sol daquela manhã e estava arrumado em um estilo despenteado proposital, que transmitia um ar de rebeldia. Somado a isso, havia um pequeno corte avermelhado no canto esquerdo de seu lábio, que denunciava as consequências do encontro que ele tivera com Ty no dia anterior.

Sem pedir licença, Aaron se sentou à mesa e abriu o menu que estava sobre ela.

– Vejamos... – disse ele fingindo analisar o cardápio – Acho que vou pedir uma xícara de chocolate quente e... um beijo seu.

Aaron deu uma piscadela para Rebecca e ela revirou os olhos.

– Beijos não estão no menu. – disse, sem dar atenção para aquela provocação.

– É mesmo? – perguntou ele, fingindo estar decepcionado – Que pena. Então acho que não vou querer mais nada.

Aaron recolocou o menu sobre a mesa e inclinou-se para trás em sua cadeira, cruzando os braços atrás do pescoço.

– E aí? – disse ele, despreocupado.

– E aí o que? – Rebecca perguntou impaciente, concentrando-se em terminar seu café da manhã rapidamente para poder sair dali.

– Tudo bem com você?

– Sim. – ela respondeu e olhou ao redor, nervosa.

Ty estava em algum lugar do campus e ela não queria que ele a visse ali, com Aaron, logo depois de tê-la advertido para ficar longe dele. Seu irmão certamente ficaria com raiva e, provavelmente, brigaria com Aaron mais uma vez. Algo que Rebecca queria evitar.

– Eu também estou bem. – disse Aaron quando ela não lhe deu atenção.

– Que bom, Aaron. – Rebecca lançou a ele um olhar que desejava que exprimisse total desagrado, mas seu esforço foi em vão quando Aaron abriu um sorriso satisfeito ao descobrir que ela já sabia seu nome.

Ele descruzou os braços e se inclinou para frente.

– Andou pesquisando sobre mim, Rebecca?

– Não. – ela respondeu, seca.

– Hum. – Aaron pressionou os lábios em uma linha fina, mas logo um sorriso convencido voltou a se instalar em seu rosto – Isso é mau, porque eu pesquisei sobre você.

Ele retirou uma folha amassada do bolso traseiro de sua calça jeans e olhou para Rebecca antes de desdobra-la e começar a ler:

– Seu nome completo é Rebecca Marie Andrews e você tem dezoito anos. Estudou na Miss Porter’s School, que é um colégio para moças. Prestou vestibular para o St. Hilda’s College, que também é frequentado exclusivamente por moças e foi aprovada com honras. – Aaron soltou um assovio baixo – Fez parte do clube de teatro e de astronomia no Miss Porter’s, ganhou vários prêmios com a equipe de ginástica e ao que me parece... Nunca teve um namorado na vida.

Rebecca arregalou os olhos para ele, em choque, imaginando onde, como e com quem ele havia conseguido aquelas informações sobre ela e, ainda por cima, em menos de 24 horas. Apenas duas pessoas em Oxford a conheciam. Uma delas era Ty – que Rebecca tinha absoluta certeza que não falaria nada sobre ela para Aaron – e a outra era Margareth, que Aaron sequer conhecia.

– Um currículo impecável. – disse ele dobrando novamente a folha e deixando- a sobre a mesa – Seus pais devem estar orgulhosos.

Rebecca pegou a folha e Aaron pareceu nem se importar com isso. Apenas pegou uma das rosquinhas de chocolate do seu prato e deu uma boa mordida nela.

– Deliciosa. – disse ele, olhando para Rebecca de forma penetrante.

Rebecca ignorou a provocação e olhou a folha. Não havia nada lá que pudesse lhe dar uma ideia de onde Aaron a havia conseguido. Era uma simples folha A4, com todas as suas informações escritas à mão, em uma caligrafia redonda e sinuosa que não parecia pertencer a ele.

– Onde conseguiu isso? – ela perguntou encarando-o com seriedade.

– Eu nunca revelo minhas fontes. – ele deu outra mordida na rosquinha.

– Vou entregar isso ao reitor. – ela sacudiu a folha diante dos olhos dele – E ele vai querer saber onde você conseguiu.

– Ora, entregue. – Aaron deu de ombros – Eu direi que nunca vi essa folha na vida e será a minha palavra contra a sua.

Rebecca bufou e se colocou de pé, encarando-o com raiva.

– E você acha que o reitor vai acreditar na garota de currículo impecável ou no desordeiro sem classe? – perguntou ela, usando os mesmos adjetivos que Aaron havia usado para descrevê-la agora e que Ty havia usado para descrevê-lo no dia anterior.

Aaron soltou uma gargalhada.

– Desordeiro sem classe? – ele questionou divertido – Foi assim que o seu irmão me descreveu?

– Ty não me disse nada sobre você. – Rebecca respondeu, rapidamente.

Apesar de saber que Ty e Aaron já não se davam bem, ela não queria que essa discórdia aumentasse por ter dedurado o próprio irmão.

– Mentir é feio, Rebecca. – Aaron segurou o queixo dela delicadamente, como havia feito no dia anterior, mas Rebecca afastou a mão dele dali com certa brutalidade.

– E chantagear as pessoas? – ela perguntou com sarcasmo – Isso não é feio?

– Eu sabia que o Andrews tinha falado sobre mim! – disse Aaron soltando outra gargalhada e batendo a palma da mão contra a mesa – O que mais ele falou? Espero que ele tenha mencionado que eu fico muito sexy de sunga.

Rebecca olhou para ele sem acreditar que Aaron não estivesse nem mesmo um pouco envergonhado por aquilo. Não podia acreditar que ele era tão má pessoa ao ponto de nem se importar de ver seus erros expostos.

Furiosa, ela jogou a folha de papel na cara dele e acenou para que o garçom lhe trouxesse a conta.

– Já vai? – Aaron pegou a folha e a guardou no bolso da calça novamente, depois indicou o prato onde ainda havia duas rosquinhas de chocolate com coco – Você nem terminou de comer.

– É impossível comer ao seu lado.

– Uh! Por quê? – ele ergueu uma das sobrancelhas para ela – Te faz pensar que a comida não é tão gostosa quanto eu?

– Claro que não!

O garçom trouxe a conta e depois de efetuar o pagamento, Rebecca saiu do bistrô a passos rápidos.

– Eu serei o seu primeiro namorado, Rebecca. – Aaron gritou para ela.

– Vá para o inferno! – Rebecca gritou em resposta, parando abruptamente e virando-se para encará-lo.

Aaron nem se ofendeu. Apenas mandou um beijo para ela, depois pegou uma das rosquinhas que ela havia deixado em seu prato e saiu do bistrô seguindo na direção contrária a de Rebecca.

Ela mal o conhecia, mas ele já a havia tirado do sério. Aaron era lindo, mas também era diabólico. Encaixava-se muito bem no provérbio que dizia: “Nunca julgue um livro pela capa”. E isso era exatamente o que Rebecca pretendia fazer.

Notas finais
E então, o que vocês tem a me dizer sobre Aaron Greed? Quero saber, hein. Até o próximo capítulo.