Wakanda

2 Capítulo 01 - Nada mais importa


Notas iniciais
Não vou me desculpar, por mais que eu queira... Ser adulto é complicado. Enfim última postagem de 2017... Feliz 2018 a todos nós!

Sabe, eu fiz o meu melhor para preservar minha família... Mas creio que falhei miseravelmente.

Quando Frisk veio ao mundo eu tinha apenas 12 anos, foi um momento feliz em minha vida, por mais que tenha tido ciúmes do meu pequeno irmão. Acabei me apegando a aquela coisinha grudenta, minha mãe e meu pai nunca estavam tão feliz com sua família, por mais que causasse certas brigas, e em uma dessas meu pai decidiu brigar judicialmente pela guarda de me irmão, e pior, ele conseguiu.

Mas então minha mãe veio a adoecer, um aneurisma. Apesar de eu amar meu pai, ele conseguiu destruir o respeito que eu tinha por ele na época, e quando minha mãe faleceu, achei que fosse morrer em seguida, minha avó se mostrou um forte de segurança e proteção para mim, sem ela não sei o que seria de mim.

Mas então, especificadamente três anos depois, meu pai morreu em um acidente, e lá se foi novamente minha recém adquirida estabilidade, eu e vovó viajamos até Maine ver os tramites da adoção e do enterro do meu pai. Ninguém da família dele quis a guarda de Frisk, e no seu enterro só foram eu meu irmão e vovó e de sua família apenas a irmã mais velha de meu pai apareceu.

Ela foi a única que nos deu apoio emocional e a única que não nos julgava pelas nossas origens, ela explicou o motivo de não pegar a guarda de Frisk, ela queria que ele fosse criado por nós, e ela não queria que meu irmão, que também era deficiente sofresse quaisquer retaliações vindas de sua família.

Agradeço a ela por toda a ajuda que ela prestou, seja com dinheiro ou com apenas uma conversa. Nossa estadia em Maine foi agradável, fui ter contato com meu irmãozinho, de três anos na época, no quarto de hotel. Eu e vovó estávamos cientes de sua deficiência, mas isso não foi um problema, eu e ela decidimos fazer um curso de libras nas semanas anteriores.

Poder abraça-lo naqueles primeiros dias foi umas das melhores sensações...

Frisk onde você está?

“ Yamka! ” – Sobressaltei com o chamado repentino

Era Dara, minha amiga de anos, talvez a única que entendia minha condição. Olhei em seus olhos castanhos e sorri sem graça e a respondi – “ Desculpe Dara, estava pensando no passado de novo ”.

Ela me olhou nos olhos e sorriu compreensiva, e antes de falar mexeu em seus cabelos ondulados – “Amiga ... Eu te amo muito e me preocupo com você, e tudo que puder te ajudar, eu vou fazer sem questionar. Mas já perdi a conta de quantas vezes você se perdeu nas aulas, lembra daquela carta que você recebeu da universidade? ”

Respirei fundo, eu sei da minha condição na universidade, minhas notas escorregaram um pouco, mas nada com o que possa dar conta, e minha tese está pronta, só que eu estou com o meu emocional despedaçado, eu só não sei mais como fazer.

“ Dara eu te amo muito também, eu sei o que está acontecendo, eu só preciso de mais tempo para processar tudo, já vou fiz as provas finais e passei, mas... Eu sinto falta dele amiga, e se ele estiver sozinho? ” – senti as lágrimas quentes escorrerem e levei as mãos imediatamente ao meu rosto, logo senti um abraço forte de Dara, podia ver que aquela lanchonete toda tinha olhos para nós, não me importei nem mesmo minha amiga.

Ela esperou que me recuperasse e disse exatamente o que precisava dizer naquele momento “Hoje vou poder te ajudar nas buscas, agora será pelo monte Ebott não? Adoro as lendas sobre aquele lugar...” Dara sorriu animada.

Após alguns minutos e de muito sorvete que Dara me enfiou goela a baixo, levantamos e saímos pelas ruas do centro comercial de Portland.

“ Nossa eu adoro esse estado, tão cara de interior... Me faz ter saudades da Bahia no Brasil ” Contou saudosa sobre o seu país

“ Você ficou de cozinhar uma moqueca da última vez e até agora nada ” fingi ter raiva, mas ela só riu da minha dificuldade de falar moqueca e me deu um soquinho de leve no braço.

“ Ai Yamka! Eu vou fazer, só estava esperando os meus ingredientes importados chegarem, posso dar um pulo no seu apartamento e fazer hoje antes de nós sairmos... O que ‘cê acha? ” – Falou enquanto fazia um coque mal feito com o cabelo colorido enquanto andávamos pela calçada

Concordei com a cabeça e seguimos até seu apartamento que ficava no mesmo conjunto que o meu, só que ela morava no segundo andar e eu no quarto.

“Cruzes Dara, você é bagunçada demais ou é o seu colega de quarto...” – ri enquanto pulava um monte de roupas da sala.

“ Aff... Não sou eu não, é aquele infeliz bagunceiro dos infernos. Eu já perdi a conta de quantas vezes arrumei esse apartamento e o miserável bagunça, eu desisti de arrumar e só faço a minha parte. Sorte que o puto trabalha até tarde, assim não sou obrigada a olhar para a cara dele” – Dara fica nervosa ao falar do seu colega de quarto baderneiro.

Ri de seu desgosto, o que fez com que ela ficasse ainda mais brava, infelizmente não consegui me conter. Ela pegou uma sacola pesada e sai em seu encalço para te ajudar.

“Dara pega uma roupa comprida, e leva algo para se proteger também, onde vamos tem muito mato e pode ter animais silvestres, e uma mochila também” – A lembrei

Ela saiu estabanada pelo quarto e pegou as coisas que eu pedi, e jogando a mochila nas costas ela pegou as chaves de casa e saímos para o meu apartamento.

✧✧✧

Ajudava a brasileira a fazer a bendita moqueca, que tinha um gosto muito bom.

“Pega aquela colher para mim Yam?”

“Essa aqui?” – Estendi uma colher de madeira e a entreguei para que ela mexesse a comida no fogão enquanto escutava uma música em português a qual se não me engano deveria ser uma do carnaval deste ano.

“Dara se importa se eu cochilar um pouco?” – sentia meus olhos fechando de sono

“ Eu não sou Friboi mas elas gostam, a mulheradaa gooosta... Oi? Claro! Te chamo ” – Dara nem se envergonhou por ter cantado desafinamente – “Te chamo assim que acabar aqui”

Não precisei de outra aprovação, me estirei com a mesma roupa que fui para a faculdade no sofá, apaguei assim que deitei...

Frisk estava em uma situação péssima, uma criatura que não faço ideia do que seja o atacava constantemente, mas meu irmão se recusava a atacar de volta.

Parece que foram horas, mas levantei assustada e hiperventilando. Vi o rosto da moça negra a minha frente com os olhos assustados enquanto segurava um prato quente.

“Yam... Você estava tendo um pesadelo?” – começou incerta

Demorei uns segundos para processar aquilo e peguei o prato de suas mãos.

“Sim... Não foi nada de mais, não se preocupe” – Sorri amarelo dando a carta da dúvida para Dara – “Não me olhe assim Dara... Estou bem.”

A conversa morreu ali e passamos a comer em silencio, que logo foi quebrado pela animação de minha amiga, ela contava dos dramas do último namoro.

“ ‘Cê acredita que aquele lixo me traiu com aquela menina lá do curso de enfermagem e que trabalhava comigo no escritório? Eu achei que 3 anos de namoro significavam algo para ele, e nem estou com raiva da menina, ela veio se desculpar pessoalmente comigo, disse que não sabia e que nunca faria isso comigo.” – Ela narrava a história toda enquanto fazia pausas para comer

“Me lembra de ir lá quebrar a cara dele” – Falei com nojo daquele cara

“Mais do que já quebrei a cara dele? Opa! Te falo o endereço dele depois” – Dara riu enquanto olhava o celular

“Dara, já são três da tarde... Vamos sair daqui daqui a pouco, vá se arrumar. ”

“Tá bom Yam-Yummy!” – Ela sabe que odeio esse apelido – “Vou me preparar antes que você me bata” – riu correndo do sapato que joguei e se trancou no banheiro

Entrei no quarto ainda brava e revirei o meu guarda roupa e de lá retirei uma calça marrom de um tecido grosso e uma camiseta regata cor preta, vesti rapidamente e pus coturnos pesados. Peguei minha mochila já pronta e olhei o conteúdo dentro.

“Comida não perecível... Faca de caça, cordas casaco...” – falando sozinha enquanto seguia para o espelho e fazia uma careta, os dias de insônia fizeram um estrago

“Yam... Tu é bonita mesmo feia, senhor... Olha esse corpinho!!” – Dizia me rodeando, ela usava uma calça moletom cinza com uma blusa branca com os dizeres ‘feminist as fuck’.

“Dara....” – A vergonha me consumiu e bati nela – “Idiota... pega esse taco de lacrosse logo e vamos” – Resmungando prendi meu cabelo com uma trança simples.

Ela ria fugindo de mim e levando seu taco e minha mochila, não antes de reclamar do peso, ri baixo e a segui para a sala... Parando somente para observar o quarto de meu irmão fechado...

✧✧✧

Chegamos na reserva de carona de um dos colegas de Dara, e esse era uma pessoa insuportável, só de abrir a boca já me irritava.

“Yam, desculpe, eu não sabia que esse babaca poderia ser mais babaca...” – Dara falava enquanto girava seu taco.

“Não se preocupe, não estou com raiva de você” – a tranquilizei – “Chegamos...”

Paramos para observar o majestoso monte Ebott a nossa frente, olhei para meu relógio, eram exatamente 17h15, funguei e senti algo estranho... Esse lugar é quase abandonado, e ouvia vozes... Risadas especificamente.

Olhei para Dara e ela me olhava com preocupação, poderia ser um bando de adolescentes, como também poderia ser alguém perigoso. Levei meu dedo indicador a minha boca e gesticulei para Dara se esconder atrás de uma arvore, ela entendeu prontamente, e fiz o mesmo, só que me escondi atrás de um arbusto alto... Olhei para frente e me assustei... O que diabos era aquele ser mais a frente?!

Dara parecia tão ou mais horrorizada do que eu e me olhava esperando algum sinal, qualquer que seja.

Olhei para ela e retirei a faca de caça de minha mochila e ela pareceu entender o sinal e apertou seu taco de lacrosse enquanto saímos do nosso esconderijo.

O ser baixinho de calção e moletom azul pareceu não notar ou pelo menos fingiu não notar, ele estava de costas e olhava para frente distraído.

“Quem diabos é você?!” – Dara falou primeiro – “Vire-se devagar para que possamos vê-lo!” – Falou exigente enquanto não tirava os olhos da criatura a frente.

Ele fez o que Dara mandou, e quando fez, senti o medo dela e o meu aflorar... Um esqueleto!

“Heya..” – A coisa se virou e sacudiu levemente a mão de ossos para nós enquanto olhava fixamente para mim.

“Puta... Que .. Pariu!” – Dara gritou nervosa – “Yamka... O que a gente faz? Essa porra de lenda existe mesmo?!”.

“Eu não sei!” – Disse igualmente nervosa.

“Ainda estou aqui, isso não é nada educado, falar de alguém que está a sua frente.” – A criatura falou em um tom que possamos ouvir.

Olhamos uma para outra e então olhamos com raiva para a coisa e em uníssono dissemos: “Cadê o Frisk?!” – Levantamos nossas armas ameaçadoramente.

“Por quê querem saber?” – Disse sem vontade, mas dessa vez pareceu ser mais assustador.

Não sei se fui ou Dara quem atacou primeiro, mas ao corrermos e chegar perto, ele sumiu... Olhei para Dara e a escutei soltar um gemido dolorido e cair de joelhos...

“Maldito esqueleto... Yamka a sua frente!” – Dara levantou e impediu com o taco que uma coisa me atingisse.

Me recuperei rápido e o senti atrás de mim, virei-me rápido para aplicar um golpe final, mas ele desapareceu novamente, senti algo bater em minha perna, e a dor latejar, me firmei em pé.

“NÃO PERCA A GUARDA!” – Gritei para Dara

“YAMKA, TEM MAIS DELES AQUI!” – Escutei Dara gritar até que ouvi seu grito e ela sumir de minha vista.

Meus olhos se arregalaram e chamei por seu nome... Nada, o desespero-me pegou e perdi minha guarda.

“Te peguei...”

Ouvi uma voz, e depois não vi mais nada. Somente a escuridão. A tão temida escuridão.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.