Wake Me Up
47 De Volta Para Casa
Notas iniciais
— Não. – Essa foi a palavra que Rebecca mais ouviu após explicar, a Aaron, os seus planos para o natal. – Não, não e não. Sem chance.
— Porque não? – Ela se jogou sobre a cama dele de maneira dramática. – Pense em como o Christopher ficaria feliz se você fosse, Aaron. Ele está se recuperando. Ter você em casa, no feriado, faria tão bem a ele…
— Não. – Aaron ergueu a mão para interrompê-la. – Agora você está partindo para a chantagem emocional e esse é um golpe muito baixo até mesmo para você.
— Até mesmo para mim?
Aaron apontou para a bandeja de morangos sobre o criado-mudo, para as velas espalhadas por alguns pontos do quarto e para as pétalas de rosas que estavam sobre a cama e, depois, se voltou para Rebecca.
— Eu deveria ter imaginado, não é?
Um rubor se espalhou por seu rosto e ela o cobriu com as mãos, sentindo suas bochechas arderem de vergonha.
Claro que chantagem sexual era o plano C – logo depois do plano A, que consistia em fazê-lo compreender, por conta própria, que já estava na hora de parar de fugir e voltar para casa e, do plano B, que consistia, basicamente, em implorar e fazer cara de choro até que ele cedesse – e ela esperava não ter que descer tão baixo, a ponto de precisar usar o plano C, mas, agora, isso não importava mais porque Aaron havia desvendado todas as suas intenções.
— Bem, você não poderia me culpar por tentar. – Disse constrangida.
Nunca antes tinha passado por sua cabeça a ideia de usar o sexo para convencer Aaron a fazer qualquer coisa que fosse, mas, ao que tudo indicava, sua convivência com Cadence a estava influenciando mais do que ela imaginava e, obviamente, a ideia havia partido de sua amiga, mas Rebecca nunca acreditou realmente que conseguiria executar esse plano com maestria.
Aaron revirou os olhos.
— Não acredito que você realmente pensou em me comprar dessa maneira, mas por mais que eu te ame e por mais que você me deixe louco, Bee, eu não vou voltar para casa. – Ele concluiu. – Você e o Christopher precisam aceitar isso logo.
— Eu não entendo porque você não pode voltar. – Rebecca se sentou na cama e abraçou os próprios joelhos, enquanto Aaron se levantava para apagar a velas que ela, tão cuidadosamente, havia acendido. – Poxa vida, é Natal, você entende?! Só o que o seu irmão quer é passar uma noite com você, enfeitando uma árvore e abrindo presentes e, você pode achar que não, mas a sua mãe te ama e ela sente a sua falta. Você não pode esquecer o passado por uma única noite e dar isso a eles? É assim tão difícil?
Aaron não respondeu, mas Rebecca viu os músculos das costas dele se retesarem numa clara indicação de que aquela conversa o incomodava e o deixava tenso e enraivecido e, se fosse em qualquer outro momento, ela teria esquecido o assunto e deixado tudo aquilo para lá, mas o Natal era dali a dois dias e ela não podia aceitar um não como resposta. Tinha prometido a Christopher que faria o possível e o impossível para levar o irmão dele de volta para casa no feriado e ela sempre cumpria suas promessas.
— O Christopher me garantiu que o pai dele não estará em casa no feriado. Ele tem uma conferência sei lá onde e só voltará após o Natal e o Joseph… Bem, o Joseph estará lá, mas a sua mãe me garantiu que ele não criará problemas com você.
Aaron a olhou por cima do ombro.
— O Joseph já é o problema, Bee. Ele não precisa criar nada. – Respondeu de mau humor.
Rebecca suspirou audivelmente.
— Você sabe que ele tem um distúrbio de caráter, Aaron. Nós já discutimos sobre isso antes. Psicopatia é uma doença. Não é como se o Joseph quisesse ser assim, você entende? Ele apenas não faz a menor ideia de como não ser desse jeito, porque a mente dele não funciona da mesma maneira que a nossa. Ele não enxerga o mundo da forma como eu e você o enxergamos.
— Isso não quer dizer nada para mim. – Aaron deu de ombros. – Não muda o que ele fez e não muda o que eu penso sobre ele e eu não vou voltar para casa, Bee. Nem nesse Natal, nem em qualquer outra data, seja ela comemorativa ou não. Você não precisa perder o seu tempo tentando me convencer a mudar de ideia porque eu não vou.
— O espírito natalino realmente não significa nada para você, não é mesmo? – Rebecca bufou e se colocou de pé, irritada. – Seu irmão passou sete anos sem te ver, Aaron. Mesmo doente, ele viajou duas horas, de ônibus, até aqui só para poder te encontrar e matar a saudade e você não pode pegar um único dia da sua vida e fazer o mesmo por ele. É Natal, pelo amor de Deus! Você sabe o quanto ter você em casa amanhã a noite vai significar para ele?
Aaron terminou de apagar a última vela do quarto e se virou para ela com os olhos trovejando de raiva.
— Nem pense em fazer isso. – Ele advertiu. – Usar o meu irmão e o que eu sinto por ele para me convencer a voltar para casa não é justo, Bee.
— É claro que é justo. – Rebecca apontou um dedo para ele, igualmente enraivecida. – É exatamente por causa dele e do que ele sente por você que eu estou tentando te convencer a ir. Você não percebeu? Isso é importante para ele, Aaron. Se não fosse, eu não estaria aqui, gastando todos os meus argumentos num discurso que você parece estar decidido a ignorar.
— Bee, eu não vou voltar para casa. – Aaron respondeu novamente e, indignada com sua postura, Rebecca apenas assentiu uma vez e caminhou até o outro lado do quarto para poder pegar sua bolsa. – Aonde você vai? – Ele a encarou confuso e ela passou por ele como um furacão furioso, parando apenas quando já estava na porta do quarto, segurando a maçaneta.
— Estou indo embora, você não está vendo? – Respondeu irritada, ajeitando melhor a bolsa sob o ombro. – Se você quer ficar aqui e encenar uma nova versão d'O Grinch¹, tudo bem, Aaron, a decisão é sua. Mas eu prometi ao Christopher que iria vê-lo no Natal, então, eu voltarei para o meu alojamento agora, comprarei uma passagem de ônibus para Londres pela internet e terminarei de arrumar as minhas malas, porque se eu disse ao seu irmão que o encontraria no Natal, eu irei encontrá-lo no Natal. – Ela concluiu e lançou um último olhar enraivecido a ele, antes de bater a porta e sair do apartamento.
Como já esperava, Aaron não a seguiu e tão pouco começou a bombardear seu celular com mensagens, mas Rebecca tinha certeza de que, dentro do apartamento, ele a estava xingando de todos os nomes nos quais conseguia pensar. Ela não se ressentia, no entanto. Sabia que, quando estava nervoso, Aaron agia sem pensar e falava coisas sem pensar e ela já estava acostumada com suas explosões de raiva, que sempre terminavam quando um dos dois se arrependia e pedia desculpas, mas estava na cara que essa reconciliação demoraria um pouco mais. Aaron não mudaria de ideia sobre sua decisão e ela, por sua vez, havia feito uma promessa a Christopher quando este saiu do hospital. Claro que sua promessa incluía levar Aaron de volta para Londres também, mas Rebecca sabia reconhecer quando uma guerra estava perdida e Aaron Greed e sua recusa em voltar para casa eram, decididamente, a guerra mais perdida da história.
Conforme havia afirmado, ao chegar ao seu dormitório Rebecca foi direto para o computador e procurou pela primeira passagem para Londres que pudesse encontrar para a manhã seguinte. A essa altura, o campus já estava praticamente vazio, já que os estudantes tinham sido dispensados, no dia anterior, para passarem o feriado com suas famílias e, como Cadence também já havia partido, o dormitório parecia absurdamente espaçoso e silencioso sem ela o que fez Rebecca perceber, rapidamente, o quanto havia se acostumado a ter uma colega de quarto.
Após comprar a passagem – que era uma das últimas poltronas restantes –, Rebecca começou a arrumar sua mala com tudo que achava que seria necessário para passar dois dias fora de Oxford. Não queria parar para pensar na expressão de desapontamento que tomaria conta do rosto de Christopher quando ele a encontrasse parada diante de sua porta, com uma mala e um embrulho colorido nas mãos, mas sem Aaron a tira colo, mas ele teria que se conformar. Não era sua culpa que o irmão dele fosse mais teimoso que uma mula.
Quando finalmente terminou de organizar tudo já eram quase meia-noite e Rebecca se apressou em tomar um banho, ativar seu despertador para a manhã seguinte e se deitar. Ainda pensou em ligar para Margareth para avisar que iria sozinha para Londres porque Aaron havia se recusado a ouvi-la, mas sua tutora tinha ido passar o feriado com os filhos nos Estados Unidos e não havia porque deixá-la preocupada com isso, estando do outro lado do Atlântico. Quando chegasse a casa de Christopher ela ligaria e contaria todos os detalhes.
***
Dizer que a manhã seguinte amanheceu fria seria uma forma muito bondosa de descrever o clima. Oxford estava gelada! Congelante! A janela de seu dormitório que, ao dormir, possuía apenas uma camada fina de geada noturna, agora estava abarrotada de neve branca e fofa, que era um espetáculo bonito, mas, ao mesmo tempo, preocupante. Rebecca já tinha passado por muitos invernos para saber que nevascas fortes eram quase o mesmo que estradas bloqueadas e pessoas passando o Natal isoladas em suas casas por não poderem viajar. Ela esperava que esse não fosse o caso.
Forçando-se a sair da cama, Rebecca saltitou pelo quarto, tremendo de frio enquanto corria para vestir sua roupa e os agasalhos que já havia deixado separados. Escovou os dentes, arrumou o cabelo, agradecendo aos céus pelos dormitórios do St. Hildas possuírem água quente e, após checar se tinha tudo de que precisava, pegou sua mala, o presente de Christopher, sua pequena mochila e desceu. Quase escorregou na escadaria coberta de neve do alojamento, ao tentar passar ali suspendendo sua mala que não havia ficado tão pequena quanto ela gostaria por causa dos agasalhos enormes que havia colocado ali dentro, mas se surpreendeu quando os braços fortes e igualmente agasalhados de Aaron a amparam antes que seu traseiro se encontrasse com o chão.
— Você é realmente um desastre. – Ele comentou enquanto ela largava a alça da mala e o encarava como se estivesse diante de um fantasma ou, no mínimo, diante de algum amigo de infância há muito tempo perdido. – O que foi?
— O que foi? – Rebecca arrumou sua touca e o cachecol em seu pescoço, tirando uma mecha de cabelo dos olhos antes de voltar a olhar para ele. – São seis da manhã e você está parado na porta do meu alojamento, no meio de uma nevasca. Desculpe se não estou entendendo coisa alguma.
Aaron certificou-se de que Rebecca estava firme, antes de soltá-la e, então, estendeu sua mão para pegar a mala dela, recebendo ali um tapa que, na verdade, poderia quase ter passado despercebido já que ambos usavam luvas grossas.
— Não se atreva! – Rebecca ralhou com ele. – Eu disse que vou a Londres e eu vou. Você não vai me fazer mudar de ideia, então, deixe a minha mala onde está e não ouse tentar sumir com ela.
Aaron a encarou com um misto de espanto e diversão.
— Você realmente acha que eu roubaria sua mala só para te impedir de ir a Londres? – Questionou. – Por Deus, Bee, você tem uma péssima opinião sobre mim, não é?
Rebecca recolheu a mão e o olhou de esguelha.
— Se não vai roubar minha mala e nem tentar me impedir de ir para a casa da sua mãe, o que você está fazendo aqui a essa hora da manhã?
O olhar de Aaron recaiu para o chão e ele pareceu constrangido, mas no meio daquela nevasca o rosto de todo mundo ficava meio avermelhado, então, Rebecca não tinha certeza.
— Depois que você foi embora ontem, eu parei para pensar no que você tinha me dito.
Ela revirou os olhos.
— Não podia ter pensado a respeito enquanto eu estava lá? Você realmente precisava esperar até que eu fosse embora brava com você?
— Eu estou tentando me redimir e você não está ajudando. – Aaron retrucou e Rebecca fez um gesto de trancar a boca e jogar a chave fora. – Como eu dizia, eu parei para pensar no que você tinha me dito e percebi que você tinha razão. Me ter de volta em casa é importante para o Christopher e ele é importante para mim, então, eu não posso desapontá-lo, certo? Ele está esperando que eu vá.
— Sim. Ele está.
— Então, apesar de não ser nada confortável para mim ter de voltar para aquela casa após todos esses anos, ter de lidar com o Joseph, com minhas lembranças e com toda a merda que vem junto com elas, eu decidi que já está na hora de simplesmente encarar isso e superar. Farei isso pelo meu irmão e por você, mas, por favor, Bee, não me force além do meu limite, ok? Não vai ser fácil para mim voltar para lá e tem coisas que ainda não estou preparado para fazer. Agir como o filho querido da minha mãe é uma dessas coisas, então, embora eu esteja bem empolgado com essa coisa de espírito natalino e tudo mais… não exija tanto de mim assim.
— Bem, sendo bastante sincera, você não parece tão empolgado assim como o espírito natalino. – Rebecca riu e Aaron fez uma careta engraçada de sofrimento que a fez passar os braços em volta do pescoço dele e depositar um beijo breve em seus lábios gelados. – Vou fazer o possível para que isso seja confortável para você, ok? Não vou te forçar a nada. Já estou feliz que tenha decidido ir comigo. Seu irmão ficará muito feliz.
— Eu só espero que a felicidade dele me contagie e faça tudo isso valer a pena.
— Valerá. – Rebecca o abraçou com mais força. – Eu estarei lá com você e o Christopher também estará. Você ficará bem, Aaron. Seremos seu escudo de Natal.
— Escudo de Natal. – Aaron fez uma careta. – Isso soa bastante bobo, para dizer o mínimo.
— Vamos lá, Aaron Grinch, desamarre essa cara. – Rebecca o segurou pela mão e o puxou em direção ao estacionamento, onde ele havia deixado seu carro. – Não será tão ruim, eu prometo. Não seja tão pessimista. É Natal!
— Já até vejo os duendes de Papai Noel lançando sobre nós a sua magia… – Aaron estampou um sorriso notavelmente falso nos lábios e pegou a mala de Rebecca, caminhando com ela até o carro, enquanto ela revirava os olhos exageradamente para ele.
Estava feliz de vê-lo ali embora o próprio Aaron não parecesse nem um pouco animado com isso. Por um instante, ela até se lembrou de que havia um bilhete de ônibus pelo qual pagara quase o dobro do preço convencional no bolso da frente de sua mochila, mas isso não a incomodou muito, ainda que o site da estação rodoviária deixasse claro que não haveria reembolso. Algumas dezenas de libras não eram nada comparadas com a felicidade que Christopher sentiria ao ver o irmão de volta em casa após tantos anos e, momentos assim, não tinham preço. Nada no mundo comprava aquilo.
O Bilhete rodoviário acabou sendo atirado pela janela do carro assim que Aaron pegou a rodovia – que, Rebecca agradeceu mentalmente, não estava interditada por causa da neve – e o frio em seu corpo foi rapidamente substituído pelo calor agradável do aquecedor. Contente, Rebecca se permitiu relaxar enquanto Aaron ligava o som do carro com músicas que, pela primeira vez em sua vida, não a faziam corar de vergonha por causa da letra absurdamente sexual e chula e ficou ainda mais satisfeita quando ele lhe estendeu um saco de papel com alguns croissants de chocolate.
— Achei que esperaria para tomar o café da manhã na rodoviária, então, tomei a liberdade de comprar alguma coisa. O copo tem cappuccino de baunilha, mas a essa altura eu acredito que esteja frio.
Rebecca sorriu para ele.
— Tudo bem. Os croissants bastam. – Ela se inclinou e lhe deu um beijo no rosto, mas também verificou se o cappuccino que ele comprara ainda estava aceitável para o consumo e sorriu quando descobriu que embora estivesse um pouco mais frio do que ela gostaria, ainda estava morno o suficiente para ser ingerido.
Geralmente, a viagem até Londres durava cerca de duas horas, mas isso era no verão, primavera ou outono, quando não tinha uma tonelada de neve despencando sobre a cidade e as pistas não estavam escorregadias. Aaron dirigiu com extrema cautela, os faróis ligados no máximo, assim como o aquecedor dentro do carro, então, as duas horas se transformaram em três, depois em quatro e, quando Rebecca já estava, mais uma vez, meio adormecida e meio desperta, Aaron finalmente estacionou o carro e ela abriu os olhos empolgada, franzindo a testa um segundo depois.
— Não estamos na casa da sua mãe. – Constatou, olhando ao redor, para a estrada repleta de neve e árvores, porém, completamente destituída de outros seres humanos. – Porque paramos aqui?
Aaron não respondeu e, por um instante, Rebecca se perguntou se o carro tinha quebrado ou se ele apenas tinha ficado muito cansado para dirigir e até cogitou pedir que Aaron a deixasse conduzir o veículo pelo restante da viagem, embora não tivesse muita experiência em dirigir em meio a uma nevasca, mas, ao olhar para ele, percebeu que o problema não era o carro, a estrada, nem mesmo o cansaço. Ele estava triste.
— Aaron? O que houve? – Seu coração se apertou por vê-lo daquele jeito e ela tirou uma das luvas para poder tocar seu rosto. – Fale comigo, Aaron. Sabe que eu fico aflita sempre que você se cala desse jeito.
— Desculpe. Não é nada, Bee. Eu só…– Ele estendeu as mãos sobre o volante olhando para suas palmas cobertas por luvas grossas e negras como se procurasse as respostas ali. – Estou nervoso. – Disse por fim. – Estou nervoso e estou com medo. Nunca achei que eu voltaria para casa. Eu apenas… não sei como lidar com o que estou sentindo agora.
— Ei. – Rebecca inclinou-se em sua direção e acariciou seu rosto levemente, tentando reconfortá-lo. – Você vai ficar bem, ok? Eu estarei lá com você, Aaron. Você não está sozinho.
— Eu sei. – Aaron fechou os olhos e repousou o rosto contra a palma da mão dela, respirando fundo. – Isso apenas não é fácil para mim, entende? Acho que estou entrando em pânico, mas eu vou ficar bem. Só preciso de um instante.
— Nós ainda podemos desistir. – Rebecca comentou, complacente. – Deve ter algum hotel aqui perto onde possamos ficar por um tempo. Quando o clima melhorar, podemos voltar para Oxford e passar o Natal aconchegados no seu sofá com uma xícara de chocolate de quente nas mãos. Não tem problema, Aaron.
Aaron abriu os olhos e a encarou genuinamente confuso.
— Você quer voltar? – Questionou. – Estamos quase em Londres e você disse que fez uma promessa ao Christopher, Bee. Achei que não desistiria disso por nada.
Rebecca se afastou um pouco e se recostou contra o banco, focando sua atenção no painel luminoso do carro.
— Eu sei que prometi, mas eu também sei que o seu irmão entenderia se não fôssemos. – Concluiu. – Se você não está pronto, então, não está pronto, Aaron. – Ela estendeu a mão e agarrou a dele, acariciando-a sobre o tecido de lã grosso de sua luva. – É claro que o Christopher espera que você vá e é claro que eu gostaria de ir e de vê-los juntos nesse Natal, mas se isso vai te machucar, então, nós não precisamos fazer, você entende? Não quero que isso seja uma experiência ruim ou algo doloroso. Quero que você fique bem e, se você acha que não consegue, então, eu não vou te forçar a fazer nada.
Aaron a encarou por um instante, pensativo, e Rebecca abriu um leve sorriso para ele, deixando claro que a escolha seria inteiramente dele e que ela aceitaria, de bom grado, o que quer que ele decidisse. Ela sabia que aquilo não seria fácil, sabia que muitas lembranças ruins o aguardavam dentro das paredes daquela casa e, se ele decidisse que tudo aquilo era demais para lidar, ela o acompanharia de volta a Oxford sem reclamar. Tinha feito uma promessa a Christopher, mas tinha certeza que ele entenderia e concordaria que o bem-estar de seu irmão mais velho vinha em primeiro lugar.
— Nós vamos ficar. – Aaron decidiu-se após alguns instantes de silêncio. – Eu posso fazer isso. Na verdade, eu preciso. Já se passaram sete anos. – Ele suspirou. – Não posso me esconder de toda essa merda para sempre. Está na hora de voltar para casa e lidar com isso.
— Você tem certeza? – Rebecca o observou com atenção. – Se não estiver seguro dessa decisão você não precisa…
— Eu tenho certeza. – Aaron assentiu, decidido. – Vamos para Londres. – Ele girou a chave novamente na ignição e o motor ganhou vida, ronronando levemente sob o capô e fazendo uma vibração calma se espalhar pelo veículo. Rebecca sorriu para ele, recebendo outro sorriso em resposta, mas antes que Aaron pudesse colocar o carro em marcha e sair do pequeno desvio arenoso onde tinha estacionando, ela estendeu a mão e girou a chave novamente, desligando-o.
Ele a encarou, confuso.
— Nós temos tempo. – Ela respondeu, desatando seu cinto de segurança e abrindo o zíper de seu casaco acolchoado, antes de sair de seu banco e passar pelo câmbio do veículo para se sentar sobre o colo dele. – Já vi muito disso em filmes. – Completou sorrindo, o que fez Aaron rir também, antes de ajudá-la a retirar o casaco por completo e jogá-lo no banco traseiro.
— Acha que eu devo perguntar que tipo de filmes você tem assistido ultimamente?
— Acho que você não deveria estragar o momento com perguntas bobas assim. – Ela se inclinou para abrir o zíper do casaco dele, enquanto Aaron trazia os lábios avermelhados dela para os seus.
Se desfazer de todas as roupas que usavam foi mais difícil do que os filmes de romance aos quais ela havia assistido faziam parecer. Houve muito contorcionismo ali dentro enquanto ambos tentavam livrar-se de todo o vestuário de inverno que possuíam e foi realmente engraçado quando o cachecol de lã azul que Rebecca usava ficou preso em seu delicado brinco de pérola e ela e Aaron levaram algum tempo tentando desenroscá-lo dali. Sua calça jeans apertada também não tornou aquela tarefa mais fácil, mas quando eles finalmente conseguiram se despedir de todas as peças, Rebecca percebeu que o aquecedor do carro não era suficiente pra espantar todo o frio.
Sua pele estava arrepiada e as pontas de seus dedos das mãos e dos pés estavam bem mais frias do que ela esperava que ficariam após tirar sua roupa, mas quando Aaron se aproximou e a beijou, traçando uma linha de beijos por seu maxilar e pescoço, os arrepios que ela sentiu não tiveram nada a ver com o clima la fora. Na verdade, ela até se esqueceu de que estava nevando.
Carinhosamente, Aaron continuou seu caminho de beijos, descendo de seu pescoço para seu busto e parando para passar a língua em volta de um de seus mamilos rijos. Rebecca suspirou e arqueou o corpo em direção aos lábios dele, dando-lhe mais acesso aquela área e Aaron não a desapontou. Sua boca brincou com a carne rosada dos seios de Rebecca, ora lambendo-as e sugando-as, ora passando seus dentes levemente ali, enquanto sua mão a acariciava mais abaixo.
Ela suspirou ainda mais alto quando ele introduziu dois dedos em seu sexo, brincando com ela enquanto seu polegar pressionava seu clitóris em movimentos circulares. Há algumas semanas, ela teria corado e se envergonhado com tal ato, mas já tinha passado muitas noites na cama de Aaron para perder boa parte de seu pudor exagerado e apenas aproveitar todas as sensações que ele era capaz de proporcionar ao seu corpo.
— Como consegue ser tão quente mesmo no meio de uma nevasca como essa? – Aaron sussurrou em seu ouvido e Rebecca sorriu um pouco porque sabia bem que ele não estava falando da temperatura de sua pele, embora essa também estivesse alta.
— Você já estudou muito sobre biologia e anatomia humana. – Brincou. – Você devia saber como.
Aaron riu um pouco contra seu pescoço e o calor da respiração dele ali a agradou bastante, mas não tanto quanto ouvir o sorriso dele. Rebecca simplesmente o amava. Vê-lo sorrir a fazia ter vontade de sorrir também.
— Quero você dentro de mim. – Ela se atreveu a pedir, mesmo que esse tipo de frase ainda a fizesse corar as vezes.
Após depositar uma leve mordida em seu lábio inferior, Aaron se afastou um pouco e se inclinou para abrir o porta-luvas e pegar um preservativo, mas Rebecca o impediu.
— Hoje não. – Comentou trazendo a mão dele de volta para sua cintura. – Já faz algum tempo que venho tomando anticoncepcionais, sabe? Desde a nossa primeira vez, eu achei que seria mais seguro…
Mas ela não pode terminar sua explicação porque no instante seguinte os lábios de Aaron estavam sobre os seus, enquanto os dedos dele se embrenhavam avidamente por seus longos cabelos castanhos. Cadence havia dito que ele poderia reagir mais ou menos assim quando Rebecca a contou sobre a novidade dos anticoncepcionais, mas agora Rebecca tinha certeza de que aquela simples palavra era capaz de causar um efeito incrível sobre o seres de sexo masculino ou, pelo menos, sobre seres chamados Aaron Greed.
— Eu sei que eu já disse que te amo umas cem vezes, mas… porra! Eu te amo pra caralho, Bee! – Ele exclamou, animado e Rebecca teve que revirar os olhos para aquilo, fazendo a gentileza de perdoá-lo pela enxurrada de palavrões, porque já sabia que Aaron se tornava um pouco boca suja demais quando algo o irritava ou o alegrava tanto.
Antes que ela pudesse dizer qualquer coisa a respeito, Aaron se remexeu sobre ela e, rapidamente, seu corpo deslizou para dentro do dela, fazendo-a a perder o fôlego por um instante. Ela tinha lido a respeito disso, sobre o fato de que sexo sem camisinha era mais prazeroso, ainda que não fosse mais seguro e, embora tivesse começado a usar a pílula por precaução contra uma gravidez indesejada, agora estava mais que satisfeita por ter tê-lo feito. Uma decisão como aquela só podia ser tomada se a garota confiasse cegamente em seu parceiro e, por mais que o passado de Aaron fosse tortuoso e que sua lista de antigas parceiras envolvesse praticamente todas as garotas de Oxford, Rebecca confiava nele. Confiava que ele sempre tinha se precavido em suas relações, até porque ele já havia lhe assegurado isso durante uma das conversas que tiveram a respeito e essa conversa, inclusive, tinha sido um dos motivos pelo qual ela decidira marcar uma consulta no dia seguinte para começar a usar um anticoncepcional.
— Ah, meu Deus, Bee! Isso é… Caramba! Isso é… Uau! – Aaron exclamou, parecendo tão consumido pelo êxtase da sensação de ter seus corpos unidos daquela forma quanto ela estava. Ele jamais esperava ter esse tipo de intimidade com ninguém, até porque nunca havia confiado planamente em nenhuma garota para tanto, mas ali com Rebecca, ele descobriu o que “confiança” realmente significava.
Sem esperar muito, Aaron começou a movimentar-se dentro dela, arrancando suspiros e gemidos de ambos e ele nunca poderia ter imaginado que sexo no carro pudesse ser tão bom assim. Já havia transado com algumas garotas naquela situação, mas sempre era nada além de um sexo fútil e rápido, feito em algum estacionamento vazio depois de sair de uma festa ou outra, mas com Rebecca não era assim. Na verdade, ela tinha mudado todo seu conceito sobre sexo. Agora, não havia um lugar onde estivessem que não se tornasse um lugar especial e uma experiência incrível.
Usando as mãos para sustentar o peso de Rebecca, Aaron a ajudou a tomar impulso para cavalgar sobre ele, agradecendo por seu retrovisor não mostrar qualquer sinal de faróis se aproximando, porque qualquer pessoa que visse um carro parado no meio do nada com toda aquela neve despencando sobre a estrada pararia para ajudar e ele não queria que ninguém interrompesse aquilo.
Enquanto se movimentava para cima e para baixo sobre o colo de Aaron, Rebecca tomou a boca dele com a sua, beijando-o com voracidade e, como se tomasse aquilo como incentivo, as investidas de Aaron toraram se mais rápidas e mais fortes, atingindo locais dentro dela que até aquele momento ela não sabia bem que existiam. Sentia as mãos dele apertando seus quadris com força, elevando-a junto com seus próprios impulsos e, quando a sensação de calor dentro dela se tornou intensa demais para suportar, Rebecca simplesmente jogou a cabeça para trás, enterrando as unhas nos músculos fortes dos ombros dele e deixou que o êxtase a consumisse. Aaron se desfez logo depois dela, apoiando o rosto em seu busto, enquanto esperava sua respiração voltar ao ritmo normal.
Nunca antes algo tinha sido tão bom assim e não foi muita surpresa que as janelas de seu carro estivessem embaçadas e que uma leve camada de suor estivesse brilhando sobre seus corpos agora, apesar do tempo horrível lá fora, mas, infelizmente, ele não poderia ficar ali para sempre, aproveitando aquele momento. Em breve algum carro passaria por ali e, por mais que ideia de ir direto para um hotel com Rebecca lhe fosse demasiadamente atrativa, ele sabia que tinha outro lugar onde deveria ir.
Então, rapidamente e não com menos trabalho que antes, ambos recolocaram suas roupas e calçados e, após uma pequena troca de beijos, seguiram para Londres. A véspera de Natal estava sendo muito boa para Aaron até ali, ele só estava rezando para que ela continuasse assim.
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