Wake Me Up
4 Na Armadilha do Caçador
Notas iniciais
Ao entrar em seu quarto, no dormitório do St. Hilda’s, Rebecca deparou-se com as malas de Margareth novamente arrumadas e com uma garota ruiva, de olhos castanhos claros, pele muito clara e bochechas rosadas, cujo rosto continha algumas sardas, sentada sobre uma das camas ali.
– Oi. – disse a garota num tom animado.
– Oi. – respondeu Rebecca, depois olhou para Margareth com uma expressão interrogativa.
– Becca, essa é a Cadence. – Margareth apresentou – Sua colega de quarto.
– Como assim minha colega de quarto? – Rebecca indagou.
Não é que ela não tivesse gostado de sua colega de quarto, mas quando foi aceita em Oxford, seus pais deixaram claro que Margareth ficaria com ela por lá. Logo, ela não conseguia entender porque agora Cadence estava ali e Margareth estava indo embora.
– O reitor da sua universidade me chamou hoje ao escritório dele para me informar que eu não poderia ficar aqui no alojamento do campus com você. Os dormitórios são para uso exclusivo dos alunos e, como sou apenas sua tutora, não posso ficar. – Margareth explicou – Conversei com seus pais e eles resolveram alugar um apartamento próximo ao campus para mim, para que eu pudesse ficar por perto. Enquanto isso, ficarei em um hotel para não tomar o espaço da Cadence.
Margareth abriu um sorriso amável para Cadence que retribuiu a igual maneira.
– Entendo. – disse Rebecca tristemente.
– Não fique assim, Becca. Eu estarei bem perto daqui. E sabe, isso é algo bom. Sem mim aqui você terá mais liberdade e se precisar de algo, basta me ligar ou ir até mim. – ela abraçou Rebecca.
– Eu sei. É que estou tão acostumada a tê-la por perto, que será estranho sem você aqui. – disse ela retribuindo ao abraço de Margareth com força – Mas se tem que ir, então, o jeito é aceitar.
Margareth tirou do bolso um pedaço de papel e o entregou a Rebecca.
– Esse é o endereço do hotel e o número do quarto em que estarei. Caso precise de algo é só ir até lá e, assim que seus pais alugarem o apartamento, eu te aviso e te informo o endereço.
– Ok.
Margareth chamou o táxi, que chegou em poucos minutos e, então, se despediu de Rebecca e de Cadence e se dirigiu ao hotel onde ficaria provisoriamente.
Assim que o táxi de Margareth sumiu de vista, Rebecca enviou uma mensagem a Ty, informando-lhe os últimos acontecimentos e depois voltou para o dormitório, onde encontrou Cadence debruçada sobre um livro.
– Oi de novo. – disse Rebecca, sentando-se em sua cama, que ficava ao lado da cama de Cadence.
– Oi. – Cadence fechou o livro e também se sentou em sua própria cama.
– Acho que não nos apresentamos direito àquela hora. Então: Oi, meu nome é Rebecca Andrews. Vim de Nova Iorque. E você? – Rebecca estendeu a mão para Cadence, que a apertou em cumprimento.
– Cadence Whitehill. Vim de Londres. – ela disse com um sorriso.
– Legal. – disse Rebecca – Animada para as aulas amanhã?
– Um pouco. Estou meio assustada, na verdade. Ouvi dizer que as disciplinas são bem difíceis aqui em Oxford e, sinceramente, não sei se consigo. – Cadence confessou.
– Tenho certeza que vai se sair bem. – Rebecca a incentivou – Vai cursar o que aqui na St. Hilda’s?
– História Geral. E você?
– Psicologia. – respondeu Rebecca.
– Interessante.
– Cadence, eu vou tomar um banho e depois vou sair para jantar. Você quer ir comigo? – Rebecca convidou, tentando se aproximar de sua nova colega de quarto.
Se iriam dormir no mesmo local por quatro anos, teriam que começar a socializar agora mesmo.
– Sim. – Cadence abriu um grande sorriso – Seria legal.
– Ótimo.
Rebecca foi tomar seu banho e depois de se arrumar, ela e Cadence seguiram até o bistrô onde ela havia tomado seu café da manhã naquele dia, verificando antes se Aaron não estava por perto como da ultima vez. Como Rebecca não o encontrou em lugar algum, ela se sentou em uma das mesas externas com Cadence e as duas fizeram seus pedidos.
– E então, Cadence, você vai para a festa na sexta-feira? – Rebecca tentou puxar assunto com a primeira coisa que passou por sua cabeça.
– Festa? Que festa? – perguntou Cadence, depois de engolir uma boa garfada de sua lasanha quatro queijos.
Pelo visto ela estava tão desatualizada quanto Rebecca das comemorações da universidade.
– É uma festa de boas vindas aos calouros que a universidade faz todo semestre. – explicou Rebecca, lembrando-se das palavras de Mikhail – Dizem que é legal.
– Ah, não sei. Você vai?
– Sim. Vou com meu irmão e uns amigos. Você quer ir com a gente?
– Quero, sim. – Cadence respondeu animada.
Cadence parecia ser uma garota divertida e que estava sempre animada. Era bastante parecida com algumas amigas que Rebecca tinha quando estava no colegial e Rebecca estava agradecida por tê-la como colega de quarto. Ao contrário de Ty, ela não teria que sofrer aguentando alguém como Aaron Greed por quatro longos anos.
As duas conversaram durante todo o jantar, encontrando cada vez mais semelhanças ao longo de sua troca de informação.
Assim como Rebecca, Cadence também possuía pais super protetores, havia estudado toda a sua vida em colégios para garotas e, em Oxford, era a primeira vez que teria tanto contato com o sexo oposto e que poderia ter um pouco mais de liberdade.
– Meus pais são fanáticos religiosos e, francamente, eles são muito chatos. Sempre exigiram que eu estudasse em colégios católicos. E nossa! As freiras não nos deixavam em paz um segundo sequer. – Cadence contou – Quando fui aprovada para Oxford eles nem queriam me deixar vir. Disseram que apesar de eu estar numa faculdade de garotas haveria muitas tentações ao redor... Fala sério! Demorei muito para convencê-los a me deixarem vir para cá. E, ainda assim, eles exigiram que eu ligasse todos os dias, para contar tudo o que acontecesse por aqui e me fizeram rezar o terço antes de sair de casa.
– Puxa! – Rebecca exclamou – E eu aqui achando que meus pais eram super protetores.
– Perto dos meus pais, seus pais são bastante liberais. – disse ela e Rebecca concordou com um aceno de cabeça.
Após o jantar as duas voltaram para o dormitório, arrumaram os materiais e os uniformes para o início das aulas e, depois que Cadence telefonou para seus pais, foram se deitar.
Os despertadores de Rebecca e de Cadence tocaram cedo na manhã seguinte, quase sincronizados. Elas se levantaram e, depois de tomarem seus banhos, vestiram o uniforme da faculdade.
As faculdades em Oxford costumavam ter cada uma seu uniforme, diferente das universidades nos Estados Unidos, onde os alunos usavam suas roupas habituais. Para o reitor e demais professores, o uniforme escolar era um sinal de respeito e elegância.
O uniforme do St. Hilda’s College consistia em uma camisa social branca, com um blazer azul bebê por cima, uma saia xadrez esverdeada – que ficava alguns centímetros abaixo dos joelhos –, meias brancas e sapatos e gravata preta.
Cadence se olhou nos espelho mais algumas vezes e fez uma careta.
– Cara, esse uniforme é horrível. – disse ela e Rebecca teve de concordar.
O uniforme não era nem mesmo um pouquinho atraente. Talvez fosse até pior do que todos os uniformes escolares que ela já usara na vida.
– Bem, já que não há nada a fazer, então vamos desfilar nossos uniformes horríveis por aí. – disse ela sorrindo – Ainda quero tomar café da manhã antes de ir para a primeira aula.
Rebecca colocou seus óculos, pegou sua mochila e seus livros e se dirigiu com Cadence para o St. Hilda’s, encontrando um mar de garotas com o mesmo uniforme que os seus, zanzando para lá e para cá em grupinhos animados.
As duas procuraram pelo refeitório e foram tomar o café da manhã. Não teriam nenhuma aula em comum esse semestre, então, o máximo que se encontrariam seria na hora das refeições e no dormitório.
Mal haviam terminado o café da manhã, quando os alto falantes da faculdade soaram avisando às alunas para se dirigirem ao auditório do St. Hildas para uma palestra de boas vindas às calouras, antes da primeira aula.
Cadence, Rebecca e as demais alunas – calouras ou não – se dirigiram ao auditório onde o coordenador da faculdade e os diretores de curso já aguardavam sentados à grande mesa diretora no centro do palco.
Assim que a maior parte das alunas parecia já estar presente, o coordenador fez o discurso de boas vindas e falou sobre as regras do St. Hilda’s – enfatizando o uso do uniforme escolar e a proibição relacionada à permanência de garotos nas dependências da faculdade e nos dormitórios.
Avisou que a faculdade contava com diversas áreas de lazer e que havia diversos clubes e equipes esportivas das quais as alunas poderiam participar, como: o clube de teatro e de música e as equipes de hockey, futebol e remo.
Falou sobre as visitas técnicas que a faculdade ofereceria ao longo do semestre e terminou falando sobre a festa de boas vindas que a Universidade de Oxford ofereceria na sexta-feira à noite e que contaria com a participação dos alunos de todas as faculdades.
Cadence chutou delicadamente a canela de Rebecca quando o reitor falou sobre a festa e era possível ver em seu rosto que, assim como Rebecca, ela estava praticamente rezando para a que a semana acabasse logo.
Depois disso o coordenador pediu que os diretores dos cursos se apresentassem e, então, dispensou as alunas para que essas seguissem para suas respectivas salas.
A grade horária do St. Hilda’s era composta de dez disciplinas por semestre, sendo duas disciplinas por dia e cada aula com três horas de duração. A primeira aula tinha início às 8 horas e término às 11 horas e a segunda aula tinha início às 14 horas e término às 17 horas.
A primeira aula de Rebecca era de Desenvolvimento Interpessoal e seria lecionada ao ar livre, em uma das áreas de lazer próximas ao prédio do St. Hilda’s. Após despedir-se de Cadence – cuja primeira aula seria de História Antiga do Mundo Grego – Rebecca se dirigiu para sua aula.
A professora já estava sentada em uma cadeira no centro do grupo de alunas que estavam sentadas sobre a grama mesmo e com seus cadernos abertos, prontos para anotações. Rebecca juntou-se a elas, incomodada com a grama que roçava na parte nua de sua panturrilha.
A aula foi rápida e animada, basicamente para que a classe pudesse se conhecer e se entrosar, e acabou uma hora antes do horário estipulado.
Rebecca aproveitou o tempo de sobra para deixar seus cadernos e livros no dormitório e depois se dirigiu para uma praça próxima ao dormitório, de onde telefonou para Margareth para lhe contar sobre sua primeira aula.
– Becca! – Margareth atendeu alegre.
– Oi, Maggie. Como estão as coisas por aí? Papai e mamãe já conseguiram um apartamento para você?
– Está tudo bem aqui no hotel. É como estar de férias. – Margareth sorriu – Seus pais encontraram um pequeno apartamento na Belbrugton Road para mim. Estão terminando as negociações e em breve irei para lá. – explicou Margareth – E como está aí na universidade?
– Está tudo bem também. Estou me dando bem com a Cadence e hoje tive minha primeira aula. Foi bem divertida. – Rebecca contou.
– Ótimo Becca. Fico feliz em saber disso. – disse Margareth – E como está aquele garoto com quem você vai à festa na sexta?
– Eu não o vi hoje. – respondeu Rebecca envergonhada, mas ao mesmo tempo contente por lembrar-se de Vlad.
– Bem, uma hora ou outra vocês se encontrarão de novo.
– Claro. – disse Rebecca – Bem, eu só queria saber como você estava. Vou desligar agora e ver se a aula da Cadence já terminou. Nós marcamos de almoçar juntas.
– Tudo bem. – disse Margareth – Bom apetite para você e para a Cadence.
– Obrigada. – Rebecca respondeu e encerrou o telefonema.
Antes que ela pudesse guardar o celular em sua bolsa o aparelho foi arrancado de sua mão e ele se virou, assustada, dando de cara com Aaron segurando seu celular.
– Ora, ora, ora. – disse ele com um enorme sorriso no rosto – Rebecca Andrews bem aqui na minha frente... Deve ser meu dia de sorte.
– Devolva o meu celular. – exigiu Rebecca fechando a cara para ele.
– Vamos fazer um trato. – Aaron brincou com o celular de Rebecca, passando-o de uma mão para a outra – Eu devolvo o seu celular e você almoça comigo.
– Não. – ela respondeu com firmeza – Agora devolva o meu celular, Aaron.
– Ora, vamos Rebecca. É um bom trato. Eu pago o almoço, que tal?
– Que tal você devolver o meu celular e seguir o seu caminho para bem longe de mim, hein? – Rebecca perguntou com raiva.
– Nossa. Assim você até me magoa, sabia? – ele fingiu estar ofendido – Começo a achar que você não gosta de mim.
Rebecca soltou uma gargalhada carregada de sarcasmo.
– Puxa, Aaron! Você só começou a achar isso agora? Ou você é desligado ou é idiota, pois está mais que na cara que eu realmente não gosto de você.
Aaron não pareceu se importar, apenas olhou para ela, divertido.
– Está tentando ser grossa, Rebecca? Pois não foi bem sucedida. – disse ele – Se está tentando me atingir vai precisar de mais que isso.
Rebecca olhou furiosa para Aaron e depois tentou chutá-lo, mas antes que pudesse acertá-lo, ele a segurou pela canela fazendo-a desabar sobre a grama macia.
– E vai precisar de mais que isso também. – disse ele, estendendo a mão para ajudá-la a se levantar.
Rebecca ignorou a ajuda e se levantou limpando a sujeira da saia de seu uniforme.
– Você é o garoto mais idiota que eu já conheci. – disse ela.
E isso, de certa forma, era verdade, tendo em vista que os únicos garotos que ela conhecera – e que não eram seus irmãos – eram: Aaron, Mikhail e Vlad, e os dois últimos eram legais.
– Não me elogie tanto assim. Eu sou tímido. – respondeu ele sem se atingir com os insultos dela.
Rebecca bufou, mas reprimiu a vontade de tentar chutá-lo novamente, quando Cadence se aproximou dela correndo.
– Porque não atende o celular? Já tinha te procurado no nosso dormitório e em quase todo o St. Hilda’s. – disse Cadence – Estou te ligando faz um tempão.
Rebecca olhou para Aaron que ainda segurava seu celular.
– Ops. – disse ele com um sorriso cínico – Acho que alguém te ligou... Cinco vezes.
Ele finalmente estendeu o aparelho de volta para ela e Rebecca o pegou, reprimindo o desejo de socá-lo até tirar aquele sorriso convencido dos lábios dele.
– Você é tão irritante.
– Eu interrompi alguma coisa? – Cadence perguntou olhando de Rebecca para Aaron, com uma expressão curiosa.
Rebecca respondeu “não” ao mesmo tempo em que Aaron respondeu “sim” e o olhar assassino que ela lançou para ele fez Cadence rir.
– Vocês poderiam entrar num consenso, por favor? – Cadence pediu divertindo-se com a situação.
– Você não interrompeu nada. – Rebecca respondeu rapidamente.
– Na verdade, ela interrompeu, sim. – Aaron retrucou e Cadence se virou para ele.
– Sério? O que foi que eu interrompi? – ela indagou.
– Bem, eu estava aqui pedindo à Rebecca para dizer a belíssima colega de quarto dela que eu gostaria de convidá-la para almoçar. – Aaron abaixou-se e segurou a mão de Candence, depositando um beijo ali – O que você me diz, hein?
– Como é?! – Rebecca exclamou, boquiaberta com toda a mentira que Aaron havia inventado em questão de segundos.
Cadence corou de vergonha, mas ao mesmo tempo seus olhos brilharam com a atitude de Aaron e Rebecca não pode acreditar que ela realmente tinha caído naquele papo furado.
– É sério mesmo? – Cadence perguntou, mal conseguindo reprimir a animação e Aaron sorriu.
– Pode ter certeza, gatinha. Aceita almoçar comigo?
Cadence olhou para Rebecca, que ainda estava estupefata com tudo aquilo, e depois abriu um sorriso encantado para Aaron.
– Claro que aceito. – disse ela animada e depois ficou sem graça – Mas... Eu já havia prometido almoçar com a Rebecca.
– Perfeito. – Aaron passou o braço ao redor dos ombros de Cadence – Chamarei um amigo para ir conosco e assim a Rebecca não ficará sozinha.
A animação tomou conta do rosto de Cadence e ela olhou para Rebecca, esperançosa. Rebecca, por sua vez, não podia acreditar que Aaron fosse tão cara de pau àquele ponto e, embora quisesse recusar, não podia deixar sua colega de quarto – e quase melhor amiga – cair nas garras dele, pois sabia bem o que ele poderia fazer com ela.
– Vamos, então. – disse Rebecca visivelmente desanimada.
Cadence a abraçou e ela olhou para Aaron com repulsa, recebendo um sorriso vitorioso dele em resposta.
Parecia impossível se livrar de Aaron Greed.
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