Waitress

2 Linhas que Não Aparecem


Notas iniciais
Oieee gente !!! Depois de muito tempo resolvi retomar a fic... espero que gostem <3

O cheiro vem antes de tudo.

Mas, ali, não há açúcar e muito menos manteiga.

Não há nada que remeta a conforto, infância ou paz.

É álcool e antisséptico. Um local limpo demais, frio demais e o tipo de cheiro que não acolhe, apenas mantém as coisas funcionando.

O tipo de cheiro que não permite erros.

As mãos de Edward Cullen estão firmes, sempre estão... Movem-se com precisão treinada, quase mecânica, enquanto ele ajusta o aparelho de ultrassom, os olhos atentos à tela que projeta sombras e formas que só ele parece compreender completamente.

— Está tudo bem com o bebê?- A voz da paciente treme, carregada de expectativa, de medo e principalmente de esperança.

Edward não responde imediatamente.

Ele observa, analisa e confirma. Só então levanta o olhar, encontrando o dela com uma calma que parece inabalável.

— Sim — diz, suave. — Está tudo perfeitamente bem.

E é nesse momento que acontece o sorriso, aquele sorriso específico, aliviado e quase emocionado.

A mulher leva a mão ao ventre como se já pudesse sentir tudo, cada batida, cada movimento, cada promessa.

Edward observa a cena em silêncio e algo se move dentro dele.

Não é alegria, não exatamente, na verdade é algo… distante. Como assistir a uma vida que nunca foi sua.

— Obrigada, doutor Cullen — ela diz, com os olhos brilhando.

Ele apenas assente.

Profissional.

Controlado.

Sempre.

A consulta termina.

A porta se fecha.

E o silêncio volta.

Edward permanece imóvel por alguns segundos com o aparelho ainda ligado.

A tela ainda acesa, mas agora não há nada ali.

Apenas um espaço vazio.

Ele desliga o equipamento.

Remove as luvas, lava as mãos.

Uma vez.

Duas.

Três.

Como se limpeza fosse algo que pudesse alcançar além da pele.

Ele ergue o olhar para o espelho e por um instante…não reconhece completamente o homem que o encara de volta.

⸻

A casa dos Cullen é grande demais para parecer um lar.

Tudo é impecável, organizado, perfeito e frio.

Edward fecha a porta atrás de si com cuidado, o som sendo absorvido pelo silêncio denso que habita cada canto daquele lugar.

— Edward?- A voz ecoa pelo corredor antes mesmo que ele possa dar mais de dois passos.

Rosalie.

Ela surge na sala como uma pintura viva, sempre impecável.

Cabelos perfeitamente alinhados, roupas escolhidas com precisão e cada detalhe no lugar certo. Como se estivesse sempre sendo observada ou se estivesse sempre sendo avaliada.

— Você demorou — ela diz, cruzando os braços.

Não é exatamente uma reclamação.

Mas também não é apenas uma observação.

Edward tira o paletó.

— Tive consultas.- diz ele suspirando cansado pelo dia de trabalho.

— Sempre tem — ela responde rápido demais.

Silêncio.

Curto.

Afiado.

— Eu acho que dessa vez vai dar certo.- A frase vem de repente, sem contexto, sem transição.

Mas Edward entende imediatamente, ele sempre entende.

Ele a observa e sua esposa está diferente, mais tensa e mais… esperançosa.

E isso, mais do que qualquer outra coisa…o preocupa muito.

— Eu sinto — ela continua, aproximando-se. — É diferente.

Edward não responde, porque ele sabe.

Sabe antes mesmo de qualquer teste, antes mesmo de qualquer exame, sabe pelo histórico, pelos ciclos e pelos sinais que não estão ali.Mas, acima de tudo…ele sabe pelo silêncio do corpo dela.

— Você está me ouvindo? — Rosalie insiste.

— Estou — ele responde, finalmente.

— E?- ela pergunta coma sobrancelha arqueada

Ela espera muito por isso, ansiosa de mais.

Quase implorando por algo que ele não tem certeza se pode oferecer.

Edward respira.

Controlado.

— Vamos fazer o teste — diz, com cuidado.

Não é o que ela queria ouvir.

Mas é o mais próximo que ele pode chegar da verdade… sem destruí-la antes do tempo.

⸻

O banheiro é grande, luxuoso, luminoso, perfeitamente planejado, mas é frio e sem vida.

Tudo ali parece calculado, organizado, diferente demais e distante demais.

Rosalie anda de um lado para o outro, os braços cruzados, os dedos batendo levemente contra o próprio braço em um ritmo nervoso.

— Eu sei que estou grávida — ela diz, mais para si mesma do que para ele.

Edward permanece encostado na parede, silencioso e apenas a observando.

— Eu sinto — ela repete.

Ele fecha os olhos por um segundo. Porque sentimento… não é diagnóstico.

Mas ele não diz isso, não pode dizer.

Ainda não...

Rosalie pega o teste.

As mãos dela não tremem.

Mas os olhos… os olhos estão cheios de algo perigoso.

Expectativa demais.

— Fica aqui — ela diz.

Não é um pedido, é uma ordem. Edward assente.

O tempo passa de forma estranha, lento demais, pesado demais... O som do relógio parece alto demais e cada segundo arrasta.

A loira encara o teste como se pudesse influenciar o resultado.

Como se vontade fosse suficiente.

Edward não olha, não precisa. Ele já sabe.

— Vai dar certo — ela sussurra.

Silêncio.

— Vai dar certo.- repete

Mais silêncio.

E então...

— Não.

A palavra sai seca, cortante, errada.

Edward levanta o olhar e Rosalie encara o teste como se ele tivesse cometido um erro.

— Não… — ela repete, balançando a cabeça. — Não faz sentido.

Ele se aproxima devagar, com cuidado. Como se qualquer movimento brusco pudesse quebrar algo que já está rachado.

— Rose…

— Não! — ela corta, afastando-se. — Está errado.

Ela ri, mas não há humor ali, há apenas desespero.

— Eu fiz tudo certo.- A voz falha — Eu segui tudo.

— Nós vamos...-Edward tenta falar.

— Não é “nós”! — ela explode. — É comigo! É o meu corpo!

O silêncio que segue é pesado e denso.

— Por que não funciona? — ela pergunta, mais baixa agora.

Mais quebrada.

Edward não tem uma resposta que não doa, então não responde.

Ele apenas se aproxima e toca o braço dela, um gesto simples, mas estranho e quase desconhecido.

Rosalie não recua, mas também não se aproxima.

Eles ficam ali, perto um do outro.Mas não juntos.

— Eu posso tentar de novo — ela diz, olhando para frente. — No próximo mês.

Edward fecha os olhos por um segundo.

Porque sabe que não é tão simples, mas também sabe…que tirar isso dela agora seria cruel demais.

— Nós vamos tentar — ele diz e odeia o quanto aquilo soa vazio.

⸻

A noite cai em silêncio e a casa permanece perfeita, impecável e intocável.

Rosalie já está deitada quando Edward entra no quarto, de costas para ele completamente imóvel.

— Boa noite, Rosie — ele diz beijando sua cabeça.

Ela não responde.

Ele se troca, deita e mantém distância.

A cama é grande demais e o espaço entre eles…maior ainda.

Edward encara o teto com os pensamentos se acumulam, pesados. Difíceis de organizar ou de ignorar.

Ele fecha os olhos, mas não dorme.

Não de verdade.

⸻

Na manhã seguinte o hospital está vazio, ou melhor quase.

Pegar turno antes das 6h tem um tipo diferente de silêncio. Mais profundo e muito mais honesto.

Edward caminha pelo corredor com passos leves, o som ecoando baixo contra o chão brilhante.

Ele entra no consultório e acende a luz.

O espaço parece o mesmo, mas não é.

Nunca é.

Ele se senta e abre uma pasta, mais uma paciente, mais uma história e mais uma vida que ele traria ao mundo.

Os olhos percorrem o papel sem pressa.

Nome.

Idade.

Histórico.

E então... Isabella Swan Newton.

O nome para.

Fica.

Ecoa.

Edward franze levemente o cenho, pois algo ali chama e ele não sabe o quê...ainda não, mas chama.

Ele fecha a pasta lentamente e pela primeira vez depois de tanto tempo como médico…algo muda.

Pequeno.

Quase imperceptível.

Mas vivo.

E isso…isso já é suficiente para começar algo que nenhum dos dois está preparado para enfrentar.